A Órfã Doce

94 Quando o mundo vai embora


Notas iniciais
Oi morangolinas, aqui é a Morangochan :3 Estão vendo? Não demorei mais tanto tempo para atualizar a fanfic. Hoje mesmo eu tenho provas e terei mais dois dias. Torçam para que eu não fique em recuperação, assim eu posso escrever mais para vocês. Sim, de fato a fanfic irá chegar ao fim em poucos capítulos, mas eu já tenho outra pronta para postar. Não, ainda não é a continuação da AOD, mas eu caprichei e ela é muito boa também. Boa leitura :3

Naquele dia, fui visitar Lana no hospital. Ela passou por duas cirurgias e estava internada há uns dias, estava desacordada e fora de perigo. Eu e Kentin, dentre todos que foram para aquela "guerra" fomos os únicos que obtivemos ferimentos leves. Armin já havia recebido alta no hospital, mas ainda não me parecia feliz na ultima vez que o vi. Era lógico, eu também não fiquei alegre quando tomei um tiro.

Chegaram as provas finais e o mês foi terrível porque Castiel teve a brilhante idéia de parar as aulas antes do final do ano quando nos levou a Madagascar. Lembro-me que quando as provas acabaram, eu brindei com Kentin. Ele, por ser um ano mais velho, já havia terminado o colegial enquanto eu ia para o terceiro ano. E quando vi todos os meninos reunidos na sala, achei que fosse para comemorar isso. Mas não era.

Confesso que Kentin estava estranho há alguns dias. Calado, calado demais para seu estado normal.

Ele até passou uma semana inteira sem implicar comigo. E por mais que eu tentasse fazê-lo falar, era perda de tempo. Kentin nunca contava nada sobre ele, mesmo que fosse intrometido o suficiente para querer saber cada passo que eu desse.

Quando os garotos do F4 se reuniram na sala, Kentin me advertiu que era uma conversa entre o grupo e que não me interessava. Claro que ele deve ter dito isso de propósito, ele sabe quão curiosa eu sou e sabe que eu ficaria escondida em qualquer lugar apenas para ouvir a conversa. Fiquei na escada, em um ângulo em que eles não poderiam me ver muito bem, mas eu poderia vê-los e escutá-los o suficiente.

– E o que é que você vai dizer a sua mãe? – perguntou Armin.

– Sei lá. É só dizer que eu quero fazer intercâmbio ou que eu quero morar em outro lugar. – respondeu Castiel. – Se ela questionar é só dizer que quero morar fora como a Rosalya fez na minha idade. Ou que quero fazer uma faculdade fora.

– Mas isso depende onde a Angela vai morar, não depende? – Alexy interrogou, coçando a cabeleira azul.

– Depende sim, por isso ainda estou esperando ela dizer onde vai morar. Só estou treinando alguma desculpa para a minha mãe. Por enquanto eu não posso dizer que vou embora para ficar com ela, mamãe nunca gostou da Angela.

Então era isso. Admito que ainda senti aquele vazio que senti na festa quando vi Castiel e Angela de mãos dadas. Eu sabia que havia algo entre eles. Afinal, o que mais poderia ser?

– Eu também tenho más noticiais. – confessou Alexy, Armin o encarou e logo lançou um olhar triste para o chão.

– Vocês também?! – surpreendeu-se Castiel.

– É. – confirmou Armin. – Por causa da minha perna, meus pais querem que eu e o Alexy voltemos para a Alemanha.

– Parece que é só você quem vai ficar aqui, Kentin. – riu Castiel, tentando quebrar o clima tenso.

– Era só isso que queriam falar? – respondeu Kentin com um tom indiferente na voz.

– Como assim “só”? – intrigou-se Alexy. – Bom... – disse ele se recompondo e cruzando os braços. – Pelo menos você irá ficar e a Lynn não ficará sozinha.

– Então é isso? – provocou Armin, olhando para Castiel que logo captou a mensagem.

– Eu sabia. – riu Castiel. – Você sabe que depois da Angela eu superei os lances que eu tive com a

Lynn. Então acho que posso rir um pouco com isso agora. – cruzou os braços. – Você sabe que todo mundo do F4 já teve alguma coisa com a sua irmã, até mesmo o Alexy que é gay. Todo mundo menos você.

