A Órfã Doce
72 A médica
Notas iniciais

Ouvi um gemido de mulher, na certa eu me assustei e deixei a lanterna cair e desligar. Som de passos vieram em minha direção. Um barulho de zíper, continuei tremula.
“O KENTIN TROUXE UMA GAROTA PARA CASA?! EU NÃO ACREDITO! É SÓ EU VIRAR AS COSTAS E ELE FAZ UMA MERDA DESSAS. ELE ME PAGA!” – gritei internamente.
– Eu sabia que você mudaria de idéia. – a voz disse manhosa.
Mãos se envolveram em minha cintura, segundos após as mesmas se afastaram. Continuei muda, tentando conhecer a voz que me parecia familiar.
– O que?! Quem é você? – ela percebeu na hora. Aliás, quem não perceberia? Há uma grande diferença entre meninos e meninas, ainda mais quando o menino em questão tem quase o dobro do meu tamanho.
Agachei-me e saí procurando a lanterna que eu tinha derrubado, a garota foi até a porta e a abriu em busca da luz do corredor. Fiquei boquiaberta, ela também ficou. Meus olhos passaram por uma garota de cabelos azuis usando uma lingerie provocante, que dava destaque aos seios enormes. Falar dessa maneira é fazer mistério e charminho. A vaca que estava na minha frente não era nada mais nada menos do que o parasita “pentelhus leticius”.
– O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO AQUI? – berrei.
– Pergunto o mesmo! O Kentin disse que você não estava!
Saí ligeiramente do quarto, meu corpo estava debilitado, mas parecia que a raiva me deu força o suficiente para descer rápido as cansativas escadas. Kentin ainda dormia no sofá, era tão calmo enquanto dormia, mas eu não perdoei.
– Acorda! Acorda! Acorda! – repeti freneticamente dando uma tapa no braço dele a cara palavra. – Que porra é isso aqui? – perguntei apontando para Lety.
– Ai! – ele exclamou passando a mão no braço, que estava sensível por conta dos hematomas. – O que é? – ele interrogou irritado, quando pousou os olhos em Lety, arregalou os olhos e seu rosto tingiu para o vermelho.
– Não contou a ela sobre nós? – Lety interrogou. Havia colocado um roupão de tecido fino da cor rosa, mesmo assim não adiantara de nada. O roupão estava aberto na frente revelando tudo o que revelaria se ela estivesse sem o mesmo.
– “Nós”? – interroguei olhando para Kentin. – Kentin, do que ela está falando?
– Nada! – ele exclamou sentando-se no sofá e lançando um olhar de repreensão para Lety.
Lety subiu as escadas pisando duro, Kentin foi segui-la, mas eu o barrei exigindo explicações. Assim fiquei por uns minutos tentando arrancar explicações dele e ele apenas negando. Lety desceu rapidamente agasalhada e com uma bolsa, foi indo em direção a porta. Kentin a impediu segurando o braço da mesma.
– Nós podemos conversar sobre isso. – ele tentou convencê-la. Ela deu uma resposta com uma joelhada nos “países baixos” de Kentin, libertando-se assim da mão que a segurava.
Lety saiu e bateu a porta, Kentin ficou encolhido no chão, resmungando e choramingando. Aproximei-me fazendo uma expressão de reprovação com a cabeça.
– Vai chorar? – debochei, Kentin fez uma cara feia para mim. – Está vendo? É isso o que acontece quando você trás garotas para cá! Achei bem feito! – cruzei os braços. – Você e a Lety estão saindo? É isso?
Ele ignorou, depois de uns cinco minutos ele foi mancando até a cozinha e voltou com um saco de gelo, sentou-se no sofá e colocou o saco de gelo dentro das calças. Fiz uma cara de nojo. Repeti a pergunta.
– Eu não vou mentir para você. – foi o que ele disse, e assim ficou. Fiquei uns segundos aguardando resposta, e nada dele falar.
– Não vai dizer nada?
