A Órfã Doce
9 O visitante
Notas iniciais

O meu primeiro dia de trabalho no Culinária Mágica estava sendo tranquilo. Até porque nos primeiros dias o movimento de clientes não era muito. Entretanto havia uma pulga atrás da minha orelha desde ontem.
— Posso perguntar uma coisa? — indaguei.
— Se irá perguntar meu nome, é Lana. — adiantou-se ela. — E sei que o seu é Lynn. Você lembra de mim, não lembra?
— Antes bruxa, agora é adivinha? — sorri.
Ela me abraçou e vi que depois seus olhos se encheram de lágrimas. Continuava sentimental como era quando criança. Lana já havia sido minha irmã, ela era a filha da mãe wicca que me adotou. Garanto que se não fosse pela madre, estaria com aquela família até hoje.
— Para falar a verdade quem lembrou-se de você foi a mamãe. Ela tem uma memória muito boa e comentou que a "nova garçonete" era parecida com a Lynn. — contou a garota enquanto limpava a mesa ao lado da minha. — O que tem feito nesses últimos anos?
— Um cara dono de uma industria de bebidas me adotou e me colocou numa escola militar. — expliquei. Mas Lana não me deu cinco segundos para terminar, ela tinha a má impressão que todos tinham. Entretanto não podia culpa-la. E se eu explicasse, ela entenderia tranquila.
— Uma escola militar?! — indagou ela exaltada. Tinha que me apressar para explicar antes que a garotinha começasse a ter conclusões precipitadas.
— A escola militar não é esse lugar horroroso que as pessoas falam. — fui clara, abrindo as duas mãos e gesticulando para que minhas palavras fixassem em Lana. — Não foi um paraíso, porque nada é. Mas foram alguns dos melhores anos que já vivi.
Após uma longa conversa, Lana me contou sobre os tempos de dificuldade que vinha tido com a mãe, mas isso se amenizou de uns tempos para cá. O padrasto e a mãe dela se separaram.
— Queria ter um irmão novamente. — lamentou-se ela. — É meio ruim ser filha única.
— E por que sua mãe não adotou outra pessoa? — interroguei curiosa.
— A madre a acusou de ser inapta. — a baixinha deu de ombros. — Acho que só seria possível outra adoção se saíssemos do país. Mas não podemos fazer isso porque não temos dinheiro. Sinceramente, daria tudo para te ter como irmã de novo.
— Bom, ainda podemos ser. Não éramos irmãs porque sua mãe me adotou. — sorri. — Ainda podemos ser irmãs.
Limpei as mesas, varri e lavei o chão. Lana havia me ajudado em todo esse processo. Já estava começando a ficar com fome, tanto que achei que estava sentindo cheiro de coisas que não existiam.
— Nossa, que cheiro bom é esse? — após a pergunta, Lana me sorriu marota. Colocou o indicador no lado esquerdo do queixo e se pôs a falar.
— Sopa do amor. — seu indicador permaneceu de pé e mais dois dedos se levantaram. — Trás o verdadeiro amor em três dias.
— A sopa que tem macarrão em formato de coração?
— Que boa memória você tem, Lynn!
Do processo de final de tarde a noite, o movimento foi consideravelmente grande para um restaurante que abrira a tão pouco tempo. Era a minha primeira vez trabalhando como garçonete, mas ao lado de Lana parecia ser fácil. Eu anotava os pedidos e ela os trazia, e num certo intervalo de tempo nós invertíamos as tarefas. Enquanto isso a tia Cristal era a encarregada na cozinha. Chamar os mais velhos de "tio" ou "tia" definitivamente é uma mania minha bem insistente.
Eram umas oito da noite, estava exausta. Os poucos clientes estavam indo embora, por conta do horário. Então entrou uma pessoa com um moletom e óculos escuros.
— Posso ajudar?
— Um café preto bem forte. — ele pediu.
— Lana, um café! — exclamei alto para que ela ouvisse.
— Está um pouco difícil de ficar acordado. — comentou o rapaz. — Cheguei na cidade há pouco tempo.
