A Órfã Doce
4 Desculpas
Notas iniciais

Eu estava gritando e chorando desesperadamente, tentei me virar sozinha, mas não conseguia. Não conseguia nem ir até a bolsa pegar a arma.
“Iam descobrir sobre a escola militar se eu começasse a atirar nas pessoas” — pensei. — “O que eu faço?”
Os dois meninos de trás mexeram no fecho do meu sutiã, já sentia que ele estava solto.
— Vazem! — ouvi um grito vindo de fora.
Era Armin e Kentin. Armin entrelaçou os dedos como apoio, Kentin veio correndo e pisou no apoio que Armin havia feito com as mãos, Armin deu mais um impulso e Kentin deu uma voadora no terceiro menino que estava na minha frente. Armin agarrou um dos meninos que me segurava e o jogou na piscina.
Segurei a parte da frente do sutiã com uma das mãos, com a mão livre agarrei o cabelo do ultimo menino que me segurava, choquei sua cabeça contra a parede e depois contra meu joelho.
Fiquei de joelhos no chão tapando a visão dos dois meninos com os braços, estava com vergonha.
— Hei Kentin. — ouvi Armin o chamar. — Ela nem é tão tábua assim como o Castiel disse.
— Como é?! — bradei. Após raciocinar por alguns segundos, já havia pensado sobre o responsável por aquilo. claro, como não imaginei antes? — Foi o seu amiguinho que mandou esses três, não foi?
— Não. — negou Kentin. Ele veio até mim, tirou seu bleiser e colocou sobre meus ombros. A resposta dele poderia ser tudo, menos convincente.
— Ah meu Deus! — exclamou uma terceira voz masculina vindo da porta. — O que foi isso? — interrogou Lysandre. — O que fizeram com a moça?
— A salvamos. — retrucou Armin cruzando os braços. — Acha que agora andamos pela escola assediando as garotas? — resmungou ele.
— Virem de costas pelo menos. A senhorita precisa se trocar! — insistiu ele logo em seguida de costas para nós.
Os outros dois foram até a porta e imitaram a ação de Lysandre. Estava completamente abalada, o ruivo realmente não estava para brincadeira. Queria fazer picadinho de mim, mas com certeza as coisas não iam sair barato como ele deve estar pensando.
— O que fazem aqui? — interroguei rudemente.
— Senhorita, acho que não é assim que se agradece. — repreendeu Lysandre mostrando brotar uma face de desagrado, ele ficava sempre naquela mesma posição: com a mão segurando o cotovelo e a outra mão perto do queixo.
— E quem disse que eu estou agradecendo? — indaguei colocando as mãos na cintura.
— Como?! — Armin bradou inconformado. — Como você é...
— Como vou saber que vocês não estão armando pra mim? — bradei. – Aparecer no nada não é normal.
Kentin explicou que ouviu meus gritos e usou o bip pra chamar Armin, os dois vieram o mais rápido possível para ver o que estava acontecendo. Os dois biparam Lysandre, por isso os três apareceram.
— Bip é uma tecnologia tão anos oitenta. Me admira "ricões" como vocês ainda a usarem.
— Muitas meninas morreriam de amores por três dos quatro integrantes do F4 virem lhe dar uma mão. — Armin retrucou.
— Se bem que o perfil dela não bate com o do resto das moças. — comentou Lysandre.
— Pelo menos não é irritante como "as três belezas". — debochou Kentin.
— Ou melhor. — Armin pronunciou-se com um tom divertido. — "As três buguesas". — misturou ele as palavras "belezas" e "bug". Bug é quando ocorre uma espécie de erro em um jogo ou site.
— Não confio em vocês. — falei quebrando o clima de descontração. — Eu agradeço, mas não confio.
Armin riu, parecia até que havia entendido que meus agradecimentos significavam um pedido de trégua. Ele veio até mim, bagunçou meu cabelo e me ergueu. Fiquei de barriga em seu ombro enquanto era carregada.
— Vamos à enfermaria. — ele informou. — Sempre quis fazer isso. — riu como uma criança e saiu me levando enquanto os outros meninos o seguiam. — Você parece à princesa peach, se fosse loira pelo menos...
— Parece mais o Shrek carregando a Fiona. — Kentin resmungou.
— Hei, eu ouvi isso! — exclamou Armin. Claro que ele não parecia que ia deixar aquilo barato. Seu sorriso maroto indicava uma rebatida brusca. — Está com ciúmes, Ken?
— Não me chame de Ken, meu nome é Kentin. — o dono do nome cortado ao meio corrigiu.
