A Órfã Doce
93 O líder do F4
Notas iniciais

– Prontinho.
– Mamãe, tem mesmo que arrumar meu cabelo assim? Eu não vejo os meninos da escola assim. E todo mundo me confunde com uma menina.
– Não se importe com isso, Cassy. Você é a única pessoa que importa, e tem o direito de se arrumar como quiser.
– Mas eu estou parecendo uma menina.
Era um pouco difícil ser um menino do qual a mãe tratava como menina. Confesso que em alguns momentos, quando eu era criança e era tratado dessa forma, queria que minha mãe parasse de pegar no meu pé. Mas quando ela parou, eu senti falta daquelas mãos penteando e arrumando meu cabelo. Mesmo que eu ficasse parecendo uma menina.
Não sei se tudo piorou ao mesmo tempo ou se eu era, finalmente, capaz de ver as coisas piorando. Quando finalmente minha mãe ficou rica, divorciou-se e meu pai foi internado numa clínica por um motivo que na época eu nem imaginava. Minha irmã foi para a escola militar e a atenção que eu recebia da minha mãe, evaporou.
Eu havia acabado de sair de uma escola e estava indo para outra, que minha mãe havia conseguido comprar. E mesmo que na época dessa transição a minha mãe não arrumasse mais meu cabelo, eu ainda tinha uma aparência andrógena. Temia com toda certeza que houvesse garotos maus para puxarem meus cabelos e me chamarem de menina. Exatamente como os garotos maus da outra escola.
Mas nem tudo foi tão ruim assim…
– Sai abelha! – exclamei, enquanto corria de um lado para outro. Tinha alergia a picadas de abelha, e, além disso, um medo enorme de insetos.
– Espera aí. Eu ajudo você. – um menino pegou a caixa de suco de maçã da minha mão e a colocou numa mesinha, me puxando para longe da mesma. – Você está bem? Qual é o seu nome, menina?
– Castiel.
– Castiel?! Por que você tem nome de menino?
– Eu sou um menino!
Pode parecer engraçado, mas esse foi o primeiro dialogo que eu tive com um dos meus maiores amigos. O nome dele era Armin, e por saber fazer amizades bem mais do que eu, ele me apresentou a seus outros amigos. Com o passar do tempo, foi assim que se formou o F4. História curta, não? Não. A história de formação do F4 pode ser curta, mas ao decorrer dela é o que complica.
Houve um período de férias do qual minha irmã voltou para casa, e ela trouxe uma amiga consigo. Foi num dia em que o F4 estava reunido em minha casa e Lysandre havia vindo com o irmão mais velho, na sala de estar. Entrou minha irmã rabugenta com a viagem e logo atrás dela, uma menina, uma loira linda de doer. Aquele dia resultou em vários olhares e corações acelerados. Minha irmã fincou os olhos no irmão de Lysandre, e foi o dia em que eu e Kentin nos apaixonamos pela…
– Essa aqui é a Angela. – apresentou Rosalya com a mão apontando para a mesma.
Aquela tarde também rendeu uma recordação muito bonita. Uma foto da qual todos estávamos, exceto Angela, que foi a pessoa que tirou a foto. E realmente Angela complicou minha vida. Parece que ela só havia aparecido para fazer com que eu me apaixonasse por ela, e logo após ir embora. Eu tive muita raiva de Kentin porque ele também se apaixonou por ela. Eu nem liguei se ele era meu amigo ou se era do F4. Eu estava tão ciumento que odiaria o F4 inteiro se eles se apaixonassem por ela.
Mas foi por causa deles que eu me tornei o líder do F4. Principalmente por causa do Kentin. Sim, eu já tinha visto o pai do Kentin uma vez, ele tinha uma voz muito grossa e falava muito alto. Era grande e me assustava. Eu via que ele era severo demais, e era esse o medo de Kentin. Kentin tinha medo que, por eu ser filho da dona da escola, eu poderia expulsa-lo, e este tinha medo que seu pai o castigasse. Foi daí que o líder do F4 descobriu todo seu “poder”, e aprendeu como usá-lo. Apesar de que não foi momentaneamente.
Lembro-me que eu brigava muito com Kentin. A maioria das brigas eram geradas por discussões sobre Angela. Mas sempre acabávamos pedindo desculpas um ao outro. Houve um dia em que ele me desafiou e iríamos brigar depois da aula. Todo mundo sabia, mas ninguém foi ver a briga porque sabiam que nós nos arrependeríamos no ultimo instante. Aconteceu que as coisas não saíram tão normais como imaginamos. Vários caras nos cercaram, nos amarraram e nos levaram para algo que parecia uma fabrica, mas estava totalmente vazia.
– É o moleque mesmo? – disse um deles.
– Acho que sim. – deu de ombros o outro.
– E esse outro?
– Você queria que tivesse testemunhas?!
Eu e Kentin choramos naquele dia como nunca choramos na vida. A tarde caiu e a noite chegou. Estávamos amarrados com cordas em cadeiras. Eu estava com fome, com frio e com medo. Kentin já não chorava mais, ele olhava o saguão e observava de um jeito fora do normal. Minha cabeça doía e achei que a fome estava me fazendo ouvir coisas. Ouvia um ruído agudo tão forte que eu sentia martelar em minha cabeça.
– O que foi? – cochichei.
– Shh! – ele pediu. – Está ouvindo esse barulho?
– Barulho? Pensei que só eu estava ouvindo. – mordi o lábio, olhando em volta, não havia ninguém.
– Hei, você sabe porque esses homens trouxeram a gente para cá? – fiz que não com a cabeça. – Queria ter como chamar meu pai. Ele viria para cá voando.
Dito isso, um barulho muito alto soou fora do prédio.
– O que foi isso? – perguntei assustado.
– Acho que são tiros. – respondeu ele no mesmo pânico que eu.
– Você acha que vão atirar na gente? – choraminguei. – Eu não quero morrer.
Meu choro não deixava Kentin conseguir se tranqüilizar. Nem sabia como ele conseguia se manter calmo numa situação daquelas. Talvez estivesse cansado de chorar, apesar de que ele havia chorado tanto quanto eu. Mas admito que eu não consegui deixar o medo reprimido.
Um dos homens apareceu novamente com uma arma na mão. Ele se aproximou rapidamente, mas parecia não ter objetivo de nos balear. Ele apontou para a porta de entrada. Assim que duas pessoas adentraram pela porta, ele apontou para as mesmas. Minha irmã e Angela, as duas com o uniforme da escola militar. Minha irmã apontou a arma para o homem assim que me viu.
– Solta o meu irmão! – ordenou.
– Por que não pede a seu pai? Foi ele quem nos mandou pegar o menino. – disse o homem, arregalei meus olhos.
– Solta o meu irmão agora! – mandou ela novamente.
– Não se mexa! Caso contrário eu jogo eles dois no tanque.
Angela nos olhava intensamente. Próximo de nós, estava um tanque cheio de alguma coisa. Eu não sabia o que era, mas tinha cheiro de café. Angela mexeu os lábios e pareceu falar algo a Rosalya, Rosalya nos olhou preocupada e assentiu com a cabeça.
– Vocês trouxeram o dinheiro, não é? – o homem estreitou os olhos. – Ah, qual é? Vocês são burras a esse ponto?
Com raiva, ele chutou a cadeira mais próxima do tanque, que era a minha. Caí naquele tanque, sem poder me mexer e sem poder respirar. Foi por esse motivo que eu desisti de aprender a nadar. E depois daquilo, eu não me lembro de muita coisa. Só lembro-me do rosto de Angela e as roupas sujas por causa do café. Depois me contaram que Angela havia me salvado e que os meninos do F4 viram o seqüestro e nos seguiram para saber até onde eles nos levariam.
Eu passei a amar ainda mais a Angela, e passei a gostar cada vez mais dos meus novos amigos.
– Rosa. – chamei-a, tirando a mascara de oxigênio. Estava deitado na cama do hospital e ela estava a meu lado com um olhar preocupado, mas não me encarava. – Por que aquele homem falou que o papai tinha mandado eles me pegarem?
– Por nada, moleque. – respondeu ela, soltando um suspiro e afagando minha cabeça. – Dorme aí. A mamãe disse que já estava vindo para cá.
Passaram-se alguns anos até todos terem que ir viajar. Os gêmeos foram para a Alemanha, Kentin para a escola militar e Lysandre para a França. As vezes eu chegava a conversar com eles pela internet, mas uma conversa na internet de vez em quando não era consolo o suficiente.
