Notas iniciais
Oi morangolinas, aqui é a morangochan. Bom, gente. Eu agradeço por todos os comentários e recomendações, vi que o número aumentou consideravelmente :DD Quero dizer que a recuperação está chegando, e acho que fiquei em duas matérias. Química e matemática. Mas eu vou ver como fica o próximo capítulo >< Boa leitura.

Os dias continuavam sem sol. Quando abria a janela para espiar o céu, lá estava ele, cheio de nuvens. Nuvens pesadas e gorduchas, que andavam, esbarravam umas nas outras e se amontoavam como uma pilha de sacos de cinza.

“Desculpe a Mika, ela não sabia que o menino iria rejeitar você” – li mentalmente o que estava escrito no caderno.

– Tudo bem. – respondi abraçada aos joelhos. – Lá no fundo, eu sabia que isso não iria dar certo.

Passaram-se três dias desde o ocorrido na casa de Lysandre. Não havia tido noticias de mais ninguém, exceto Kentin. E Nathaniel também, que de vez em quando, o avistava limpando a neve da calçada da casa dele. Quando ele me via o olhando pela janela, ele acenava, quando ele acenava, eu fechava as cortinas sem nem ao menos responder. E ele parecia conformado, sabia que essa era a recompensa por magoar uma pessoa próxima de mim.

– Lynn? Não quer sair?

– Está nevando.

– Não, não está nevando. Não neva desde ontem.

– Não quero sair.

– O Lysandre me ligou, dizendo que iria viajar hoje.

Meus olhos ficaram atentos, arregalados. Minha cabeça virou em um movimento lento em direção a Kentin. Lysandre já não havia partido? Céus... Ele nem ao menos disse quando iria.

– Quer ir comigo até o aeroporto? Eu sei que você está mal, mas... Eu acho que eu me sentiria pior se eu soubesse disso e não te contasse. – ele colocou as mãos nos bolsos e soltou um suspiro. – Vamos?

– Agora?

– Não, próximo mês. – ironizou. – É! Agora!

Pus os pés no chão frio e corri para o guarda-roupa. Peguei um casaco que usei algumas vezes e calcei as botas para a neve. Saí quase que correndo, descendo as escadas em passos ligeiros.

– Hei, espera aí! – Kentin pediu enquanto me seguia.

No aeroporto, lotação. Alguns vôos atrasados e outros cancelados, algumas pessoas esperando e outras reclamando com o pessoal das empresas, que vendiam as passagens. Aparentemente, Lysandre havia avisado a todo mundo sobre sua partida. O F4 estava lá, Lana estava lá, ao lado de Alexy, inquieta. Às vezes olhava para mim e fazia uma expressão triste.

– Desculpe-me. – disse Castiel para mim. – Não sabia que ele iria embora só por causa daquilo que eu disse.

– Ele não vai embora por causa daquilo.

– Então pelo que é?

– Não interessa. E eu não quero falar com você.

Castiel virou de lado e se afastou de mim. Meus olhos vermelhos e olheiras escuras já assustavam qualquer um. E qualquer pessoa poderia identificar que eu estive chorando por esses três dias. Até cheguei a pensar com meus botões o que será que Lysandre faria quando me visse naquele estado.

– Ali está ele. – disse Armin, apontando para frente.

Todos começaram a andar, e eu andava atrás de todos, como um zumbi sem rumo. Ele se despediu de todos, com um abraço e um aperto de mão. Kentin me puxou pelo braço, mostrando a Lysandre que eu estava ali. Se ficasse escondida no meio de todos, Lysandre nunca saberia que eu havia vindo. Ele ficou surpreso, mas sorriu.

– Pensei que não iria vir. – ele sorriu sutilmente, e me abraçou. Devolvi o abraço com mais força, já querendo recomeçar o choro novamente.

– Vôo 45, com destino a França. Todos os passageiros compareçam a plataforma 4. – soava a voz dentro do aeroporto.

– É o vôo do Lysandre. – Kentin disse. Pôs a mão em meu ombro. – Vem Lynn, ele já vai. – neguei com a cabeça que estava enfurnada no peito de Lysandre. – Lynn!

– Espere só um minuto. – Lysandre pediu. – Eu só queria falar algo com ela.

Kentin se afastou, junto com o resto do pessoal. Ainda estava abraçada a ele, sem dar sinais de que iria solta-lo.

