A Órfã Doce

91 Olhos da cor púrpura


Notas iniciais
Oi morangolinas, aqui é a morangochan. Atenção, o capítulo a seguir é na visão do Alexy. Peço desculpas por ter demorado tanto, mas esse é um Senhor Capítulo. Deu trabalho, eu empaquei, demorou pakas, mas aí está. Quem gosta de yaoi, você está com sorte. Nada muito pesado, pensei nas pessoas que não gostam. Boa leitura.

Sempre fui uma pessoa que se escondeu, que tinha medo de assumir as consequências de minhas próprias ações e escolhas.

Isso me deixava mal, mas o que me deixava pior era saber que meu irmão quase sempre arcava com as consequências por mim.

Não sei se eu me sentia excluído quando éramos pequenos, não sei se o sentimento era mesmo de exclusão. Era um sentimento ruim, mas não sabia defini-lo muito bem, até porque eu era apenas uma criança. Éramos iguais, gêmeos. Minha mãe nos dizia que sempre sonhou em ter gêmeos. Sempre vivi na sombra de Armin. Em minha família não existia “Armin e Alexy”, existia só Armin. Confundiam-me com o Armin o tempo todo. Armin sabia que eu era medroso, por isso quando aprontávamos algo quando pequenos – e até depois de crescidos – ele me inocentava e assumia a culpa.

Mas eu sabia que ele tinha fraquezas, assim como eu. Armin sempre se tornava um bebê chorão quando o assunto era a crise do casamento de nossos pais. Ele sempre teve medo que nossos pais se separassem, mas eu sempre achei melhor uma separação. Eu amava minha mãe demais para vê-la num casamento infeliz. E meu pai... Bom, não ligávamos muito para ele, como ele também não ligava muito para nós.

Estudávamos em uma escolinha alemã perto de casa quando tínhamos uns seis anos. A maioria dos estudantes não gostava “dos gêmeos”. Por isso nós éramos os nossos próprios melhores amigos. Não tenho tanta certeza se Armin me via como melhor amigo como eu o via. Ele sempre teve mais facilidade para fazer amigos do que eu, mas ele não tinha amigos, havia escolhido ficar ao meu lado, por isso eu pensava que éramos melhores amigos. Essa situação mudou mais quando fomos para Shapersgreen. Era meio que no interior do estado, era vizinha da capital. Meu tio morava lá com sua esposa, e prometeu que iria cuidar da gente enquanto nossos pais “resolviam” seus problemas. Fomos para a Sweet Amoris, uma das maiores e melhores escolas do país.

E lá... Bom, eu e Armin deixamos de ser melhores amigos.

Havia um garoto mau, se chamava Castiel. Acho que ele foi um dos piores caras que eu já havia conhecido. E Armin era um dos melhores amigos de Castiel, isso me decepcionou. O pior é que Armin se importava muito com Castiel, mais do que comigo. Confesso que senti ciúmes. E quando Armin começou a sair com garotas, aí sim as coisas começaram a sair dos eixos. Ele exagerava, marcava encontros com garotas e me pedia para que eu me passasse por ele para ajudá-lo. Se eu fosse outra pessoa, não aceitaria, mas ele era meu irmão. Mesmo que tenha virado um babaca, ainda era meu irmão.

Eu não tinha verdadeiros amigos, apesar de gostar de alguns meninos do F4. Com 12 anos, eu e Armin voltamos para casa. Armin estava aborrecido, já tinha se acostumado com a vida de lá e com os amigos que havia conseguido. Na Sweet Amoris nós tínhamos uma “imagem” melhor. O tal Castiel era simplesmente o herdeiro da Sweet Amoris, e ele fazia o que bem entendia. E como nós éramos “amigos”, tínhamos certas vantagens na escola. Na Alemanha eu era só mais um menino que as pessoas ainda não gostavam.

Armin não andava comigo. Ele andava com um pessoal que havia conhecido na internet, um pessoal de algum jogo online, algo assim. Eu era solitário, de vez em quando ia à biblioteca lendo algo e escutando músicas com meu fone de ouvido. Talvez Castiel estivesse certo quando me apelidava de “gêmeo defeituoso”, eu tinha alguma coisa de errado. A explicação era essa.

– Sai da frente, saukerl.

Um loiro, aquele mesmo cara de sempre, bateu nos meus livros derrubando-os. Fechei meus olhos e respirei fundo para manter a calma, mesmo que por dentro eu quisesse chorar. Abaixei-me para apanhar os livros, quando veio um idiota para tropeçar em mim.

– Hei, sua saumensch! Vê se aprende a não ficar derrubando as pessoas.

– Eu sou um menino! – retruquei, já ofendido.

Ele estreitou os olhos, desviou o olhar para o chão enquanto mexia a mão a procura de algo. Achou os grandes óculos, levantou-se e deu uma risada quando conseguiu enxergar corretamente.

– Com essas roupas, você parece mesmo uma saumenschzinha.

– Cala a boca, babaca.

Quando levantei e segui apressando o passo, vi Armin me encarar enquanto tirava algo de dentro do armário. Seu olhar era de preocupação.

“Não é tarde demais para se preocupar?” – pensei.

– Você não deveria ter dito aquilo com aquele cara. – Armin disse, em meu quarto, depois que jantamos.

– Não acha que é tarde demais para começar a se preocupar comigo? Resolveu fingir que eu sou o Castiel para começar essa preocupação?

– Está de TPM ou o que? – ele arqueou a sobrancelha. – O que diabos deu em você?

– Eu não gosto mais desse lugar, na verdade eu nunca gostei.

– Eu também não. A Sweet Amoris era melhor.

– Não gosto da Sweet Amoris! Eu gostava quando você era meu irmão de verdade.

Armin finalmente pôde ver minha frustração, mas eu estava irritado demais para conversar. E eu sabia que ele não entenderia nem em um milhão de anos. O máximo que ele faria era fingir que entendeu e começar com alguma conversa fiada.

– Sai! – berrei. – Sai daqui!

– Hei, não seja mau. – ele fez bico.

– Mau? Depois de tudo que eu fiz por você sou que sou o mau?

– Você só me ajudou algumas vezes com algumas garotas, não ache que fez muita coisa, pirralho.

– Eu não sou pirralho! Temos a mesma idade.

– Eu sou mais velho três minutos do que você!

– Mas você se comporta como se fosse quatro anos mais novo do que eu!

– O que está acontecendo aqui? – disse meu pai, aparecendo na porta.

– Nada que seja da sua conta. – Armin respondeu.

Olhei para Armin e olhei para nosso pai. Engoli a saliva e fiquei paralisado como uma estatua de cera. Sempre era assim, eu sempre temia aquela expressão de raiva do meu pai desde criança. As rugas que chegaram há pouco tempo no rosto do meu pai, se apertaram. Minha mãe veio correndo assim que ouviu a discussão, chegou depois do meu pai, e chegou até escutar o que Armin disse.

