A Órfã Doce
78 O garoto do outro lado da ilha
Notas iniciais

– Se trata de...
– LYNN! – Kentin gritou. – Corre aqui!
Arregalei os olhos, Lysandre abriu passagem e veio correndo logo atrás de mim.
– O que houve? O que houve? – gritei para Kentin que corria mais a frente.
– Um cara está brigando com o Castiel.
– Você não apartou a briga?!
– E eu ia fazer isso sozinho pra apanhar? Acha que eu sou burro ou o que?
Quando chegamos mais perto do mar, estava Castiel e outro garoto brigando. Um garoto forte, sem camisa e bem moreno.
– Você me ouviu?! – o moreno berrou para Castiel.
Castiel respondeu com um soco no cara do garoto.
– Hei! Hei! Para aí! – Kentin gritou empurrando Castiel.
Assim que cheguei para empurrar o outro garoto e apartar a briga, minhas pernas tremeram. O ar me faltou e meus olhos vidraram naquele rapaz.
– Lynn?
– Dajan? É você, Dajan?!
Dajan fez uma coisa típica dele, me deu um abraço forte. E era daqueles abraços que quase me quebram as costelas. Até me lembra um pouco os abraços de Alexy. Assim que ele me soltou, encarou os três garotos do F4.
– Está do lado dele? – Dajan perguntou fazendo referencia a Castiel.
– Somos amigos... – expliquei. – O que houve?
– Meu pai é proprietário de uma parte da ilha, que fica ao lado. Eu estava jogando vôlei com o pessoal e vim buscar a bola. Aparentemente, o seu amiguinho marca território como um cachorro.
Olhei para Castiel com expressão de repreensão.
– Não é nada disso! – Castiel exclamou. – Eu sei muito bem que tipo de gente fica na parte correspondente a você. Você é amigo do surfista, não é?
– Não somos amigos. – Dajan arqueou a sobrancelha. – Ele é só um primo meu de criação, eu nem sequer falo com ele. Só porque ele fica do mesmo lado da ilha que eu, não significa que eu seja como ele.
Lysandre pegou a bola que estava próxima e entregou a Dajan, que agradeceu com um sorriso.
– Enfim. – Dajan respirou profundamente com a bola em mãos. – Foi bom te ver, Lynn.
Dajan deu as costas e foi embora. Pelas caras confusas dos meninos, eu tinha coisas para explicar.
– Conhece esse garoto? Onde o conheceu? – Castiel perguntou tirando a areia do corpo.
– Ah, ele era da escola mi... Ele era da escola onde eu estudava.
Kentin me olhou demonstrando um pouco de surpresa. Aposto como ele achou que eu já tinha contado sobre a escola militar para Castiel ou para Lysandre, mesmo assim, ele não falou nada quando me viu mentir. Apesar de que eu acho que a surpresa de Kentin foi ver que aquele menino era da escola militar. Ele nem deve ter prestado atenção no colar que Dajan tinha no pescoço. Era igual ao que eu e Kentin tínhamos. Aliás, Dajan era um dos irmãos da Califórnia, o mais novo, que me ensinou a jogar poker. O irmão de criação dele se chama Dimitry. Nós éramos bem amigos, mas eles nunca me falaram sobre um primo... No caso, deveria ser primo de Dimitry, que não era muito de falar.
“Um surfista... O que há de errado em um surfista?” – perguntei a mim mesma.
– “E também, por que será que Lysandre ficou desconfortável quando Castiel citou o tal surfista?”.
Depois do almoço, nós fomos para perto do mar. Todos, sem exceção de nenhum. O sol tinha acabado de ser bloqueado por uma nuvem que veio rápida e sem avisar. Até que foi bom, assim poderíamos pelo menos ficar na praia sem que o sol fosse tão quente.
Lana estava debaixo de um guarda-sol, sentada na toalha que estava esticada no chão. Ela se lambuzava de protetor solar. O protetor solar era fator 100. Mas eu sabia o porquê desse exagero. Quando éramos pequenas e fomos para a praia com tia Cristal, Lana se queimou toda e passou duas semanas andando feito um pingüim.
O ultimo lugar que faltava eram as costas, eu já estava praticamente me escondendo de Lana para não ter que passar o protetor solar nela. Por quê? A pessoa mais próxima dela era Armin. Se eu não estivesse por perto, adivinha quem ia passar o protetor solar nas costas dela? Pois é!
