A Órfã Doce
97 E o vento levou
Notas iniciais

"11/02/2026. Hoje faz um mês e meio que Kentin foi embora.
Ele se alistou no exercito, disse que tinha prometido ao pai dele que faria isso após sua morte, mas Kentin não tinha 18 anos quando isso aconteceu. Então ele passou a promessa para frente e prometeu que quando Mika morresse, ele iria. Foi o que aconteceu. Me dói ver que a chance que tive que ser feliz fora arruinada por mim mesma, de novo. Estou cansada de mim, cansei de escrever. Relatar uma vida tão irrelevante não faz o menor sentido".
— O que uma garota bonita como você fazia em um lugar como aquele?
— Querido, se eu fosse feia você pagava?
O carro esporte luxuoso ia em direção a um enorme hotel. O homem no banco do motorista era meio velhote, os cabelos brancos surgiam e a cara de pervertido era evidente. Quando chegamos ao quarto correspondente, coloquei delicadamente minha bolsa em cima do criado mudo. Eu o sentei em uma cadeira no meio do quarto, havia prometido fazer um número erótico.
— Tira o sobretudo. — ele pediu entusiasmado. Olhar aquele volume em suas calças me deixava enojada.
— Calma. — sorri. — Eu quero verificar apenas uma coisa em minha bolsa. Quero verificar se trouxe um brinquedinho, ele é bem interessante. — o deixei de costas para a bolsa, andei até ela, mas tive que adverti-lo. — Não vale olhar, ok? — ele assentiu com a cabeça.
A bolsa era grande, havia várias coisas nela que realmente correspondiam aos brinquedos mencionados, mas em um bolso especial estava o que precisava. Um frasco cheio de sedativo e uma agulha, era tudo que precisava.
— Agora relaxe.
A agulha foi fincava no pescoço do homem, não aguentou cinco segundos sequer para cair no chão como uma marionete sem cordas. Revirei os olhos, abri o sobretudo para pegar o comunicador.
— Docete para base. — falei no comunicador segurando um botão. — Dimitry, cacete. Eu te mato por me fazer cuidar desse velho sem vergonha.
— Você quis dizer "Lobo branco", não? Tem que usar o codinome.
— Meu cu! Você não sabe escolher um codinome decente.
— Bom, isso não importa agora. Ele apagou?
— Com certeza. Depois que acordar, ele vai sentar em uma cadeirinha para dormir e só vai acordar quando a sua ex-noiva voltar a gostar de pênis.
— Muito engraçado! — ele ironizou. — Está no hotel de frente a torre do relógio, não é?
— É. — confirmei olhando pela janela. — Cadê a Jinsei?
— Está no telhado, vou mandar ela descer. Pegue todo seu equipamento e se certifique que o cabo está bem preso.
Lana apareceu na janela presa a um cabo resistente. Abri a janela e ela me prendeu com o cabo de segurança. Subimos até o telhado e após alguns minutos outros agentes vieram num helicóptero para buscar o homem e a nós.
Longos anos haviam se passado. Depois que Mika morreu e Kentin foi embora, quase que desistia de tudo. Todo apoio que tive veio da vovó Shermansky e de Lana. Claro que não posso deixar Rosalya de fora, ela quem me recomendou para as forças especiais depois que passei dois anos em treinamento. Por incrível que pareça, Lana entrou para as forças especiais junto comigo. Nunca achei que ela tinha cara de quem um dia trabalharia na polícia. Antes Rosalya quem costumava ser minha parceira nas missões de captura, Lana costumava a ficar na base com Dimitry, mas isso mudou depois que Rosalya engravidou. Pelo menos ela teve sorte de continuar com Leigh.
Falando em Leigh, mês passado recebi um cd autografado de Lysandre, havia outra dama de copas dentro dele. Pode até parecer que eu tive a sorte de ficar com ele ou coisa parecida, mas ele já tinha namorada. Se não me engano, o nome dela é Yumi.
Depois que Kentin foi embora, o único cara com quem saí foi Dimitry. Mas digamos que nem eu e nem ele estávamos nos melhores dias, a noiva dele tinha fugido com outra mulher e eu estava na seca há décadas. Uma coisa leva a outra, mas não houve mais nada depois disso.
— Lynn, vai para Shapersgreen? — perguntou Lana enquanto dirigia.
Ah, claro. Depois que Rosalya me deu a recomendação, me mudei para a capital do estado. Para uma cidade que se chamava Flower City, a cidade que Rosalya sempre morou depois que entrou para a polícia.
— Fazer o que lá? — arqueei a sobrancelha.
