A Órfã Doce
3 Humilhação
Notas iniciais

“Agora eu virei o alvo...” — concluí.
Olhei para os lados, achei que ninguém tinha visto, mas todos estavam me encarando.
— O que estão olhando? — rugi para eles. Cada um voltou com sua ocupação, entretanto o burburinho formado não foi desfeito.
Procurei Iris por todos os lugares, mas parece que sua preocupação de ontem era simplesmente medo. Até era compreensível, também seria se ela decidisse se afastar de mim depois daquilo. Decidi esquecer um pouco sobre o ocorrido de ontem e ir nadar.
— Mas que merda é essa?
A piscina estava toda cheia de latas de refrigerante, garrafas de plástico e sacos se salgadinhos. Senti vontade de, definitivamente, torcer o pescoço de Castiel como uma toalha molhada.
“Um soldado não pode agir pela fúria” — era um dos ensinamentos da escola militar.
Olhei para os lados, vi uma rede de limpar a piscina. Peguei-a e passei pela piscina, continuava do mesmo jeito.
— Oh Droga! — lamentei. — Os fios estão rompidos.
Então me veio uma luz, fui até a minha bolsa e peguei o fio dental.
— Filha da puta. — dei uma risada. — Achou que podia me ferrar? — resmunguei concertando a rede. — Achou errado.
Limpei a piscina por inteiro e gastei meu precioso tempo com isso. Sequer valeu a pena limpar toda aquela piscina para nadar míseros dez minutos.
Aquela conversinha de F4 já estava me deixando bem estressada. Depois que almocei na cantina, fui pegar meus livros em meu armário. Infelizmente o "efeito F4" ainda estava agindo naquele odioso dia. Meu armário havia sido arrombado e meus livros roubados.
Encarei os lados e respirei fundo para manter a calma. Ao olhar para os armários do lado, vi que havia uma folhinha rabiscada para fora do armário. Folhinha que se parecia muito com a que eu havia rabiscado durante a aula. Saquei meu canivete suíço para conseguir abrir a porta do armário que ficava a esquerda do meu. Dei de cara com um armário vazio e um fundo de outra cor, obviamente falso. Foi de lá que meus livros saíram.
— Não são espertos assim. — sorri triunfante.
No outro dia Iris não tinha aparecido, estranhei, ela estava doente? Fui indo em direção do meu armário, observei que as pessoas começaram a se reunir ao meu redor.
“O que é agora?” — mordi o lábio inferior.
— Atacar! — um deles gritou.
As pessoas começaram a jogar ovos em mim.
“A arma!” — pensei. — “Merda, pratiquei pontaria com a arma ontem, ela ficou em casa”.
Eu defendia o rosto dos arremessos, as pessoas vinham jogar ovos na minha cabeça. Peguei o braço de um menino e o torci, pisei nas costas dele e o deixei no chão, eu poderia muito bem revidar. Mas o número era maior... Derrubaram-me no chão e me deixaram sem defesa.
— Força, força. Eu devo ser forte. — murmurei me levantando. — Vamos, é só isso que vocês têm? Vão precisar de muito mais pra me derrubar!
E mais ovos vieram junto com três sacos de farinha, as risadas em volta só iam crescendo mais e mais.
“Eu vou matar aquele maldito” — obviamente tudo aquilo era obra do "grandioso" líder do F4. Aquela vagabunda ruiva de farmácia.
Farinha e ovo era peixe pequeno comparado ao molho de tomate que vieram jogar em mim depois. Ficaram comentando ao redor: só falta queijo para virar pizza. Só me deixaram em paz quando não tinham para nada para jogar e nenhuma palavra pior para me xingar.
Tentei me recompor, ir até o telhado para gritar com o vento. Entretanto daquela vez não parecia funcionar, aquele apelo parecia ter perdido o efeito. Tudo o que queria era chorar e chorar por várias horas até meus olhos cansarem. Odiava me sentir fraca ao ponto de querer chorar, sempre lembrava das famílias pelas quais passei. Sempre lembrava do dia em que recebi uma certidão de óbito na escola militar.
A escola militar em si foi cheia de anos agradáveis. Claro que fui motivo de piada inicialmente por ser a única garota de lá. E embora só tenha conseguido dois amigos de verdade, com o tempo os outros não se sentiam mais tão incomodados com a minha presença. Houve um mala que pegou no meu pé por anos a fio, mas lembrar dele numa hora como essas não era uma boa ideia.
Viver tantos anos bons para ser jogada de volta para a Sweet Amoris e ser humilhada daquela forma. Eu não queria chorar, não mesmo. Fazer-me chorar era o que aquele ruivo de araque queria. Ele queria ferir meu orgulho, me deixar de joelhos no chão. Deixar-me como deixou Nathaniel!