Mesmo assim ainda havia insistência da parte dela. Ela não queria que Armin chegasse perto dela. Talvez tivesse vergonha porque Lysandre de vez em quando olhava para os dois. Acho que ser pega por alguém enquanto brigava foi algo bem constrangedor para ela. Quando Lana discute quando não está com raiva, ela fica envergonhada facilmente. Duvido que ela se sinta envergonhada por ter arrancado uma parte do cabelo da Melody.
Lana tentava espalhar o protetor solar nas próprias costas. Na minha visão, parecia até que um homem invisível estava torcendo o braço dela para trás. Parecia ser uma coisa estranha. Eu estava do lado de Kentin, fora do alcance de visão de Lana, até porque acho que ela já estava muito nervosa para sair me procurando.
– Acho que o Nathaniel deu o fora na Lana porque ficou diabético. Que porra de cu doce é esse? – Kentin debochou.
– Ela só é tímida. – questionei.
– Eu sei a diferença de timidez e cu doce. Timidez você perde, cu doce não.
Fiz bico. Talvez Kentin tivesse experiência com garotas. Talvez ele conhecesse manias femininas bem mais que eu, que sou menina.
– Você quer que eu passe? – Armin perguntou.
– Não, obrigada. – Lana respondeu educadamente.
Meia hora se passou enquanto eu e Kentin conversávamos sentados em cima de uma toalha na praia.
– Acho que vai chover. – Kentin olhou para cima.
– É. Também acho. – concordei observando o sol. – Mesmo assim o tempo continua meio abafado.
– Hei Lynn... – Kentin me chamou com um olhar baixo. – O que Lysandre foi fazer no seu quarto na hora que eu cheguei pra te avisar da briga do Castiel?
– Ele foi falar algo comigo. Aliás, ele não conseguiu. Você chegou na hora e atrapalhou tudo. – fiz bico fingindo que estava zangada, ele riu. – O que achou que ele ia fazer no meu quarto? Você é mesmo um pervertido.
– Não tire palavras da minha boca. Em momento algum eu falei isso. – ele retrucou com um sorriso nos lábios.
Lysandre não estava nada feliz. Ele estava na sombra meio distante de todos nós. Fiquei me perguntando que tipo de pessoa fica de camisa na praia. Mesmo que o sol mal aparecesse, ainda dava para tostar a pele de alguém. As nuvens cobriam um pouco o sol, estava parcialmente nublado, digamos. Iria ficar um bronzeado ridículo.
– Você já foi para a praia com Lysandre? – perguntei a Kentin.
– Sim. – ele respondeu. – Acha estranho ele ficar de camisa? – fiz que sim com a cabeça. – Depois que ele fez a tatuagem, ele não nos contou. Foi depois que o F4 se separou e voltou a se unir de novo. Quando viemos pela primeira vez nessa ilha, ele se esqueceu da tatuagem e ficou sem a camisa. Acho que ele se sente mal em relação a essa tatuagem. E acho mais ainda que ele se sente estranho quando falam da tatuagem e eu estou por perto.
– Por que diz isso? – fiz bico. – Vocês são amigos, e além do mais, é só uma tatuagem.
– Meu pai. – ele respondeu.
“E o que é que tem o pai dele?” – perguntei a mim mesma, mas logo ele continuou.
– Ele sempre foi um cara muito conservador. – Kentin fez careta. – Ele sempre me dizia que tatuagem era coisa de vândalo. Ele dizia a mesma coisa quando via Castiel tocando guitarra. Sobre o Castiel, acho que ele não estava errado. Mas sobre Lysandre...
– E qual é o problema? Foi o seu pai quem disse isso. Você não deveria se sentir assim só porque seu pai falou isso.
– Não me sinto mal por isso. Eu me sinto mal porque falei isso pra Lysandre, só que eu não sabia que ele tinha tatuagem.
– Por isso ele não queria mostrar pra você? – arregalei os olhos.
– É, acho que é por isso. Acho que ele se sente incomodado em mostrar a tatuagem para qualquer um. Ele não gostava de uma cicatriz, por isso a fez.
Kentin me explicou que quando eles tomavam banho juntos (o que eu acho uma puta boiolice, mas tudo bem), Lysandre sempre se sentia meio triste quando estava com Kentin. Ele perdeu a mãe em um acidente, assim ele adquiriu a cicatriz e depois fez a tatuagem para cobri-la. Deve ser duro ver alguém falando de uma tatuagem que está ligada a morte de uma pessoa tão querida como uma mãe.