— Oh claro. — o gamer continuou, ainda com intenções de aborrecer seu amigo. — Está “Kentin” aqui.
Foi aí que Kentin se irritou de vez e Armin começou a correr do mesmo. Os dois corriam enquanto eu balançava no ombro de Armin como uma boneca de trapos.
— Hei, cuidado aí! — reclamei morrendo de medo que me derrubassem.
A enfermeira que ajudou Nathaniel estava limpando uns arranhões que eu tinha sofrido graças aos meliantes que eu tinha quase certeza que foram mandados por Castiel.
— Só quero esclarecer que Castiel não teve nada a ver com isso. — Lysandre cortou meus pensamentos. — Estava com ele agora a pouco. Não o vi planejar e muito menos enviar aqueles garotos para fazer algo a você.
— Você me ajudou. — apontei para Lysandre. — Vocês me ajudaram. — complementei. — Se me ajudaram, isso significa que vocês não estão tão de acordo com o que ele anda fazendo. Será que não foi por isso que ele não disse nada?
— Não. — Armin negou com segurança na resposta que estava dando. — Castiel faz o que quer.
— E se a gente não concordar. — Kentin se pôs a continuar. — Ele aperta a tecla do “foda-se” e faz o que ele bem entender. Ele não liga se a gente não concordar.
— Então é isso? — me levantei indignada. Não estava crendo nem um pouco que Castiel fosse inocente, não importava o que aqueles meninos falassem. — Onde ele está?
— Na sala do F4. — respondeu o gamer quase que automaticamente.
— Armin! — Lysandre e Kentin o repreenderam.
— O que? — ele fez bico.
— Eu já não gostava antes dessa escola por ter tantas garotas irritantes. Estou começando a odiá-la por tratar quatro alunos como vocês com tantos privilégios. — confessei massageando as têmporas. Estava quase infartando, tinha que me controlar pelo menos até chegar a sala de Castiel para quebrar a cara dele.
— Hei! — Kentin reclamou. — Você é muito mal agradecida.
— Desculpa. Agradeço pela ajuda, mas não a pedi. — coloquei as cartas na mesa. Poderiam me chamar de mal agradecida, mas eu não me sentiria pressionada e muito menos baixaria a guarda. Poderia ser essa a jogada deles. Poderiam ser bons atores. — Se tivesse oportunidade de usar minha arma, usaria.
“Falei merda”. — pensei tapando minha própria boca.
— Não que seja da minha conta, mas tem licença para portar uma arma? — Lysandre indagou com um tom de preocupação.
— Não. — menti.
“Estou em dúvida se eles são burrinhos ou não. Os únicos menores de idade que têm permissão para portar armas com munição de borracha são alunos ou ex-alunos de escola militar que estudaram lá por mais de dois anos”. — refleti.
— Você vacilou em contar isso logo na frente do Kentin. — o gamer cruzou os braços e deu risada.
— E por quê? — franzi a testa.
— Minha avó é militar. — respondeu o garoto de cabelo castanho e calça camuflada.
"Esse moleque pode me causar problemas. Agora que eu notei, ele não usa calça camuflada apenas por questão de moda. E além disso tem um pingente da escola militar". — pensei. — "Ele já deve ter descoberto. Tenho que manter a calma e pensar em algo".
— E daí? — indaguei novamente tentando esconder o nervosismo.
— Também estudei cinco anos na escola militar. — sorriu ele colocando a mão na cintura.
"Grande coisa, seu exibido! Passei sete anos e nem por isso saio desfilando". — arqueei a sobrancelha. — "Bom, pelo menos sei que esse menino estava em outra cidade. Só há uma escola militar nessa cidade e eu estava nela. E depois de sete anos, não tem como deixar de conhecer uma só pessoa de lá".
— E o que é que tem? — rebati. — Você se acha um soldado? Policial? Vai me prender garotão?
— Não. — ele iniciou com um tom provocante. — Mas posso atirar em você.
— E eu posso fazer o mesmo. — respondi com o mesmo tom e o mesmo sorriso.
O clima estava tenso. Apenas nós dois falávamos enquanto os outros dois apenas observavam o pingue-pongue que acabara de ser travado.
— Levem-me até essa sala do F4. — pedi.
— Não mesmo. — Armin negou com a cabeça, rindo como se meu pedido fosse o mais idiota do mundo. — Acha que somos burros ou o que?
Revirei os olhos. Se quer algo, tem que ir atrás. Saí da enfermaria e tive a companhia prolongada dos três garotos do F4. Os três me seguiam com o intuito de me impedir.
— Hei, onde pensa que vai? — interrogou o platinado.
— Vou à sala do F4. — respondi.