– O que houve? O que houve? – repetiu minha mãe atordoada, ela sabia o que acontecia quando nosso pai se irritava.

E foi dito e feito, ele levantou a mão para Armin. Depois disso, começou a gritaria. Minha mãe tentou impedi-lo e levou um soco na cara que a derrubou no chão. Movi-me rapidamente para socorrê-la e Armin partiu para cima do próprio pai. Depois eu quem tive que separar os dois.

Os gritos de “não faça isso” ou de “não machuque eles” já me assombravam, e passavam pela minha cabeça com a voz da minha mãe. Aquela tinha sido a primeira vez que Armin batia no pai. Antigamente quando ele falava que um dia faria isso, eu não acreditava. Não preciso dizer que as coisas se complicaram muito por causa disso. E minha mãe, pobre coitada, teve que pedir desculpas. Mesmo que fosse aquele troglodita quem precisasse pedir desculpas.

Outra noite, já tarde, ouvi uns gritos virem do quarto dos meus pais.

– Nunca deveríamos ter deixado essas pestes nascerem.

E quando eu fui até o quarto de Armin, ele estava chorando no travesseiro. Em certas horas, eu me sentia o mais forte entre nós dois.

Na escola, eu e Armin seguíamos por caminhos diferentes, com pessoas diferentes. Ele com o pessoal dele e eu sozinho. Não entendia o porquê de ninguém querer falar comigo.

De vez em quando eu via o idiota que tinha me confundido com uma menina e me chamado de saumensch. Aparentemente, ele era bem popular. Quando passava, algumas pessoas cochichavam ao redor. Mas acho que essa popularidade não o beneficiava. Ele andava só, assim como eu. Ou será que ele apenas gostava de andar sozinho?

Depois de algumas semanas, consegui me acostumar totalmente com a minha “nova” rotina. Ver meus pais brigando e ver as pessoas me ignorando não era uma rotina nova para mim. E quando eu estava tendo quase certeza de que Armin era só mais um gamer otário que fica de bunda dormente por passar o dia sentado, eis que ele surge em casa com uma garota para nos apresentar. A garota era sua namorada.

E a garota tinha cara de ser mais velha.

– Yumi. – apresentou Armin.

Era uma garota de cabelo loiro, sua maquiagem era leve, mas suas roupas não eram muito comuns. Digamos que ela não havia vindo com roupas muito “favoráveis” para a ocasião, só preciso dizer que o decote era gigantesco. Era um final de semana, Armin tinha saído para uma convenção de games ou algo do gênero.

Ela cumprimentou mamãe enquanto esboçava um sorriso divertido. Armin não desgrudava os olhos dela, e ela não desgrudava os olhos da tatuagem da “sogra”. Aliás, da pouca parte da tatuagem que se mostrava por baixo de uma blusa sem mangas e sem gola. Finalmente me encarou, me olhou e olhou para Armin.

– Impressionante. – ela disse. – Quando eu vir aqui, risque o braço de azul para eu saber quem é quem. – brincou.

Mamãe foi para a cozinha buscar algo, dei um meio sorriso com o comentário dela e fiquei em silêncio.

– Eu o ofendi? – a loira cochichou para Armin.

– Não, ele é assim mesmo. – Armin cochichou de volta.

Armin vivia falando dessa namorada dele, e além disso, acho que ele tinha certo orgulho de exibir ela e fotos deles dois se beijando. Era difícil de saber se ele estava feliz por estar com ela ou se ele estava feliz porque tinha alguém para exibir. Tinha impressão de já tê-la visto quando ela apareceu na nossa casa. E tinha razão, ela estudava na mesma escola que eu. De vez em quando eu a via nos corredores, mas ela estava completamente diferente.

– Era uma peruca. Ela estava de cosplay da Sonya Blade naquele dia, a gente tinha acabado de voltar da convenção de games, não lembra? – foi o que Armin disse quando eu perguntei.

Dois meses depois eu comecei a sair com uma garota, era linda, tinha senso de humor, se vestia bem. E eu estava mesmo gostando dela. Já havia apresentado a minha mãe, e apesar de ter tratado a garota bem, ela fez cara feia quando ela saiu. Não entendia... Ela adorou a namorada do Armin, mesmo ela aparecendo no primeiro dia com a metade dos seios de fora, mas não gostou da garota com quem eu saía.

Já havia discutido com Armin sobre isso, e defendi minha garota com unhas e dentes. Era a primeira vez em muito tempo que eu me sentia feliz. Que eu não me sentia sozinho. Ele não compreendia o que era ser ignorado o tempo todo por todo mundo. Ele não era o “gêmeo defeituoso”, ele não era como eu. Por isso ele era incapaz de entender. Eu poderia mudar e me esforçar um pouco para ter amigos, e eu por um tempo até tentei isso, mas não adiantou muita coisa. Por um momento, eu via que as pessoas cochichavam sobre mim como faziam com aquele garoto que tropeçou em mim outro dia.

Houve um dia no vestiário, depois da educação física, em que eu estava no chuveiro enquanto dois garotos ainda conversavam.

– Hei cara, e se a gente falasse com o Andrew? Sei lá, convidar ele para a festa da próxima semana.

– Nem inventa. Você sabe o que o pessoal diz dele. Eu é que não vou me arriscar.

Quando ouvi os passos saindo do vestiário, enrolei a toalha na cintura para ir me trocar. Estava ele na porta do banheiro de toalha. Encarava o chão sem os óculos enormes. Eu poderia passar, pelo que pude perceber outro dia, ele não enxerga um palmo a frente dos olhos sem os óculos.

– Hei, qual é seu nome mesmo? – perguntei. Ele me olhou, atordoado, estreitando os olhos para tentar me enxergar melhor.

– Andrew... Quem é você?

– Alexy. – respondi. Automaticamente vi que seu rosto expressava uma interrogação. – A “saumenschzinha” de roupas coloridas.

O sorriso ficou radiante e até uma risada escapou.

– Desculpe por ter te chamado de babaca.

– Desculpe por ter te chamado de saumenschzinha.

Ficamos em silêncio por alguns minutos. Ele, constrangido, tentava disfarçar que estava chorando agora a pouco.

– Não vai se trocar?

– Por que as pessoas falam assim de você?

Ele coçou a cabeça, soltou um suspiro e por ultimo, deu de ombros.

– Por que veio falar comigo? – ele perguntou, dei de ombros.

– Não gosto de ver gente sendo tratada como eu sou tratado. É deprimente. – ele assentiu com a cabeça. – Onde estão seus óculos?

– Acho que estão no vestiário. Eu estava indo para lá, mas...

– Eu os acho para você.

Entramos no vestiário para nos trocarmos. Achei e entreguei os óculos a ele. Enquanto me trocava, fiquei pensando comigo mesmo sobre a perseguição que tinha sido antes de vir morar na Alemanha. Tive que fugir com minha família porque queriam me usar como cobaia de laboratório por causa da minha síndrome. Preferia mil vezes ser quase cego e depender de um par de óculos do que ter que conviver com medo, sem poder contar a ninguém o porquê de meus olhos serem daquela cor ou porque minha pele era tão clara.