— Tem uma reunião lá na Sweet Amoris, um reencontro ou sei lá o que. Acho que foi o Castiel quem organizou.
— Eu tenho mais o que fazer. — cruzei os braços.
— Ah, Lynn. — Lana fez bico. — Seria bom ver o pessoal de antigamente. — ela piscou para mim e sussurrou como se estivéssemos em público. — Eu soube que a Lety engordou.
— Você ainda fala como uma adolescente. — ri.
Aquele convite me fez ter uma nostalgia do "tenebroso" F4. Fazia quase cinco anos que eu não recebia notícias de Castiel e nem de Kentin. Falei com os gêmeos alguns meses atrás e recebi o cd de Lysandre mês passado. Decidi ir para Shapersgreen unicamente para ver a vovó Shermansky. Se ainda tivesse vontade de ir para aquele evento ridículo na Sweet Amoris, iria só de passagem.
— Hei, Lynn. — Lana me chamou rindo. — Olha só o que o Nathaniel me deu. — ela estendeu a mão, mostrando uma aliança no dedo anelar.
— Até que enfim. — debochei. — Pensei que ele ia ficar te fazendo de boneca de voodoo para o resto da vida.
— Não tem graça!
Lana me deixou em casa. Era um apartamento pequeno e solitário. De vez em quando eu perguntava as paredes ou ao teto se eles poderiam me dizer para onde todo aquele colorido do meu mundo fora. Ser adulta era a coisa mais chata do mundo. Pode até parecer idiota, mas mesmo depois de quase cinco anos, ainda choro quando me lembro de todos partindo e me deixando sozinha. Até hoje meu coração dói quando me lembro de Kentin entrando no ônibus com sua mala e me deixando para trás. Destrói-me lembrar de sua declaração frustrada depois que vimos nossa mãe toda queimada em cima daquela cama. Falando nisso, depois que Mika morreu e Lana foi à casa depois de receber alta, alegou que não sentia mais a energia de Miki. As duas haviam deixado a casa. Até Miki não estava sozinha e eu estava.
Peguei minha moto, meu capacete, amarrei minha mala ao assento da moto um pouco atrás de mim. Certo, iria para Shapersgreen unicamente para ver a vovó Shermansky. Mesmo que insistisse nessa ideia, o que Lana havia me falado sobre a Sweet Amoris não desgrudava de minha cabeça.
— Como está indo com o trabalho?
— Muito bem. — sorri.
— Parece tão cansada. Tem certeza de que está bem?
— Foi a viagem vovó, foi a viagem.
O frio intenso de Shapersgreen me dava arrepios. O frio puxava as lembranças de quando ficava em casa com Kentin bebendo whisky e falando besteira. Foram bons tempos.
— Vovó...
— Sim?
— Você sabe se o... — por um minuto pensei em perguntar sobre Kentin, mas uma pergunta se transformou em outra. Tossi um pouco para disfarçar. — Você sabe o que aconteceu com a antiga casa da Mika?
— Ainda está lá. — ela disse vagamente, logo após de um gole de chá resolveu complementar a resposta. — Está interditada e como eu sou a ultima da família na cidade, seria função minha decidir o que fazer com ela. Mas deixarei como está em respeito as minhas duas meninas.
Como não consegui dormir, fui dar uma volta por aí. Eu precisava ver essa casa, por isso me arrisquei a ir lá. Mesmo que o incêndio tivesse danificado parte do segundo andar, ainda me arrisquei a ir até lá. As escadas estalavam a cada passo, o corredor fazia ecoar o barulho de meus passos. Parte da mobília ainda estava lá. Fui até meu antigo quarto e vi que parte da mobília de lá havia sumido e havia um rolo, escada e um balde de tinta. Fui ao quarto de Kentin procurar um martelo, tentei não olhar para os pôsteres das mulheres seminuas para não me lembrar de suas frases cômicas e maliciosas, a ausência delas ainda me incomodava um pouco. Depois de muito procurar e achar um martelo, voltei ao quarto, sumi na escada, arranquei o papel de parede e raspei aquela frase da parede.
Saí da casa antes que corresse o risco de desabar. Em cima da moto, passei por lugares que me trouxeram lembranças. O primeiro foi o branco em frente ao observatório, onde achei Castiel congelando enquanto esperava Angela fielmente. Depois o observatório, onde Armin me beijou. O ultimo lugar foi a cafeteria, e fiquei por lá. Eu já não sentia sono, não fazia diferença se tomasse café ou não.
Pedi o mesmo café, fiquei na mesma mesa que costumávamos a ficar Lysandre e eu. Era uma mesa perto da porta e do balcão.