– É claro, seu nojento. – Kentin revirou os olhos. – Ela é minha irmã.

– Que seja. – riu ele. – Você sabe muito bem por que alguns de nós desistimos de ter algo com a Lynn. Eu me sinto completamente correto, porque eu sabia disso desde o dia em que te acusei na sala do F4. Aposto como o Lysandre foi embora por isso. Imagine só, que vergonha.

– Você é muito ridículo. – Kentin retrucou.

Meus pés se moveram quase que involuntariamente, e quando dei por mim, já estava no meio da sala.

– Que motivo foi esse? Que motivo fez o Lysandre ir embora? – meus lábios se moveram e minha voz saiu.

– Castiel! Diga a ela que o que você falou é uma mentira! – ordenou Kentin.

– Eu não. – respondeu o ruivo com um tom debochado, dando de ombros. – Você nunca admitiu, mas nós percebemos. Não fui só eu que percebi. Eles também. – ele apontou para os gêmeos. – E Lysandre também. Ele não voltou por isso, ou você acha que é normal um cara sequer dar as caras no casamento do irmão? – deu ênfase em “casamento” e suspirou no final da frase.

– Você falou muito. – bronqueou Alexy. – Acho melhor irmos embora.

Alexy saiu por estar desconfortável, Armin e Castiel saíram porque queriam deixar o ninho de rato para Kentin resolver. Kentin era duro na queda, nem meu olhar gélido o fez falar, tive que pedir.

– E aí? – o encarei, mas nada respondeu. – Não adianta se calar. Ficarei aqui até você decidir falar.

– Então ta. – ele deu um sorriso debochador. – Vai demorar um pouco.

– Estou falando sério! Você fez alguma coisa para o Lysandre querer ir embora?

– É mentira do Castiel, você ainda acredita nas idiotices que ele fala? – Kentin revirou os olhos.

Andou pela casa com intuito de me fazer desistir daquela discussão, mas eu o acompanhei.

– Eu queria acreditar nas coisas que você fala. Mas além de mentir, você não diz nada sobre si mesmo. – Kentin parou de andar, parecia que estava finalmente disposto a me ouvir. – E ainda quer saber tudo da minha vida, quer ficar me controlando.

– Eu não faço isso. – retrucou ele, virando-se de frente para mim.

– Faz sim. – insisti aumentando o tom de voz. – Deu um tapa na minha cara porque eu beijei o Lysandre, brigou comigo porque eu usei uma blusa mais colada. Isso não é controlar?! – bradei. Ele virou de costas novamente e saiu andando, enquanto isso eu o seguia. – Não me ignore, hei! Não me ignore! Vai ter que me responder!

Quando percebi, levei uma porta na cara. Já havíamos rodado a sala e subido as escadas para as portas dos quartos. Tentei girar a maçaneta para entrar no quarto, mas ele havia passado a tranca na porta.

– Kentin! – trovejei batendo na porta com força. – Abre a porta agora! Eu não terminei de falar e você ainda não falou o que eu queria saber! – a porta abriu, mas se lá saiu um rosto nada contente, um rosto gélido como o olhar que eu possuía há minutos atrás.

– Eu não vou contar nada para você. Você nunca foi merecedora disso. – ele disse devagar, mas fixando cada palavra como se martelasse um prego. – Se quer alguém que fale o que você quer saber, vai atrás do Castiel. Se você quer alguém que fale o que você quer ouvir, vai atrás do Lysandre. Eu sou seu irmão, e não um dos seus namoradinhos. E sinceramente, mesmo que não fosse a minha irmã, eu jamais sairia com uma menina como você. Você é venenosa demais.

E ele fechou a porta na minha cara mais uma vez. Demorou demais para que minha raiva retornasse a meu corpo, Kentin havia varrido qualquer sentimento de revolta, deixando-me com a conformação em mãos. Vim sentir raiva depois, quando era tarde demais para tentar descontar tudo nele. Eu fiquei apenas pensando. Ele deveria estar triste pela partida dos amigos, então eu não deveria ser tão insensível assim. Pensei tanto em Lysandre que esqueci de todo o resto. Os que partiriam também eram meus amigos. Não tanto quanto eram de Kentin, mas eram meus amigos também! Será que eu não sentiria falta de nenhum deles? Um sentimento até que tentou negar, pensando em Castiel. Mas uma lágrima disse que sim, pensando em Armin e Alexy.