Havia ficado sem amigos, sem a irmã mais velha, sem a atenção da mãe e sem a presença do pai. E foi assim que o “Castiel menina” se tornou o “Castiel malvado”. E quando o F4 se reuniu, eu vi que, com toda certeza não era só eu que estava com problemas. As mudanças que os anos esculpiram em nós, era algo evidente. Fisicamente eu era o que tinha mudado mais. Talvez nem tanto assim, mas pelo menos eu não parecia uma menina. E juntamente comigo, Kentin também havia mudado. Além de mudar, ele havia se fechado e era quase impossível ver aquele “Ken” de antes.
– Meu nome é Kentin. – era o que ele dizia quando insistíamos em chamar pelo apelido que cortava seu nome ao meio.
E com esse retorno, eu tive que me acostumar com as mudanças. O que me magoou foi ver que Alexy não estava lá, e Armin não dizia o porquê. Por mais que eu não gostasse do irmão dele, me magoava um pouco ver que os garotos não tinham mais confiança em mim. Parece bobo, mas eu me sentia mal com isso. O F4 significava muito para mim, e naquele momento significava mais ainda.
De vez em quando fazíamos reuniões na casa uns dos outros. Houve um dia em que foi na casa de Kentin, na nova casa de Kentin. Foi no dia em que eu conheci a mãe dele e soube que o pai dele tinha morrido, realmente foi um choque muito grande. E maior choque foi saber que ele só havia voltado porque o pai dele havia morrido. Ele não se importava conosco e muito menos em voltar para Shapersgreen.
Eu não conhecia muito a família dos meninos. Devo dizer que eles é quem conheciam mais a minha. Tudo que eu sabia era que Armin estava morando temporariamente com o tio, Lysandre morava praticamente sozinho e recebia visitas de seu irmão de vez em quando. E sobre Kentin eu descobri no dia em que fomos para lá. Ele me parecia bem nervoso, mas tentava disfarçar.
– Castiel, mamãe não abriu outro quarto. Poderia ficar nesse? – ele apontou para uma porta em frente a seu quarto.
– Ok. – concordei sem discussão. – Você tem alguma irmã? – Kentin me olhou com espanto. – É que parece ser um quarto de criança.
Kentin não respondeu, apenas virou as costas e foi checar de todos já tinham se instalado. Aquela casa fazia com que eu me sentisse estranho. Principalmente aquele quarto. E durante a noite, pensei até que tudo fosse uma armação de Kentin. Pensei que ele estava querendo fazer uma brincadeira de mau gosto, mas não foi nada disso. Bom, se foi realmente uma brincadeira, estava muito real e ele fingia muito bem estar com medo.
Kentin era um dos meus melhores amigos antes de nos separarmos. Por mais que brigássemos, ele era muito bondoso comigo, mesmo que eu não retribuísse com o mesmo sentimento. Depois daquela noite, eu vi que meus problemas familiares eram bobagens comparadas aos dele.
Nas férias, eu tive noticias que minha mãe havia comprado uma parte da ilha de Madagascar. E apesar de que a intenção era ter ótimas férias com o F4, não ocorreu muito bem isso. O coitado do Lysandre foi o que mais sofreu naquela viagem. Foi aí que eu descobri o que ele e Leigh tinham feito nos últimos anos quando viajaram. Eu sabia que a mãe de Lysandre havia morrido e sabia que o pai dele havia se casado com outra mulher, também sabia que o pai dele não ligava muito para o que eles faziam. Entretanto, eu não sabia que a esposa do pai dele era uma ex-stripper e que Lysandre e Leigh ficaram se drogando para chamar a atenção do pai. Eu soube disso quando Lysandre encontrou, em Madagascar, um dos caras que vendia erva para Leigh. Na época, a questão da legalização da maconha ainda estava sendo discutida no estado e ainda era considerada uma droga ilícita. Eu nunca contei isso a Rosalya, até porque se tivesse contado, ela não teria virado a namorada de Leigh. Mas foi só uma fase, um apelo. De certa forma, lá no fundo eu compreendia os dois.
E como se não bastasse, Kentin lançou um comentário maldoso e preconceituoso sobre pessoas que se tatuam. Eu não havia falado nada, mas havia visto a tatuagem nas costas de Lysandre quando estávamos na praia. Depois disso Lysandre não deixou a tatuagem à amostra.
O tempo passou enquanto eu acompanhava as lutas e os campeonatos dos quais Angela participava. Ficava muito feliz por ela, mas tinha uma parte de mim que sabotava essa minha felicidade e desejava que ela perdesse para haver maior chance dela me visitar. Naquela época, na escola, eu conheci uma menina que já estudava na Sweet Amoris há dois anos. Ela era do coral da escola e pediu para sair comigo. Quando ela pediu, disse que queria tomar um café e discutir sobre alguns assuntos. Na hora eu nem percebi que ela tinha segundas intenções.
Debrah, esse era o nome dela. Durante nossa conversa, ela comentou sobre estar formando uma banda temporária e sobre um concerto na escola. No dia em questão eu não disse nada, mas ela soube muito bem como me convencer.
– Até mais, gatinho. – piscou ela. E em seguida segurou meu rosto, me dando um beijo nos lábios. Aliás, meu primeiro beijo. Sempre achei que meu primeiro beijo seria com Angela.
Pode crer que eu fiquei parecendo alguma princesa de contos de fadas que é beijada e liberta de um feitiço, mas no meu caso foi o contrário, aquele beijo era o que tinha me enfeitiçado. Por isso acabei me oferecendo para ser o guitarrista. Não fui só eu quem entrei nessa, Leigh e Lysandre também acabaram cedendo apresentarem-se no concerto, isso porque eu insisti muito. Mas a visão de Debrah parecia abranger muito mais do que uma banda temporária para se apresentar na escola. E eu estava gostando dela, estava literalmente enfeitiçado.
Entretanto, um dia quando a segui, encontrei-a na sala do grêmio com as mãos no peito do representante. Minha íra caiu totalmente em cima dele, eu não via culpa nela e contexto algum na cena. O F4 veio me tirar de cima do representante e impedir que eu desse o F4 e acabasse com a vida dele. Lysandre veio com os olhos cheios de força e me disse que Debrah não era a menina que eu pensava que era. Lysandre contou que seu irmão, enquanto andava pelos corredores da Sweet Amoris, disse ter escutado uma ligação pessoal de Debrah. Aparentemente ela estava falando com o agente, dispensando-nos da banda e querendo seguir uma carreira solo, ou pelo menos com ninguém que lhe atrapalhasse. Ou seja, ela me via como um obstáculo e eu fui o trouxa da história. Eu não quis acreditar. Ainda mais porque Rosalya veio gritando que Debrah havia tentado seduzir Leigh, o intuito com certeza era que ele ficasse calado sobre o que ouviu. Ela deveria ter feito o mesmo com o representante.
Eu me senti a pessoa mais estúpida do universo por ter sido enganado por uma garota como ela. Mas me sentia mais estúpido por estar gostando dela. Saí com várias garotas para tentar esquecer daquele constrangimento. Foi então que uma praga pior ainda apareceu na minha vida.
– Então lamba.
– O que?
– Você disse que faria o que fosse preciso. Lamba a mancha e eu te perdoarei.
A ruiva olhou para a intrometida com um olhar que a comoveu na hora. A mesma cerrou o olhar contra mim, prestes a relutar em nome da outra.
– Castiel.
– Calado, Lysandre.
– Castiel cara, isso já deu. Para com isso.
– Eu já mandei calar a boca, Armin.
– Não! Ela não vai fazer isso.
– Então faça por ela, já que você toma as dores pelos outros.
– Certo.
A menina agachou-se, e eu realmente achei que sairia vitorioso dali. Até porque eu era o líder do F4. Agora eu era o cara que tomava as decisões. Me transformei em um outro desde quando o representante resolveu se revoltar porque eu saí com a irmã horrorosa dele. Foi F4 e não levei em contar qualquer palavra dos meninos. Eu já não ligava muito para o que eles falavam há muito tempo.
A menina traiçoeira passou a rasteira em mim e jogou a casquinha de sorvete no meu cabelo.
– E vê se troca essa tinta aí. Todo mundo vê que você é ruivo de farmácia.
Foi F4 na certa. E por mais que ela tenha sido resistente em algumas ocasiões, eu também estava certo de que iria fazê-la desistir assim como o representante. Ela teria caído com certeza se aqueles idiotas não ficassem com pena dela. Estavam todos ao lado dela e ninguém do meu lado. Aquela tinha sido a maior traição de todas. Como poderiam defender uma menina que nem ao menos conheciam? Eu tentei de tudo, mas ela sempre acabava recebendo ajuda de um dos meninos do F4. No dia em que aquela estúpida conseguiu uma foto de quando eu era criança, a casa caiu. Eu me envergonhava totalmente daquela aparência andrógina. E por consequência, ela me chantageou. Me fez corrigir as matérias e mandou que eu tirasse o F4.
