A Órfã Doce
13 Lembranças
Notas iniciais

— A irmã dele fez isso? Nossa, que maluca!
— Bom, acho que cometi um erro em agir daquela forma. Era só a irmã do Castiel, ela não faria nada. — lamentei-me. — A essa altura do campeonato algum dos garotos já devem saber sobre a escola militar. Com certeza esse tipo de notícia é digna da TV da cantina.
— Mas por que esconder isso com tanto esforço? — indagou a bruxa.
— Mesmo que Kentin também tenha ido, eu não faço parte do F4. Eu sei que vou ser discriminada. Vão achar que sou delinquente.
— A escolha é sua. — ela deu de ombros. — Eu já fui discriminada por ser bruxa também. Tem sempre alguém que te aceita, não importa os segredos que você guarde. — Lana sorriu gentil e soltou um suspiro. — Ah, Lynn. Eu pensei que você era tão confiante, mas está tão insegura ultimamente. Se reprime tanto por medo do que as pessoas vão achar de você.
Por mais que fossem gentis, as palavras de Lana me acertaram em cheio. Era tão impossível ser confiante num lugar novo. Pelo menos para mim. Era difícil ser confiante em uma família nova, sabendo dos riscos de ser mandada para o orfanato novamente. Quando passei pela família dos tailandeses, achei que nada pior poderia vir a frente. Por isso tentei ter mais forças. E uma criança pensar assim é algo tão triste. Depois de passar tantos anos na escola militar, sair de lá e ir para a Sweet Amoris de uma hora para a outra foi muito repentino. Deixar conhecidos — dos quais tive problemas para me familiarizar — e ir para um lugar cheio de gente desconhecida era fogo. Ainda mais porque fui recebida com barbares. Querendo admitir ou não, as brincadeirinhas de Castiel me afetaram de uma maneira que eu simplesmente não conseguia parar de ligar para meu segredo da escola militar.
A noite, quando fui voltando para casa, encontrei Kentin de frente a um cartaz que anunciava uma luta num canal de TV a cabo.
— Você gosta de boxe feminino? — indaguei ao garoto que nem havia notado minha presença. O cartaz parecia estar o hipnotizando.
— Sim.
— Sempre admirei essa lutadora. — sorri gentil apontando para Ângela, a filha do tailandês rico. — Aposto como você deve conhece-la para estar olhando este cartaz com esse olhar de peixe morto.
— Eu a conheço mesmo. — afirmou ele empinando o nariz.
— Eu estava brincando! — exclamei surpresa. Claro que ele poderia estar mentindo, mas se ele dizia com tanta confiança... — Vocês do F4 devem conhecer até o próprio Batman.
— O que me admira é você saber quem é esta mulher. — provocou o garoto. — Por mais que ela seja famosa, claro.
— Acha que eu não conheço nada, é? — fiz bico.
— Sou responsável pelo o que digo. — afirmou ele. — E não pelo o que as pessoas entendem.
Kentin foi um dos que me deu uma mão em meio das brincadeiras de mal gosto de Castiel. E foi exatamente por isso que tive a mínima consideração de mudar de assunto para não me irritar com pouca coisa.
— Está de passagem? — perguntei.
— Por quê?
— Porque nunca te vi por aqui.
— E você vem sempre aqui?
— Sim. Moro num prédio aqui perto.
— Ah. — disse ele com desdém. — Pode ir para casa então.
— Ir para casa é o de menos. Não tem ninguém me esperando por lá. — dei de ombros. Na verdade ir para casa era fundamental, porque a medida que ficava mais tarde, as ruas se tornavam mais perigosas. Entretanto, fiquei tão curiosa com o modo que Kentin olhava para o cartaz da luta de Ângela que não me importei em ficar um pouco mais para interroga-lo. — Você conhece Ângela pessoalmente?
— Por que a pergunta?
— Nossa, que saco! — exclamei impaciente. — Que enrolão você é! Você a conhece pessoalmente ou não?
— E como está tirando esse tipo de conclusão?
— Porque você parecia conhece-la, só isso. — dei de ombros. — Nossa, como eu sou mestra em adivinhação. Você a conhece mesmo!
— A Ângela era amiga da Rosalya quando as duas frequentavam a mesma escola militar. Eu a conheci por meio da Rosalya, mas houve um dia em que ela brigou com a mãe e simplesmente parou de vir. Depois disso a Ângela só apareceu mais uma unica vez. — Kentin suspirou e fechou os olhos. Depois que os abriu, seu olhar que se direcionava as estrelas parecia estar a anos luz dali. — Fiquei tão pensativo. Soube que ela viria para cá, mas que houve um imprevisto. Queria vê-la, já faz tanto tempo que não nos vemos.
— Se conhecer o Superman pode apresenta-lo para mim?
Kentin deu uma risadinha. Me senti um pouco tocada, seu olhar expressava tanta saudade e melancolia. Senti a necessidade de faze-lo rir pelo menos um pouco, mesmo que não fosse quase nada. Trocamos um sorriso final como um modo de despedida e ele saiu andando.
Aquelas notícias sobre Ângela e a familiaridade que Kentin parecia ter com ela me fizeram lembrar das poucas lembranças que tinha da família do tailandês. Sem sombra de dúvida eu era uma criança e nem deveria lembrar, mas os irmãos de Ângela foram tão cruéis comigo que não tinha como esquecer.
Ao acordar no meio da noite, quis ir beber água. Quando cheguei à cozinha, notei uma estranha conversa na mesma entre dois dos vários irmãos daquela família. Eram dois jovens, uma moça e um rapaz.
— Ah! Fala sério. — a moça falou batendo a mão na mesa. — Ela vai nos atrapalhar.
— Isso é verdade. — o mesmo concordou. — Me preocupo com a herança, a certidão de óbito ainda não foi entregue para que recebamos a fortuna.
— Temos que nos livrar dela antes disso. — a moça falou. — Sem a Ângela para protegê-la, podemos manda-la de volta sem preocupações. Assim vai sobrar mais dinheiro.
A neve caía no chão assim como minhas lágrimas caiam de meus olhos. Quanta crueldade no coração um ser humano pode ter por causa de dinheiro? Matar, roubar, a ganância é tão poderosa assim?
— Por que você...? — a voz gentil de um rapaz soou atrás de mim. Quando me virei, lá estava o loiro que morava no mesmo prédio que eu com o uniforme da Sweet Amoris. — Não deveria estar nessa neve. — ele alterou a pergunta. Nathaniel parecia ser o tipo de garoto que fica nervoso quando vê uma menina chorando.
Ele era o único que estava ali, então me agarrei a ele. Eu salvei a sua vida, que mal faria retribuir o favor dando-me seu ombro para chorar? A meu ver isso é uma tarefa simples. Que bom que Nathaniel foi compreensível o suficiente para dar-me seu ombro e limpar minhas lágrimas. E mais ainda para ficar debaixo da neve abraçado comigo.
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