A Órfã Doce
53 Exames
Notas iniciais

Mais tarde, em casa, eu liguei para a clínica, na agenda dizia que o nome do ginecologista era Manoel. Ao ligar, a secretaria disse que ele morreu há dez anos e a filha dele assumiu a clínica.
– Que vacilo, Miki. – murmurei perto do telefone.
– Como, senhora? – a secretaria perguntou.
– Oh! Nada! – exclamei nervosa. – Então a consulta fica para a segunda de tarde?
– Isso. – ela confirmou. – Só conferindo... Seu sobrenome é Takamura?
– Sim. – respondi, afinal, meu nome havia mudado por conta da adoção.
– É, sua consulta é na segunda a tarde. – ela confirmou.
– Obrigado. – agradeci por fim desligando.
Era uma das poucas clínicas ginecológicas da cidade, talvez o meu sobrenome tivesse influencia na cidade. Talvez? Lynn, uma super modelo te adotou! Claro que seu sobrenome tem influencia agora.
Suspirei, certo! Estava tudo bem, tudo bem... Ou não... Será que eu poderia contrair alguma DST ou algo assim? Oh Meu Deus! Aquilo só poderia ser o universo me castigando! E por que o universo não castiga Kentin? Ele é mais maligno do que eu!
Procurei Kentin para ver se ele estava melhor, já que havia dito que estava se sentindo mal, procurei e procurei. Nada. O chamava pela casa e nada dele me responder. Já estava imaginando que ele tinha saído de novo, imagina só que loucura que é sair doente!
– KENTIN! – berrei já cansada de procurá-lo.
Fiz bico e fui procurar de novo pelo quarto dele, ele estava desmaiado perto da pia do banheiro. Arrastei-o do banheiro até a cama, ele respirava ofegante. Rodei feito uma barata tonta pelo quarto sem saber o que fazer. Kentin estava com as bochechas avermelhadas. Coloquei a mão na testa dele e ele estava ardendo em febre.
Fui até o armário onde peguei uma toalha, molhei com água fria e coloquei na testa de Kentin. Fiquei sentada no chão em frente à cama dele. O violino de Kentin estava na capa em cima do criado mudo. Sorri, fui xeretar um pouco. Era difícil tocar?
Tirei o violino da capa e peguei o arco para tocá-lo. Apoiei o violino no ombro e tentei tocá-lo, pensei que fosse fácil, Kentin é super burro e consegue tocar, por que eu não conseguiria? As notas eram totalmente desafinadas quase sem som. Instrumentos com cordas não são meu forte, isso era fato. Parei de tentar tocar e observei algo no violino.
“Bryan”. – li mentalmente o que havia gravado nele.
– O QUE TÁ FAZENDO COM MEU VIOLINO?! – Kentin berrou de uma vez, dei um pulo com o susto.
– Estava só vendo. – fiz bico.
Kentin se levantou e tomou o violino de mim com total violência, colocou na capa e deixou no criado mudo onde estava.
– Nunca mais toque nele! – ele advertiu. – Meu pai quem me deu!
– Então Bryan é o nome do seu pai... – pausei a frase observando a expressão de surpresa que acabara de se formar no rosto dele. – Desculpe, não mexo mais. – falei indo em direção a porta, Kentin agarrou meu braço.
– Obrigado. – ele agradeceu corado com a toalha na mão.
Não respondi, ele soltou meu braço e eu saí. Fui trabalhar e voltei só à noite, tinha sito tudo tranquilo, apesar de que eu tinha voltado super cansada. Fui para o notebook terminar o trabalho que era para segunda, que trabalho enorme e chato!
– Lynn! – ele exclamou choramingando.
– O que? – perguntei indo até ele.
Arregalei os olhos, Kentin estava todo vermelho e se coçando.
– Isso é sarna? – perguntei.
– Não! – ele bradou. – Eu sou limpinho!
– Para de se coçar! – bati no braço dele. – Isso é catapora. Onde pegou catapora?
– E eu vou saber? – Kentin revirou os olhos.
Catapora, Oh céus! Ele deveria ter pegado isso quando era pequeno e não agora. Moleque com catapora é chato para caralho. E quem tinha que cuidar dele? Eu, claro. Só de pensar já me dava preguiça.
– Ta coçando. – ele resmungou.
– PARA DE COÇAR! – dei um tapa na cabeça dele. – Vai pro banheiro, banhos fazem a coceira diminuir.
