A Órfã Doce
73 O vermelho da neve
Notas iniciais

Neurologista. Então o meu problema era no sistema nervoso central. Acho que Kentin nem ao menos percebeu que isso piorava tudo, acho que ele nem percebeu que eu me desesperei mais e mais. Eu poderia parar de andar, de falar, de respirar. Aquilo era grave, muito grave. Ou talvez fosse eu quem estivesse agravando o problema me desesperando dessa forma.
Naquele mesmo dia a Tia chegou em casa subindo as escadas apressadamente, ela veio até meu quarto desesperada e me abraçou forte, chorando em desespero. Naquele momento eu fiquei pensativa. Eu era um peso, o azar que caía na vida das famílias que me adotavam. Com dois anos ou menos, um deles morriam e me jogavam para o orfanato de novo. Naquela família, eu iria morrer com dois anos presente ou menos. Eu não sabia muito bem se iria morrer, mas como a médica disse, eu tinha que me preparar psicologicamente. Aceitação seria o primeiro passo de muitos.
– Eu não acredito nisso. – ela lamentava-se comigo entre seus braços, os soluços ficavam cada vez mais altos. Eu já havia chorado tanto desde que tinha voltado da médica que nem ao menos conseguia chorar. Eu queria, mas as lágrimas não saíam. – Desculpe por não estar presente...
– A culpa não é sua. – tentei confortá-la. – Está tudo bem.
Kentin nos observava da porta, com os braços cruzados sem dizer uma palavra.
– Não pode ser. Isso é uma calunia! – ela me soltou e começou a andar pelo quarto com os braços no ar. – Leve ela na morango! Você deve ter escolhido um médico ruim!
– Mas eu levei a levei na morango. – Kentin suspirou.
– Isso não é possível! – ela exclamou incrédula com as mãos na cabeça. – Tem que ter algo de errado, tem que ter!
– Mãe, eu não sou médico, a senhora não é médica e nem a Lynn é. – Kentin pausou um pouco segurando nos ombros da mãe para tentar acalmá-la. – A morango tem anos de experiência, ela sabe o que faz.
A tia era uma pessoa dura na queda, teimosa igual a Kentin, ele teve a quem puxar. Kentin poderia muito bem confortá-la, mas eu acho que já tinha feito muito isso. Talvez a tia não fosse mais pirada na batatinha e pudesse aceitar isso sem ser encontrada na zona fumando vinte cigarros.
– Tudo que podemos fazer é dar apoio a ela. – ele apontou para mim. – Então se acalme. Até a Lynn, que está doente, está calma. Eu entendo que esteja em choque, mas ficar gritando com as paredes não vai ajudar em nada.
Ela fez que sim com a cabeça controlando a respiração acelerada. Limpou as lágrimas com as costas na mão e me lançou um olhar profundo, que logo se encheu de tristeza, e eu entendi o porquê. Eu estava magra, fraca, pálida.
– Irei cancelar algumas coisas essa semana. – ela sacou o celular. – Tenho que ficar mais um tempo por aqui.
– Não é necessário. – Kentin falou recolhendo o aparelho das mãos femininas e tremulas. – Eu cuidarei dela, certo?
– Eu insisto! – ela exclamou pegando o celular de volta.
Ambos saíram do meu quarto, ouvi uma breve discussão no corredor, onde Kentin ficou bronqueando a tia.
“Tem que ser forte, por mim e por ela”. – foi o que Kentin falou.
Estava ficando cansada daquela rotina. Comer, tomar banho, tomar os remédios e ir dormir. Queria um porre, sair por aí, correr, qualquer coisa! Sentia-me presa, totalmente presa. Como quando eu e Kentin ainda proibíamos um ao outro de sair. Ou pior. Me sentia presa como no orfanato.
Eu me sentia mais tranqüila em relação à doença. Chorar não adiantaria nada, e logo agora que a tia estava em casa, eu teria que evitar chorar. Não queria vê-la sofrer e arrepender-se de ter me adotado, com certeza ela não me adotou para sofrer com a minha perda. Eu tinha que me mostrar mais forte, para mostrar que estava bem e que não seria necessário que ela cancelasse tudo para ficar ao meu lado. Que fraca eu era! Sempre ficando doente. E eu tinha que admitir que estava doente. Mesmo que eu tomasse um tiro, eu não queria admitir que estava machucada. Mas agora a situação era outra. Não era só retirar um corpo estranho, cauterizar e pontilhar a pele.