— Você me parece jovem. — comentei um pouco incomodada. Não me incomodei com o rapaz e nem com a presença dele, me incomodei pelo fato de me parecer familiar. Mas meu cérebro não me ajudava a lembrar quem era. — Está viajando sozinho?
— Eu não tenho muitos motivos para viajar acompanhado. — sorriu o rapaz tirando os óculos.
— Ah! Você é o Armin lá da escola. — concluí. O garoto ficou surpreso e foi dissolvendo essa expressão enquanto assentia de leve com a cabeça.
— Nossa, você me reconheceu. — ele piscou.
“Ele só pode estar tirando uma com a minha cara". — revirei os olhos. Por um momento até mesmo cheguei a pensar que ele estava flertando comigo. Pode crer, eu não tive muitos relacionamentos, mas desde cedo algumas garotas conseguem o dom de ver quando um garoto está querendo flertar com você. Se aquilo era um flerte, ele estava precisando de algumas aulas. Mas como ele parecia ser um cara super popular na escola, e rodeado de garotas, então desconsiderei a possibilidade de aquilo ser um flerte.
Eu mesma servi o café de Armin, mas ao invés de me retirar e o deixar só fiquei sentada na mesa com ele. Não foi bem porque eu quis, foi mais por ele estar muito falante. Era até de se estranhar. Armin era um garoto hiperativo, de fato, mas não imaginava que iria querer conversar comigo. Não depois que eu dei uma patada nele e em seus amigos, figurativamente e uma voadora em Castiel, literalmente. Ele parecia nem lembrar-se dessas coisas.
No meio da conversa ele falou que estava voltando da Alemanha, onde tinha ido para visitar os pais. Era meio estranho um cara fazer isso no meio da semana, mas ele era do F4, e aposto que os outros caras são tão relaxados quanto ele. Quando quis saber alguma coisa de seus pais, simplesmente falou superficialmente e pulou para outro assunto.
— A Alemanha é bem legal. Consegui essas lentes de contato de grau por lá. — ele chegou mais perto apontando para seus olhos. — Olha que cor linda.
— Púrpura é uma cor bonita. — comentei com um sorriso leve. — Eu também uso lentes de contato por causa de miopia, mas as vezes é bem mais cômodo usar óculos.
— Ah, fala sério! — ele exclamou levantando os braços para cima. Deveria ser efeito da cafeína. — Não é nada cômodo quando se tem que arrumar os olhos no rosto no meio de uma fase importante de um jogo!
"Dar tanta importância a jogos parece ser típico dele". — pensei apoiando o rosto na mão. — "Se bem que ele não está com o maldito PSP agora".
Armin pagou o café e saiu. Mas antes de ir embora, me chamou para conversar com ele na calçada. Achei um pouco estranho, mas fui porque não havia mais clientes para atender no restaurante. A conversa fluiu e fluiu, tanto que quando fui olhar no relógio, já estava super tarde e mais do que na hora de fechar o estabelecimento.
— Ops! — ele coçou a cabeça. — Tenho que ir. — anunciou. — Hei!
— Sim?
Sua ação foi tão estranha que nem soube o que dizer. Ele me encostou na parede e me roubou um beijo bem roubado. Bom, não sei se foi um beijo exatamente roubado, mas não foi com meu consentimento. O mais estranho é que, mesmo que eu não consentisse antes dele me beijar, eu retribui como se tivesse consentido antes. Um garoto nunca havia me beijado de língua, e aquilo foi realmente estranho. Tanto pelo beijo, quanto pela pessoa. Ainda mais pela situação. Quando a ficha caiu, eu o empurrei de leve no ombro. Ele a segurou e voltou a me beijar com uma potência máxima. Eu entraria em desespero e talvez até chegasse a empurra-lo e soca-lo, mas ele se afastou antes que o pânico se instalasse em mim.
Armin esboçou um sorriso doce, me desejou boa noite e saiu no carro.
— Ai meu Deus! — a voz saiu da porta do restaurante, dos lábios de de uma garota boquiaberta. — Ele comeu a sua boca!
O rubor foi inevitável, mas não mais do que a intrigante interrogação que eu possuía naquele momento. O que levou aquele garoto maluco a agir daquela maneira?
Fale com o autor