Resolvi que não falaria mais com Kentin naquela noite.

Nem havia notado, mas quando passei pela sala durante a noite, vi a foto do F4 em cima de uma mesinha. A foto que estava no quarto de Kentin junto com a velha armação fundo de garrafa. Aquela foto era tão bonita e alegre. Invejei por um momento, por querer ter tido uma infância como eles.

No dia seguinte eu o abracei, dizendo que sentia muito. Nossas brigas eram sempre assim. Mas depois daquele dia que o F4 veio para minha sala, Kentin andava cabisbaixo e calado. Era muito preocupante vê-lo dessa forma. Pensando bem, eu já tinha vivido com eles o suficiente para sentir falta. A ausência de Lysandre ainda me machucava por dentro, meu coração não havia cicatrizado.

Querendo ou não, havia acontecido muitas coisas entre eu e Castiel, nem todas boas. Entretanto, seriam lembranças difíceis de serem esquecidas. Principalmente por conta da complexidade de nossa relação. Minha amizade com Alexy seria difícil de ser deixada de lado, para mim ele era como a Lana.

E Armin, mesmo que entre nós não houvesse mais do que uma “amizade colorida”, eu dei risadas o suficiente por conta dele e essas risadas também não poderiam ser jogadas de lado. Se em tão pouco tempo eu já me sentia tão vazia, imagina como Kentin deveria se sentir? O que motivou Lysandre a ir embora e não retornar não era mais problema meu. Castiel deveria mesmo estar mentindo, ou apenas provocando uma briga para zoar Kentin.

– Esse é o meu whisky? – perguntou ele quando entrou na cozinha.

– Não, esse é meu whisky. – lambi os lábios, puxando a garrafa para perto de mim. – Eu comprei com o dinheiro que tinha guardado.

Ele riu, sentou-se em uma das cadeiras da mesa, se debruçou sobre a mesma e ficou me observando beber e o olhá-lo de volta.

– Me arrependo de ter te influenciado a beber. – suspirou ele. – Você sequer tem dezoito anos e já está assim.

– E daí? Você também não tem dezoito anos! E acho que já bebia muito antes de eu chegar aqui.

– Bebia. – confessou ele. – Meu fígado é como uma bota velha e o seu é mais como um... Pãozinho.

– Está mesmo sóbrio? – interroguei estreitando os olhos. – Está dizendo tantas idiotices.

– Me dá isso aí. – disse ele, tomando o copo de vidro e a garrafa de mim. Eu não reclamei e nem tentei pegar de volta, apenas encostei a testa na mesa e suspirei. Não havia tomado mais que dois copos. Quando via as pessoas por aí bebendo para esquecer os problemas, tomei a ideia para mim de que bebida servia justamente para isso. Mas pensei como era idiota acreditar nisso. Do que adianta esquecer seus problemas se, quando você acordar e vomitar, eles continuarão ao seu redor?

– Quer sair?

– Um encontro? – debochei.

– Por que não? Não se lembra naquele dia em que ganhou de mim no tiro ao alvo? Você ganhou e ganhou um encontro comigo. E nunca saímos.

– Você só pode estar brincando. – dei uma risada.

– Eu só acho que... – sua voz voltou a ter um tom mais sério, levantei a cabeça para observá-lo. – A gente tem que conversar e começar a acostumar com algumas mudanças. Se sair eu prometo responder o que você perguntar.

– Isso é um truque, não é?

– Não. Estou prometendo de dedo mindinho. – ele estendeu o mindinho, voltando com o sorriso nos lábios. Entrelacei o mindinho com o dele e dei uma pequena risada.

– Quando?

– Eu decidirei ok?

Dois dias depois tia Cristal me ligou, dizendo que Lana tinha acordado. Em menos de meia hora eu estava no hospital para vê-la.

– Que azar, não é Lynn? – ela riu. – Eu vou ter problemas por causa das provas na Sweet Amoris. E ainda vou passar as férias no hospital.