A tia passou uma boa parte do dia comigo. Tomou banho comigo, mas sem a presença de Kentin (oh glória!), fez um curativo nas minhas costas, conversou comigo, e até jogou vídeo-game. Durante à tarde, ela teve que sair para a cidade vizinha, onde Rosalya mora. No caso, ela não ia demorar, até porque a viagem é curta, pouco menos de duas horas à carro. Kentin aparentemente havia saído e eu estava sozinha novamente. Depois que soube que estava doente, queria companhia, mas parecia que ninguém queria ficar perto de mim.
Deitei-me na cama, olhando para o teto. Quando retirasse aqueles pontos das costas, pediria para treinar com Kentin, fazer exercícios todos os dias, praticar artes marciais, qualquer coisa que ocupasse meu tempo e minha mente. Sentia-me meio triste por estar vendo que eu tinha uma possibilidade de morrer. Ainda tinha muitas coisas das quais eu queria fazer, e com certeza eu não as faria deitada numa cama, esperando algo que nunca vai chegar.
Ouvi um barulho vindo do portão, no jardim, na frente da casa. Levantei-me e fui com curiosidade até a janela. Um menino de cabelos escuros estava a tocar no saxofone, com a visão apontada para a janela onde eu estava, sorri. Não sabia que Armin sabia tocar saxofone. Assim que eu o avistei, ele passou uns minutos a tocar, depois que parou, acenou para mim. Fiz um sinal de espera com a mão e desci as escadas segurando fortemente no corrimão. Abri a porta para deixá-lo entrar. Ao invés de Armin entrar, o primeiro que atravessou a porta e abraçou foi Alexy.
– Magrinha! Você está magrinha! – Alexy disse me soltando e indo em direção à cozinha. – Precisa de chocolate, muito chocolate!
Armin atravessou a porta com o saxofone em mãos, o deixou em cima do sofá, veio na minha direção e me deu um abraço, não muito apertado, mas era reconfortante.
– Seu irmão é muito palhaço! – ele cruzou os braços. – Não nos contou nada sobre o acidente.
– Mas antes do acidente nós estávamos com vocês! – retruquei. Não era possível que ninguém soubesse.
– Em caso de emergência, ele não pede pra avisar ao F4, ele não gosta. Ele só pede para avisar a avó dele, não recomenda a mãe porque tem medo que ela pire na batatinha. – ele suspirou. – De novo. – completou com um sorriso.
Tinha que ter uma boa conversinha com o Senhor Kentin. Armin me contou que havia ido para a Inglaterra com Alexy e os pais dos mesmos. Fiquei me perguntando porque todo mundo estava viajando.
– Foi o dia dos pais, Lynn. – Alexy explicou.
– Ah... Por isso. – agora parecia óbvio e bobo ao mesmo tempo.
Encarei o chão. Eu gostava daquela família, mas eu adorava o tio fadinha. Bobagem... Eu adorava a escola militar, isso sim! Mal via a cara dele durante o ano. Mesmo assim eu sentia falta... O dia das mães tinha sido tão triste. Kentin tinha ficado emburrado porque não tinha a companhia materna, por isso deu o presente para a avó dele. Às vezes eu sinto que ela se vê na obrigação de estar do lado dele como mãe, mesmo não sendo. Sentimento confuso...
Senti pena de Lysandre. Foi para a França só para brigar com o pai e a mãe, mesmo sendo o dia dos pais. Será que ele e Leigh eram unidos ou eram feito cão e gato? Se bem que eu não imagino Lysandre irritado, ele sempre aparenta estar calmo. Na verdade, ele é a pessoa mais calma do F4. Leigh também não me parece ser uma pessoa nervosa. Na única vez que eu o vi, ele tinha um ar tímido e ao mesmo tempo, divertido. Olhando superficialmente, dá para ver que ele e Rosalya não têm nada em comum. Apesar de que há pessoas por aí dizendo que os opostos se atraem. Besteira! Se fosse assim, a água e o óleo se misturariam.
Se Armin e Alexy sabiam que eu estava doente? Não. E eu não os contaria. Não agora, pelo menos. Só queria contar quando tivesse certeza do que tinha. Se bem que eu ainda tinha medo, tanto da doença, como de contar para alguém. Estava curiosa para saber o motivo que levou Kentin deixar o acidente e minha doença em segredo. Talvez fosse melhor para mim, talvez ele tivesse uma idéia na cabeça. Não estragaria tudo sem antes saber o que ele pensava.