– Hoje em dia eu não penso o mesmo. – Kentin se esticou. – Quando eu olho os meus valores de antigamente, eu analiso e vejo que a maioria não vale mais merda nenhuma pra mim.
É, aquilo se encaixava em mim como uma munição numa arma. Falando em armas...
FLASH BACK ON
– Onde...? Como a conseguiu?
– Estava na escola militar.
Um rifle preto com umas manchas rosa. Foi a minha personalização nele. A mira ainda estava nele junto com um cartucho de balas faltando uma bala.
– Só uma pergunta: atirou em mim com isso? – Kentin parecia bem relaxado em perguntar aquilo. Relaxado demais para quem foi baleado nas costas.
Costumavam a deixar todas as armas com o representante. O representante era sempre o cara que manjava de tudo. Da nossa turma, ele era o responsável por limpas e fazer manutenção nos rifles da turma. A turma não era tão grande, mas aposto como dava trabalho. O que o viado deve ter feito era ter carregado meu rifle com munição de verdade só para me ver tomando no cu. Enfim. Todo rifle tinha o nome do dono na lateral, mas aposto que Kentin nem viu o que estava escrito no meu, ou ele iria tirar sarro com certeza.
– É. Foi sim. – respondi meio sem jeito.
– Por mim, eu jogaria essa arma de cima de um prédio. – ele pausou um pouco. Eu abracei o rifle fazendo uma careta. – Mas a culpa foi do representante, certo? – fiz que sim com a cabeça. Que eu me lembre, já tinha contado isso a ele desde o dia em que conversamos sobre a escola militar. Kentin suspirou e desviou o olhar para a janela. – É um bonito rifle. Meu pai usava um desses.
– Por que o trouxe?
– A “diretora” – ele fez aspas com os dedos, rindo. Aposto como estava debochando porque da ultima vez, eu chamei a diretora assim, mesmo que ela agora fosse a minha avó. – Disse que você adorava esse rifle. Foi o seu pai quem te deu, não foi? – fiz que sim com a cabeça.
Com “pai” ele quis dizer o tio fadinha. Ele tinha me dado aquele rifle no dia em que eu entrei na escola militar. Mas não me deixaram ter posse total sobre ele.
– Me sinto estranha. – sorri.
– Por quê? – Kentin quis saber.
– O mundo é tão grande e ao mesmo tempo, tão pequeno. Eu acabo sendo adotada e meu irmão é um cara em quem eu atirei.
– Não é só você que se sente estranha.
FLASH BACK OF
Naquele dia eu me senti muito feliz por ter minha arma de volta. Para falar a verdade, eu valorizava TUDO que o tio fadinha tinha me dado, tanto que eu ainda usava o anel que ele me deu.
Assim que eu parei de voar pelas lembranças e pousei minha mente no presente, olhei para Lana. Dei um sorriso de orelha a orelha. Na verdade, saiu mais como um sorriso pervertido. Armin estava passando protetor nas costas dela. As amarras do biquíni estavam soltas, apenas com ela segurando a parte da frente do biquíni como se ele fosse cair a qualquer instante. Assim que ele amarrou uma das amarras (a que se amarra na parte das costas), Armin (por algum motivo desconhecido pelo universo) colocou uma parte das amarras na boca enquanto fazia um laço. A boca dele estava próxima do pescoço dela, ela arregalou os olhos e o tom vermelho tomou conta de seu rosto.
Kentin já dava uma risada baixinha enquanto observava o rosto de Lana se transformar em uma pimenta.
– Quer que eu passe nas suas pernas? – Armin perguntando com o protetor solar na mão.
– SAI DAQUI! – Lana o empurrou. Assim que ela se levantou bruscamente, a visão dela veio diretamente para mim.
– Fudeu, Lynn. – Kentin disse. – Corra e salve sua vida.
– Hei, você! – ela gritou apontando para mim. – Por que deixou esse pervertido vim passar protetor solar em mim?
Depois que ela correu durante uns dez minutos atrás de mim, eu consegui despistá-la e me tranquei no quarto.
Fui tomar outro banho. Tinha simplesmente nojo daquela areia da praia, eu ficava me coçando toda. Quando fui mexer na minha mala novamente, encontrei outra coisa.
FLASH BACK ON
– Gostou do meu presente? – Lana perguntou. Estávamos no aeroporto, tínhamos acabado de sair da loja dos biquínis e ainda estávamos indo pegar o avião para Madagascar.