Fiquei no meu quarto digitando um trabalho que era para segunda, ainda bem que Kentin nem sonhava o que estava acontecendo. Mesmo se soubesse, acho que ele não teria autoridade com pontinhos vermelhos espalhados pelo corpo. Ainda estava triste pelo que aconteceu na escola, triste, nervosa, com medo... Será que algo aconteceria comigo? De qualquer forma a consulta era para segunda, iria ser logo, não é...?
– Lynn! – Kentin gritou lá do banheiro, choraminguei, caralho, esse moleque não sabia se virar.
Ao olhar para o monitor do notebook, vi uma frase se formar sem eu ter digitado. Era um nome estranho, de remédio? Sim! Deveria servir para catapora, quando liguei para a farmácia a moça confirmou.
Comprei três remédios diferentes, um se jogava na água e esperava dissolver, o outro era um sabonete e o terceiro era um creme que se passava durante o banho. Quando eu descobri que tudo era pro banho, não queria mais cuidar de Kentin.
“Ele vai se virar”. – pensei corada. – “Imagina só! Eu não quero ver ele pelado!”.
– LYNN. TO COM COCEIRA! – Kentin gritou do quarto dele.
– ENFIA A COCEIRA NO CU! – gritei de volta. – EU TO TERMINANDO O TRABALHO AQUI, PORRA!
– ME AJUDA AQUI! – ele choramingou.
Revirei os olhos e saí fumaçando. Ao chegar no quarto de Kentin, ele se coçava todo.
– CARALHO, NÃO COÇA! – gritei com ele batendo no braço dele.
– HEI! – ele bradou me olhando. – EU TO TODO FUDIDO AQUI E VOCÊ QUER ME LASCAR MAIS AINDA?
– NINGUÉM MANDOU SAIR ESCONDIDO, PEGOU ESSA PORCARIA EM ALGUM LUGAR QUE... – arregalei os olhos tapando a boca com as mãos imediatamente.
– Como sabe?! – Kentin segurou meu pulso.
– Eu acordei no meio da noite e vi você tinha saído. – menti.
Kentin ficou calado, não tinha aparecido uma bolhinha sequer no rosto dele. Deviam estar espalhadas por outros locais do corpo, se ele tivesse sorte, a catapora dele não seria tão forte quanto a minha foi.
– Eu ia pedir pra você me ajudar a tirar a camisa, não consigo. – ele explicou como se estivesse disposto a esquecer do que acabara de ser dito.
– Você me chamou para isso? – suspirei revirando os olhos.
– Me ajuda. – ele choramingou.
Com muito choramingo e muita reclamação eu ajudei ele. Quando ele virou as costas para mim, parecia que tinha uma constelação inteira nas costas dele formada pelas bolhinhas.
“Eu não vou ajudar ele no banho, eu não vou ajudar”. – pensei virando as costas já com a mão na maçaneta da porta.
– Pode me ajudar? – ele pediu.
– NÃO! – exclamei sentindo um arrepio na espinha, corada? Imagina.
No dia seguinte ele parecia estar pior, por experiência própria, piorava com o passar dos dias. Ele estava mais carente de atenção e eu cada vez mais com o saco cheio, homens parecem crianças quando ficam doentes.
Estava estudando para um teste de geometria há dias. O teste era hoje, o trabalho que eu passei dois dias fazendo era um de história. Certo, o teste era hoje! Estava de olho na folha de cálculos que tinha feito enquanto calçava as sapatilhas, sentada no chão.
– Ai meu Deus! – Kentin exclamou virando a cara, nem tinha visto que ele tinha chegado. – Fecha essas pernas! – fiquei distraída e mal tinha notado na posição indecente que eu me encontrava, e de SAIA ainda por cima.
– Foi mal! – corei me movendo bruscamente para me levantar.
– Bate como um menino, se senta como um menino, se comporta como um menino, fala como um menino. – Kentin puxou mais ar e olhou para mim. – Para ser um menino, só falta o...
– CALA A BOCA! – o cortei com um grito.
Kentin deu uma risadinha calma enquanto dirigia-se a geladeira, dessa vez ele não pegou aquela porcaria que ele bebe toda manhã, pegou uma pior!
– OPA! – bradei tomando a caixinha dele. – Isso é limão, tem ácido. Não tomaria isso se fosse você.
– Não enche, to com fome. – ele tomou a caixa de mim.