– Foi você, não foi? Seu desgraçado! – gritei para Kentin. – Foi você quem deu a foto a ela, não foi?
– Daria de novo. – debochou ele, despreocupado. Deu de ombros enquanto os outros meninos nos observavam. – Cara, sua mãe é dona da escola. Você não é.
– Repita isso de novo! Repita! – bradei, Lysandre levantou-se rapidamente para entrar em minha frente.
– Você não é dono da escola! – repetiu ele, levantando-se também.
– Armin, me ajuda aqui. – reclamou Lysandre enquanto nos impedia de brigar.
– Ajudar para quê? – ele deu de ombros. – Castiel, cara. Eu adoro muito você, e você sabe disso. A menina é legal, ela só foi daquele jeito com você porque você é frustrado demais e fica descontando sua raiva nos outros. Ela não acha isso certo, e não achou certo você ter mandado a amiga dela lamber a mancha do seu sapato para ter seu perdão.
– É, Castiel. – concordou Lysandre. – O comportamento da senhorita não foi tão correto assim, mas se isso faz você parar de ser agressivo com as pessoas, que seja.
– Acho que tem que parar de tentar ser líder. – Kentin me encarou profundamente nos olhos, retirando a mão de Lysandre de seu peito. – Tem que aprender a ser homem primeiro.
Eu não poderia ficar contra meus amigos. Ainda mais porque eram os únicos amigos que eu tinha. A ideia que eu tive inicialmente foi de achar uma maneira de tira-la do meu caminho. Entretanto, essa ideia começou a se sedimentar na noite em que Angela me avisou que viria me visitar. Eu a esperei por horas num banco, e mesmo com a neve eu continuei lá. A intrometida me ajudou, me esquentou e cuidou de mim até o outro dia.
Sedimentou-se, mas ainda era uma ideia viável. Dei-lhe presentes e tentei ser gentil. Pelo menos para passar uma boa ideia para os garotos do F4 não ficarem contra mim. A ideia era me livrar dela sem que os garotos soubessem, mas aí eu fui vendo que Armin tinha razão. Ela era legal. Apesar de ser grossa e chata algumas vezes, ela era legal.
E ela até que poderia ser legal, mas eu ainda não havia gostado e nem me acostumado com aquela menina. Eu a vi com Kentin e surtei na hora. Eu a vi como alguém que queria destruir o F4 e tirar todos os meus amigos de mim. Se eles já haviam ficado contra mim, imagina como seria se ela fosse a namorada de um deles? Seria um completo desastre.
E a prova de coragem foi numa fábrica de reciclagem abandonada.
– Por que sempre é em uma fábrica vazia? – queixei-me, tentando inutilmente me soltar das cordas e e levantar da cadeira.
– Cara, não sei como vocês conseguiram ficar lá sem fazer mijar nas calças. – disse Armin cruzando as pernas. – Eu preciso ir ao banheiro.
Um agudo barulho invadiu minha cabeça, meus olhos cerraram e a dor horrorosa tomou conta de mim.
– Castiel. Você está bem? – perguntou Armin.
– Eu estou sentindo que meu cérebro vai virar goiabada a qualquer momento. – dito isso, as lágrimas escorreram pelo meu rosto enquanto meus olhos se apertavam com a dor.
– Calma, aguenta aí. – Lysandre pediu.
– É, eu tenho certeza que a Rosalya já deve estar vindo.
Eu não esperava o quão rápidos eles poderiam ser, e não esperava que Lynn fosse cair em meus braços com um sangramento intenso. Nos dias em que permaneceu acordada, eu permaneci olhando-a. Havia algo a mais, uma admiração a mais. Eu via o curativo em suas costelas e via uma marca de coragem. Nunca alguém havia se sacrificado por mim.
Armin contou sobre a confusão que houve em sua casa, da qual Lynn assistiu, soube que Lysandre havia pedido ajuda de Lynn com a capa do CD. E eu a vi com Kentin novamente, as coisas estavam bem mais profundas. Ela segurando a mão dele e o encarando nos olhos. Senti raiva, muita raiva. No dia seguinte, eu fiz questão de deixar claro que ela não deveria se meter com ninguém do F4. Ninguém!
– Eu vi vocês... Ontem.
– Sim, e daí?
– E daí que você não tem o direito.
– Do que está falando?
– Você e Kentin estão saindo. Kentin realmente é um maluco por baixar o nível dele. Se afaste dele! Agora! Está sujando o nome do F4.
– Eu vou repetir a pergunta, sugiro que responda e também sugiro que me solte antes que eu resolva quebrar seu lindo pescocinho. Do que está falando?!
– Eu só digo uma coisa. Se afaste dele, ele gosta de outra pessoa. Kentin não precisa de piranha para inflar o ego dele.
Revelei até o amor de Kentin por Angela, tudo para afastar aquela menina dele. Antigamente Kentin caía fácil no papo de qualquer garota que aparecesse na frente dele. Tinha medo que ainda acontecesse. Eu não sabia muito bem o que estava fazendo. Eu adoraria que Kentin ficasse longe do meu caminho quando Angela chegasse, mas eu adorava tanto o F4 que mesmo que aquela menina tivesse levado um tiro tentando nos salvar, eu ainda a via como uma ameaça. Depois disso eu me senti um completo idiota. Queria até pedir desculpas a ela, mas meu lado orgulhoso me segurou.
Demos uma festa para dar as boas-vindas e os parabéns a Angela por levar mais um cinturão para casa. Havia combinado com Angela de falar com ela perto da piscina. Esperei e esperei, nada dela vir. Até que um zumbido soou perto da minha orelha.
– Ah droga! Sai abelha! Sai abelha! – a borda da piscina estava molhada, e por isso eu acabei escorregando e caindo na piscina. Além de ter enfrentado o medo e a alergia, agora tinha que enfrentar o medo de não saber nada e me afogar.
Foi quando me viram e alguém pulou na piscina para me salvar. Eu estava certo de que era Angela, não imaginava outra garota tendo força o suficiente para me tirar da piscina tão rápido. Fiquei de olhos fechados e prendi a respiração. Senti as pressões contra o peito, deveria ter uma massagem cardíaca, era óbvio o que vinha depois. Depois da segunda respiração boca a boca, abri cuidadosamente e sutilmente um dos olhos para espiar. Foi ai que ao invés da princesa loira estar lá, quem estava era a encrenqueira. E ao observar em volta, vi Angela e Kentin por perto. Lynn percebeu e parou quando estava bem próxima a minha boca, o reflexo que eu tive foi de puxar Lynn para perto para mostrar a Angela o que ela estava perdendo quando trocava minha companhia pela de Kentin.
Aparentemente a tentativa de fazer ciúmes a ela não havia funcionado muito bem. Lynn deu um tapa na minha cara e saiu pisando duro. Depois que me troquei e voltei para perto da piscina como o combinado, Angela veio até mim.
– Se jogou na piscina porque achava que eu ia te salvar? – deduziu ela.
– Não mesmo. – balancei a cabeça com as mãos nos bolsos. – Foi um acidente.
– Mas tentar beijar a Lynn para me fazer ciúmes não foi um acidente. – ela cruzou os braços, quase que rindo. – Você já fez isso outras vezes, Castiel. E tenho que te dizer que isso é muito patético.
– Eu sinto muito! Eu… – as palavras escaparam dos meus lábios e se transformaram em um ruído de frustração. – Eu quero que você me note. Eu quero que você goste de mim como gosta do Kentin, quero que goste de mim mais do que gosta dele. Parece idiota para você, mas eu te amo de verdade.
Não deixei Angela sequer ter alguma reação, eu tomei uma iniciativa e a beijei intensamente. Mas o beijo foi interrompido com os gritos de Kentin. Acabou que isso estragou a festa. Angela nos bateu e foi embora da festa. A festa havia se encerrado por ali, todos foram embora depois disso. E antes de sair de lá, recebi uma ligação do hospital que me pedia uma doação urgente de sangue.
– Ingeriu alguma bebida alcoólica nas ultimas 24 horas?
– Não senhora.
– Usou drogas ou comeu comidas gordurosas?
– Não. – disse com estranheza. Se ele já estava tirando meu sangue, por que estava perguntando? Não deveria perguntar antes de tirar? – Para quem é a doação?
– Para um garoto com histórico de tentativas de suicídio.
