A Órfã Doce
90 A chefona da máfia
Notas iniciais

As Forças Especiais são um grupo de ótimos soldados que executam missões de grande porte e importância. Rosalya havia se tornado membro das Forças Especiais bem antes do sequestro no qual eu ajudei a resgatar os garotos do F4. Normalmente os membros das Forças
Especiais aceitam a ajuda de outras pessoas em suas missões. Pessoas com experiência em combate ou com algum tipo de informação que pode ajudar na missão.
– Para onde temos que ir?
– Calma. – pediu ele.
Dimitry e eu nos esgueirávamos pelo corredor vazio que fazia ecoar nossa tentativa de passos silenciosos. Fazia careta a cada ruído que provocava, com receio de que poderiam nos fuzilar a
qualquer momento. Dimitry ao menos estava de colete, e eu nada tinha. Só uma pistola, a cara e a coragem.
Soldados inimigos saíram das salas daquele corredor. Por reflexo agarrei a granada que havia tomado da garota que derrubei da sacada de mármore e lancei-a contra os indivíduos que atiravam em nós.
– Iríamos passar por ali! – reclamou Dimitry.
– IRÍAMOS. – dei ênfase. –Não é mais uma boa ideia. Ache outro caminho.
Voltamos o corredor e passamos por outro. Eram todos iguais, se não fosse o senso de direção de Dimitry, estaríamos perdidos há muito tempo. O barulho de passos ecoava pelos corredores, o que nos fazia apressar o passo. Olhava para trás de vez em quando, com o pânico em meu coração e a adrenalina que corria em minhas veias. Minha respiração era ofegante e eu só me perguntava se todos estavam bem nos andares de cima.
Minha única opção era ir com Dimitry, eu tinha mais chances de sair dali. E eu sabia que estava correndo para os braços do perigo, mas queria achar Kentin e Lana para que pudéssemos sair dali de uma vez por todas. Aliás, também queria achar Rosalya para ver o que resultou todos aqueles gritos. Quis acreditar que ela estava bem. Fiquei imaginando o que Leigh estaria fazendo naquela hora. Por conta disso, acabei imaginando o que Angela e Castiel também estariam fazendo.
E pensar que eu arrisquei minha vida para salvar Castiel. Nunca fiz nada pensando em retorno, mas senti uma mágoa porque sabia que ele nunca faria o mesmo por mim. Era até bobagem pensar aquilo. Eu era treinada, e Castiel era só mais um garoto barulhento.
Havíamos usado as escadas da saída de incêndio para subirmos ao andar de cima. A discrição com certeza tinha sido maior. Conseguimos entrar pela sacada de uma das salas, da qual saímos para outro corredor igual aos outros que tínhamos passado. Os corredores iguais com certeza era uma estratégia para confundir qualquer pessoa que não fosse aliado daquele pessoal.
Ao pisarmos os pés no corredor, um soldado inimigo foi arremessado na parede. O homem havia sido arremessado da sala do lado direito, iríamos seguir para o lado esquerdo do corredor. Se não fosse a agilidade de Dimitry, teríamos sido pegos pelas costas.
Para minha surpresa, uma figura conhecida saiu daquela sala com um par de pistolas. Com o cabelo bagunçado, sem o terno, com a camisa social dobrada. A camisa estava rasgada na manga, onde o tiro havia passado de raspão anteriormente. Além do ferimento no braço, ele havia conseguido mais alguns arranhões no rosto.
– Não atire! – avisei a Dimitry.
Kentin me abraçou assim que me reconheceu como aliada. Mas algo não estava certo.
– Cadê a Lana? – Kentin me soltou e mordeu o lábio inferior.
– Quem é esse? – Kentin interrogou olhando para Dimitry.
–Dimitry. – ele mesmo teve a iniciativa de se apresentar. – Agente das forças especiais.
– É um amigo. – expliquei.
– Sou o irmão da Lynn. Me chamo Kentin.
Os dois deram um aperto de mãos. Senti meu estomago revirar por Kentin ter deixado minha pergunta passar batida.
– Cadê a Lana?
– Eu perdi a Lana.
– Como você perdeu a Lana? – perguntei indignada.
– Tínhamos mais chance se ficássemos juntos. Daí você pegou e pulou da sacada com uma garota. Você foi a primeira a se perder!
– Eu salvei você, seu bundão!
– Me salvou? Mas e a Lana? – ele rebateu. – Ficamos tentando achar uma saída para ir aos andares mais abaixo, tentando encontrar você o mais rápido possível. Com isso eu acabei perdendo a Lana. Se você estivesse lá, isso não teria acontecido. Ela não sabe atirar e aqui está cheio de caras armados prontos para matar qualquer um. Você sabe que as chances dela são quase nulas, não sabe?