– Me dá isso aqui. – tomei a caixa dele de novo. – Você já é azarado! Não sei como uma pessoa pega catapora em uma cidade que só faz frio! – bronqueei colocando a caixinha de volta a geladeira. – Se tiver lesões na boca, essa porcaria vai arder, nada de ácidos, entendeu? – ele revirou os olhos e fez que sim com a cabeça.
Ao chegar a escola, todos pareciam eufóricos com o tal teste de geometria. Menos Lana, Lana é um ano mais nova que eu e a inteligência dela é equivalente a duas de mim.
“Eu estudei”. – fiz bico. – “Darei o meu melhor”.
Na hora do teste o professor rearrumou as carteiras, Lana ficou na minha frente. O pânico bateu, que porcaria era aquela na prova? Não parecia nada com os exercícios que eu tanto estudei. A diretora chamou o professor na porta, Lana jogou uma borracha em mim e olhou para trás. Ela afastou o teste para que eu visse as respostas.
“O que ela ta fazendo?” – me perguntei.
– Anda! – ela sussurrou virando-se para frente e deixando o teste ao alcance da minha visão.
Foi errado copiar, admito, mas minhas notas em matemática não são boas. Eu ia perder uma oportunidade dessas? Que eu me lembre, não fui eu quem pediu as respostas, foi ela quem me deu. O professor que fiscalizava a prova era um jumento que mal olhava para os alunos direito, quando não estava na porta, estava na mesa corrigindo testes.
Foi mais um dia horrível na escola, as pessoas ainda olhavam para mim, a minha fama de puta aumentava e aquilo só me preocupava mais e mais.
“Eu tenho que manter o Kentin longe do Castiel e do Armin. Ele não pode saber que eu saí e muito menos sobre as fotos”. – pensei.
Era segunda, certo? CERTO! Já não bastava o teste, ainda tinha a consulta. Falei com Lana de manhã, disse que não iria trabalhar com ela a tarde, falei da consulta e ela acenou com a cabeça. Parecia já saber o porquê da consulta.
Horas mais tarde na clínica, chamaram meu nome e eu entrei na sala.
– Takamura? – a ginecologista me olhou. – Você é sobrinha de Miki Takamura?
– É... Por assim dizer. – cocei a cabeça sem graça.
– Oh! Certo... – ela corou indo até sua mesa. – Só para conferir, marcou quais exames mesmo?
– Todos! – exclamei.
– Como? – ela me olhou, logo sorriu. – Aconteceu algo? Não é todo dia que uma jovem pede para fazer todos os exames, sabe quanto exames ginecológicos existem?
Pisei na bola, mas eu estava desesperada e não era pouco! Tive que explicar para a médica o que havia acontecido, lógico que eu não tive opção, até porque desde o primeiro minuto ela já desconfiou. Como sempre, eu não consegui parecer natural.
– Não deu entrada na policia? – ela arqueou a sobrancelha.
– Não posso! – exclamei. – A imprensa com certeza iria divulgar, meu irmão não sabe, minha tia muito menos!
– Tia? Pensei que a Miki tinha falecido. – ela arqueou a sobrancelha.
Tive que explicar esse detalhe, o fato de ser adotada e que gostava de chamar Tia Mika assim e todo o blá blá blá de sempre que já me deixava de saco cheio.
– Como médica, eu tenho a obrigação de ir a policia em casos como o seu. – ela explicou entre um suspiro. – Mas... Você é sobrinha da Miki Takamura, não é? – ela sorriu refazendo a pergunta, fiz que sim com a cabeça. – Eu era uma das melhores amigas da Miki. Farei esse favor para você, já que não quer que os outros saibam.
Depois ela deu um suspiro e deu um sorriso bobo, estava conversando demais. Fiz três exames de nome difícil e um exame de sangue.
– Não fizeram nada com você, seu hímen está intacto. – ela constatou. – Você disse que colocaram as fotos na escola, não é? – ela fez expressão pensativa, acenei positivamente com a cabeça. – Acho que alguém quer te prejudicar, e quer muito mesmo. – ela deu ênfase. – Seja mais cuidadosa, por favor.
Ela me deu uma bronca sobre o que até criança sabia, que era não falar e não aceitar nada de estranho. Não era a primeira vez que eu escutei que aquilo foi uma armação, Lysandre só concluiu isso depois de uma analise muito cuidadosa. Que frescura! Como se não me conhecesse!