Depois da doação, pedi a enfermeira que me mostrasse a pessoa. Era o representante. Mas não me arrependi nem um pouco de ter salvo sua vida, por mais que eu não gostasse dele. Lynn havia me dito que não havia pensado muito antes de me salvar, então eu não teria que pensar muito para salvar a vida dele. Certo?
Quando cheguei em casa, Rosalya estava lá com seu uniforme. Por vê-la daquela forma e tão repentinamente, pensei que houvesse acontecido algo.
– Aconteceu alguma coisa?!
– Senta aí, moleque. – pediu ela, com a voz arrastada e preguiçosa. – Já está passando da hora de te contar algumas coisinhas. – ela respirou fundo. – Bom, eu tinha um mandato de prisão para o papai.
– Você vai prender o papai?! – meus olhos se arregalaram.
– Bom, não. – ela respirou profundamente novamente. – Ele se desintoxicou, mas essa semana ele foi transferido para um hospital psiquiátrico. Ele não pode ser preso por isso.
– E o que ele fez?
Minha pergunta deixou Rosalya em silêncio por uns instantes. Ela se ergueu apenas para tocar na cicatriz em minha cabeça. Logo após sentou-se de novo, muda. Parecia repensar as palavras.
– O que tem a cicatriz? Tem alguma coisa a ver com o chip?
– Bom, você sabe do chip. É mais ou menos sobre isso.
– Colocaram ele para me localizarem caso fosse preciso, não foi isso?
– Cara… – ela coçou a cabeça. – Quando você foi capturado naquele dia, aquele barulho que você disse ter ouvido era o chip. Você tem ele há muito tempo. – eu não sabia o motivo, mas se ficasse calado talvez soubesse. – Houve uma época em que papai se envolveu com um grupo de cientistas alemães. Eles estavam testando ilegalmente procedimentos em humanos. Eram formas de dar mais resistência ao corpo, transformar pessoas comuns em “super-humanos”. Havia um procedimento que se chamava “trepanação” onde havia crenças de que aumentaria a inteligência de quem o fizesse. Eles fazem um buraco no crânio e deixam lá.
– Furaram minha cabeça?! – coloquei as duas mãos na cabeça, desesperado.
– É pequeno, bem pequeno. Prenderam a equipe médica há dois dias. Eles também colocaram seu chip. – Rosalya suspirou, como se estivesse aliviada. – Ele havia dado permissão para fazerem. Mamãe se separou dele por conta disso, e ele deu ordem para que pegassem você para fazer testes, mas como os médicos não tinham dinheiro para continuar, iriam mandar te pegar novamente depois que dessem o resgate. E eu tinha o mandato para prender ele também, já que ele foi um dos que financiou isso.
– E por que você me contou isso? Eu poderia muito bem ficar sem saber!
– É que eu soube que tem como reverter e tirar o chip. Queria saber se você quer fazer isso.
– Não.
Dito isso, levantei e fui para meu quarto. Dragon estava deitado em baixo da cama, eu apenas me deitei sem conseguir fechar os olhos. Queria poder esquecer que fui usado como um boneco de pano e que poderia ter morrido com caras tentando brincar de Deus comigo.
Eu não tive muito tempo para ficar melancólico com aquilo, tudo havia dado certo e não aconteceria nada se eu não revertesse a cirurgia. Angela foi embora logo, e eu me senti um idiota por ter desperdiçado nosso tempo com brigas estúpidas. Quando eu a veria novamente? Talvez ela se apaixonasse e me esquecesse.
Os dias que se passaram foram cinzas e mortais. Quando o F4 sentiu os efeitos da minha tristeza, resolveram ir a minha casa. Com certeza a intrometida deveria estar se maravilhando com a minha ausência. Mas confesso que a ultima pessoa a quem eu esperei que entrasse em meu quarto, era ela.
– O que quer? – perguntei curto e grosso.
– Oi pra você também. – ela devolveu a arrogância embrulhando um sorriso sarcástico para presente. – Deve ser por isso que você está na merda. Você é muito chato.
– Muito engraçado. – revirei os olhos.
– Me disseram que você estava vegetando aqui no quarto. – ela sentou-se numa cadeira, umedeci meus lábios para me controlar. Nem acreditava que aquela intrometida ficaria ali. Estava prestes a perguntar se Lysandre tinha a mandado falar comigo. Isso era a cara dele.
– Não saio enquanto o Kentin não sair. – dei meu ponto final.
– Vocês são amigos há tanto tempo. Por que se matam por causa de uma menina?
– Você não conhece a Angela. – cruzei os braços. – Ela não é como as outras.
– E como seriam “as outras”? – ela gesticulou as aspas com os dedos.
As palavras pairaram sobre minha cabeça, até tentei formar uma frase que pudesse explicar, mas meu coração partido passou uma borracha em todo meu discurso.
– Eu... – disse não a mim mesmo e desisti de continuar a frase. – Não sei explicar.
– Não, você não sabe é de nada mesmo. – ela debochou novamente. Estava fazendo uma nota mental para dizer a Lysandre que se ele quisesse me animar, viesse ele. Lysandre não sabia escolher pessoas para fazerem favores para ele. – Como pôde abrir mão de um amigo assim?
– Angela foi a primeira menina que eu beijei. E isso aconteceu... Na festa...
Eu não fazia ideia por que tinha mentido. Se bem que eu não queria contar aquele constrangimento do qual eu passei com Debrah, mas poderia muito bem ter dito que já havia beijado outras meninas. Entretanto, as palavras simplesmente saíram, foi quase que involuntário. Meus olhos olharam de cima a baixo a intrometida, por um momento senti algo começar a subir. Tinha que ser mais uma ereção involuntária, tinha! Com ela não poderia ser, fala sério. Se passasse mais alguns momentos, ela perceberia.
O que me salvou foi uma melodia que veio da outra sala. Era Kentin ao violino.
“Ah Kentin, seu desgraçado. Ele quer me ver indo lá para mandá-lo parar com a maldita música. Mas desse jeito eu não posso sair de maneira alguma. Nem sei o que essa maluca vai fazer se olhar para minhas calças”. – pensei comigo.
Foi então que ela começou a olhar para o chão, por uns segundos eu até achei que ela tinha percebido e estava com vergonha. Mas não, ela apenas pediu licença com um tom de tristeza na voz. Saiu e eu escutei Kentin parar, mas logo depois o piano tocar juntamente com o violino.
Depois que o sangue voltou para os lugares que deveriam estar, comecei a cantar uma música que tinha feito para Angela. A intrometida apareceu novamente, seus olhos estavam vermelhos. Tive até vontade de perguntar se Kentin tinha dito alguma grosseria a ela.
– Estava me espionando?
– Não, eu só passei aqui por acaso. Não sabia que cantava.
– Pra ser franco com você, nem eu mesmo sabia. Não sei se já te contaram... Angela vai embora.
– Por quê?
– Ela é ocupada assim como a Rosalya. Eu queria cantar isso pra ela, ela sempre gostava quando Lysandre cantava. Ela o escutava, ele era muito tímido antes de formar a banda.
– A voz do Lysandre é realmente muito bonita.
– É... Estava falando um dia desses com os meninos sobre a Angela... Fiz essa música pra ela.
– Eu gostei. Acho que ela vai gostar.
– Jura? Obrigado.
Além de intrometida, era equivocada. Ficava “achando” as coisas de mim sem me conhecer. E eu joguei isso na cara dela da forma mais educada possível. Mas ela tocou em um ponto importante. Foi aí que eu percebi que Angela iria embora daqui a vinte minutos.
Eu corri contra o tempo, dentro do carro com a garota gritando para ir mais devagar, que iria atropelar alguém ou virar o carro. Eu apenas ignorei e continuei a seguir velozmente para dizer adeus a Angela. Era a unica chance que eu tinha de fazer com que ela não esquecesse que eu existia. Eu queria me desculpar com ela. A intrometida tinha razão, eu não queria que ela fosse embora com raiva de mim.
Senti-me enfurecido quando vi os meninos do F4 no aeroporto. Nem sequer tinham me chamado para lembrar-me da partida de Angela. Aquilo deveria ser coisa de Kentin.
Angela estava a frente e dois seguranças atrás. Quando gritei seu nome e saí correndo em direção a ela, ela me olhou de olhos arregalados e pisou duro em minha direção. Ainda parecia estar zangada. Eu a agarrei e a beijei como se nunca mais fosse vê-la. Meu coração se despedaçou. Tinha impressão que depois que Angela virasse as costas e partisse, eu a perderia para sempre.
Os seguranças chegaram e falaram que ela teria que ir e me mandaram solta-la. Eu não obedeci, foi aí que Armin e Lynn vieram me afastar de Angela.