– Por que você usa maquiagem para parecer mais escuro? – ele estranhou.

– Porque não gosto de parecer um pedaço de papel. – inventei. – E agradeceria se não contasse para ninguém. – ele assentiu.

Ficamos em silencio novamente até ele começar a abafar uma gargalhada.

– Quantos anos você tem? – ele deu uma risada. – Você se raspa ou não tem pelos? Acho que você não tem pelos.

– Hei! Para onde você está olhando? Seu pervertido! PARE DE OLHAR!

Por causa disso, eu não pude evitar olhá-lo de vez em quando enquanto nos trocávamos. Ele não me olhava, mas continuava a rir. Quando já havia terminado e ia sair do vestiário, ele passou o dedo indicador em uma das minhas bochechas.

– Está vermelho aqui.

Por incrível que pareça, foi desse jeito que nos tornamos amigos. Falávamo-nos todo sábado de tarde depois da educação física. As coisas ficavam cada vez mais estranhas para o meu lado. E Andrew não se comportava como um menino deveria se comportar com outro. Ou talvez eu estivesse viajando, talvez fosse a intimidade de uma amizade. Eu sabia o que era isso no F4, já havíamos até tomado banho juntos. Mas ainda sim não era a mesma coisa, os meninos do F4 não me olhavam do modo que Andrew me olhava. Aquilo me deixava extremamente nervoso.

Ter alguém olhando todos os meus movimentos era o que me deixava extremamente nervoso.

Sábado à noite eu levei para casa a garota da qual eu estava saindo. Yumi também estava lá. Para falar a verdade, ela ia para lá com muita frequência. Jogava vídeo game com Armin toda vez que ia para lá. Às vezes sentia ciúmes, aquele lugar ao lado dele era meu.

Mamãe conversou um pouco com as garotas, disse algo sobre elas serem bonitas e que as garotas anteriores a elas, eram feias. Ela sempre falava a mesma coisa quando Armin levava uma menina para casa. Explicou-me que isso era para dar mais confiança à garota, e para ela se sentir mais a vontade.

– Alexy, procura umas batatinhas ou pipocas. – Armin pediu.

– Posso ir com você? – Yumi se ofereceu.

Assenti com a cabeça. Fomos até a cozinha enquanto ela me olhava com um sorriso. Ao murmurar certa melodia, a encarei um pouco surpreso, recordando-me

– É a música do Lysandre?

– Sim. Comprei o CD da banda dele. Nem acredito que você o conhece, ele é demais!

Sorri meio constrangido. Ela era falante, e era diferente sem aquela roupa estranha e sem aquela cabeleira loira que a deixava esquisita. Ela era bonita com seus cabelos curtos e escuros. Se não me engano, Armin me contou que ela queria fazer faculdade de design de games, e além disso, ela dançava jazz numa academia.

– É legal da sua parte.

– O que?

– Falar comigo e insistir em puxar assunto.

– Você é um cara legal, eu acho. Eu te vejo sozinho, e talvez eu não saiba o que é viver solitária, mas eu sei que solidão não é legal para ninguém. Só queria que soubesse que eu posso ser sua amiga, ok? – ela piscou. – Eu sei que você não curte pessoas agitadas demais, mas não se preocupe comigo. Eu sou super calma.

Sorri. Peguei alguns copos e uma garrafa de refrigerante, ela levou alguns pacotes de salgadinhos. Quando chegamos à sala, a cena que vira tinha me chocado. A minha garota estava se jogando pra cima de Armin. Ela tentava beijá-lo enquanto ele virava o rosto e a empurrava levemente seus ombros.

– Hei, não faça isso. Não quero ter problemas.

Armin só notara a presença da namorada quando a mesma largou os pacotes de salgadinhos no chão pelo tremendo choque. Nós dois olhamos para os dois no sofá.

– Hei, Yumi. Não é isso que você está pensando, eu juro. Eu não fiz nada.

Yumi pisou duro até chegar ao sofá, encarou os dois por alguns segundos. Sem pensar muito tempo, Yumi se atracou no cabelo da menina ao lado de Armin e jogou-a no chão. E a agredida não ficou submissa as pancadas da garota gamer, em pouco tempo pareciam duas meninas numa briga de vale tudo. Pensei até que Armin fosse apartar, mas ele veio até mim para me segurar.

– Aguenta aí. – disse ele.

– Aguentar o que? Não vai fazer nada?

– O que acha? – Armin encarou as duas, admirando cada grito e puxão de cabelo como se fosse a coisa mais maravilhosa do mundo.

Armin não fazia nada e nem me deixava fazer. Como minha mãe diria: "ele não fode e nem sai de cima".

No decorrer dos anos, minha mãe apartou mais brigas que juiz de luta livre. Quando avistou as garotas rolando no chão, agiu rápido. E além de apartar a briga, ainda passou sermão em todo mundo.

– Vocês são garotas decentes, não deveriam ficar se engalfinhando dentro das casas alheias.

"Decentes, claro. Com quem diabos eu fui sair?" – pensei.

– E você, moleque! – continuou ela, em seguida deu um tapa na cabeça de Armin. – Onde estava com a cabeça em ficar admirando como se fosse uma briga de bêbados? Acha que é engraçado? Quer que eu arrebente a sua cara pra ver se é engraçado? – logo depois, ela me encarou. – Na próxima vez que ele não deixar você apartar a briga, chuta o saco dele. Valeu?

Não havia mulher mais doce que minha mãe, e nem mais grossa que a mesma. Eu até daria risada se não estivesse triste por toda aquela armação. A garota era uma líder de torcida, havia conhecido ela quando estava saindo da escola depois de sair do vestiário em um sábado.

– Acho melhor vocês irem embora. – disse minha mãe, atravessando a sala com a tatuagem exposta.

Yumi ainda estava emburrada, saiu pisando duro, pegou o casaco e abriu a porta.

– Hei Yumi! Eu não fiz nada, hei Yumi! – disse Armin, acompanhando-a.

Mamãe já havia saído da sala, Armin e Yumi conversavam lá fora, e de vez em quando ainda se ouvia um grito dela.

– O que foi isso aí? – perguntei, apontando para a porta.

– Eu me confundi.

– Confundiu o que? Confundiu-se na hora de começar a sair comigo? Deve ter se confundido bastante quando a Yumi arrancou um bolo de cabelo seu.

– Não fale nesse jeito comigo!

– Não, Bia. Você veio para minha casa e tentou beijar meu irmão quando eu estava em casa, na cozinha com a namorada dele.

– Eu vi como você olhou para ela. Então pensei que poderíamos fazer uma troca, não?

– Para mim já deu. – levei a mão à cabeça, respirando fundo para manter a calma. – Nunca pensei que uma pessoa seria tão cara de pau como você. Você é maluca ou o que? Quem diabos pensa assim?