– Isso! Coloque a culpa em mim! A culpa é minha por tentar proteger vocês!
– Hei! – Dimitry nos chamou a atenção.
Recompus-me da raiva com um suspiro e um olhar feio para Kentin.
– Lynn me falou que você já estudou em uma escola militar, certo? – Kentin assentiu com a cabeça. – Relatório. – ele pediu.
Pensei que aquele termo fosse apenas familiar para mim. Mas Kentin respondeu na mesma hora, como se já tivesse familiaridade.
– Descobri a estratégia de formação dos inimigos. Eles lançam as granadas de fumaça com o intuito de separar e
pegar as pessoas em menor número. – Kentin parou para respirar e então continuou. – Fui até a sala onde, aparentemente, a Rosalya estava. Estava procurando a Lana e pensei que ela poderia ter voltado para lá. Não achei ninguém, nem mesmo a Rosalya. E pelo estado da sala, ela conseguiu escapar.
O desespero me consumiu por dentro. Se Kentin, que era treinado, estava naquele estado, nem queria imaginar como Lana estaria naquela hora. O pensamento de perder Lana naquele prédio me fazia em pedaços.
– Pensei que vocês se davam bem. – Dimitry cochichou.
Dei de ombros, com um meio sorriso nos lábios.
Kentin quis acompanhar Dimitry junto comigo. Disse que queria achar Lana e Rosalya. E além dessas duas, queria achar outra coisa:
– O porquê de eu vir parar aqui.
– Deve ser porque você é meu irmão, não? – perguntei.
– Suspeito que não seja só por causa disso.
– O pai dele era policial, e a avó dele é diretora de uma escola militar. – Dimitry iniciou. – Sim, sabemos de mais coisas sobre você do que possa imaginar. – justificou a ver a expressão de espanto de Kentin. – Talvez quisessem informações ou algo que seu pai deixou para você.
Kentin mordeu o lábio e a conversa foi encerrada. Ele concordava com Dimitry, dava para ver isso.
Ao ver Dimitry se posicionar com a arma andando na frente, lembrei-me da época da escola militar. Ele não tinha o corpo forte e robusto que tem hoje. Digamos que quando estávamos de uniforme e colete, as pessoas o confundiam com uma menina, consequentemente, confundiam ele comigo, já que eu era a única garota de lá. Claro que isso acontecia quando ele estava muito distante ou de costas. Mas eu sempre achei o cabelo longo de Dimitry um verdadeiro charme. Pergunto-me se ele tem mesmo a namorada que disse que tinha. Entre ele e Dajan, ainda acho que Dajan faria mais meu tipo se eu tivesse que escolher um dos dois. Dajan me
apoiava, tinha senso de humor e além de ser bonito, claro. O problema é que às vezes ele ficava azedo e postura séria o deixava meio chato. E isso até me lembrava uma pessoa...
– Hei, tampinha! Mais atenção!
– Certo.
Não vieram tantos homens armados como eu achei que viriam. Isso me preocupava mais, fazia com que eu temesse mais pela vida de Lana. Imagina só se ela estivesse justamente no local onde a maioria estava se concentrando. Não sei se eu deveria me preocupar com os gêmeos e Andrew. Andrew me parece ser um cara esperto. Ele nem ao menos reagiu quando eu apontei a arma para ele. Ele sabia muito bem que as pessoas em volta não deixariam eu atirar nele, já que ele acabara de nos soltar e vinha com a proposta de nos tirar daquele prédio.
Ele sabe qual é o lugar dele, ele sabe qual é o meu. Ele sabe de muita coisa. Definitivamente ele é um cara que sabe mais do que deveria. E pelo visto, ele só usa o que sabe se isso for beneficiá-lo. Definitivamente esperto.
Não sei se deveria acreditar realmente no que Dimitry falou sobre Andrew. E nem sei o que o governador teve na cabeça para juntar a máfia com a policia para derrubar outra máfia. Para mim, aquilo era mais sem lógica do que colocar água com óleo esperando que eles se misturassem. Dimitry não gostava daquilo, acho que nenhum agente gostava. Também acho que ninguém da máfia gostou disso, mas posso estar errada, se eles foram “subornados”
para isso, saíram na vantagem e provavelmente não teriam motivos para se voltarem contra os agentes das Forças Especiais.
Aquele Andrew não me parecia ser de confiança.