— Nós salvamos você. — relembrou o gamer. Ele puxou meu braço e me encarou. Sinceramente não acho que eles se importavam tanto assim com o cabeça de fósforo, mas também não acho que eles desejavam me ver espremendo o pescoço do amigo deles como uma toalha molhada.
— Eu já agradeci. — puxei meu braço de volta. — E vocês não têm nada a ver com isso. Acertarei minhas contas com Castiel de uma vez por todas, e apenas com ele.
— Ele disse que você desistiria. — pronunciou-se o garoto da calça camuflada. — Disse que você não aguentaria uma semana sequer.
Com isso minha teoria começava a se concretizar. Não era uma amizade tão grande assim, parecia que os três seguidores estavam começando a se cansar do amiguinho mandão deles.
— Kentin! Para de por lenha na fogueira. — reclamou Armin.
— Olha só quem fala. — Kentin fez careta. — Você é quem vive fazendo isso!
— Calados vocês dois! — bradou o platinado entrando no meio dos dois e os empurrando.
Rodei um pouco o salão principal. Tinha uma porta dourada com o nome na frente “Escritório oficial do F4”. Eu entrei, mas ele não estava lá.
— Ele não está aqui! — berrei. — Onde ele está?
— Temos duas salas. — Armin explicou. — E não vamos contar onde fica a outra. Então se você esperar mais um pouco, talvez essa raiva passe e você não faça nenhuma bobagem que pode se arrepender depois.
— Hei você. — chamei uma menina que passava. — Onde fica a segunda sala do F4?
— Fica ali. — ela apontou para o lado.
Segui a direção indicada, que levava a um corredor com uma porta no final. Girando a maçaneta vi que a mesma estava trancada.
— Daqui você não passa. — Kentin sorriu triunfante. — Só nós temos a chave.
— É mesmo? — arqueei a sobrancelha e mostrei um objeto dourado que acabara de tirar do bolso.
— Hei, essa é a minha chave! — disse o gamer surpreso. — Estava no meu bolso.
— Isso mesmo, estava. — dei ênfase na ultima palavra no pretérito. — Eu peguei do seu bolso enquanto me carregava.
Mesmo fazendo uma entrada na sútil, vi que Castiel não havia prestado tanta atenção como achei que iria. Quando vi, ele estava ocupado falando com dois garotos. E os reconheci como os nojentos que tentaram me violentar na piscina.
— Seu idiota! — trovejou ele avançando um soco na cara de um dos garotos. — Eu não te disse para fazer isso.
Minha presença fora notada quando os outros três do F4 entraram dentro da sala. Depois que finalmente tinha conseguido por os pés naquela sala para acertar as contas com ele, me tirar dali seria uma tarefa impossível para qualquer um que a tentasse.
— Ora, ora! O que temos aqui. — o ruivo empurrou os dois garotos para abrir caminho e fez sinal para os mesmos se retirarem da sala. — Sabia que você viria mais cedo ou mais tarde para se desculpar.
— Não vim aqui para me desculpar, seu palito de fósforo! — bradei. — Você pode jogar lixo na piscina, pode mandar as pessoas me sujarem com molho de tomate e farinha, pode esconder meus livros. Mas mandar pessoas para me agredirem é uma coisa imperdoável.
— Mandei-os assustarem você e não te violentarem. — explicou ele. Foi aí que percebi que os três garotos estavam falando a verdade, estavam tão surpresos quanto eu por saber que Castiel tinha mesmo mandado os garotos. Posso até arriscar a dizer que estava bem menos surpresa que eles.
— Não quero saber! — trovejei novamente. — Se fosse um homem de verdade e quisesse fazer algo de ruim comigo, fosse fazer você mesmo. Assim eu poderia te bater até você chorar como uma menina.
— Por que é tão difícil pedir desculpas?! — ele gritou, logo em seguida massageou as têmporas. — Não seja tão teimosa!
— Não! No seu mundo a vítima que tem que se desculpar com o culpado? — ele me olhou com certa estranheza. — Não vou me desculpar com você. Eu tenho honra.
— Honra é? — o ruivo me lançou um sorriso maldoso. — Uma órfã como você tem honra? Não me faça rir.
Aquela tinha sido a gota d'água, a ultima piada e a ultima humilhação. Chega de ir ao telhado para esbravejar minha raiva, estava na hora de agir. E foi isso que fiz. Acelerei o passo, tomei impulso e dei uma voadora na cara dele. O frangote caiu no chão como um pedaço de manteiga derretida. O agarrei pela gola da camisa com uma mão e mantive a outra fechada preparada para socar a sua cara.
— Como sabe? — bradei.
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