Bia ficou parada, me encarando. Com um momento de silêncio, foi possível ouvir o grito de Yumi vindo lá de fora:

– Nem pensar! Só saio daqui quando a piranha das galaxias for embora também. Acha que eu vou deixar você com ela aqui? Nem fodendo!

Ela pisou duro, pegou o casaco e olhou para mim antes de abrir a porta.

– Eu vou pegar um táxi. – disse ela, e logo continuou. – Nunca mais olhe para mim. – e saiu.

Fiquei pensando comigo, como uma pessoa pode ser errada, traíra e cara de pau para depois sair com essa raiva inteira como se tivesse razão em alguma coisa?

Depois que ouvi o barulho da moto de Yumi deixar a frente de nossa casa, Armin passou pela porta e a fechou logo em seguida. Eu ainda estava de pé, parado no mesmo lugar da sala desde que Bia havia saído, estava cabisbaixo.

– Você terminou com ela?

– Eu acho que cansei de você como você cansou de mim. – Armin se locomoveu mais um pouco para ficar de frente para mim. – Quando éramos crianças e você me deixou de lado, eu não queria aceitar. Mas hoje eu reconheço e aceito isso.

– Você vai ficar com raivinha de uma coisa que aconteceu quando a gente era moleque?

– Não, Armin! Você não entende! Você nunca foi o excluído da família e da escola, você não me entende, só acha que me entende. O único amigo que eu tenho é o Andrew, a única garota que saiu comigo sem eu ter que me passar por você foi a Bia. E olha só! Ela só saiu comigo para isso acontecer, para ela conseguir se aproximar de você mais facilmente.

– E a culpa foi minha? Eu não fiz nada!

– Fez sim. Se tivesse ficado do meu lado desde o inicio, não estaria ouvindo isso. E isso é o que você ganha agora.

– Não deveria ser amigo do Andrew, eu tentei te falar naquele dia, mas você surtou e houve toda aquela confusão.

– Cala a boca, não quero ouvir o que você tem pra me dizer sobre ele. Já tirou minha namorada, está querendo tirar meu amigo. Vai tirar o que depois? Minha perna?

– Não seja ridículo!

– Cala a boca! Não quero mais ouvir você.

E saí sem dar resposta. Depois que tranquei a porta do meu quarto, aguentei firme por dez segundos antes de começar a chorar.

Eu tenho certeza que se minha mãe soubesse o que realmente aconteceu, ela viria me dar apoio e tentar me consolar. Por outro lado, meu pai havia visto tudo, e não moveu um dedo sequer.

Em uma sexta-feira, na semana seguinte a essa confusão, algumas fofocas sobre mim circulavam na escola. Armin havia me contado que havia ouvido que tinha gente falando mal de mim, mas eu não soube o que era até o sábado depois da educação física.

– Por que não me contou que era gay?

– Quê?!

– Bom, foi o que eu ouvi.

– Também falam muitas coisas sobre você. E aposto como a maioria é mentira, não?

– Não é bem isso! É que você... – ele segurou um pouco a risada. – Você me olha estranho quando estamos nos trocando no vestiário.

– Você quem começou a me olhar estranho!

– Que tipo de moleque é branco feito papel e não tem pêlo no saco?

– Porra, Andrew! – bati a mão na testa. – Espera um pouco. Quem falou que eu sou gay?

– Eu ouvi por aí. Você é o assunto que a metade da escola fala desde ontem.

Óbvio que eu já sabia de onde vinham todos aqueles boatos. Aquela garota teve a ousadia de tentar beijar meu irmão e depois sair falando mal de mim depois que eu dispensei ela.

– Você estava saindo com a Bia? Estavam falando que ela dispensou você porque você é gay.

– Ela não me dispensou e eu não sou gay. Eu dispensei ela porque ela tentou beijar o Armin. Deve ter ficado irritadinha porque a Yumi quase arrancou a cabeça dela.

– Yumi? Aquela nerdona do ensino médio? – fiz que sim com a cabeça. – Deve ter sido muito engraçado. Briga de mulher sempre é engraçado.

Não houve muito papo depois disso. Andrew e eu as vezes nos esbarrávamos na biblioteca ou em lugares do gênero durante a semana. Eu vi que havia algo diferente nele, ele estava mais tímido. Eu sou horrível em interpretações, não sei dizer se era tímido. Mas que ele estava estranho, ele estava. Ele nem me zoava porque eu não tinha pêlo no saco. Eu quase não tinha pêlos por causa da síndrome, mas claro que isso seria muito difícil de explicar, era melhor deixar ele pensar que eu tinha algum problema hormonal ou algo do tipo.

Certo dia, ele veio até mim quando eu estava guardando alguns livros no armário e tirando outros. Ele apoiou a mão no armário vizinho e encarou os lados para me falar algo em um tom baixo.

– Me encontra lá no telhado depois da aula.

Confesso que passei a aula pensando nisso. Nós eramos de séries iguais, mas de salas diferentes. E depois do sinal tocar, foi bem difícil conseguir ir até o telhado com discrição. Eu sabia que era proibido ir ao telhado, também sabia que se ele me chamou, era porque queria ter uma conversa em particular comigo. Só não entendia por que o telhado, e não entendia o que de tão importante ele queria falar para precisarmos ir conversar ao telhado.

– Andrew?

– Aqui.

Ele estava apoiado pelos cotovelos na sacada velha, olhando para a cidade que parecia ser pequena do seu ponto de vista.

– O que queria?

– Bom… Eu não sei se devo contar.

– Poh, cara! Você sabe que nem temos permissão para virmos ao telhado. Achei que fosse algo importante.

– É importante! – ele exclamou.

Com toda certeza ele estava bastante envergonhado. Andrew era um pouco moreno, tinha a pele um pouco mais escura do que o costume dos cidadãos alemães. Mas eu percebi que ele estava corado. Um menino moreno e corado. Havia algo errado.

– Você quer me contar alguma coisa? – ele assentiu com a cabeça. – É algo sério? – novamente assentiu. – Então conta logo.

– Gay.

– Que?

– Eu sou.

– Você é gay?

– Sim.

Será que era por isso que estavam me chamando de gay? Por um momento pensei que sim, pensei que por andar com ele as pessoas estavam dizendo que eu era gay. Mas eu voltei atrás, eu já sabia que isso tinha sido obra da senhorita Bia, e já era óbvio por qual motivo ela fez isso. Talvez ela soubesse que Andrew era gay, fazer as pessoas acreditarem nesse boato não seria tão difícil assim, já que ninguém me via com garotas.

– É que eu não queria que nada… Que você pensasse… Ou melhor, que você não quisesse mais…

– Tudo bem, tudo bem! – o interrompi. Se não tivesse feito isso, ele passaria até o final do dia tentando completar frases que não conseguiria. – Não vamos deixar de ser amigos, ok?

– Ok.

Ele encarou o chão, mordendo o lábio inferior.