— Com licença. — disse uma voz masculina. — Boa noite.
— Boa noite.
— Poderia me sentar com você?
— Pode...
Era um homem de cabelos escuros, parecia ter a mesma idade que eu. Ele ficava me encarando e me encarando. Havia um sorriso em seus lábios, ele quase chegava a rir.
— Não está me reconhecendo?
— Não. — respondi arqueando a sobrancelha. — Conheço você?
— Claro! Bom, eu acho que não sou uma pessoa que te traz boas lembranças, mas nos conhecemos.
Fiz careta e cocei a cabeça. De onde conhecia aquele homem? Não sei dizer se o homem era muito bonito ou se era eu quem estava carente demais. Mais de dez anos depois eu não poderia esquecer aqueles olhos. Eu pelo menos nunca iria esquecer dos olhos que me menosprezaram por tantos anos. Aquele cara era o representante da turma da escola militar.
— Viktor. — quando ouviu dizer seu nome, um sorriso foi aberto. — Quase não te reconheci. Está bem... Diferente.
— Você também está muito bonita. — ele piscou. — Nunca imaginei que você seria uma mulher tão bonita.
— E nunca esperei que você fosse me elogiar.
Conversamos por um longo tempo, pedimos dois cafés. Ele falou que estava estudando, fazendo faculdade de engenharia. Depois começamos a falar sobre os tempos da escola militar.
— Eu sinto muito mesmo por tudo que te fiz de ruim.
É, algo que eu sempre desejei ver era ele me pedir perdão.
— Cara, eu sempre tive ódio de você. — confessei. — Mas todos nós amadurecemos. Você era moleque, moleque só faz merda mesmo. Não tem problema.
— Você sabe que fui eu quem sabotou sua arma, não é?
— Faz tempo.
— E mesmo assim me perdoa?
— Eu conheci o cara em que atirei.
— Ele perdoou você?
Assenti com a cabeça. Fiquei olhando para o nada enquanto as memórias sobre Kentin pipocavam em minha cabeça. A primeira foi quando ele estava com catapora e eu fui passar remédios em suas costas quando ele estava na banheira. Foi quando achei a cicatriz e descobri que o menino que quase matei era meu irmão.
— Por que saiu da escola militar? — perguntei.
— Minha mãe é casada com um cara. Ela quis que eu saísse da escola militar e voltasse para a França porque queria uma criança em casa. É que os filhos do cara foram embora.
— Entendo.
Era incrível ver o modo como Viktor se comportava agora. É mais fácil ver diferença nas outras pessoas do que em si mesma. Fiquei pensando naquela coisa de faculdade. Acho que nunca tive uma vocação para desenvolver na Universidade. Até porque meu talento sempre foi vestir um colete e apertar o gatilho.
— O que te trouxe a Shapersgreen?
— Vim ver a minha avó.
— Sério? Pois eu soube que estaria aqui por outro motivo. Por uma festa talvez. — ele brincava fingindo adivinhar. Como ele sabia? Aliás, como sabia que eu estava aqui? — Meu irmão me contou.
— Irmão? Que irmão?
— Esse irmão.
Ele procurou algo dentro da mochila e lá estava o cd autografado. Eu com orelhas de gatinho e corrente presa a uma gargantilha, Lysandre a minha frente com um ar de dominador. Levei uma das mãos a boca, choraria de emoção — pois tinha perdido o cd depois do incêndio — se não estivesse paralisada com aquele parentesco.
— V-você é irmão do Lysandre?!
— Sim, minha mãe é casada com o pai dele. Não somos irmãos de verdade, somos... "irmãos mais ou menos".
Seria isso o que eu e Kentin éramos? "Irmãos mais ou menos" foi um termo que me fez cair na gargalhada.
— Vocês tiveram um lance?
— Por assim dizer.
— Qualquer um que vê a capa desse cd suspeita isso.
— Não mesmo. Já ouviu falar de profissionalismo?
— Mas vocês se conheciam e você tirou essa foto fazendo um favor a ele. Ele me disse que não sentia vergonha quando estava com você.
— Parece que Lysandre disse muita coisa sobre uma antiga paixão sendo que já tem uma namorada.
— Eu quem perguntei. Queria saber se você era uma nova Lynn ou aquela ameba da escola militar.
"Nova Lynn". Aquele termo me fez lembrar de Castiel. A fase da "nova Lynn" foi algo que trabalhei em mim mesma para ser mais sensível. Eu tomei consciência de que aquela foi uma "mudança" para tentar ver as coisas por outro ponto de vista, pelo ponto de vista de Castiel. E no final ele me deu um chute no trasseiro. Maldito Kentin que ficou me pressionando a ficar com Castiel. Nem sei porque ele fez aquilo se gostava de mim.