– Que bom que veio. – ele sussurrou perto da minha orelha. – Ainda há uma coisa.

Os pelos da minha nuca se arrepiaram. Aquela frase me assombrou desde que foi dita, várias vezes, há três dias. O soltei, ele me encarou com uma expressão séria.

– O que? – interroguei.

– Meu vôo era no dia seguinte ao dia em que você foi para a minha casa, mas eu adiei a passagem. – ele pausou, me olhando nos olhos. – Fiquei me questionando, e decidi que tinha que te contar sobre isso.

– Sobre o que? Sobre o que? – repeti, insisti.

– Sobre sua irmã.

Minha respiração cessou, gelei, quase caí para trás, tapei a boca com as duas mãos.

– Irmã?

– Aparentemente, uma gêmea.

– Uma gêmea? Onde ela está? Sabe onde ela está? – Lysandre olhou para baixo. Aquele olhar explicava tudo.

– Sinto muito. – ele disse, novamente. Aquela frase já estava gravada na minha mente, dita pela voz dele. – E você me perguntou como eu sabia, eu disse que foi o Leigh, mas não te dei explicações.

Tentei acalmar a respiração, gelada, pálida. Fiz que sim com a cabeça, para ele continuar.

– Inicialmente, o Leigh se aproximou da Rosalya porque descobriu que o pai dela foi um dos policiais que cobriu o caso desse acidente. Ele conseguiu todas as informações pela Rosalya. – ele deu de ombros. – Não há muito o que explicar. Mas... Sinto muito pela sua irmã.

Quando me viu chorando, pôs a mão na parte de trás da minha cabeça e me puxou para mais um abraço. Eu me lembrava muito bem o que tinha colocado, anteriormente, no bolso do casaco que estava usando. Pus a mão no bolso, ainda estava lá.

– Ultimo aviso para o embarque dos passageiros do vôo 45, com destino a França.

Agarrei o conteúdo do bolso, me afastei e estendi a mão. Ele me olhou, meio confuso.

– Seu lencinho. – expliquei. O lencinho que ele havia me dado depois que uns alunos haviam jogado ovos e farinha em mim. – E... Uma coisa que eu comprei na ilha. Achei que combinava com você. – uma pequena corrente com um pingente de nota musical.

Ele sorriu, me abraçou e me beijou a testa.

– Por muito tempo eu fui meio paranóico com certos amuletos da sorte. – ele retirou algo do bolso. – Mas eu acho que já tive muita sorte. – uma dama de copas saiu do bolso e foi depositada na palma da minha mão. – Para falar a verdade, você sempre foi minha dama da sorte.

Um sorriso, assenti com a cabeça, com algumas lágrimas escorrendo. Ele virou as costas e partiu, arrastando uma mala de rodinhas com uma mão, e segurando o lencinho e meu presente com a outra.

Quando virei de costas, Kentin estava a quinze metros de distancia, sozinho e de braços cruzados. Fui até ele, e fomos juntos até o carro. Todos haviam se dispersado como a fumaça de um cigarro apagado.

– Você está bem?

– Estou bem.

– Tem certeza? Não me parece bem.
De novo:

– Estou bem.

– Tequila?

– Não, hoje não.

– Insisto: você não me parece bem.

Kentin fez uma cara emburrada. Passou o caminho me contando sobre uma festa que Castiel iria fazer na casa dele.

– Já está tudo resolvido entre vocês.

– Ele é uma víbora ciumenta. – falei entre os dentes. – Arruinou minha vida.

Kentin deu um pequeno riso, quase imperceptível. Fez um gesto de desaprovação com a cabeça, como se estivesse debochando. Fechei a cara e me encolhi no banco do carro.

– Que drama. – ele continuou com o ar de deboche.

Ele continuou dirigindo, o carro continuou a avançar pelo asfalto liso. E eu continuava lá, encolhida, pensando na minha irmã morta. Fiquei imaginando como seria ter tido uma irmã, uma companheira, uma gêmea. Assim como Armin e Alexy, uma gêmea. Será que teríamos crescido juntas? Eram simplesmente possibilidades que só aconteceriam se minha mãe também tivesse sobrevivido ao acidente, coisa que não aconteceu. Por um momento, eu me fiz de vítima e odiei o pai de Lysandre, mas enxerguei a situação por outro lado. Deveria ter dito que sentia muito pela mãe dele morrer junto à minha. E mesmo sabendo que a mãe dele havia morrido, nunca havia dito que sentia muito. Ele, agora, não é tão diferente de mim. Ele sabe como é perder pessoas, perder pessoas que não se espera perder. Para mim, seria melhor perder Lysandre daquele modo. Preferia nunca mais vê-lo a ter noticias de que ele morreu. Talvez eu não aguentasse mais outra pessoa indo embora assim, do nada.