– Foi o punhal, não foi?
– Athame. – ela me corrigiu.
– Se eu quiser, chamo até de faquinha. – brinquei. – Por que me deu aquilo? – perguntei.
– Por precaução, nunca se sabe. – ela suspirou. – Eu também tenho um.
FLASH BACK OF
No quarto onde eu estava, havia três vasos de flores na janela e várias jarás de vidro em cima da cômoda e do criado-mudo. Nem sei o porquê.
Assim que terminei o banho, me deitei na cama. Minutos depois fui escrever algo no diário da médica. Não havia acontecido nada demais comigo naquele dia, tudo ocorreu normalmente. No caso, a minha doença seria dos casos em que demora mais para debilitar o corpo. Mas será que a doença poderia se manifestar e causar o dano inteiro de uma só vez? Talvez fosse pouco provável.
– Que bom... – murmurei enquanto me revirava pela cama. Uma lágrima escorreu e alguém bateu na porta.
– Lynn. Ainda ta jogando Pokémon? Eu molhei a porra do meu PSP, me empresta o seu?
Fui até a porta e abri para Armin. Armin estava com uma cara meio estranha, parecia estar aborrecido.
– Quanto cu doce. – ele resmungou.
– Lana? – ele balançou a cabeça afirmando. – Ela só é tímida.
– Cu doce! – ele insistiu. – Lynn, você sabe que eu tenho uma pegada boa e que beijo bem. Por que diabos essa menina está me rejeitando?!
– Nunca foi rejeitado? – provoquei. – Acostume-se, Armin. Não são todas que caem aos seus pés. – e sobre as “qualidades” que ele citou de si mesmo, preferi não comentar. Apenas deixei para trás e passei por cima de uma forma sutil.
– Não está disponível? – ele deu um sorriso pervertido.
– Castiel está na ilha. O que você acha? – revirei os olhos.
– Isso é um sim? – ele brincou. – Por que está tentando reatar com o Castiel?
– Foi ele quem tentou reatar. – retruquei.
– Mas você dá cabimento. – ele discordou. – Está disponível ou não? Você nem o namora.
– Estou.
– Sério?
– Não.
Armin deu uma risada. Eu o entreguei o PSP e ele me encarou fazendo careta.
– O Castiel é um babaca. Não deveria nem dar cabimento a ele.
– Está tentando fazer o circo pegar fogo? – arqueei a sobrancelha. – Eu também sei muito bem quais são as suas intenções. Só se lembre que você não deve forçar a Lana a ficar com você. E se ela gostar de você e você abandoná-la, eu pego o rifle que eu tenho em casa. Quer que eu diga onde eu vou enfiar esse rifle?
– Hei! – ele exclamou incomodado. – Não precisa ficar me ameaçando! Ela nem ao menos quis me beijar, quanto mais gostar de mim. E se ela ficar comigo, é sabendo que eu não a quero como namorada.
– E então por que faz tanta questão? – retruquei.
– Porque um bom conquistador é assim. – ele sorriu pervertido. – Eu te dou outra chance. Está disponível?
– Tchau, Armin. – revirei os olhos praticamente o expulsando.
Aquele PSP quem tinha me dado foi o próprio Armin. Armin é do tipo de pessoa que quase lambe os jogos que ele tem, normalmente ele só empresta os que ele não gosta tanto assim, mas mesmo assim ainda faz questão de pega-los. Como aconteceu naquele dia na casa de Kentin, quando ele estava com a Angela.
Talvez Armin fosse um caso perdido. Mas não era errado o que ele estava fazendo. Quando eu fiquei com ele, eu não era namorada de Castiel, aliás, nunca fui. Nada do que eu fiz foi errado, e eu nunca fui me jogando nos braços de outros garotos, eles que vieram até mim. Hoje eu me convenço que não há motivos para sentir culpa. Eu não fiz nada de errado. E olhando por outro lado, Castiel também não fez. Ele não me namorava quando beijou a Debrah. Acho que eu tinha que me conformar com aquilo. Por um lado foi bom ele ter beijado ela, assim eu poderia sentir menos culpa e ainda poderia passar isso na cara dele no futuro.
Kentin me contou várias coisas no dia do meu aniversario. No caso, foi como uma parte do presente, já que eu sempre reclamava que ele nunca me contava nada. Uma das coisas que ele me falou, foi que não gostava muito de ficar naquela casa por causa da Miki. Ele contou que Miki tinha um comportamento diferente quando Kentin estava lá. Depois que eu falei com Miki sobre isso, ela justificou dizendo que ficava zangada, porque simplesmente ele levava meninas para lá na maior cara dura.