– Não. Eu já disse que não ia mentir para você. – ele esboçou um sorriso discreto. – Mesmo se eu contasse, não conseguiria ser sincero, não conseguiria dizer a verdade dizer a verdade e nem nada disso. Acho melhor não contar.
– Você é um burro! – exclamei. – Quantas vezes eu já repreendi você sobre a Lety?
Kentin revirou os olhos, me dando tanta atenção como ele daria para um idiota ou uma criança barulhenta. O silêncio se instalou, estava rangendo os dentes de raiva. Tinha mais era vontade de dar outra joelhada para ele deixar de ser palhaço!
Fiquei esbravejando o vento, pois Kentin não me dava nenhuma atenção. Apenas revirava os olhos e fazia uma cara emburrada. Minha garganta doía de tanto falatório, ele olhou para o relógio de pulso e jogou a cartela de remédios em minha direção. Kentin insistiu que eu comesse algo, não havia comido nada o dia inteiro.
Depois de comer e tomar o comprimido do qual eu quase me engasguei (de novo), o sono bateu novamente. Subi as escadas e voltei a dormir em minha cama. Revirei-me na cama inúmeras vezes e nada do sono chegar. Barulhos no meu quarto, estiquei minha mão passando-a no criado mudo até achar a lanterna, minha mochila abria sozinha. Fui em direção ao interruptor para ligar a luz, era Miki. Miki só se comunicava comigo quando queria falar algo de importância, me arrepiei na hora indo em direção ao caderno.
“Kentin estava chorando. Você está doente”. – li mentalmente. Meus olhos arregalaram, caí de joelhos no chão, desconsolada. Seria tão ruim? – “Claro que sim. Por isso todos os remédios”. – Kentin não choraria por pouca coisa, a coisa era séria.
– Hei! Ainda não foi dormir? – Kentin interrogou quando entrou no meu quarto vendo a luz acessa.
Ele se deparou comigo naquela forma, com aquela expressão, olhando fixamente para o caderno onde Miki me revelara o que realmente estava acontecendo. Kentin fechou o caderno e se ajoelhou de frente para mim me segurando pelos ombros, ele tentava me acalmar, mas estava mais nervoso do que eu.
– Por que não contou? – perguntei.
– Não podia. – ele sacudiu a cabeça. – Não queria que ficasse triste.
– Como acha que eu estou agora? – baixei a cabeça com um choro incontrolável. – O que eu tenho?
– Eu não sei! – ele respondeu rápido. – Não se desespere! Você vai ficar bem!
Ele me pedia calma, mas estava mais desesperado que eu. Eu não sabia o que fazer, nem ao menos sabia o que tinha. Deveria ser algo terrível para ele ter chorado.
– Você sabe! Tem que me contar o que é! Não tem o direito de esconder isso de mim.
– Não, eu não sei! Não sabem o que você tem! – ele explicou me puxando para que eu me levantasse. – Você foi ao meu quarto xeretar os papeis, não foi? – fiquei calada, ele levou aquilo como um “sim”. – Aqueles eram os resultados dos outros exames. Você tem alguma coisa, mas ainda não sabem o que é, entendeu?
Fiz que sim com a cabeça, fiquei frente a frente com ele. Kentin me parecia mais calmo ao ver que eu também estava calma. Fingindo, mas estava mais calma.
– Eu liguei para a mamãe. Ela disse que cancelaria alguns ensaios para vir nos ver.
– Não deveria ter feito isso... – encarei o chão. – Não deveria preocupá-la.
– Deveria sim! Ela brigaria muito comigo. Ainda mais porque eu não liguei para ela quando sofremos o acidente, ela não soube de nada. A vovó soube, mas eu pedi para que ela não falasse nada.
– Eu defenderei você caso isso aconteça. – murmurei.
Saí de perto de Kentin e entreguei-me ao conforto da cama. Fechei os olhos e os abri vagarosamente encarando a palidez do teto de gesso enfeitado com desenhos de flores, típico de um quarto que fora preparado para uma menina.