Enquanto corríamos pelos corredores e eu voava baixo em meus pensamentos, acabei tendo uma lembrança.
FLASH BACK ON
Quando saí da sala das provas, fui para o jardim da escola, como havia combinado com Kentin. Ele disse que teria uma surpresa para mim, então eu fui às pressas para lá, mas não havia ninguém. Resolvi esperar sentada no banco. Encarei os lados. Com a chegada da primavera no mês passado, as flores se tornaram mais bonitas e o frio tornou-se menor. O sol já aparecia, mas as árvores do jardim faziam sombra na maior parte dele. Algo brilhava no sol, entre as
flores brancas que tinham acabado de se abrir. Perto daquele lugar, havia umas proteções de madeira, formando uma cerca alta e bonitinha. Sentei-me naquele lugar de frente para a cerca, tomei o objeto em mãos. Um colar, ou um anel... Era um cordão prateado com um anel como pingente, nesse anel havia escritos duas letras “A”, ambas maiúsculas, e havia um coração entre as duas.
“De quem será?” – pensei. – “Será que eu devo deixar aqui?”.
O cordão prateado estava quebrado. Talvez eu pudesse ir até Nathaniel e entregá-lo para que ele deixasse na sessão de achados e perdidos. Quem fosse o dono iria procurar por lá, como Lysandre, que às vezes vai lá quando perde o bloco de notas.
FLASH BACK OF
Tive a lembrança de ter deixado aquele cordão no chão. E agora que me veio a memória, já havia visto Alexy com o
mesmo.
– AH MEU DEUS! O ANDREW É GAY!
– Que? – Dimitry interrogou.
– Hei, sua fedelha! Que eu me lembre, já mandei você se concentrar!
– Não grite comigo!
Uma granada de fumaça foi lançada. Eu era a que estava cobrindo a retaguarda. Quando me distraí um pouco, levei uma coronhada na nuca. Duas pessoas me agarraram, me amordaçaram e me arrastaram. Ouvi tiros atrás de mim, Kentin chamava meu nome, provavelmente já havia sentido que eu não estava lá.
Me levaram até um elevador, do elevador fomos até o telhado do prédio. Ventava muito.
– Aqui está ela, chefe.
Havia uma estufa bem grande no telhado. Uma mulher de vestido longo saiu de lá. Retiraram a mordaça e me soltaram, ainda apontando armas para mim.
– Dispensados. – ela disse, e eles saíram. – Não quero confusão com você, querida. Quero apenas conversar.
– Você mandou me buscarem e estão atirando no meu irmão e no meu amigo. Como tem a ousadia de dizer que não quer confusão comigo?
Ela deu de ombros e deu um sorriso.
– Quem é o chefão? O desgraçado que nos sequestrou?
– Está olhando para o “desgraçado”. Por que as pessoas nunca pensam em uma mulher?
Estava desarmada. Ela estava com um vestido longo com uma abertura na perna. Havia uma pistola presa a uma espécie de liga de coxa.
– Seja boazinha e entre ali. – ela disse apontando para a estufa.
“Se eu puder passar perto o suficiente dela, acho que consigo tomar a arma”. – pensei.
– E não tente nenhuma gracinha! – ela advertiu. – Sei em que lugar do prédio o seu irmão está. Eu posso muito bem trazer ele aqui e matá-lo na sua frente. Então seja boazinha para que eu não precise arrancar o rabo dele pela boca, ok? – assenti com a cabeça.
Segui até a tal estufa. Havia uma mesa e duas cadeiras. Encarei os lados vendo o que eu poderia usar como arma.
– Sente-se.
Obedeci. Ela sentou-se na cadeira de frente para mim. Ficamos nos encarando.
– Não me reconhece?
Nem fiz que não e nem fiz que sim, apenas continuei em silencio a encarando.
– Bom, não a culpo. Na época você era só uma criança. – ela deu de ombros. – Mas não te trouxe aqui para isso.
– Então para o que?
– O Louise está mesmo morto, mas queria saber sobre o pai daquela sua amiga, a Lana.
– E como é que eu vou saber? Por que não a trouxe aqui ao invés de mim?
Ela sorriu, encarou uma peça de metal que lembrava uma pequena escada, do qual várias flores estavam enroscadas nela. A mulher tirou a pistola da coxa e colocou em cima da mesa.
– Mortos não falam.
Encarei o chão tentando digerir aquela informação, o vento soprou. Minha respiração cessou por um momento, não pude reter ou engolir o choro. Apoiei os cotovelos na mesa e as mãos na cabeça.