– Castiel! Solte-a. Ela precisa ir. – Armin pediu com um tom de constrangimento na voz. Tocou meu ombro, mas eu o balancei para me livrar da mão dele.
– Castiel! – exclamou a intrometida, agarrando meu braço.
– Castiel. Não torne as coisas mais difíceis. – Angela pediu.
– Quando eu vou te ver?
– Castiel! – exclamaram os dois, cada um puxando um braço meu.
– Castiel, por favor. Eu não sei... Mas quando eu estiver pronta, eu voltarei. Não é o fim do mundo.
Aquelas palavras me desesperaram mais ainda. Como assim “quando eu estiver pronta”? Isso significava que ela não iria embora para competir pelo cinturão e depois voltar. Ela realmente estava me abandonando como todos os outros fizeram.
Por insistir mais um pouco, eu ganhei um tapa na cara e uma exclamação dizendo “Recomponha-se”. Aquela menina realmente merecia um F4. Depois eu era o malvado? Quem bate nos outros em momentos difíceis? Lynn foi a primeira a se afastar, Armin continuava parado segurando meu braço.
– Me solta! – exclamei o empurrando. – Grande escolha vocês fizeram. Proteger uma menina como ela ao invés de ficar do lado de um amigo. Depois eu quem sou o insensível, não é? – Armin estava muito constrangido, mas eu sabia que ele não estava arrependido. – A menina acha que sabe de tudo, assim como vocês. Fique ao lado dela! Isso mostra quão otário você é.
Eu não quis sair mais daquele quarto enquanto aqueles dois estivessem ali. Aliás, eu não queria sair do quarto enquanto alguém estivesse ali. Se entrassem, eu jogaria o Dragon em cima deles. Durante alguns dias eu tentei abafar a solidão afogando-a nas notas musicais da guitarra. Não adiantou muita coisa, mas quando eu estava melhorando, foram inventar de arruinar minha vida novamente.
O maldito Kentin me ligou dizendo que aquela pirralha irritante iria a minha casa no outro dia para ensaiar comigo uma maldita dança da festa da escola.
– Caralho, vai você. – gritei ao telefone. – Quero não.
– A menina é burra como uma porta. – disse ele dando uma respirada pesada, o que causou um chiado no telefone. – A escola é sua, te vira aí.
– Não foi você quem disse que a dona da escola era minha mãe? – Kentin ficou em silêncio. – E que eu teria que virar homem antes de querer ser líder?
– Está aí uma chance. Para domar uma tampinha dessas tem que ser muito macho.
Como eu não tive tanta opção, eu pensei em tornar aquela experiência bem mais divertida. E o que seria mais divertido do que tirar onda com a cara dela? Eu já havia feito isso quando ela recebeu o F4, e era muito divertido. A diferença é que eu estaria à frente dela.
Eu a assediei, tirei a camisa e me diverti com a expressões que ela fazia. Realmente meninas são muito engraçadas e talvez eu esquecesse um pouco aquela melancolia que Angela me deixara de presente. O jornal anunciava que Angela havia assumido publicamente seu relacionamento com o filho do presidente. Lynn achava que eu não sabia, até escondeu o jornal em baixo de algumas revistas. Eu apenas me fiz de desentendido e tentei me divertir ensaiando aquela dança. Era algo muito complexo para uma menina que dança como um pato.
Mas devo admitir que ela aprendeu. Ainda não dançava bem, mas já bastava. Tinha que bastar depois nos inúmeros pisões que ela deu em meus pés.
Acho que aquela experiência realmente tinha nos tornado amigos. Ela me deixava confiante e eu realmente me sentia como um líder, como alguém confiável. A menina da qual eu odiei agora era minha amiga.
– Disse que me mostraria seus pais. – ela cruzou os braços. Na verdade nem eram meus pais. Era minha mãe e meu padrasto, mas seria muito difícil explicar a separação e o lugar onde meu pai estava agora. Eu não gostava do meu padrasto. Ele casou com a minha mãe por interesse e era um cara que gostava de viver pelas aparências. Era indiferente comigo, mas era gentil quando havia pessoas em volta.
– Acredite em mim, você não quer conhecê-los. Eu os conheço desde que nasci e até hoje eu desejo não ter os conhecido.
– Isso é modo de falar com seus pais? – minha mãe surgiu
– Principalmente com você, mamãe. – dei um sorriso sarcástico.
– Deveria respeitar a sua mãe. – bronqueou meu padrasto, apenas me fazendo revirar os olhos.
– E você deveria parar de fazer as vontades dela. – cruzei os braços, aquele comentário foi mais para manter as aparências com Lynn. Se ele era casado com minha mãe por interesse, ele tinha mais era que lamber os pés dela. No final nem ouve questionamento, pois minha mãe falou logo em seguida.
– Nem deveria estar nesse tipo de evento, o herdeiro não participa dessas coisas, só as pessoas comuns. – mamãe cruzou os braços. – Deveria estar com seus amigos e não com qualquer uma.
– Ela é minha amiga. Algum problema? Claro, se achar problema pode ir embora, aliás, nem sei por que veio.
Agarrei a mão de Lynn e a puxei para longe. Sim, era por isso que eu achava que era superior aos outros. Só agora eu tive capacidade de ver por que eu havia ficado daquela forma.
De qualquer forma, a paz havia reinado. O ano escolar havia se encerrado na paz. O F4 estava de bem comigo e Lynn agora não era mais uma ameaça. Soube que ela iria viajar com Armin e Alexy, foi aí que eu senti algo me cutucar por dentro. Era algo que me deixava um pouco aborrecido e zangado.
Durante as festas de fim de ano, fiquei com os meninos, fui a praia e etc. Estava tentando me convencer de que não iria rolar nada entre ela Armin.
– Kentin. – chamou Lysandre. – Você está bem? Parece meio abatido.
– Cara, é que a mamãe veio com um papo de que queria uma filha e coisas do tipo. Ela disse que queria adotar uma menina e perguntou o que eu achava. – suspirou ele. – Não quero uma garota em casa. Eu assisto pornô na sala, não quero ter que mudar meus hábitos por causa de uma pirralha.
– Manda ela adotar a Lynn. – falei brincando.
– Nem zoa com isso, cara. – respondeu Kentin com uma expressão zangada.
– Ué, você não defendeu a Lynn? Não gosta dela? – Lysandre se pôs a perguntar.
– Cara, eu mudei de opinião. – foi apenas o que ele disse. Depois disso mudamos de assunto.
Lysandre sempre com seu olhar analítico percebia as coisas facilmente. Posso dizer que ele realmente era o cara que mais tinha força de vontade para deixar o F4 em harmonia.
Aquele ano que começara vinha cheio de mudanças e lágrimas. O ano escolar se iniciou mais uma vez, Kentin estava aborrecido e Armin estava esquisito. Lynn realmente havia se tornado a irmã de Kentin, e não me agradava nem um pouco as histórias “cômicas” que Kentin trazia para a sala do F4. Todos ficavam constrangidos por ele falar que ficava tentando deixar a irmã sem graça enquanto os dois usavam a mesma banheira. Ainda havia Armin para fingir rir, mas eu me corroía por dentro e Lysandre lhe lançava um olhar gelado. No dia seguinte, acabei ouvindo Alexy contando a Lana sobre algo entre Lynn e Armin. Aquilo me enfureceu, eu tentei convencer a mim mesmo que não havia acontecido nada entre eles, mas havia! E ela, ela gostava de todos, menos de mim. Eu havia me tornado amigo dela, havia enfrentado minha mãe na frente dela e por ela! Não poderia aceitar essa rejeição.
Numa noite na casa de Kentin, depois que tomei banho, desci para a cozinha para organizar meus pensamentos. Eu tinha que falar com Lynn, mas não tinha ideia do que falar ou de como falar. Só sei que estava confuso, zangado e frustrado. Lynn entrou na cozinha com cara de sono, nem ao menos notou minha presença. Agarrei seu braço bruscamente, a mesma tomou um susto. As palavras de frustração fluíram na hora, junto com a conclusão do que eu sentia.
– O que está fazendo? – interrogou ela puxando o braço pra si.
– Por que você gosta de todos eles, menos de mim? Por que me odeia tanto?
– Do que está falando? Me solta!
– Você viaja com o Armin, fica se escondendo na biblioteca com o Lysandre, fica na banheira com o Kentin, BEIJA o Alexy, e a mim você só despreza. Por que você me odeia tanto?
– Você me ouviu dizer que te odeio? – ela resmungou.
– Fale alto! Acha que eu vim aqui para ouvir você resmungando?
– Quem você pensa que é? O papa? Pra quê tanta marra?