— Lysandre disse que não podia vir. Então eu me ofereci para vir. Queria muito te ver, por isso vim até essa cafeteria.
— E como ele sabia que eu viria para essa cafeteria? Aliás, como ele sabia que eu viria a Shapersgreen?
— Acredite, ele sabe. E até hoje você não é muito imprevisível.
— Se eu sou previsível, por que teve interesse em me ver? Não achou que eu continuasse a mesma bobona sem graça?
— Somos adultos agora. E desde que saí da escola militar, fiquei esperando o dia em que iria te encontrar para te pedir perdão.
A cara de mau humor que foi adquirida quando fui chamada de previsível se desfez, um sorriso amolecido tomou o lugar.
— Obrigada cara. Nem sei o que dizer.
— Eu sei o que pode dizer. — ele sorriu. — Se achar seu irmão, diga que a culpa foi minha. Passo até meu endereço se ele quiser ir lá para me bater.
— Lysandre está falando muita coisa para meu gosto. — dei uma gargalhada. — Se sabe de tanta coisa, por que ficou perguntando?
— Porque não tinha mais nada para se falar. E também queria saber se você iria falar a verdade.
É mais fácil ser sincera com os outros ou consigo mesma? É mais fácil esconder a verdade dos outros ou de si mesma? Essas sempre foram perguntas que rodearam minha cabeça. Até hoje admito que não sei dizer exatamente tudo com clareza. Entretanto, a pior mentira é a que te força a fazer algo que não quer. Isso acontece quando se mente para si mesma. É impossível esconder a verdade de você mesma, você sempre tem consciência da verdade enquanto outra face tenta convencer. Conflitos internos são como guerras sangrentas, a diferença é que o único ferido é você, não importa que lado vença. É mais fácil ser sincera com os outros. A verdade dói, mas dói mais ainda quando sua consciência tem que bancar o carrasco para cortar a cabeça das mentiras que você contou a si próprio. A verdade dói, de fato. Dói mais ainda ter que admiti-la.
"Lynn, está mentindo para si mesma quando disse que veio até aqui para ver a vovó. Você está negando que no fundo quer se agarrar a alguma esperança de recuperar seu mundo colorido. Eu sei que dói saber que as coisas não são mais como antes e que as cores possam passar pelos seus olhos apenas por alguns minutos. Eu sei que dói, mas não irá doer mais ainda saber que teve essa oportunidade e não aproveitou? Eu sou você, não tem como mentir".
No outro dia a tarde, estava parada na porta da Sweet Amoris. Por um minuto me vi conversando com Mika dentro do carro enquanto a mesma me alertava sobre o F4. No outro minuto, quando entrei pelos seus portões, me vi relembrando da multidão e das garotas falando "O F4 está passando". Aquilo doeu em meu coração, mas fui a Sweet Amoris sabendo que aquilo seria um golpe pesado.
Vi alguns alunos familiares, dentre eles estavam Lana e Nathaniel. Nem sequer me viram por estarem ocupados conversando com outros alunos.
Meus pés me levaram até o jardim, para o caminho das pedrinhas. Aquele era o caminho que deveria seguir para chegar até a piscina. Andei e andei, parei em frente ao banco. Se fechasse os olhos por alguns segundos, poderia jurar que escutaria a melodia que sempre soava por ali. Meus olhos se abriram e se encheram de lágrimas quando ouvi aquela voz atrás de mim.
— Nossa, tampinha. Como você cresceu.
E lá estava parado atrás de mim com as mãos nos bolsos. Que logo abandobaram as calças para se abrirem num convidativo abraço. Senti como se meu mundo estivesse prestes a explodir e que ele tivesse desarmado a bomba com seus braços me envolvendo. Kentin havia voltado, ele não permitiria que o monstro da solidão continuasse a me devorar por dentro.
Não adianta querer mudar de um dia para a noite, não adianta se prender a mentiras ou a regras que te impeçam de ser feliz. Sempre saiba que se errar, terá uma chance para tentar novamente. Só não há solução para a morte. Sempre saiba que o vento leva sua vida como areia, por isso é preciso viver cada grãozinho como se fosse o ultimo. Saiba que nada de tão grande pode te derrubar, você é forte ou pode chegar a ser, mas a decisão de querer ser forte também requer força. Saiba que o sol sempre brilhará para você. E que amanhã será outro dia.
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