– Quer mesmo dormir sozinha? – ele interrogou. Fiz que sim com a cabeça.
Kentin retirou-se do quarto, pela expressão dele, ele estava de coração partido assim como eu. Tentei ao menos ficar mais calma, mas não conseguia. Apesar de a cidade ser pequena, há médicos muito bem treinados e hospitais de qualidade. Com certeza Kentin deve ter me internado em um dos hospitais mais caros da cidade, e era por isso que eu me preocupava. Se havia médicos ótimos e mesmo assim não descobriram o que eu tinha, significava que meu quadro clínico era diferente ou complexo. E se eu estivesse morrendo? E se não tivesse cura? E se eu não acordasse no outro dia? Tentava ser otimista pensando em outras coisas que iam contra meus pensamentos negativos. Se for tão grave assim, por que eu ainda não estava internada? Se fosse realmente complexo, eles me deixariam no hospital e não me dariam alta.
Torcia para que Kentin estivesse certo, que eu realmente iria ficar bem como se nada tivesse acontecido. Eu tinha medo de morrer e de deixar para trás todas as pessoas que eu gostava, não queria que ninguém chorasse, e não queria morrer e deixar para trás os futuros sonhos que eu teria. Durante a minha eu sempre quis sonhar em ter algo, em fazer alguma coisa. O unido sonho que eu tive era que simplesmente parassem de me jogar e tirar do orfanato como uma bolinha de pingue-pongue. Isso tinha acontecido, e olhando por outro lado... Eu nem estava me comportando como uma pessoa que deveria agradecer por isso ter acontecido... Na minha idade, é terrivelmente difícil conseguir um tutor, quanto mais conseguir uma família. Preferem mais adotar bebês a crianças ou adolescentes.
Talvez a morte estivesse caminhando em passos lentos em minha direção, desde o dia que nascemos, a única certeza é a morte, mas nunca cheguei a pensar tanto no meu destino cruel como naquele dia. Além das certezas, há perspectivas. As perspectivas são de que você irá para um colégio bom, para tirar notas boas, para ir para faculdade, tirar notas boas, para conseguir um diploma, um emprego, um companheiro e finalmente casar e ter filhos. Filhos dos quais irão para um colégio bom, tirar boas notas, para irem para uma faculdade e assim sucessivamente.
A vida era um desperdício? Simplesmente viver num vicio de um ciclo que nunca acabava. Viver com sonhos que não abandonam essas ideologias. Tudo que eu desejei na minha vida foi uma família, agora eu tinha uma família, o que eu faria então? Tirar boas notas, ir para faculdade, ter um emprego, um marido e depois filhos? Falar assim dá até impressão de que as coisas irão andar por essa linha em pouquíssimo tempo. Na verdade, adultos dizem que a vida passa depressa. Tenho mais é que concordar, mesmo não sendo adulta. Estou há mais de um ano com minha nova família e todo esse tempo passou num piscar de olhos. Talvez porque os problemas tenham me entretido. Os problemas, os garotos complicados, e a cara de Kentin que parecia divertir-se quando me irritava.
Queria saber o que tinha, queria saber se poderia sobreviver a tudo que viesse pela frente, queria saber se eu ao menos teria forças para lutar contra os obstáculos que viriam. Eu queria fazer tantas coisas, e me arrependi na hora de ter feito coisas das quais eu não deveria. Queria concertar minha vida em cinco minutos. Concertar tudo que fiz e tudo que eu disse com algumas pessoas, Lysandre e Castiel entravam empatados como os primeiros colocados dessa lista. Talvez compreendessem... Talvez não teriam piedade. Talvez Castiel, Lysandre não.