Foi a hora que eu perdi a paciência e a sanidade. Tentei beijá-la, mas ela não deu moleza. Me empurrou e virou o rosto.
– Ficou maluco? Por que está fazendo isso?
– GOSTO DE VOCÊ! – quase gritei, e tentei desesperadamente unir meus lábios aos dela. Com toda certeza ela não sabia como aquela rejeição me corroía por dentro.
Um taco de beisebol encostou em meu peito, me empurrando para trás levemente.
– Não, você não gosta da minha irmã. E se não quer levar um sacode, sugiro que não chegue perto dela.
E acabou que as coisas ficaram piores. Lynn e Kentin zangados comigo, rejeição, insônia e o pior: Kentin foi dormir no mesmo quarto que Lynn. Se ele fazia na banheira o que ele dizia fazer, imagina o que ele faria no quarto sozinho com ela? Melhor ainda: o que será que eles faziam nessa casa sozinhos? Depois desse dia, Kentin era novamente meu rival no amor.
Os dias seguintes foram de totais decepções. Depois de conseguir achar o quarto de hotel do qual Lynn estava desmaiada ao lado de um cara nas fotos, me pus a chorar naquele local. Ao secar as lágrimas, vi o espelho manchado por batom vermelho.
– Eu sinto muito por você, Castiel. Mas a Lynn não é garota para você. – uma mulher adentrou no quarto, retirando uma peruca escura da cabeça e revelando cabelos ruivos. – Eu sei que você estava começando a gostar dela. Mas eu não poderia permitir isso.
– O que está fazendo aqui? – lembrava daquela menina. Foi a garota que manchou meu sapato de sorvete, o que acabou resultando em uma rasteira e uma casquinha na cabeça.
– Fui eu. – confessou ela. – Fui eu! Eu fiz isso por você.
– Você foi a responsável pelas fotos?! – arregalei os olhos. – Você não era amiga dela?! Como pôde fazer isso?
Houve um silêncio no local, lágrimas escorreram por seus olhos, ela aproximou-se de mim. Me olhou nos olhos e se pôs a falar:
– Foi quando éramos pequenos. – explicou. – Eu confessei meus sentimentos e você disse que eu era a menina mais feia do mundo. – tentou sorrir ela, em meio de lágrimas. – Por isso eu fui para a Inglaterra e mudei, fiquei linda para voltar e te conquistar.
– Sinto muito. – foi só o que eu disse, arrependido. Mesmo assim só pensava em como poderia me desculpar com Lynn.
– Sinto muito? – ela arqueou as sobrancelhas, incrédula. – Só isso? É isso que você diz a alguém depois que rejeita os sentimentos dela?
Virei de costas, sem responder. Ia em direção a porta, pois pretendia correr o máximo possível para me desculpar com Lynn. A ruiva me agarrou por trás, o som sonoro do seu choro ecoava pelo quarto.
– Por favor, não vá. Eu não posso passar por isso novamente.
– Sinto muito. –repeti, tirando suas mãos de mim.
Mas meu pré-julgamento custou caro para Lynn. Eu tive vontade de implorar seu perdão, mas ela era tão chata que eu desisti de fazer isso.
– Você poderia me agradecer.
– Fez mais do que a sua obrigação, seu palhaço! Por sua culpa. – ela apontou para mim. – Isso aconteceu comigo. – e logo após para seus machucados.
– Não mesmo! Isso aconteceu por que você é estúpida! Você vive querendo bancar a durona, a forte, quando na verdade não é! Odeio pessoas que mentem para si mesmas.
– E eu odeio meninos mesquinhos que pagam de machões e pintam o cabelo com tinta guache.
Fiz cara feia, mas essa se desfez quando eu passei a observá-la. Ela estava de roupão, e meus olhos pararam em sua boca. Não queria que o ocorrido na casa dela se repetisse. E ela estava machucada por minha culpa, se fizesse algo, nunca conseguiria me perdoar.
– Se limpe sozinha.
– Hei Castiel! Não vai contar quem armou para mim?
Fingi não ouvir. Mas senti que saber que uma amiga dela tinha feito isso por minha causa, a magoaria muito. Lynn tinha todos os motivos do mundo para me odiar. Mas ela não me odiava, não tanto quanto deveria. Não queria destruir nossos laços. Estávamos nos dando bem. E eu sentia que estava gostando dela.
Por mais que fosse duro para mim, tentei me afastar por uns tempos. Lynn não era tão tonta assim, ela não iria esquecer tudo o que aconteceu. Entretanto, poderia ficar menos zangada comigo.
Houve um dia no telhado, depois do fiasco na casa de Lynn. Ela falou comigo, parecia outra pessoa tentando sorrir, mas parecia estar menos insensível comigo. Eu tentei falar de minhas frustrações, mas ela me cortou, não me deixou falar nem metade. E claro que eu me aborreci com aquilo, mas ela realmente me surpreendeu. Surpreendeu-me positivamente.
– Calado. Eu não gosto de você...
– Que necessidade é essa que você tem de passar as coisas na cara dos outros? Você é a pessoa mais...
Dessa vez ela não havia me interrompido com um tapa no rosto ou com um simples “calado”. Havia me interrompido com um beijo do qual eu nunca esquecia e logo após disse que queria tentar algo comigo. Aquilo me deixou tão alegre que meu coração saltava e dava revira-voltas dentro do peito.
Felicidade é algo momentâneo, e o que veio em seguida confirma isso. Soube de Lysandre e soube de Armin, meus próprios amigos me traindo. Eu sentia ciúmes quando eles estavam perto da Lynn, mas nunca imaginei mesmo que eles fossem capazes de fazerem isso comigo.
Descobri quando Armin havia ido ao banheiro e deixado o celular em cima da mesa da sala do F4. Eu já havia visto a senha de seu celular uma vez, e ao testá-la, vi que continuava a mesma. Eu sabia da velha mania que Armin tinha em registrar em foto quando beijava alguma menina, mesmo que não fosse para se vangloriar depois.
– Que droga é essa?! – quase que esfreguei o celular na cara dele quando voltou.
– Eu beijando uma garota. – ele deu de ombros, quase que debochando de mim. – Não se preocupa não, que eu não quero ser o namorado dela.
– Você está usando a Lynn?!
– “Usando” nada. – Armin fez careta. – Castiel, cai na real que não é só você que está interessado na Lynn.
– O Kentin também está? – arregalei os olhos. Claro, aquele pervertido!
– Bom, disso eu não sei. – ele prosseguiu. – Mas já o Lysandre...
– Não quero que dirija a palavra a mim! – exclamei, virando-me de costas. – Nem você e nem ele! Não quero mais falar com nenhum dos dois.
– Ah, qual é cara? Vai deixar de ser meu amigo por causa de uma garota? – ele tocou meu ombro, logo o soltou, mudando o tom de voz. Parecia ter mudado de ideia. – Pois vai, vai lá! Eu pensava que você fosse idiota por brigar com o Kentin por causa da Angela. Agora eu vejo que você é idiota ao quadrado.
Ele estava certo, e o arrependimento tomou conta de mim. Mas não pedi desculpas para não parecer tão fraco assim. Tentei continuar a me comportar normalmente, mesmo que aquela foto estivesse pregado em minha cabeça. Aquele sentimento por Lynn parecia ser tão resistente, mas foi desmoronando como um castelo de areia. Talvez eu só precisasse esquecer um pouco. Mas quando eu dei por mim, Debrah havia voltado para a escola. E por mais que eu a odiasse, acabei meio que ficando a seu lado. Além de estar magoado com Lynn, vi que ela estava comprando uma briga que não era dela. Algo que eu odiava em Lynn era essa mania de procurar briga. Mas por estar tão cego pela mágoa, acabei piorando as coisas, até omitindo verdades.
– Eu ouvi coisas desagradáveis ao seu respeito, Lynn. – cruzei os braços. – Céus! Como você pôde sair falando mal da Debrah daquele jeito?
– Não preciso difamar a imagem dela, ela mesma faz isso!
– Do que está falando? Debrah é gentil! – foi o primeiro fato omitido. Ela fingia ser gentil. – Você deveria dar uma boa olhada no que você fala sobre as pessoas. Ela chegou aqui não faz nem quatro dias e você sai falando mal dela como se ela fosse uma vadia.