Virei o rosto de lado, chorei em silêncio. Tão silenciosamente que Kentin nem sequer percebeu. Chorei pela minha mãe, pela mãe de Lysandre, pela tatuagem e cicatriz, pelo pai de Lysandre, pela minha irmã, minha gêmea. E foi um choro bem breve para tantas pessoas.

Ao chegar em casa, fui para meu quarto, Kentin não insistiu conversa naquela noite. Deite-me na cama, mas não dormi. Fiquei encarando o teto com lembranças de momentos em que estive com Lysandre. Até do dia em que ele me deu o telescópio e me mostrou as estrelas. Aquele dia tinha sido ótimo.

Esgueirei minha mão até a gaveta do criado mudo e a abri, ainda estava lá. Ainda estava lá, o cd, com sua capa que fora autografada há meses atrás, quando eu mostrei a Lysandre que havia comprado o cd dele. Lembro-me que ele sorriu e corou, quando se lembrou da foto da qual havia posado comigo. Por um momento, abracei o cd contra o peito. Segundos depois, o coloquei de volta na gaveta e a fechei. Já passava das 23 horas, meus olhos ardidos e meu cabelo oleoso. Fui tomar um banho antes de querer dormir.

A água estava mais quente do que o normal, provavelmente Kentin havia ajustado a temperatura, por ser muito sensível ao frio. Deve ser por isso que fez aquele drama todo naquele dia e inventou aquela história de que “o saco havia grudado na coxa”.

Ao sair do banho, as luzes do meu quarto se apagaram. Estava eu, assustada, apenas vestida com um pequeno short folgado. A porta do quarto se abriu e uma mão segurou meu braço, me arrastando para fora do quarto.

– Kentin? Kentin, é você?

– Shh!

Fiquei sem saber o que fazer. Ele me arrastou para o quarto dele, escuro, as luzes do corredor também estava apagadas. Ele acendeu uma lanterna ao chegar ao quarto e trancar a porta do mesmo.

– O que houve?

– Alguém entrou aqui.

Engoli a saliva. Ele apontou a lanterna para mim, escondi meu corpo com as mãos.

– Ah, meu Deus! Por que não disse que estava se trocando?

– Porque você simplesmente chegou e saiu me arrastando!

Ele abriu a cômoda e me jogou uma camisa. De certa forma, eu já não estranhava vestir camisas masculinas. Não era com tanta frequência, mas já havia usado várias camisas de Kentin.

– Quem entrou aqui?

– Como se eu fosse lá embaixo e perguntasse: “Oi, quem é você? Quer um café?”. – ironizou. – Segura essa merda aqui. – ele mandou, entregando-me a lanterna.

Mordeu os lábios, com uma expressão incômoda, ao parar no pôster da atriz pornô de biquíni. O mesmo que sempre estava lá, grudado na parede. Naquele momento, entendi que aquele pôster não estava lá só porque Kentin era tarado. Ele o arrancou e vi que não havia papel de parede atrás desse pôster. O que havia era uma madeira, uma porta de madeira. Quando ele a abriu, vi que se tratava de uma espécie de cofre. Um cofre bem comprido e não muito fundo. Estavam guardadas duas pistolas e um rifle.

– Não era melhor só o taco de beisebol? – sugeri, meio nervosa. Fiquei imaginando quem havia entrado para Kentin pegar aquelas armas.

– Não.

– E as armas dali? – apontei para a parede.

– São só decorativas.

Engoli a saliva, nervosa. Dentro do cofre ainda havia algo. Dois pares de óculos de visão noturna.

– Toma aí. Meu pai que me deu. – ele estendeu-os para mim. – Eu costumava espiar a vizinha trocando de roupa no escuro.

– Por que a vizinha se trocava no escuro?

– Porque eu sempre dava um jeito de espiar.

Kentin abriu a porta lentamente. Encaixei o par de óculos no meu rosto. Fomos descendo até a sala, silenciosamente.

– Tem um barulho ali na cozinha. – cochichei para Kentin.