— Não chore. — ordenei a mim mesma. — Vamos, não chore! — balancei a cabeça. Engoli todo aquele ar e prendi com força fechando os olhos. Soltei o ar e respirei fundo para tentar me acalmar. Se engolir choro já era ruim, engolir choro com a roupa e o cabelo completamente imundos, era algo bem mais difícil. Assim que abri os olhos, me deparei com um par de olhos heterocrômicos.
— Castiel é bem criativo. — comentou o platinado com um lenço em mãos. — Queria que usasse a criatividade para algo de mais utilidade.
Inicialmente pensei que ele estava ali para aprontar comigo também, já que era amigo do meliante. Mas não, minha teoria de que seus amigos não eram como ele estava sendo concretizada.
— Por que não fugiu? — quis saber.
— Não quis. — neguei com a cabeça. — Aprendi a ter forças.
— Claro. — ele sorriu. — Também aprendi isso. Um bom soldado deve ser forte, certo?
— Você já estudou em uma escola militar? — arregalei os olhos. Senti um arrependimento logo depois, minha discrição não estava sendo o suficiente.
— Não. — confessou. — Sequer sabia que isso tinha mesmo algo relacionado. Acho uma frase bem encorajadora, mas quem a disse foi Kentin. Pensei que fosse algo que o pai dele falasse.
O nome desse menino é Lysandre, é isso mesmo. Lembro-me quando o ruivo o mandou calar a boca. Kentin era o que dormia no telhado, que a proposito não estava presente. Bem que poderia, pelo que Lysandre falou pude concluir que o menino estudou na escola militar. Mas do que adiantaria? Não queria contar para ele, mas se contasse ele não me descriminaria. Se passou muitos anos, saberia que escola militar não era lugar para onde se leva garotos e garotas delinquentes.
“Podem não ser tão monstruosos como pensei que fossem”. — pensei me apoiando nas barras do terraço. — "Mas não posso baixar a guarda, não posso simpatizar com os amigos desse garoto. Se não gostassem do que esse ruivo de farmácia faz, fariam algo a respeito. Não posso afirmar que são tão diferentes assim".
— Não vou cair novamente. Não permitirei que me esmaguem como um inseto. — prometi a mim mesma.
Tive que lavar o cabelo três vezes quando cheguei em casa pra sair toda a sujeira. Até mesmo precisei pedir dinheiro a Tia para a tinturaria. Aquele uniforme tinha um tecido muito fino e se lavasse sozinha, corria o risco de estragar o uniforme tentando tirar manchas daquela proporção. Ela desconfiou, é claro. Fiquei com medo que descobrisse sobre o ocorrido. Não queria que ela pensasse que eu não sabia cuidar de mim mesma. Também não queria que descobrisse que a desobedeci, me meti com o F4 e sofri as consequências.
— Se depositaram confiança em mim, tenho que me esforçar. — convenci a mim mesma, carregando a arma com munição de borracha. — Amanhã você me paga. — prometi.
No dia seguinte, soube que Nathaniel havia voltado a sua função de representante. Pensei em passar em sua sala cumprimenta-lo e pergunta-lo se já estava se sentindo melhor. Entretanto acabei pegando Nathaniel se esfregando com uma garota em cima de sua mesa. O nome da menina era Melody, uma garota metida a recatada. Foi constrangedor para mim pega-los em flagrante naquele tipo de situação. E acho que não só constrangedor para mim, Nathaniel ficou parecendo uma pimenta.
“E se dizia a santinha”. — julguei Melody. Essa era a imagem que Melody costumava a passar, mas fazia tantos anos, vai saber quais eram seus valores. Com certeza não eram valores muito bons para ficar se esfregando com o representante na sala do grêmio.
O engraçado é que os alunos antigos se renderam a esses novos do F4. De qualquer forma eles fizeram por onde, agora graças a eles essa escola só vive pelas aparências. Todas as pessoas passando a imagem de uma instituição competente quando na verdade se trata de vadiagem pura.
No dia seguinte ainda estava inteira. Fui até a piscina antes de a aula começar. Depois fui trocar a roupa, tinha colocado a roupa de mergulho e um biquíni por baixo. Tirei as duas e substitui pelo uniforme.
Removi a touca e os óculos, sequei meu rosto, quando tirei a toalha do rosto senti braços me agarrando.
— Solte-me! — gritei.
Eram três meninos, dois me seguraram e o terceiro estava a minha frente, abriu minha blusa deixando lingerie à amostra tentando tirar a mesma. Ergui as pernas juntando as mesmas, chutei o peito do menino da frente, o que fez força pra trás chocando os outros dois contra a parede. Deram-me vários golpes até me verem no chão. Os dois de antes me seguraram e o terceiro continuava a querer me despir.
— Saiam! — bradei chorando desesperadamente.
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