Meus olhos passeavam pelo quarto a procura de um sono que parecia ter esquecido-se de vir ao meu quarto, para me embalar em sonhos dos quais eu teria ao dormir, eu queria uma ilusão na minha cabeça que apagasse tudo aquilo que estava acontecendo. Remexi-me na cama, meus olhos conseguiam enxergar parte do quarto. A Lua havia mostrado sua face brilhante que trazia uma luz fraca através da janela do meu quarto, a noite esquentara, o que era estranho. Meus olhos pousaram no criado mudo, onde o casaco de Lysandre ainda estava lá, dobrado delicadamente. Estiquei meu braço para pega-lo, era macio, quente, e se eu fechasse os olhos um por momento, o cheiro que estava no casaco me faria acreditar que Lysandre estava presente. Deite-me novamente com o casaco em mãos e o abracei junto com um travesseiro próximo.
Queria um beijo, um abraço, qualquer coisa, qualquer conforto, qualquer força que alguém pudesse me dar. Estava me sentindo uma derrotada naquele estado. Não poderia pedir conforto a Kentin, ele já havia feito muito, ele já deve ter se preocupado demais por minha causa. Fiquei refletindo sobre a presença de Lety quando eu entrei no quarto de Kentin. Talvez Kentin se importasse tanto que havia mentido sobre ter ido para cama com Lety. Ela mesma disse “Eu sabia que você mudaria de idéia”. Talvez ela tivesse vindo de alguma maneira e Kentin nem sequer tivesse encostado nela, pois estava no sofá jogado e desmaiado de qualquer jeito, talvez ele a rejeitara e ela estava na esperança de que ele mudasse de ideia. Quem sabe ele quis desviar o assunto dos papeis tentando me irritar por causa da visita inoportuna de Lety. Era uma hipótese. Ele sabia que eu tinha entrado em seu quarto, pois havia visto Lety. Deve ter deduzido que eu tinha visto os papeis, agora a pouco ele havia me perguntado se eu havia visto os tais papeis. Talvez fosse isso...
Adormeci abraçada com o travesseiro e o casaco, como uma garota carente que abraça travesseiros imaginando uma pessoa ao seu lado. Quando preguei os olhos, já era de manhã, ou perto do sol surgir. A Lua havia sumido, sinal de que eu sol viria logo após sua partida. Apenas tirei um breve cochilo, como estudantes em época de provas que passam a madrugada estudando, aliás, seria como Lana deveria estar estudando para recuperar as materias perdidas, SE tivesse voltado a freqüentar a escola.
Meu sono era pesado, sempre fora. Mas quando um toque de uma mão fria deslizou pelo meu rosto, abri os olhos instantaneamente. Mesmo não vendo claramente, por conta da claridade que incomodou minha visão e me forçou a fechar os olhos, eu tinha a impressão de que era um menino à minha frente, provavelmente Kentin que havia vindo ao meu quarto me obrigar a comer alguma coisa antes de tomar aqueles remédios amargos. Tão amargos quanto meu humor.
Quando minha visão se acostumou com a luminosidade, vi Lysandre com o rosto enrubescido encarando um dos lados do quarto. O CASACO! Ele me vira dormir abraçada com o casaco!
“Que mico! Que vergonha! Vou morrer! Capotar! Bater as botas! Ter um infarto no miocárdio, catastrofico! “ – gritei mentalmente para mim mesma.
– Vim ver como você estava, Kentin disse que eu poderia subir para vê-la, ele está preparando algo na cozinha. – Lysandre explicou.
Sentia vergonha e ao mesmo tempo morria internamente com tamanha surpresa. Kentin mal sabe cozinhar um ovo, quem dirá preparar algo decente. Viraria cobaia dele, isso sim! Punição pela comida que eu fiz, da qual ele passou mal.
– Acho melhor deixá-la sozinha para trocar-se. – ele falou levantando-se da cadeira próxima a cama.
– Espere! – o puxei pelo braço fazendo-o sentar-se em minha cama. – O que viu enquanto eu dormia, eu... – pausei sem saber o que falar, apertando levemente a manga na camisa dele.
– Não tem importância. – ele enrubesceu, sem sorrir e nem nada do gênero. Ele estava tomado pela vergonha assim como eu.