– Poderia colaborar um pouco, para que eu não faça com o seu irmão o que disse que ia fazer. – ela lançou um sorriso malicioso e continuou com um ar mais descontraído. – Nunca pensei que uma garota como você seria irmã de um dos caras do F4. Por falar nisso, nunca gostei de Kentin, então matar ele não vai ser um esforço para mim.
– Você conhece o F4?
– Claro. Que pena que o Lysandre não está aqui para me ver, ele ficaria bem surpreso.
– Quem é você?
– Mas já? Vai acabar com a graça. – ela debochou. – Eu sei quem você é, eu sei onde você mora e sei quem é sua família agora. Sei quem são seus amigos, sei quase tudo sobre você.
– Então foi você a desgraçada que sabotou meu exame e tentou me matar?
– Que bom que não morreu. – ela sorriu. – Tomei aquela decisão por estar zangada, mas depois achei melhor traze-los aqui vivos, seriam mais úteis. Demorei muito tempo para descobrir tudo sobre você. Demorei para saber que você tinha ído para a escola militar bem depois que saiu da família da Lana. Eu confundi você com a Lana, por isso tentei te matar. Meu intuito no acidente de carro era matar ela, e não você. Mas já que você estava lá, fazia parte do pacote.
– O que a Lana te fez?
– Como eu te disse: eu tomei a decisão porque estava zangada, mas depois achei que ela seria mais útil se estivesse viva. E o melhor de tudo foi pegar todos vocês num lugar só. Eu sabia da síndrome do Alexy, sabia o quão rica eu poderia ficar se tivesse conseguido vende-lo. Entretanto eu não sabia quem era o Alexy, então trouxe o Armin caso eu estivesse errada em apostar no cara de cabelo azul. As pessoas duvidam muito que gente como o Louise e o Bryan estejam mortos, por isso me prometeram uma nota preta se eu conseguisse informações sobre o paradeiro deles.
– Bryan?
– É, Bryan. Era o nome do pai do Kentin. – ela umedeceu os lábios antes de continuar.
– E a Rosalya?
– Agente das Forças Especiais. As Forças Especiais estão nos atrapalhando muito nesses últimos anos. A quadrilha que te atacou eram aliados meus. Decidi pegar a Rosalya porque era mais conveniente para mim. Eu já a conhecia, mas não sabia que ela era dura na queda. Antes ela não era assim.
– Ainda não me disse o que a Lana te fez. – consegui reter um pouco as lágrimas. – Como pôde matar ela? Ela nunca fez mal a ninguém!
– Foi uma grande decepção para mim também. Um idiota atirou nela. Se isso te deixa mais feliz, eu já matei ele.
– Não me sinto mais feliz. Você matou a minha irmã.
– Ela não é a sua irmã. – ela arqueou a sobrancelha. – Não existem irmãos a não ser os que são de sangue. Citei o Kentin como seu irmão porque você o vê assim. Mas nem o Kentin e nem a Lana são seus irmãos. E nem sei como o Kentin te aceitou como irmã, sendo que você atirou nele.
– Quem é você? Como sabe sobre mim?
O mistério continuou no ar, ela sorria descaradamente, e eu sentia ódio mortal daquele sorriso cínico nos lábios dela. Era como quando Debrah ria na minha cara. Se eu pudesse, mataria aquela mulher naquela mesma hora.
– Vamos manter o anonimato por enquanto, sim? Não tem graça se eu contar agora. E ainda mais porque você nem lembra quem eu sou. Não tenho pressa.
– Por que não me mata logo de uma vez? As pessoas que iam fazer interrogatório nos ameaçavam de morte.
– Não, eles ameaçavam mandá-los para sala de tortura. – ela apoiou o maxilar na mão e sorriu novamente, me fazendo fazer cara feia. – Falando nisso, a Rosalya gritou muito?
Uma onda de fúria avançou dentro de mim, berrando sem parar. Silenciei novamente, apenas a analisei. Seus olhos eram puxados para o tom mel e destacados por uma camada de maquiagem, seu cabelo era escuro. Havia um piercing prata um pouco abaixo dos lábios e uma tatuagem na parte posterior do antebraço.
– A Rosalya conseguiu fugir, e eu espero que ela venha aqui pra chutar sua bunda. Ela e o Andrew!
Ela deu uma risada e se acomodou na cadeira com a arma na mão.
– Andrew não vai sair daqui vivo. Ele foi o idiota que fez o favor de matar a minha irmã!
– A Nina era sua irmã? – arqueei a sobrancelha, surpresa.
– Bom, parece que você já sabe quem eu sou.
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