Apesar de que... Só me conhecem há um ano praticamente. Pelo visto a confiança de Lysandre era difícil de ser conquistada. De qualquer forma, eu estava aliviada por tudo não passar de uma armação para me difamar. Se eu ia contar a Kentin? Nem pensar! Eu daria um jeito para que tudo isso se revertesse e ninguém mais falasse sobre, ainda tinha vários dias, pois ele estava doente e não pisaria na escola tão cedo.
Passei pela cafeteria, Lysandre estava lá, vivia lá pelo visto! Passei apenas por passar, não queria nem tomar nada, só lembrei que talvez ele estivesse lá. Se não estivesse, como ele disse uma vez, aquela cafeteria era um bom lugar e era calmo. Era o tipo de ambiente perfeito para que eu começasse a pensar em algo que revertesse isso. Fui até a mesa que Lysandre estava, não o surpreendi chegando até ele, ele tinha me visto e feito um sinal com a mão para que eu sentasse junto a ele. Expliquei sobre os exames e o que tinha acontecido, pedi conselhos sobre o que fazer.
– Então você quer reverter isso? – Lysandre estava com o queixo apoiado nas duas mãos fechadas. – Lynn, isso é uma coisa complicada, parece até que você não sabe!
– Sabe o quão zangado ele ficaria? – arqueei a sobrancelha.
– Está com medo de ele ficar zangado ou está se importando demais com os sentimentos dele? – fiquei em silêncio, Lysandre prosseguiu. – Os laços de vocês são fortes e ao mesmo tempo meio estranhos e confusos...
– Por que andava com um teste de drogas na mão? – o cortei desviando o assunto.
– Por que está mudando de assunto? – ele indagou após beber um gole de café.
– Num teste, quando você não sabe a resposta, você a pula. – comecei minha comparação, ainda lembrando-me do teste de hoje mais cedo. – Você me perguntou algo que eu não sei responder, então eu mudei de assunto.
– Sabe que eu também posso mudar de assunto com essa sua pergunta, não é? – ele brincou.
– Eu sei, mas aí não vem ao caso, porque você sabe por que estava com o teste. – fiz bico.
– Na vida de um homem, ele acaba fazendo coisas que se envergonha. – Lysandre terminou com um suspiro, talvez fosse continuar, mas eu me adiantei para falar.
– Como sair com a Nica? – perguntei, ele deu um meio sorriso e ficou com um olhar baixo.
– Armin estava aqui agora a pouco, disse que te contou sobre a Nica... Ele também contou sobre o... – Lysandre parou no meio da frase, meu coração disparou.
“COMO ELE PÔDE CONTAR PARA ALGUÉM? ELE É LOUCO? QUER QUE O KENTIN E O CASTIEL DESCUBRAM QUE A GENTE SE BEIJOU E NOS ENFORQUEM?” – pensei.
– Depois que Armin voltou da Alemanha, a vida dele se encheu de indiferença. Eu nunca o vi com tanto “Tanto faz” ou “Não me meto, só observo o circo pegar fogo” na vida. Ele não era assim. – explicou. – Armin me contou que alguém falou para você que eu era pervertido. – ele deu uma risada. – Eu saía com muitas meninas quando era mais jovem, admito, mas...
– Nica. – completei a frase, já que ele não conseguia. Ele fez que sim com a cabeça. – Você gostou mesmo dela?
“Essa vai para meu bloquinho de perguntas idiotas”. – pensei já me arrependendo.
Lysandre não respondeu com palavras, apenas fez que sim com a cabeça. Um silêncio se instalou, esperei algo quando ele abriu a boca para falar, mas de nada não saiu nada, nem um simples som. Ele havia desistido de falar, eu havia desistido e várias coisas na minha vida, respeitaria a decisão dele e permaneceria em silêncio para evitar incomoda-lo.
– Quando vi aquelas fotos... – ele começou em um tom nada feliz. – Eu fiquei triste, decepcionado, não esperava isso de você. – abri a boca para me defender, então ele continuou em me deixar falar. – Mas... Algo dentro de mim me dizia que algo estava tendo a impressão errada. E esse algo estava certo. Eu não suportaria que isso acontecesse de novo... – ele pausou a frase e colocou a mão dele sobre a minha, o olhei, apenas calada. – Que uma pessoa que eu gostasse me enganasse. Lysandre colocou a mão na boca e corou, como se tivesse dito algo que não devia.
“Que ele... gosta?”. – pensei.
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