– Eu adoro jazz. – comentei com Armin. – Eu escutava quando... Estava “naquele lugar”. – fiz bico, referindo-me a escola militar. Alexy estava presente, e mesmo que ele merecesse saber, ainda sim não queria contar.
– Na escola militar? – Alexy interrogou.
– Porra, Armin! – exclamei estapeando o braço do mesmo. – Você contou! Não acredito que você contou!
– Como se eu fosse sair contando para todo mundo! – Alexy reclamou de braços cruzados.
– Não foi isso que eu quis dizer! – tentei corrigir-me. – Estou zangada pelo fato de ele ter falado, não me incomoda você ter conhecimento disso.
– E por que não quer que ninguém saiba? – Alexy retrucou.
– Antes era porque eu tinha medo das pessoas me acharem uma delinqüente que foi mandada para lá para ser disciplinada. – suspirei. – Agora não quero que ninguém saiba,porque Kentin vai acabar sabendo e ficando zangado comigo por eu não ter contado.
– Você também ficaria zangada com Kentin se soubesse algumas coisas sobre ele. – Armin brincou. – E mesmo que eu goste de ver o circo pegando fogo, seria muita covardia se eu contasse.
– Covardia como beijar a garota que seu amigo gosta? – Alexy fechou a cara.
– Eu nunca gostei do Castiel mesmo! – Armin retrucou. – E ele é santo por acaso? E aquela vez que... – Armin mal pôde continuar, Alexy tapou a boca dele com a mão.
– Que vez? O que ele fez? – interroguei curiosa.
– Nada! – Alexy exclamou afastando a mão da boca de Armin e lançando um olhar repreensivo.
Naquele dia eu fiquei me perguntando o que Armin sabia. Mas de uma coisa eu tinha certeza: Armin sabia de muitas coisas, e ao contrário de Kentin, não se dava para arrancar informações de Armin usando o bom e velho whisky. Quando Armin não queria passar informações comprometedoras, era porque a porra era séria. E isso me deixava milhões e vezes mais curiosa.
– Lynn, não seja tão trouxa. – Armin revirou os olhos. – Kentin passou cinco anos na escola militar, acho que ele reconheceria uma pessoa que também esteve lá. E logo você! Que já deu evidencias o suficiente para ele perceber isso!
Seria bom deixar tudo isso de lado e dizer a Kentin sobre isso, mas, particularmente, eu é que não tive coragem para falar isso para ele. Tanto não tinha, como não sabia de onde iria arrancá-la. Se ele soubesse de verdade, já teria ficado zangado e já teria vindo falar comigo. E eu acho que ele ficaria zangado, talvez achasse que eu não confiava nele. De qualquer forma, uma hora ele descobriria, e eu fiquei zangada quando fiquei me questionando. Se ele não contava nada para mim sobre ele, por que eu deveria?
Depois de mais de uma semana trancafiada em casa, Lana vinha me visitar constantemente. O ombro dela havia se recuperado rápido, embora ela não pudesse fazer muito esforço por uns meses. As coisas deveriam estar difíceis lá no restaurante com a Lana meio debilitada e eu completamente.
– Estou ficando cansada desse lugar. – suspirei fazendo bico.
– Melhor do que ter que encarar algumas pessoas lá na escola, pode crer. – ela coçou a cabeça. – Antes que pergunte algo sobre a escola, peço que mantenha o foco na matéria, por favor. Não quero falar sobre a escola.
E eu sabia o porquê, eu acabaria perguntando sobre Nathaniel. Seria errado insistir, Lana estava sendo muito gentil comigo. Ela veio para a minha casa e me trouxe todos os conteúdos que foram dados na escola.
– Armin me falou sobre as avaliações que Kentin fez essa semana. – Lana comentou com um tom preocupado. – Ele vai mal, muito mal.
Mordi o lábio inferior me consumindo de culpa. Eu sabia que aquilo tudo era por minha causa. Acho que a cara de cansaço dele também era evidente, apesar de que Lana não disse nada sobre isso.
– É verdade o que você me contou? – Lana corou um pouco. – Sobre você ter achado a Lety quase pelada no quarto dele? – fiz que sim com a cabeça. – Isso é uma falta de respeito!
– Não posso culpá-lo e nem exigir mais dele. – encarei o teto. – Já dei a bronca correspondente, acho que ele entendeu a mensagem. E se não entendeu, bem... Não sou a mãe dele.