– E você devia dar uma boa olhada em si mesmo! Você gosta de mim? Estou vendo como gosta de mim, seu ridículo! Castiel, a cada dia que passa você consegue me provar que é a pessoa mais idiota desse mundo. Você que escolhe se acredita nas pessoas que estavam dizendo que eu falei mal dela. Lembra-se quando brigamos e eu joguei sorvete em você? Naquele dia você me disse que eu tinha o defeito de ser intrometida e ficava tomando as dores pelos outros. O que você está fazendo agora? No seu caso, ficar se metendo nos assuntos dos outros é ser hipócrita! Aliás, hipócrita eu já sabia que você era há muito tempo! Você veio tomar as dores por causa de boatos estúpidos! E se eu estivesse mesmo falando mal dela, o que iria adiantar VOCÊ vir querer tirar satisfação? Se ela coloca pessoas à frente dela para resolver os próprios problemas, que tipo de mulher ela é?
A cada palavra era uma rachadura que se formava em meu coração. Depois daquilo, eu estava acabado. Mas quando Debrah veio tentar me convencer a ajudá-la, eu tive forças para resistir. Por mais que eu não quisesse acreditar que meu primeiro beijo foi com uma farsa, eu ainda consegui ter forças para tentar tira-la de tempo.
– Não, eu não irei com você. – recusei. – Eu sei o que aconteceu e eu não sinto mais nada quando te vejo. E mesmo que quisesse ir, eu tenho motivos para ficar. Não que você queira saber, mas acho que gosto da Lynn.
– Sério mesmo, gatinho? – ela perguntou sorridente, nem ao menos entendi o motivo de seu riso.
– Eu tenho quase certeza... – ele encarou o chão. – E ainda tenho umas coisas para resolver, como aquilo da...
– Está falando da Lynn? – ele confirmou com a cabeça. – Você não deve satisfações a ela.
Por um momento eu cheguei a concordar com a cabeça. Eu não devia satisfações a Lynn, mas mesmo assim ainda queria remendar as coisas com ela. Ela parecia uma garota que valia tanto a pena. Até estranhei o tom de voz que Debrah usou naquela conversa depois que eu disse que gostava da Lynn. Assim que eu assenti com a cabeça, ela segurou em meus ombros e me beijou. Depois de segundos, tudo fez sentido.
– O que vocês estão fazendo aqui? – perguntei assustado.
Lynn e Lysandre estavam parados na porta, ele estava tapando os olhos dela. E quando repousou suas mãos nos pequenos ombros de Lynn, pude ver as lágrimas em seus olhos. Aquilo tudo partiu meu coração mais do que estava partido.
– Você fez de propósito. – Lysandre acusou Debrah, logo me encarou totalmente zangado. – Castiel, temos que conversar. Temos que conversar muito.
Eu não vi Lynn por uns dias, e quando a via andar, ela fingia não me ver e saia andando rapidamente. Acabou que Lysandre e eu conversamos mesmo, uma conversa tão dura e que atiçou tanto minha raiva, que naquele momento, Lysandre estava pior que Kentin.
– Eu sempre fui uma pessoa muito educada, e você sabe muito bem disso. Eu sempre tentei respeitar ao máximo você e todos os membros do F4. Entretanto... – ele pausou para respirar. – Você é muito burro!
– Eu sou burro por quê? – perguntei ofendido.
– Você ficou contra a Lynn e ao lado de uma garota que destruiu você. Ou você não lembra? – bradou ele. – Quer que eu traga meu irmão aqui para lembrá-lo o que a Debrah fez? Quer que eu traga a sua irmã?
– Você! – apontei para ele. – Você deveria lacrar muito bem essa sua boca imunda para não falar tantas bobagens!
– Não estou falando bobagens! Você disse gostar da Lynn, mas depois fez isso! Você é um falso!
– Falso? Eu? – umedeci os lábios, totalmente indignado. – Eu tentei de todas as formas tentar concertar a má impressão que eu passei a Lynn. Tentei aos poucos me aproximar dela. Mas aí o que aconteceu? Você e o Armin chegaram para atrapalhar! – urrei. – E você sabia que eu gostava dela. Diga-me quem é falso aqui?! Diga-me quem é mesmo meu amigo? Não estou vendo mais ninguém do meu lado.
– Eu não sabia. – Lysandre disse isso e permaneceu alguns segundos em silêncio. – Eu não entendo. Você odiava a Lynn por ela ter, supostamente, deixado todos contra você. Como passou a gostar dela se a odiava tanto?
– Porque ela é meu problema e a minha solução. – com isso calei Lysandre, mas ainda quis encerrar a discussão. – Talvez eu não goste tanto assim do F4.
Talvez estivesse mesmo na hora de ir embora. O F4 estava rachado, a garota que eu gostava me odiava. Meu pai ainda estava internado e havia me usado como rato de laboratório. Minha mãe estava dispersa como fumaça e minha irmã não podia fazer nada por mim. Qual motivo eu tinha para ficar? Eu pensei seriamente ir embora, não com Debrah. Pensei em apenas ir.
Fui ao telhado para tentar por os pensamentos no lugar, mas Debrah não permitiu, me seguiu para bagunçar minha cabeça novamente.
– O que você quer? – perguntei rude.
– Nossa. – ela sorriu sarcástica. – Eu não te dei limão para você fazer essa cara para mim.
– O que você quer? – repeti.
– Quero apenas mostrar umas coisinhas. – encerrando a frase, ela moveu os dedos pelo celular. – Queria compartilhar as fotos que Nina tirou da sua amada Lynn. – sorriu ela. – Também quero que veja como a Lynn “se importa” com você e como seus amigos são tão “verdadeiros”. – ela virou o celular para mim. – Essa aqui é dela com o Alexy, Lysandre, Lysandre, Lysandre. – repetiu ela assim que passava as fotos. – Armin, Armin. E essa aqui bem suspeita dela com o Kentin.
– Como conseguiu tudo isso? – perguntei retendo as lágrimas.
– Foi a Nina quem me passou. Só não sei o porquê dela seguia a Lynn. – Debrah deu de ombros.
– Castiel! – Lynn gritou furiosa. Naquele momento a ultima coisa que eu queria era vê-la. Estava muito zangado com tudo aquilo que Debrah me mostrara.
– O que?! O que faz aqui? O que você quer?
– Você vai embora?
– E o que você tem a ver com isso? – Debrah provocou, respondendo por mim.
– Olha aqui, sua piranha! Você não se mete não. Dessa vez não vai ser a Lana quem vai bater em você, serei eu! E eu não darei um simples tapa em você, pode crer.
– Escuta aqui! Já não basta tudo que você fez! Você fez uma confusão toda por causa da Debrah, até aquela menina bateu nela! Se você acha que eu ficarei tolerando isso, está muito enganada.
– Castiel, ela está mentindo, você não vê? Ela só quer que você vá para dar estabilidade a ela, depois ela vai te descartar de novo. Eu gosto de você. Não vá!
Eu me enchi de ódio, ela com certeza estava mentindo. Se gostava de mim, por que tinha beijado todos os meus amigos? Pelo tempo que passei em silêncio, foi o tempo em que o amor e o ódio travavam uma guerra dentro de mim. Quando dei por mim, o ódio havia vencido e eu já estava falando.
– Saia daqui.
– Castiel, por favor. Acredite em mim.
– Saia daqui! Nunca mais fale comigo, nunca mais se aproxime de mim e das pessoas que eu gosto. SAIA!
Depois disso eu não tive mais noticias sobre Lynn por um tempo. Fiquei sabendo do acidente e tentei visitá-la, mas Kentin me proibiu de pisar os pés na casa dele. Por isso eu acabei procurando a bruxa magrela. Ela estava com o braço imobilizado, por isso eu havia concluído que eles estavam juntos.
– Como aconteceu? A Lynn está bem? – perguntei.
– Por que não vai à casa dela se está tão curioso? – ela sugeriu, com uma pontada de arrogância no final.
– Porque o Kentin não me deixa ir para lá! – expliquei.
– Eu também não deixaria. – ela arqueou a sobrancelha. – O Kentin quis tirar a Lynn de casa porque ela estava deprimida por sua culpa. Sendo assim, com uma pequena analise, concluímos que por sua causa a Lynn quase morreu.
Por isso que o remorso bateu. Eu havia decidido definitivamente que iria ficar para tentar concertar alguma coisa. Mesmo que fosse embora, não queria deixá-la magoada com tudo o que eu disse. Eu tentei, tentei de coração. Até levei ela, Lana e o F4 para Madagascar. Talvez um ambiente bonito me ajudasse a progredir. Lynn havia dado uma chance para mim naquele dia quando me beijou, ela tentou. Eu não tentei, eu joguei fora. E quando percebi, foi um erro levá-la para lá. Lysandre novamente sofreu por causa do loiro maconheiro. Não só ele, Lynn novamente pagou o preço pelas minhas burradas. Saiu completamente machucada.
E no dia em que eu quis pedir perdão, me ajoelhar em seus pés e chorar...
– Eu sinto muito.