Ao abrir a porta, olhei para o céu e vi um crepúsculo que havia se formado enquanto eu estava trancada no quarto. Realmente eu passei muito tempo no quarto, mas foi bom repousar. Eu não havia dormido um minuto sequer durante a viagem, que durou mais de quinze horas.
Fechei a porta e a tranquei com a chave que tinha recebido. Ao descer as escadas, vi Alexy abaixado procurando alguma coisa no chão. Com a bunda inteiramente virada para cima. Mas o problema não era a posição em que ele se encontrava, era a sunga que parecia mais com um biquíni fio dental.
– Hei, Lynn! – Alexy exclamou quando me viu. – Você viu meu colar?
– Colar?
– É uma corrente presa a um anel, você não viu?
Justamente o colar que eu achei no chão no dia do meu aniversario.
– Eu vi um assim na escola. – relembrei. – Sinto muito, não sabia que era seu.
– Naquele dia eu o peguei. Eu o trouxe para cá e perdi na praia. Poderia me ajudar a achar?
Se ele perdeu na praia, seria quase impossível de encontrar. Como seria possível achar um colar no meio daquela areia toda? Mesmo assim ainda concordei com a cabeça.
– Por onde você andou?
– Eu estava jogando vôlei com os garotos no outro lado da ilha. Lá tem muitos meninos bonitos. – ele piscou para mim. – É cada bunda que...
– A-acha que podemos ir para lá? – o cortei.
– Como assim? – Alexy fez bico. – Eu passei a tarde toda lá.
– É que... Um garoto veio buscar uma bola aqui e o Castiel...
– Eu sei o que aconteceu, o Dajan me contou. A propósito, ele comentou algo sobre você. – Alexy fez uma cara pervertida. – Sobre você estar gostosa.
– Hei! Dajan não falaria essas coisas!
– É, de fato ele não falou. – Alexy levantou o indicador para começar a inventar uma desculpa. – Mas foi quase isso.
Passamos quase uma hora andando pela praia procurando pelo maldito colar. Quando anoiteceu, eu perdi minhas esperanças. E Alexy também.
– Que droga... – Alexy olhou para o chão. – Significava muito para mim...
“Se significava, por que o cordão estava quebrado e abandonado no chão do jardim da escola?”. – pensei.
– Hei, azulado. Achei isso.
Era Dajan. O que era estranho era que ele estava do nosso lado da ilha. Mas não parecia se importar. Além de vir, ele trouxe o colar de Alexy. Como ele havia achado?
FLASH BACK ON
Havia uma parte da praia da cidade que era interditada para os banhistas. Essa parte da praia pertencia à escola militar. De vez em quando, nós fazíamos treinamentos por lá. Nesse dia, nós fomos justamente no dia que estava havendo uma campanha ambiental. A escola militar era uma das principais patrocinadoras dessa campanha. Mas naquele dia, era só um dia de treinamento normal. No final do treinamento, Dajan veio até mim.
– Lynn! Olha só o que me deram. – Dajan veio correndo na minha direção com uma bolsa enorme.
– É algo legal? – perguntei curiosa.
Era um detector de metais. Nós achamos muitas coisas interessantes na praia. Até uma aliança de ouro. Eu queria ficar com ela, mas Dajan me convenceu de que ela realmente tinha dono e que deveríamos deixar aquilo na mão dos adultos e deixá-los resolver. Engraçado mencionar isso, vi essa aliança na mão da diretora no dia do meu aniversário.
FLASH BACK ON
– Azulado? Tsc! Você não decora mesmo o nome dos outros. – Alexy fez careta. – Obrigado. Como achou?
– Eu tenho um detector de metais.
– Ganhou na escola militar? – Alexy perguntou. De fato, já deveria saber que eu e Dajan éramos da mesma turma.
– Digamos que eu não ganhei...
“Ele pegou escondido”.
– Enfim. Aqui está. E é melhor eu sair antes que a princesa Ariel venha discutir comigo. – com “princesa Ariel”, Dajan se referiu a Castiel.
Assim que Dajan sumiu da nossa vista, me virei para Alexy disposta a perguntar algumas coisas. Primeiro: por que essa violência toda para com o pessoal do outro lado da ilha? Segundo: quem era o tal surfista e qual o problema do pessoal de lá?
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