Estendi o casaco a ele de uma forma ligeira, ele deu um sorriso sem graça e delicadamente, tomou em mãos a peça de roupa. Lysandre levantou-se mais uma vez e foi em direção à porta. Logo recuou com passos ligeiros e um sorriso sem graça.
– Quase me esqueci de dar-lhe isso. – ele estendeu um copo de café da cafeteria que costumávamos a frequentar. – É do que você sempre pede! – completou. – Conhecendo Kentin como conheço, não acho que o que ele está a preparar lhe fará bem para o estomago. Ele até me pediu para trazer um livro quando eu disse que viria.
– Um livro? – interroguei. – De culinária ou algo assim? – ele confirmou com a cabeça.
Kentin gritou por mim lá da cozinha, um baita grito, por sinal. Lysandre saiu do quarto, disse que iria avisá-lo que eu já estava descendo, que primeiro iria trocar de roupa. Tomei o café no quarto enquanto mudava as roupas. Quando desci as escadas, olhei para os lados à procura de Lysandre.
– Onde ele está? – perguntei.
– Foi embora. – Kentin respondeu. – Prova isso aqui. – ele falou com uma colher cheia de algo que parecia ovo. Ele aproximou a colher da minha boca, antes de provar, cheirei o alimento e logo me afastei.
– Está com cheiro de Whisky!
– O livro disse para temperar à gosto. – ele apontou para o livro de culinária que Lysandre havia trazido consigo. Fiz careta, que nojo! – Estou brincando, só caiu um pouquinho. – ele riu. – Come aí!
– Obrigada, mas não. Já não basta a minha dor de cabeça, quer que eu fique doente do estomago também?
– Como eu fiquei daquela vez? – ele arqueou a sobrancelha.
– Não é justo! – berrei. – Eu estava aprendendo a cozinhar, ninguém nunca me disse que não se guarda peixe no armário!
Ele balançou a cabeça em sinal negativo, completando com um revirar de olhos e um suspiro pesado. Fiz cara feia, não comi o que ele me oferecera. Talvez fosse falta de educação recusar algo que ele tinha se esforçado em fazer, mas não acho que seria bom ingerir aquilo.
– Quer um drink? – ele perguntou.
– Primeiro: são nove da manhã. Segundo: estou sendo medicada. – nem fui tão grossa, mas estava ficando meio intolerante com tamanha estupidez.
– Tem certeza? São margueritas. – ele sorriu.
– Me dá duas.
Kentin havia me viciado naquela porcaria. Kentin sabia muito bem que aquilo poderia me fazer mal, mas mesmo assim ficava me empurrando aquelas coisas. Já havia tomado as duas, com o estomago vazio e sem nada para absorver a bebida, já estava ficando um pouco tonta.
– Vamos visitar a médica hoje, certo?
– Não quero. – cruzei os braços.
– Você quer sim. – ele sorriu empurrando vagarosamente outra taça de marguerita em minha direção.
Concordei com a cabeça, suborno, covardia, isso sim! De qualquer forma, ele não poderia mais me empurrar bebidas, não poderia levar-me a médica se eu estivesse embriagada. Quase no final do dia é que fomos até a tal médica. Quando chegamos no consultório, ela me olhou de cima a baixo. Ela sentou-se de um lado da mesa e eu e Kentin nos sentamos do outro, de frente para ela.
– Você deve ser a Lynn. – ela sorriu. – Muito prazer.
– O prazer é todo meu. – retribuí o sorriso timidamente.
Baixinha, cabelos escuros, corpo normal. Nem ao menos parecia ser adulta, sua voz era meio rouca e seu vocabulário era flexível, ela falava como uma pessoa da nossa idade, e não como uma adulta. De vez em quando ela lançava olhares pervertido contra Kentin, apenas observava aquilo tudo. Jogaria Kentin contra a parede e o interrogaria para que ele explicasse o que significava aquilo.
– Não haverá exames? – perguntei.