– Você já disse isso.
– Não é por isso. Eu sinto muito por abandonar você. Eu fiquei sem saber o que fazer quando eu descobri, por isso não fui mais para sua casa. Sinto muito.
– Quem contou?
– Quem contou?! E por que você não contou? Quase todos estavam sabendo. Você não confiou em mim?
– E por acaso você confiou? Por que não falou sobre esse garoto e o que havia acontecido?
– Porque você estava ocupada demais com o Castiel.
A ultima resposta foi firme, e fez meu coração despedaçar. A culpa era minha? Quem estava
“disputando” eram eles, então por que a culpa tinha que ser minha?
– Não foi minha culpa, o Castiel me arrastou.
– Por isso que eu sinto muito. Eu deixei você nos cuidados do seu irmão e do Castiel. Não sei se você sabe, mas o Kentin anda passando o dia com umas meninas da ilha. Ele nem sequer teve a preocupação de conversar com você sobre o que se passava na ilha. Mas depois que aconteceu aquilo com o Dakota, ele achou que tinha razão para vir gritar comigo. Acha isso justo? E é por isso que eu sinto muito. Se eu tivesse feito algo... Isso não teria acontecido. Sinto muito.
Todo meu esforço, minha força de vontade e meu amor foram postos naquela tentativa desesperada de ter Lynn de volta. Mas tudo que eu ganhei foi ouvir um "sinto muito" e ver Lysandre beijando a minha garota. Eu bati em Lynn, em Lysandre e Kentin apareceu das profundezas do desespero para bater em mim e ameaçar Lysandre. Além disso, depois recebi uma tremenda surra pelas palavras de Lynn:
– E você, você é o mais patético de todos. Além de patético, é covarde por querer bater em mulheres. Aliás, eu não me surpreendo tanto. Se não fosse por mim, você teria batido na Debrah. Acha-se tão valente para bater em mulheres, mas leva uma surra de qualquer homem. Na escola, vários alunos têm medo de você. Mal eles sabem que o “grande” Castiel é só uma criança mimada e medrosa. Pagar de machão não te faz homem, bater em mulheres, muito menos. E se acha que vai conseguir me convencer a ser sua namorada ou qualquer coisa do gênero, pense novamente. Pense novamente e desista. Perdedor!
E foi nesse dia que eu jurei a mim mesmo que Lynn não era mais nada para mim. Engraçado que eu sempre sentia mais raiva dela do que de um dos meninos do F4. Ela veio, ela causou problemas. Se não fosse por ela, nada disso estaria acontecendo. Todos nós estaríamos vivendo normalmente. E eu teria que me acostumar a ver meus "amigos" indo embora. O F4 estava quebrado, mas eu aind sentia raiva. Sentia tanta raiva que quis brigar com unhas e dentes, não por Lynn e sim pela minha honra de volta.
– SILÊNCIO! – Rosalya berrou novamente. – Tsc! Desde moleque é a mesma coisa. Eu já disse uma vez, já disse duas vezes, já disse três vezes: eu chamo o Lysandre porque ele não mente.
Mas minha "belíssima" irmã não permitiu isso. Desta vez eu me via como certo, não importava o que ela falasse para mim. Aquilo já tinha sido a gota d'água, não dava mais para suportar. Pelo menos
Angela estava lá, e mesmo que meu peito não se aquecesse com a presença dela, eu sabia que pelo menos tinha alguém a quem amar novamente. Mesmo que fosse errado, já que agora ela era comprometida.
Lysandre foi embora e eu vi de vez que o F4 não tinha mais jeito. Não havia volta, não havia remédio, não tinha esperança, não havia mais nada. E eu não senti remorso por ter feito com Lysandre o que eu fiz. Ele errou, ele mereceu minha fúria. Eu não sentia muito pela morte do pai dele, eu sei que ele era tão verme quanto meu pai. Como disse antes, eu só precisaria aceitar e viver com isso.
Não tive mais contato com Lysandre, Kentin, Lana e Lynn. Só com Armin e Alexy de vez em quando. Mas Angela ainda estava lá, mesmo que minha irmã não estivesse. Ela estava triste, disse que queria se afastar das coisas cansativas e queria relaxar para colocar a cabeça no lugar e tomar algumas decisões importantes. Um dia, sentada em sua cama, ela me olhou com o olhar fadigado. Até mesmo tentou estampar no rosto uma expressão mais leve que não deixasse clara toda a tensão que pairava em seus ombros.
– Estou grávida.
– Como disse?!
– Ele quem quis, mas andei repensando muito esses dias. – coçou a cabeça, segurando as lágrimas. – Não tem como. Eu vi que o relacionamento em si era só por aparência. E não dá… – pausou ela, já soluçando. – Não tem como colocar um filho no mundo se vai viver em uma família sem amor. Isso é cruel, é ruim.
– E o que você vai fazer?
– Eu não sei.
Inicialmente eu tentei apenas consolar Angela, mas não tinha como não sentir aquele sentimento platônico. Eu poderia enganar todas as pessoas do mundo, menos eu mesmo. Eu gostava da Angela, sempre gostei e sempre irei gostar. Por mais que seja difícil estar ao lado dela enfrentando os obstáculos, era algo que eu poderia conseguir.
Semanas depois eu estava no hospital, encarando minha irmã inconsciente na cama, Angela apertava minha mão enquanto as lágrimas já haviam cansado de rolar pelo meu rosto. Ela estava ferida, ela quase tinha morrido. Isso tudo foi por conta de um bocado de coisas das quais eu não sabia de nada.
Lynn havia se machucado, Lana e Armin também, mas eu não quis ver nenhum deles. Leigh já havia ficado um dia inteiro sem dormir no quarto esperando que Rosalya acordasse. E quando ela acordou e me viu com Angela, fez aquela cara feia que fez quando nos viu juntos de verdade.
Angela agora era uma mulher muito complicada. Ela estava grávida há três semanas, ia romper o noivado com o cara e iria fazer uma interrupção na gravidez para começar tudo de novo. Levantar a carreira e ver o que tinha que fazer da vida. Pelo menos Angela ainda tinha jeito, ao contrário de outra pessoa.
Entretanto não havia muito apoio na decisão de eu e Angela formarmos um casal. Quando Rosalya saiu do hospital, brigou com Angela na primeira oportunidade que teve.
– Então tá. – disse Rosalya respirando fundo. – Sabe o que você fez? Você interrompeu a primeira chance que aquela menina teve de namorar o Castiel.
– A Lynn? – perguntei.
– Essa aí. – confirmou Rosalya. – E cala a boca. – completou.
– Eu não fiz nada. – Angela defendeu-se.
– Eu não te culpo pelo Castiel ser burro, só estou dizendo que você não merece ficar com ele como a menina fez por merecer. Não existe menina que mais merece ficar com ele do que a Lynn. Ela levou um tiro para salvar ele. – logo em seguida ela me encarou. – Que outra pessoa faria isso?
Rosalya nem sabia o que estava falando. Colocar o nome da Lynn na conversa foi pretesto. Ela era alguém tão ausente, como sabia se eu e Lynn tínhamos chance de ficar juntos? Foi só uma desculpa para que ela continuasse insistindo que não nos apoiava. Ela dizia que Angela estava tentando me enganar como fez com o filho do presidente, mas eu nunca acreditei nisso. Sei muito bem do que Rosalya é capaz e dizer quando não gosta de algo.
– Rosalya. Já deu! – Angela insistiu.
– Não mesmo. – ela insistiu. – A menina se feriu e está traumatizada. Ela, que fez muito mais do que você, está sofrendo. E você?
– Também estou sofrendo. – Angela insistiu, repousando as mãos na barriga. – As decisões que eu tomei não são fáceis. A situação dela é mais difícil que a minha, mas a minha também é difícil.
– Claro suas decisões não são fáceis. – minha irmã eu um sorriso sarcástico. – Vai lá na Lynn e diz que tudo vai ficar bem para ela como é para você. Diz que ela vai ter uma carreira de sucesso, que ela vai namorar o filho do presidente e trair ele com o primeiro burro que aparecer no caminho. Ela vai ser rica, vai ter carro, um cinturão, um marido, um bebê, e um namorado secreto. – Angela baixou a cabeça. – Ela só tem que olhar para o lado bom.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Eu sabia que tudo o que viria pela frente seria completamente duro. Talvez aquela fosse a hora de ser um homem de verdade. De crescer e contrariar algumas pessoas. Havia um novo rumo para mim, um novo horizonte. Ao lado de Angela ou não, eu iria crescer de qualquer forma. Sem Shapersgreen, sem Sweet Amoris, sem F4 e sem a Lynn.
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