Sobre Lety, bem... Eu não me importava mais. Quando Lana me viu pela primeira vez, ela ficou com uma expressão bem triste, meu estado atual não era a coisa mais linda do mundo. Eu havia perdido peso, meus olhos perderam a vida, meu rosto estava sem expressão. Digo isso pelas vezes em que eu me olhei no espelho e tive mais vontade de chorar do que já havia chorado.
– Querida? – ouvi a voz da tia dando batidas na porta e entrando. – Não querem um bolinho? – ela nos perguntou.
Fiz que sim com a cabeça, embora não fosse comer. Seria para Lana, e talvez, a tia se alegrasse mais por estar sendo útil. Mesmo que ela já tivesse feito muito por mim.
– Sua mãe é legal. – Lana sorriu.
Fiz que sim com a cabeça. Não gostava de chamá-la de mãe, e ela sabia disso. Aliás, tanto a tia quanto a Lana sabiam disso. Às vezes escapava, era normal.
Dava para notar a milhas de distancia que eu não era a filha biológica da tia. Eu não me parecia nem um pouco com ela. Para falar a verdade, nem Kentin parece. Mas eu deduzi que ele deve ser mais parecido com o pai dele, que eu nunca nem sequer tinha visto uma foto.
Aquela casa ainda continuava sendo misteriosa. Miki e Mika Takamura sempre foram incógnitas para mim, não só elas, mas também tudo ao meu redor. Elas, a casa, os quartos, os livros, os documentos, Kentin... Talvez eu achasse Kentin o pior de todos os mistérios, um dos mais indecifráveis. Mas comparado a Lysandre, Kentin não era nada nesse quesito. Lysandre era a pessoa mais calada que eu já havia conhecido.
FLASH BACK ON
– Você tem o poder de mudar as pessoas, Lynn. – Alexy suspirou abrindo um meio sorriso. – Castiel era grosso, Lysandre era frio, Kentin era insensível. Parece que você conseguiu achar um lado mais humano em todos eles.
– Isso é patético. – era tanto que eu até queria rir.
– Não acho. – ele discordou. – E eu e Armin éramos as pessoas que escondiam nossa verdadeira personalidade. No dia em que Armin me falou sobre seus feitos quando havia entrado para a Sweet Amoris, eu percebi que, se você poderia encarar dezenas de pessoas que você nem conhecia, eu poderia muito bem encarar meus pais e falar dos meus verdadeiros gostos.
Fiquei calada por uns instantes com um sorriso baixo.
– Não posso dizer que Armin desenvolveu um lado positivo. – Alexy fez bico. – Mas de qualquer forma, ele não finge mais ser gentil com ninguém. Pelo menos diz o que pensa. Apesar de ser irritante, isso é bom, não é?
FLASH BACK OF
Eu já havia falado com Alexy sobre o menino que ele beijou na festa. Eles estavam quase namorando quando essa confusão aconteceu. Ele me disse que os pais do menino também não aceitavam o fato de ele ser gay. Depois que isso aconteceu, Armin armou o plano dele e foi embora, o tal menino que Alexy gostava também foi embora. Por isso ele decidiu que estava na hora de contar a verdade, ele sabia que não valia mais a pena esconder, nem o menino que ele amava, ele não tinha mais.
Amor é sempre um sentimento positivo, no começo. Finais de romances sempre são tão tristes. Teve uma época em que eu pensava que o modo de casualidade em que Angela levava seus relacionamentos era errado. Estava errada, era ingênua. Era muito, muito mais simples. Falando em Angela, eu não havia tido noticias dela desde o anuncio do jornal que falava sobre o namoro dela com o filho do presidente. Talvez estivesse tão ocupada que não tinha mais tempo para nada, só para se preparar para as lutas.
Castiel até agora não tinha dado noticias. Desde aquelas flores, eu não soube mais nada dele. Será que ele ao menos sabia o que estava acontecendo comigo? Quem sabe estivesse tão arrependido por causa dos lances com a Debrah, que havia ido pro inferno como eu mandei. Se bem que ele é teimoso demais até para ir para o inferno. Teria pena de lúcifer por ter de agüentar ele, nem o mesmo merecia tal castigo.
No dia seguinte a tia teve que sair para continuar os ensaios. Não sei como, mas eu a convenci de que estava bem, e ela foi. Kentin veio até meu quarto saber se eu estava bem. Ele sempre me convencia de não sair do andar de cima. Ele trazia água e as minhas refeições no quarto.
– A Lana falou que suas notas estão ruins.
– E o que é que tem? – ele interrogou indiferente.