– Não por enquanto. Já fiz exames o suficiente em você por três dias. – ela explicou. – Esse é... O resultado de um deles. – ela entregou um envelope na mão de Kentin. – Ainda há um para ser entregue, é o mais delicado e temos que ser precisos quanto ao resultado. – ela voltou o olhar para mim. – Peço apenas que comece a preparar-se psicologicamente, não garanto que o resultado vá sair bonitinho e que você vá tomar dois comprimidos e voltar ao normal. – arregalei os olhos, Kentin lançou um olhar de repreensão contra a médica. – E não adianta fazer essa cara para mim, Ken. – ela fez bico. – Não fique zangado comigo por eu dizer a verdade. Ela tem de estar preparada, não posso dar a ela falsas esperanças. Estou agindo como uma profissional.
– O que eu tenho? – perguntei.
– É desconhecido. – a doutora respondeu. – Por isso o próximo resultado levará um tempo. – ela suspirou. – O que eu entreguei a ele são os resultados de uns raios-X que fizemos. O que está pendente é o resultado da ressonância magnética.
– Foi algo do acidente? – perguntei.
– Aparentemente não. – ela arrumou a armação dos óculos em seu rosto.
Era algo que eu já tinha antes do acidente, como não notara nada de errado? As palavras dela causaram impacto e pânico sobre mim, se Kentin ao menos tivesse falado metade das coisas que ela falou, eu não teria ficado tão chocada. A culpa não era só dele, era minha também. Eu me iludi com falsas esperanças, achando que eu estava bem e que os exames eram só para garantir que estava tudo ok comigo. Toda a merda fora jogada contra o ventilador.
– Eu corro risco de vida? – interroguei. A doutora ficou por uns segundos em silêncio, ela encarou a expressão de Kentin, que quase implorava para que ela não falasse nada sobre isso. Mesmo assim ela fez que sim com a cabeça.
– Se é uma doença desconhecida, provavelmente você corre riscos de vida. Mas não sei se são poucos ou muitos. – ela mordeu o lábio inferior, pensativa. – Prometo que me esforçarei ao máximo.
Quando fomos saindo do consultório, saí totalmente desolada. A médica parou Kentin segurando em seu ombro.
– Admito que cresceu bastante. Espero que se torne um homem maravilhoso. – ela sorriu. – Até mais, Ken.
– Até mais, morango.
“Morango?” – pensei. – “Eles se conhecem. Pela idade e profissão, talvez seja conhecida da tia”.
Quando chegamos ao carro, tentei esquecer um pouco do pânico lembrando das feições divertidas da médica quando tínhamos chegado lá.
– Você a conhece? – perguntei.
– Uma velha amiga. – ele respondeu. – Mamãe era amiga dela, mas quando eu a conheci, nem sabia que mamãe também a conhecia. Elas eram conhecidas da faculdade, ela continuou, mamãe largou pra ser modelo.
– Onde se conheceram?
– Acho que foi numa loja. – ele coçou a cabeça forçando a memória. – Ah, sim! Foi numa loja. Foi ela quem comprou a playboy da mamãe pra mim.
– Ela não sabia que você era filho da tia? – arqueei a sobrancelha.
– Na verdade ela sabia. – ele fez careta. – Ela quis zoar com a minha cara porque eu meio que sugeri que queria comer ela.
Revirei os olhos, então foi assim que ele tinha conseguido aquela playboy. Ficou com trauma, bem feito.
– E por que chamou ela de morango?
– Apelido da faculdade. – ele explicou. – Não sentiu o cheiro da sala dela? – nem tinha me lembrado disso, tinha um cheiro adocicado, mas não conhecia reconhecer do que era, agora que ele falou, percebi que era cheiro de morango.
Quando cheguei em casa, subi para meu quarto. No começo da consulta, ela me havia entregado um caderno. Havia dito que escrevesse no caderno tudo que acontecesse com meu corpo. De coisas normais a algo estranho. Achei esquisito, fazer “diários” não era coisa de psicólogo ou psiquiatra? O que ela era?
– Neurologista. – foi o que Kentin respondeu quando perguntei.
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