– Eu queria te perguntar como aquilo aconteceu. Como você conseguiu sobreviver até chegar no telhado e como conseguiu atirar. Você nem sabe como a trava da arma funciona, como conseguiu fazer aquilo?

– Foi o Andrew. Ele estava sozinho e me encontrou sozinha. Mas eu acabei me separando facilmente dele. – sua voz estava baixinha, mas o suficiente para que eu compreendesse. – Ele ensinou. Mas eu não acertei nenhum tiro, acho que não me saí muito bem. – brincou.

– Você foi a heroína do dia. – pisquei. – Por mais que não fosse necessário.

– Não? Ela não iria matar você?

Eu hesitei em contar sobre a Nica. Principalmente por conta da situação de Lana naquele momento.

Por mais que estivesse fora de perigo, seu corpo ainda estava fraco. E se a noticia a abalasse demais? Não, definitivamente era melhor deixar em segredo por enquanto e inventar outra coisa para contar. Quando ela estivesse bem, contaria a verdade e pediria desculpas por mentir. Ela entenderia.

– É que ela procurava uma menina e eu não era essa menina. – dei de ombros. – Foi ela quem forjou o diagnostico da minha doença degenerativa. Foi só um engano.

– Ainda fico aliviada por saber que está bem. E bom… – ela mordeu o lábio. – Ela está presa?

– É que... Ela morreu.

– Morreu?! Eu a acertei?

– Não. – a cena de Nica presa e pedindo a morte como solução passou-se lentamente pela minha cabeça, até o som de seu ultimo suspiro ficou completamente gravado em minha mente. – Não mesmo.

– Então. – Lana riu um pouco, com as bochechas ruborizadas. – Eu não quero pense que eu sou patética e nem egoísta, você deve ter sofrido muito naquele prédio. Bem mais do que eu. Mas é que... – ela deu novamente mais uma risada. – O Nathaniel veio aqui e eu queria muito te contar isso.

– O que ele veio fazer aqui? – arqueei a sobrancelha.

– Ele veio esclarecer as coisas! – ela exclamou com um tom de animação na voz. – Todas as coisas que ele fez foi por chantagem da irmã dele. – por um momento ela pareceu estar desconfortável, tanto que sua voz se adaptou a esse desconforto. – Ela quem inventou o boato de que você estava grávida do Kentin. Mas foi só uma desculpa esfarrapada para conseguir gente o suficiente para te linchar na frente da escola. E ela fez o Nathaniel ficar com a Melody só para... – Lana encarou o chão. – Me humilhar. Caso contrário, Ambre lincharia a mim. Ele fez isso para me proteger.

– Você acreditou mesmo nisso?

– Eu quero acreditar. – Lana mordeu o lábio inferior. – Eu gosto muito do Nathaniel, muito mesmo.

Assenti com a cabeça. Mesmo que fosse mentira, Lana queria acreditar em Nathaniel. Perguntei-me um pouco do que o poder do amor é capaz. Mas logo lembrei quantas coisas que Lysandre suportou para continuar nutrindo seus sentimentos por mim. Realmente não foram coisas fáceis de aguentar, mas ele se esforçou para continuar lutando por mim. Acho que o poder do amor é forte mesmo.

– Espero que seja verdade. – esbocei um pequeno sorriso.

– Será que as pessoas da Sweet Amoris vão saber do que aconteceu com a gente? – Lana fez uma careta. – Bom, pelo menos somos amigas do F4. – assenti com a cabeça, ainda incomodada.

– Sabe... O Castiel vai... – mordi o lábio e falei de uma vez. – O Castiel vai embora com a Angela. E

Armin e Alexy também irão embora daqui alguns dias. Eu sinto muito, mas eu queria contar.

Lana ficou muda, até mesmo chorou. Justamente na hora em que a enfermeira apareceu e me pediu

para sair. Fui para casa completamente pensativa. Recebi o resultado das provas pelo correio, havia sido aprovada para o próximo ano. Naquela noite os gêmeos apareceram em minha sala para se despedirem. Ficaram por várias horas no sofá jogando papo fora com uma rodada de margaritas em cima da mesa da sala.

– Isso é sem graça. – queixou-se Armin. – Você até colocou sal na borda da taça e eu não posso beber porque estou tomando antibióticos por causa da perna.