– Não tem mais nada para contar, tem? – perguntei.

– Não.

Quando me virei para ir embora, ele puxou a manga da minha camisa.

– Posso ir à sua casa no sábado?

– Pode… É só um pouco complicado de acha-la, mas eu te passo o endereço.

– Não precisa, eu sei onde é.

Na época eu nunca desconfiei de nada. Andrew tinha segredos maiores, assim como eu também tinha os meus. Sentia-me estranho quando estava perto dele. Como já disse: sou horrível para interpretar as coisas. Mesmo que seja meus próprios sentimentos, ainda é complicado. Não sei se eu deveria ter escutado o que Armin queria falar naquele dia. Ele sabia de tudo e eu simplesmente ignorei o que ele tinha para falar. Séria diferente? Seria, e seria pior.

Quando chegou o domingo, a campainha soou umas três horas da tarde. No sábado havíamos nos falado e eu propus que ele dormisse na minha casa. Eu nunca tinha levado amigos para dormir em casa, Armin já. Estava sentado no sofá vendo televisão quando a campainha soou. Armin estava de saída, então abriu a porta.

– Alexy!

– O que?

Encarei a porta e vi Andrew com uma mochila. Ele sorria enquanto Armin me fuzilava com um olhar reprovador.

– Oi Andrew, entra. – convidei.

– Ele era o amigo que você falou? – assenti com a cabeça. – Alexy!

– Você não tinha que sair? Pode sair. A Yumi está esperando você na casa dela, não?

Armin mordeu o lábio, parecia frustrado. Saiu e bateu a porta com toda força.

– Como sabia onde era minha casa? – perguntei.

– Moro aqui perto. Um dia eu te vi saindo e descobri que você morava aqui.

– Eu poderia estar saindo da casa de uma garota, não? – brinquei.

– Não mesmo. – ele riu.

Eu tinha um vídeo game no meu quarto. Quase novo, não costumava usá-lo. Só havia dois objetos meus que estavam desgastados: o meu celular e meus fones.

– Eu trouxe uns jogos, nós podemos jogar um pouco se quiser. – ele propôs.

– Claro. Sem problemas.

Estava começando a ficar nervoso. Nervoso era a palavra certa! Nervoso como quando ele ficou vigiando meus movimentos no vestiários. Oh Céus! Mas é claro, por que não tinha pensado antes? Me olhar daquele jeito, me deixar constrangido porque gosta de me ver corado, vir na minha casa.

– Nossa, já está tarde.

– É, está. – eu o encarei. – Você ficou legal sem os óculos.

– Você acha? – ele sorriu.

– Sim.

Fiquei corado por imaginar tudo aquilo agora a pouco. Será que Andrew sentia atração por mim? Eu nunca tive problemas com gays, mas também não sou gay. Apesar de que era estranho o modo como ele e eu nos comportávamos. Eu sou um cara bem sem sal, não sei o que alguém pode ver em mim, sendo homem ou mulher.

– Alexy… – ele colocou a mão na minha coxa. – Eu queria…

“Não, não, não, não! Olha onde essa mão tá! Não, não!”.

– Sim? – foi o que eu disse, mas o receio começou a me devorar por dentro.

Fui encara-lo por cima do ombro e fui surpreendido. Uma hora da manhã de segunda-feira, câmeras desligadas, televisão e vídeo game ligados. Nós dois sentados no chão de frente para a tv, minhas mãos que tremiam e largavam o controle do vídeo game aos poucos. Pais dormindo, silêncio. E eu e meu amigo gay nos beijando.

– Cara, o que é isso? – indaguei depois de virar meu rosto para frente.

– Você não percebeu? Não imaginei que fosse tão lerdo.

Ele disse que gostava de mim, mas na hora eu não soube o que dizer e talvez fosse por isso que ele achou que era melhor ir embora e me deixar sozinho.

– Você não pode ir. Ainda nem amanheceu.

– Eu disse que moro perto. – disse ele com a mochila nas costas. – E acho que é melhor a gente não se ver mais.

Depois que ele foi embora, eu não soube o que fazer e nem o que pensar. Eu só chorei. Não havia mais ninguém. Só uma metade de mim que deveria estar no quarto ao lado. Mas se ele estivesse lá, que diferença faria? Ele só me criticaria e falaria algo ruim sobre Andrew.

Duas semanas se passaram. Eu não o vi no vestiário depois da educação física. Depois desses dois sábados, Yumi veio falar comigo na segunda-feira, na terceira semana. Intervalo, estava sentado num banco qualquer escutando música.

– Oi.

– Oi.

– Queria falar com você.

– Eu não sou o Armin.

– Eu sei.

– Como sabe?

– Armin nunca saberia escolher um tênis que combinasse com a camisa. A não ser que alguém escolhesse para ele. – ela deu um sorriso. – Não sei se deveria… Mas queria conversar sobre o Andrew.

– Acho que não tem nada para falar do Andrew.

– Ah, Alexy! Não seja assim. Eu sei que ele gosta de você, e eu acho que vocês pararam de se falar porque deve ter acontecido alguma coisa. Provavelmente ele deve ter se declarado para você.

– E como é que sabe de tudo isso?

– Eu sei que o Andrew é gay. Na verdade eu não sabia, eu só ouvia os boatos. Entretanto eu vi como ele te olhava e ouvia o que Armin falava dele. Eu concluí isso, e a separação de vocês se explica melhor dessa forma.

– Não nos separamos. Não estávamos juntos.

– Você entendeu em que sentindo eu quis dizer. – ela fez bico. – Você não sentiu nadinha?

– O que quer dizer? – corei.

– Armin me falou sobre um primo de vocês que assumiu ser gay. A família inteira virou as costas para ele. Tem medo de acontecer o mesmo?

– E-eu não sou gay.

– Mas pensa! O Andrew é legal. E é muito confuso eu ficar falando isso, porque eu tinha outra coisa pra te contar.

– O que?

Ela silenciou por um instante. Expirou uma pequena porção de ar e abriu a boca para ser direta.

– Andrew é da máfia.

Por um momento pensei que fosse mentira. Iria até reagir para falar algo, mas ela seguiu em frente.

– Ele mora perto da sua casa. Todo mundo diz que a mansão é do chefe da máfia.

– E por que diabos veio me falar isso?

– Porque o Armin tentou te falar e você não quis escutá-lo.

– Isso é mentira, não é?

– O que eu ganharia mentindo pra você? Afastar você do Andrew não seria, vocês já estão afastados mesmo.

Fazia sentindo.

– E eu tenho uma coisa que preciso desabafar com você… Não conta para o Armin, mas… Eu vou fazer uma viagem.

– Pra onde?

– França.

– Nas férias?

– Sim.

– Quando volta?

– É essa a questão. – ela me olhou. – Eu não volto.

– Vai embora?