– Opa! Onde o whisky dorme.

Enquanto Kentin avançava para a cozinha, eu cobria suas costas montando guarda com a arma. O barulho metálico do projétil ecoou pela casa quase que solitária. Havia sido disparado da cozinha. Kentin recuou para trás, esbarrou em mim e quase tropeçou nos próprios pés.

– Tem alguém aqui. Estão armados. Sobe! Sobe!

Ambos saímos correndo em direção ao quarto de Kentin, onde nos trancamos e ligamos para Rosalya. Em alguns minutos, a casa estava cercada. A policia entrou, Rosalya havia mandado sua amiga Kim para revistar tudo.

– A policia irá revistar a casa durante umas horas. Isso poderá demorar. – a morena explicou, com um cigarro na boca.

– Sem problemas. – disse Kentin. – Podemos ir dormir na outra casa. Certo, Lynn?

Fiz que sim com a cabeça. Estava amedrontada, mas Kentin estava bem calmo para quem quase havia tomado um tiro. Kentin partiu comigo no carro, fomos para a casa da diretora ao invés de irmos para a casa que Kentin ia com as garotas.

– Não deveria tê-la acordado numa hora dessas. – repreendi Kentin.

– Mas alguém precisava saber. – ele retrucou.

– Nunca vi ninguém tão calmo. – fiz bico.

– É porque já aconteceu algumas vezes.

Arqueei a sobrancelha, surpresa.

– Por que acha que eu tenho tudo aquilo no quarto?

Eu achava que ele tinha tudo aquilo no quarto para pagar de valentão, ou para impressionar alguma garota boba.

– Sabe aquele pôster da mulher pelada?

– Qual deles?

– Só tem um! – ele exclamou. – O do teto.

– Ah, sei. – pausei um pouco. – Sempre me perguntei como você conseguiu por ele lá.

– Nem eu sei, porque foi o Lysandre quem colocou. Eu pedi.

Assenti com a cabeça, o assunto estava mais descontraído. Estávamos sozinhos, lado a lado na sala de estar, sentados no sofá enquanto a diretora pegava algumas bebidas quentes na cozinha. Quando voltou, colocou um café e duas xícaras de chocolate quente em cima da mesinha de centro.

– Diretora, a senhora poderia me dizer o porquê de entrarem na nossa casa? – perguntei.

– Me chame de vovó, por favor. – ela insistiu, com um sorriso. – Bom, tentaram entrar umas duas vezes, para roubar as jóias que a Mika havia comprado. Naquela época, havia saído nas revistas que as jóias foram avaliadas em mais de 600 milhões de dólares.

– Por isso as armas. – Kentin explicou.

– Aquelas katanas eram da Miki, e aquelas armas também. – a diretora ressaltou. – Mas ela nem ao menos sabia atirar. Serviam apenas para dar um ar intimidador ao quarto. – a mão gorda e enrugada segurou a xícara de café, levando-a para os lábios de papelão, onde logo se ouviu o café escoar para dentro da boca. – Entretanto. – ela afastou a xícara e a deixou em cima da mesinha de centro. – Nunca entraram lá com armas de fogo dispostos a atirar. Entraram? – ela interrogou olhando para Kentin, que negou com a cabeça.

– Não sei o que eles queriam. A mamãe não deixa quase nada de valor dentro de casa. – Kentin cruzou os braços. – Estava tendo um sono tão agradável, acordei no susto.

Kentin havia me contado como funcionava o sistema de alarme da casa. O som saia por uma caixinha de som que ficava no criado mudo dele. Assim dava o aviso para que ele se armasse e descesse.

– É uma forma de talvez capturar algum bandido. – Kentin explicou.

– Não tem medo de tomar um tiro?

– Outro? – os lábios enrugados indagaram com tom de divertimento.

Cocei a cabeça, constrangida. Às vezes não me sinto acostumada por ser, agora, neta da diretora.

– Aposto como eles tinham equipamento de visão noturna.

– Você acha? – perguntei.

– Ninguém tem um ouvido tão bom para nos ouvir no escuro. E acho que nenhum ladrão amador conseguiria entrar numa casa como a nossa. Esses caras estavam tão equipados quanto nós.

Notas finais
Não pensem que esse pessoal entrou na casa deles por acaso. Isso vai justificar toneladas lá na frente, pode crer. Obrigada por ler :3