– Pelo menos ainda tem a perna para queixa-se dela. – Kentin deu de ombros.

– Já foram ver a Rosalya? – perguntei aos dois. – Eu tentei entrar no quarto dela, mas a enfermeira disse que só poderia permitir a entrada de parentes.

– Eu fui com o Castiel. – respondeu Alexy. – Ela está mal mesmo. Mas pelo menos eu sei quem atirou no Armin.

Antes que eu pudesse perguntar, Armin cruzou os braços.

– Foi ela mesma quem atirou por acidente. – disse ele emburrado. – A bala atravessou alguém e me acertou.

– A Lana me contou que Andrew a salvou. Como ele está?

– Ele voltou para a Alemanha. – Alexy respondeu sorridente e ruborizado.

– Ele era aquela pessoa do colar que você tinha? – ele apenas assentiu.

Aquele colar foi o que eu achei no jardim da escola no dia do meu aniversário. Era o colar onde tinha escrito duas iniciais “A” com um coração entre elas.

– Alexy. Pode me ajudar a preparar uma segunda rodada? – interrogou Kentin, Alexy assentiu. Os dois saíram da sala, apenas eu e Armin permanecemos. E ele ficou lá, me encarando e dando pequenas risadinhas.

– É engraçado.

– O que é engraçado?

– As coisas que aconteceram. – ele sorriu. – Os lances que o Lysandre teve com você, os lances que o Castiel teve com você.

– E o que tem de engraçado nisso?

– É engraçado como é fácil para as outras pessoas se gostarem tão rapidamente. – ele deu de ombros. – É engraçado também o modo como eu ando, ando e não chego a lugar nenhum. Fiquei com você, com a Lana, com outras garotas e nunca gostei de nenhuma. Mas também nunca tive intenção de namorar mais ninguém. – Armin encarou o teto. – Confesso a você que eu nunca imaginei que a Nica era aquele tipo de garota, mas confesso também que nunca cheguei a gostar dela como gostei da minha namorada da Alemanha. Eu não consigo mais, não sirvo mais para ser namorado de ninguém.

– Você ainda é jovem. Ainda vai ter muita oportunidade para se apaixonar de novo. – dito isso, ele riu um pouco.

– Nossa. Parece até minha mãe falando.

Passaram-se alguns minutos, dava-se para ouvir o barulho do liquidificador soando na cozinha. Armin olhava para o teto enquanto eu encarava sua perna pontilhada e o par de muletas encostadas no sofá.

– A felicidade é um estado momentâneo. Mas eu nunca irei esquecer e sempre irei te agradecer por chegar e mudar as coisas. Por fazer o Castiel, Lysandre e Kentin pessoas felizes. E acho que você também foi feliz fazendo-os felizes. Mesmo que não tivesse esse objetivo. – ele umedeceu os lábios, ainda olhando para o teto. – Quando o F4 se reuniu, era um mais deprimido que o outro. Eu também estava, mas tentei bancar o palhaço para pelo menos amenizar aquele clima de tristeza. A tristeza também é um estado momentâneo, mas ela parece nunca passar. As coisas ruins sempre são assim, não é? Elas demoram a passar como aquelas aulas chatas do Faraize. – ele fez careta, finalmente me encarando. Limpando as lágrimas que escorriam pelo rosto. – Pode se passar cinquenta anos, mas eu sempre vou lembrar-me de você e de tudo o que aconteceu durante o tempo em que você estava aqui.

Aquilo realmente tinha sido algo vindo do coração. Algo raro para Armin que quase nunca abria o coração para expressar seus sentimentos. Não soube como responder, mas depois de alguns segundos que ele terminou de falar, Kentin e Alexy vinham com as margaritas.

– Eu queria te contar um segredo, mas eu sei que o Kentin acabaria comigo se eu contasse. – Armin cochichou.

Eu poderia jogar Kentin contra a parede e perguntá-lo o que havia de tão secreto que eu não poderia saber. Entretanto, ele prometeu que quando fossemos sair eu poderia perguntar o que quisesse.