– É. Eu tenho… Coisas para fazer por lá. Só não sei como contar isso para o Armin. – logo continuou. – E agradeceria se não contasse até eu pensar em uma forma de contar. Eu sinto muito por não ficar e ser sua amiga. Mas pensa no que eu te disse. No que eu te disse sobre o Andrew e sobre os seus sentimentos. Eu sei que é confuso te dizer para pensar nisso quando dizem que ele é da máfia. Mas e se tudo isso for mentira? Você poderia tentar.

– Mas eu não sou gay.

– Esquece um pouco desse rótulo e pensa. Se eu gostasse de uma garota, eu esqueceria do rótulo e só dedicaria meu coração à isso. Eu acho que vocês formariam um casal bonito.

– Eu não entendo… – ela arqueou a sobrancelha. – Você me disse que não sabia como era ser solitária. Se tem tantos amigos, por que não contou todas essas coisas para eles? Por que não contou para outra pessoa sobre sua partida? Nós não somos tão próximos assim. Só te conheci porque você é a namorada do meu irmão.

– Há uma diferença. Você pode ter vários colegas e poucos amigos, mas se você é rodeado por pessoas que conhece e convive, você não é solitário. Te contei porque, de alguma forma, eu confio em você. E… é isso, eu não sei mais o que falar.

Eu não contei nada a Armin, como Yumi havia me pedido. Ela disse que confiava em mim, Armin nunca havia me dito aquilo. Nem preciso dizer o quão aquelas palavras significaram para mim. E no final, ela tinha mesmo se tornado a minha amiga, mesmo que fosse embora em breve.

E se ela estivesse certa? E se aqueles boatos da máfia fossem falsos? Os boatos de que eu era gay eram falsos, por que os dele também não poderiam ser? Por causa de Yumi, eu descobri o motivo pelo qual Andrew era sozinho como eu. As pessoas não se aproximavam dele por causa desses boatos da máfia. Pelo menos tinha um motivo, no meu caso, nem motivo havia. Só acontecia e pronto.

Meditei por vários dias sobre o conselho que ela me deu sobre pensar mais nos meus sentimentos e nos sentimentos de Andrew. Era confuso mesmo ela me contar aquele boato que assustava todo mundo e ao mesmo tempo pedir que eu desse uma chance para pensar sobre isso. Será que ela achava que eu gostava dele? Isso eu não sei, mas ela deduziu tanta coisa com pouca informação que talvez ela soubesse que eu gostava de Andrew, sendo que nem eu mesmo sabia ao certo se sim ou se não.

Talvez ela estivesse certa quando falou do nosso primo… Eu tinha medo, mas eu não era gay.

Tive que assistir Armin sofrer e se descabelar por causa da Yumi. Ele gostava muito dela, e eu tinha certeza que ela gostava dele. Com a conversa que tive com Armin, entendi as “coisas” que ela tinha para fazer na França. Faculdade. Ela queria seguir seus sonhos e achou que era melhor largar Armin para que ele se tornasse forte e independente para seguir os dele. Teoricamente é muito fácil, mas eu sabia que ela também sofria por largar ele, mesmo que fosse um pouco. Ela rolou no chão com uma menina por causa dele, foi a nossa casa para conseguir a aprovação da sogra e se esforçou o máximo possível para ter minha aprovação e minha amizade.

Não entendo o porquê da vida ser assim. Para ser forte é preciso abrir mão de tudo?

Na semana de provas eu soube que teria uma festa no fim de semana. A festa era na própria escola. Pensei seriamente em não ir, mas Armin estava tão pra baixo que eu decidi ir e levá-lo comigo.

Um dia antes da festa, Andrew foi até minha casa. Quando abri a porta para ele, fiquei extremamente surpreso por vê-lo ali. Surpreso e sem saber o que dizer.

– É que eu esqueci meus jogos. – ele justificou.

Eu o acompanhei até o quarto e localizei os jogos. Eu sabia que eles estavam lá, mas eu não tive coragem de falar com ele depois de tudo o que aconteceu. E confesso que a coragem diminuiu mais ainda quando Yumi falou comigo. Eu tinha pensado e pensado, mas não havia tirado conclusão alguma com tudo aquilo. Estava meio perdido.

Ele não me olhou na cara, aquilo me frustrou um pouco. E se eu gostasse dele? O melhor seria deixar para lá, não? Ele nem sequer queria me olhar.

– Valeu. – foi o que ele disse antes de ir embora.

Será que Yumi achava que eu era gay para ter me sugerido aquilo? Óbvio. Mas no que eu me parecia com um gay? Disso eu não sabia, mas depois que eu me senti angustiado depois da partida de Andrew, eu sabia que havia algo.

– A Yumi disse que conversou com você.

– Ela já foi embora?

– Foi embora ontem. – Armin umedeceu os lábios. – Ela contou sobre o seu namoradinho?

– Você também com essa de que eu sou gay?

– Foi eu quem disse isso a ela, se você quer saber. Você nunca saiu com menina alguma, a não ser aquelas vezes em que você se passava por mim.

– E Bia?

– Aquilo é uma asa de frango humana, não vale como garota.

– Mas só porque eu não saio com garotas, não significa que eu sou gay.

– Significa quando você fica de intimidade com um gay. Todo mundo sabe que ele é gay, e parece que você virou gay também.

– E se eu for?

Armin encarou os lados, conferindo se não havia ninguém por perto.

– Sorte sua o pai não ter espalhado as escutas pela casa. Se ele tivesse colocado, aposto como você já tinha sido expulso com um chute na bunda.

– É contra o Andrew porque ele é gay?

– Não! Eu sou contra o Andrew por causa daquilo! – ele apontou para a esquerda, que era a direção onde se devia ir para chegar a provável mansão do mafioso. – Não quero que você arrume mais problemas do que já arrumou.

– Eu? O único que arruma confusão é você!

Armin tinha essa mania de inventar coisas para se sentir cheio de razão, mas ele sabia que eu cortava o barato dele na mesma hora. Eu já havia arrumado problemas sim, mas nunca como ele. Armin e eu brigávamos o tempo inteiro, mas eu adorava ele. Me preocupava com ele e me sentiria muito mal se algo grave acontecesse com ele.

Nessa festa, eu me sentia como um E.T. O pessoal me olhava estranho, a música era muito alta, Armin estava meio deprimido e o ponche estava batizado. E eu só soube disso, quando comecei a me sentir tonto. O ponche era tão docinho que me fazia querer tomar mais e mais. No outro dia eu acordei em minha cama, com uma ressaca demoníaca. Não lembrava de porcaria alguma.

Por um lado, eu me arrependo de ter ido àquela festa, por outro, isso salvou minha vida.

Todo mundo se reuniu na sala naquela tarde. A ressaca estava menor, mas presente. Meu pai estava com uma cara nada boa, – apesar de que ele nunca estava com uma cara boa – minha mãe tinha uma face preocupada, mas Armin parecia esconder um sorriso.

– Vieram nos contar sobre algo que aconteceu na festa de ontem. – meu pai começou. – Nos contaram que viram um de vocês beijando um garoto. – ele respirou profundamente. – Viado eu não criei, criei?