– Nada, é que... – engoli a saliva, estava tentando não abusar da boa vontade que ele tinha de cuidar de mim. – Não precisa se preocupar tanto. Deveria estudar mais!
– Não preciso que me diga o que fazer. – foi uma resposta bem rude enrolada num tom calmo. – Você tem problemas maiores.
– E por que não deixa que eu cuide deles? – retruquei. – Francamente, estou preocupada com você. Você não dorme direito, não come direito, e na maior parte do dia, eu nem sequer te vejo, você simplesmente some.
– Já brigamos sobre esse assunto das saídas! Eu estou dando o máximo de mim! – ele alterou o tom de voz. – O que você quer que eu faça? Todos estão sofrendo por sua culpa! Não torne as coisas piores.
“Mas o que?”. – pensei.
Ele havia entendido errado, ou estivesse “no modo fúria”, como diria Armin. Deveria estar estressado, mas mesmo assim eu me magoei com o que ele disse. Ele achava que eu não sabia que estava me tornando um fardo? Mas que culpa eu tinha? Naquela noite eu decidi que iria sair de casa, para pelo menos dar uma volta e pegar um ar.
Parecia uma maluca no meio da neve, com botas que eu sentia afundarem a cada passo. A rua estava vazia, nem os ladrões deveriam se manifestar naquele frio. A dor de ver que eu nunca mais seria a mesma era tanta que eu acabava ignorando o queimar do meu rosto por conta da neve. Tudo que eu precisava era tomar um ar, embora aquele ar frio quase congelasse meus pulmões.
Andei por umas calçadas que estavam um pouco livres da neve. A discussão se estendeu por muito tempo e por muitos motivos. Lety, mamãe, as notas dele, meu estado...
“O que você quer que eu faça? Todos estão sofrendo por sua culpa!”. – os gritos dele ecoavam na minha mente. Cerrei os olhos com força, impedindo a passagem das lágrimas e ao mesmo tempo, era uma tentativa de tentar esquecer.
– Lynn!
Meu rosto virou-se lentamente para trás, Kentin vinha subindo a rua correndo. Eu não pensei muito bem, quando dei por mim, estava correndo para fugir dele. Dos gritos, das brigas, fugindo para não ser mais um fardo.
“Estou sendo um fardo maior ainda, um incomodo muito maior agora”. – pensei. A corrida ia perdendo a velocidade. A calçada estava lisa, escorreguei e caí de queixo. Estava de bruços, deitei no chão de barriga para cima e lá fiquei, a visão embaçava um pouco. O céu acinzentado e pequenos flocos brancos que caiam suavemente sobre o chão. Uma gota vermelha caiu na neve branca, o mesmo líquido escorria pelo meu pescoço. Coloquei a mão no queixo e quando a observei, estava tingida de sangue. Kentin ao chegar, tocou em meu rosto, ele olhou para a mão ensangüentada e começou a entrar em pânico.
– Ah meu Deus! – Kentin exclamou. Ele tirou o cachecol e pressionou contra meu queixo. – Por que correu?! Sua burra! Burra! Olha só o que aconteceu!
Na mesma hora eu comecei a chorar como uma criança, Kentin parecia outra criança, me olhando sem saber o que fazer.
– Machucou muito? – ele perguntou retirando o cachecol para checar o estado do ferimento. Fiz que não com a cabeça. – Dói em outro lugar? Onde está doendo? – levei a mão pro lado esquerdo do peito e apertei o tecido da blusa, Kentin fez uma expressão triste e me abraçou.
Um carro parou no meio da rua. Gêmeos saíram de dentro do mesmo, o azulado, mais desesperado que Kentin. Kentin me pegou no colo e me levou para dentro do carro. Alexy estava no banco da frente do lado do passageiro, ele não conseguiu olhar para frente por um segundo, ele me olhava com cara de choro, mesmo que aquilo fosse um simples machucado, mas eu não chorava por causa disso. Eu chorava porque tinha medo. E eu tinha que estar preparada, como a médica disse, mas era muito dificil.
Fui atendida rapidamente e em alguns minutos estava com um curativo no queixo, deitada numa das camas do hospital. Kentin tomou minha mão entre as dele e a apertou forte. Ele levou uma das mãos até o pescoço, onde retirou dois colares. Ambos colares que militares ou alunos de escolas militares ganhavam.
“Dois?” – pensei. Fiquei confusa até ele retirar o colar, o pingente rodava, e o mesmo tinha o nome do dono gravado. – “Lynn”.
– Eu descobri.
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