Então decidi me conter até esse dia. Aparentemente ele estava esperando todos irem embora, o que não fazia tanto sentido. No outro dia foi a vez da despedida de Castiel. Achei que não fosse suportar duas despedidas assim, um dia após o outro. E admito que mesmo que Castiel tivesse sido uma completa peste, eu ainda sentiria sua falta.

– Eu já sei por que vai. – confessei a ele. – Ouvi toda a conversa.

– Não se equivoque tanto. – ele pediu. – Não vou só por isso. Eu já queria ir embora muito antes disso, mas fiquei para resolver umas coisas...

– Comigo?

– Sim. – ele completou de vez. – Mas eu te agradeço por ter me questionado tão rudemente como seu irmão fez.

Kentin estava do meu lado e deu um meio sorriso. O aeroporto estava movimentado, havia barulho em todo lugar. O alto-falante deu o aviso que o vôo de Castiel sairia daqui a minutos.

– Valeu. – disse ele com um sorriso no rosto. – Eu acho que mudei… Pelo menos um pouco. Sinto-me melhor assim, e acho que foi por sua causa que tudo isso aconteceu.

O ruivo me apertou a mão, apertou a mão de Kentin e saiu arrastando a mala pelo chão do aeroporto, indo em direção a loira que acenava se despedindo de mim.

Aquilo era tão estranho. Ver o mundo que eu estava acostumada a viver ir embora era algo esquisito. Mais esquisitas eram as minhas reações. Eu estava tão calma e tão conformada, mas ao mesmo tempo me sentia tão abalada. Um mix de emoções completamente contrarias e difíceis de serem compreendidas. Por isso eu não me agarrei a esperanças de que alguém pudesse me entender, já que nem eu mesma conseguia.

Na mesma noite Kentin saiu comigo. Ele parecia estar tão feliz, estava tão sorridente e radiante. Ele parecia uma maçã vermelha, brilhante e doce. Enquanto eu parecia mais com uma uva passa. Kentin estava falando tanto da vida dele, parecia um sonho virando realidade. Eu estava há mais de um ano e meio morando com meu irmão e não fazia ideia de quem ele era. Saber coisas sobre a vida dele foi algo que eu sempre sonhei em ouvir, mas aquela situação quebrava toda a empolgação que eu deveria estar tendo. Toda aquela felicidade me deixava intrigada. Depois que jantamos em um restaurante bem confortável, andamos até um parquinho próximo ao restaurante. Já era tarde da noite, o salto da minha bota batia na calçada lisa e logo após afundava a cada pisada na areia onde ficavam os brinquedos. Sentei-me em um balanço, ele sentou-se em outro.

– Eu queria te perguntar uma coisa.

– Quer? – ele arqueou a sobrancelha. – Pensei que havia desistido de perguntar. Eu falei muito sobre mim. Era o que você queria, não era?

– Eu quero saber. – elevei a voz, dando sinais de que continuaria a frase. – O motivo pelo qual você está tão feliz. – mordi o lábio inferior, encarando o chão e apertando as correntes do balanço. – Seus amigos foram embora.

– E por que eu ficaria triste? Eles não morreram. – ele deu de ombros, encarando as árvores próximas aos brinquedos. – Eu já sabia que um dia isso aconteceria. É a consequência de crescer e querer obter independência. E já aconteceu antes, já nos separamos uma vez.

– Não estou perguntando por que não está triste. Estou perguntando porque está tão feliz. – meu irmão me encarou com estranheza. – Sente-se feliz porque eles foram embora?

– Você se sente triste? – assenti com a cabeça. – Pois não deveria.

Eu já estava acostumada com aqueles arrodeios que ele fazia para não responder minhas perguntas. Mesmo que ele tivesse prometido e eu pudesse exigir uma explicação, desisti. Deixei de lado porque lembrei-me das coisas que Armin me disse antes de partir. Sim, aquela coisa suspeita

– Então pode responder outra pergunta?

– Bom. – ele suspirou. – Eu prometi responder. Pergunte.

– Que segredo você está escondendo? – ele me encarou incrêdulo. – Antes do F4 se reunir lá em casa você estava estranho. Primeiro ficou triste, agora ficou feliz. Estou começando a suspeitar que isso gira em torno de uma coisa só. Armin me disse que você tinha um segredo. Eu quero que diga o que é. Quero que me diga agora mesmo.