“Você nem nos criou mesmo”. – pensei.

– Foi você, Alexy?

Ele me olhou, e eu fui incapaz de responder. Minha mãe estava calada e assim permaneceu, ela estava preocupada. E Armin com a mesma expressão de antes.

– Fui eu. – Armin se ergueu do sofá. – O que vai fazer? Vai me expulsar?

Meu pai ergueu-se também, minha mãe o segurou pelo braço.

– Calma, calma. – disse ela, nervosa. – Nós podemos resolver isso, não?

– Não. Quero esse moleque fora da minha casa! – bradou ele. – E a culpa é toda sua. Você mima esse par de nojentos, por isso eles são assim. Esse aqui trás uma vagabunda pra casa. – ele apontou para mim. – E esse aqui vira viado depois que a vadia que ele come vai embora.

– Não a chame assim! – Armin gritou.

– Calma!

– Calma nada! – Armin rebateu. – Eu já sabia que isso ia acontecer. Eu vi quando me viram na festa. Eu já fiz minhas malas. Eu vou embora, vou voltar pra Shapersgreen.

Armin se dirigiu ao quarto, com minha mãe chorando logo atrás.

Armin partiu naquele mesmo dia, uma hora depois que a discussão teve seu clímax e seu fim. Ele havia tomado toda a culpa por mim, e eu não pude nem dizer nada e nem agradecer. Ele partiu como o gay, a desgraça da família. E eu sabia que tinha sido eu que beijei algum garoto, Armin não bebeu e eu era o único que já tinha beijado um menino. Sem contar que Armin com certeza deveria ter visto a cena do beijo gay, assim como todo mundo que estava ao redor também deveria ter visto.

Naquela noite, eu vi as fotos da festa que estavam circulando nas redes sociais. Quando vi minha foto aos amassos com Andrew, quase tive um ataque do coração. Eu era o mais visível na foto.

Andrew acabou aparecendo, novamente, em minha casa. Como Armin tinha sido declarado o filho gay e a foto não mostrava o rosto de Andrew, ninguém em casa desconfiou de nada. Ele foi para meu quarto, sentamos no chão e começamos a conversar depois de uma longa partida de vídeo game.

– Que foto foi aquela?

– Eu é quem pergunto! Você percebeu que batizaram o ponche?

– Batizaram o ponche? Que droga! – ele colocou a mão na barriga e deitou-se no chão, encolhido. – Eu amaldiçoei meu fígado.

Revirei os olhos. Eu sabia que ele estava tentando ser engraçado, e havia conseguido. Eu estava rindo, por dentro, mas estava.

– Hei. Desculpe por aquele dia.

– Que dia? – ele respondeu apenas com um olhar, e o constrangimento bateu. – Ah… Aquele dia. Claro, está tudo bem.

– Você gostou do beijo?

– Hei! Não faça essas perguntas indiscretas, me deixa constrangido!

Ele tocou minha bochecha com o indicador.

– Está vermelho aqui.

– Não seja palhaço. – rebati a mão dele. Logo olhei discretamente para as câmeras, receoso de meu pai estar desconfiando de algo.

– Por que tem tantas câmera no seu quarto?

– Nunca havia notado?

– Não.

– É que meu pai monitora a casa.

– Falando no seu pai, eu nunca vi ele.

– Nem é pra ver.

– E por que não?

Acabei contando sobre Armin e sobre o que havia acontecido. Que Armin havia assumido a culpa por mim. E não me contentei em falar apenas disso. Falei sobre Yumi e sobre minha conversa com ela, não toda, só o necessário. Para falar a verdade, nem sei de onde tirei coragem para isso.

– E então?

– Eu… Eu acho que sim.

– Sério?

– É.

Pode parecer patético, mas foi assim que eu me declarei pra ele.

– Hei! Não chega perto! As câmeras estão ligadas.

– Tem câmeras no banheiro?

– Não. Por quê?

– Pode me emprestar uma toalha?

– Toalha?

– É, é que eu estou me sentindo bem sujo. – provou ele, mordendo os lábios. – E eu quero que me acompanhe.

E foi assim que eu aprendi várias coisas. Aprendi a não ter medo do que eu sinto, aprendi a gostar de verdade de alguém e aprendi que nem tudo pode se ter quando quer. E se eu soubesse sobre o segredo de Andrew antes de gostar dele? Eu não aprenderia nada do que eu aprendi amando ele, e continuaria sendo a mesma pessoa sem luz de antes.

Depois de muito tempo, ele disse que precisava ir embora. Disse que era por causa das coisas da máfia. Mesmo que já estivéssemos nos relacionando há tanto tempo, eu nunca sequer comentei que tinha conhecimento disso, me sentia melhor com ele achando que eu não sabia. Entretanto, foi uma dor terrível quando ele me deixou.

Antes de ir embora, tirou um anel do dedo e me entregou. Disse que tinha outro igual e que estava esperando para me dar depois, mas quando soube que iria embora, tudo foi por água abaixo. Havia gravado duas iniciais “A” e ente elas havia um coração.

Andrew era a única coisa que me prendia na Alemanha. E sem ele, o que eu ainda estava fazendo ali? Eu falava com Armin pela internet e ele me contava o quão legal estava sendo por lá, apesar de ter tédio algumas vezes. E além disso, ele me contou sobre uma novata que tinha batido no Castiel. De cara eu gostei dela, odiava o Castiel, mas nunca teria coragem para bater nele. E foi por isso que eu admirei ela, por ela ser mais corajosa do que os alunos da escola inteira.

Andrew foi embora depois do ano novo, mais ou menos em fevereiro foi quando eu tomei atitude. Fiz como Armin fez: comprei minha passagem, arrumei minha mala e depois fui falar com meus pais. Armin fez isso porque sabia que se fosse deixar pra arrumar as malas depois, mamãe não o deixaria ir embora. Eu também não contei para Armin que iria, queria surpreende-lo também.

Naquele dia eu chamei meus pais na sala para termos uma conversa, com a mala já pronta perto do sofá.

– P-por que a mala? – perguntou minha mãe, já amedrontada.

– Eu vou fazer uma viagem. Talvez demore um pouco a voltar.

– Moleque, você é menor de idade. Tem que pedir permissão e não sair tomando as decisões. – bradou meu pai.

– Eu vou, porque eu tenho certeza que essa é a consequência.

– Querido, do que está falando? – minha mãe interrogou pousando a mão em meu ombro.

– Eu sinto muito, mãe. – retirei a mão dela do meu ombro e a segurei entre as minhas. – Armin mentiu. Não era ele, era eu. Fui eu quem beijou o garoto na festa. Eu sou gay.

Para alimentar todos os sentimentos que eu tinha por Andrew, eu tive que ignorar aquele rótulo. Mas já que eu tinha certeza, resolvi me assumir por completo, aceitando até mesmo aquele rótulo ridículo. Eu tinha medo do rótulo, por isso eu o negava. Eu nunca vi diferença entre amor entre homens, entre mulheres ou entre mulheres e homens. Amor não é um só? Amor não é amor?

– Você é… – ela levou as duas mãos a boca, sem saber o que dizer. A sala de estar ficou em silêncio. – Mas por que o Armin mentiu?

– Porque ele não aguenta mais isso. Ele não aguenta mais vocês dois. – confessei. – Principalmente este aí! – apontei para o homem sentado no sofá ao lado do que eu estava sentado com minha mãe.

– O que está pensando em falar comigo desse jeito?! – ele gritou. – E muito menos você, que nem macho não é. Não honra as bolas que tem.

– Acha que eu não sou homem pra encarar você? Eu poderia não ser, mas agora eu sou. Sempre fomos criados com você xingando qualquer homossexual que ouvisse falar, com você condenando meu primo por ter se assumido. Você é tão contra a amor homossexual e a favor de amor heterossexual, mas me diga porque você é tão a favor e não ama a sua esposa como ela merece?

– A culpa é sua. – ele falou olhando para minha mãe, que o encarou assustada.

– Não coloque a culpa nela. Vocês são casados e ela sempre nos educou como se fosse uma mãe solteira. Se nossa educação está errada ou mal feita, a culpa é sua por não ter feito seu papel de pai! – de tão exaltado, levantei-me do sofá. – E nem se atreva a bater nela. Além de quebrar seus dentes, eu chamo a polícia. – encarei minha mãe nos olhos. – Não durma aqui hoje. E se dormir e ele fizer algo, chame a policia. Não se cansou de apanhar? Saiba que se permitir que isso continue, seu destino vai ser ver sua cova com mais rapidez. Eu sinto muito.

Minha mãe chorava, meu pai me encarava com ódio. Peguei minha mala, e antes de sair porta a fora, ainda tive que dizer algo:

– Agora cuida do seu casamento. As “pragas” já não estão mais aqui para te atrapalhar.

Eu havia pensado em tudo, até copiei a falsificação que Armin tinha feito da assinatura do meu pai para fazer o cartão de crédito que ele tinha. Usei essa assinatura na permissão para sair do país. Quando cheguei em Shapersgreen, comprei um carro e coloquei no nome do meu pai. Bom modo de começar do zero, fazendo o pai pagar um novo carro esporte. Depois que comprei o carro, passei em um restaurante que aparentava estar fechando. Para minha surpresa, era o restaurante que Armin havia me falado. O nome era “Culinária Mágica” e a garçonete que me atendeu me “reconheceu” como Armin, automaticamente lembrei da menina que bateu no Castiel. Só poderia ser ela. Eu achei a hora perfeita para pregar uma peça em Armin. Em Armin e naquela garota.

Eu a beijei, me passando por Armin, e fui embora. No dia seguinte eu a seduzi e a agarrei no corredor do F4, mas Armin acabou nos pegando. Brigamos feio porque ele nem sabia que eu estava na cidade. Havia ido para a casa do meu tio depois que cheguei e ele me disse que Armin estava morando sozinho há pouco tempo. Resolvi passar a noite me programando para o dia seguinte, nem mesmo dormi.

Eu me sentia feliz, me sentia renovado e me sentia outra pessoa. Mesmo que estivesse brigando com Armin na frente do F4 e na frente de uma garota que eu nem conhecia, eu me sentia uma alma livre. E eu poderia fazer e agir como eu bem entendesse. Se eu pude enfrentar meu pai daquele jeito, tudo eu poderia fazer. Eu tinha confiança, eu tinha força e tinha tudo que precisava para começar do zero para fazer tudo melhor.

Claro que eu tive umas recaídas. Por exemplo no dia que eu me desmanchei em lágrimas no telhado. Aquela garota me provou que não era só corajosa, ela era doce, ela era confortante e ela era confiável. Eu contei que era gay, e confiei que ela guardaria meu maior segredo, que era minha síndrome, e ela guardou. Por mais que eu revelasse meu maior segredo, que nem mesmo revelei a Andrew, eu contei a ela sem pensar. E por mais que eu tivesse revelado meu maior segredo, não consegui falar diretamente sobre Andrew para ela. Ela sabia o que tinha acontecido na Alemanha, mas não sabia quem era Andrew e nem o que tinha acontecido. Por um momento pensei que ela havia se apaixonado por mim, talvez por pensar que eu era como Armin. Mas não, ela só queria me ajudar porque sabia que eu necessitava de um ombro amigo. E isso não teve preço, ter uma amiga de verdade não teve preço. Por mais que tivéssemos brigado por causa da Debrah, eu pedi desculpas e voltei a ser sua amiga.

Ela me salvou de um sequestro, me levantou e impediu minha fraqueza retornar. Ela me ajudou, ela e a Lana me ajudaram a encarar meus pais novamente depois de tudo, e simplesmente fingir que minha ultima conversa com eles nunca havia acontecido. A verdade deveria ser enterrada se isso confortasse o coração sofrido da minha mãe. E minha mãe continuava tendo uma força e determinação impressionantes. Vendo-a firme, eu juntei minhas forças.

Mas falando em salvar…

– Por aqui. – disse Andrew, orientando Armin.

Acho que nem devo dizer que foi gigantesca e avassaladora a emoção que senti quando vi a face de Andrew entrar naquela sala só para me salvar. Ele estava mudado, não parecia mais o idiota que tropeçou em mim e muito menos o cara que tirou minha virgindade no banheiro do meu quarto. Não preciso nem dizer que me senti uma ameba entre ele e Armin. Mas eu me sentia feliz pelas minhas escolhas, me sentia feliz por ter destruído meu relacionamento com Armin em prol de Andrew. Se eu deixasse Armin dizer sobre Andrew ser filho do chefão da máfia e envolvido com a mesma, eu teria me afastado dele como todo mundo da escola. Se Yumi tivesse me contado e não pedisse para eu olhar em meu coração o que eu sentia, eu teria largado tudo. E com certeza, eu estaria sendo vendido e sofrendo em algum laboratório novamente.

Eu ajudei Andrew e automaticamente ele me ajudou. E lá estava ele, arriscando sua vida para me ajudar de novo.

Os dois atiraram, corriam e eu corria junto. Sentia medo por perder minha vida ou ser culpado por algum dos dois morrer por minha causa. Gás foi atirado, Armin estava lá, Andrew não mais.

– Vai, vai!

– Mas ele… Cadê ele?!

– Foda-se, ele sabe se virar. Vai, vai!

Armin me empurrava enquanto eu tentava resistir e mexer minhas mãos entre a fumaça a procura de Andrew. E por minha causa, um disparo acertou Armin. Na hora eu não entendi muito bem o que tinha acontecido. Armin havia gritado de dor e me soltado. Quando a fumaça se dissipou um pouco, eu pude ver sangue escorrer e sujar o chão e Armin caído. Procurei desesperadamente por uma saída para tirá-lo dali. O agarrei pela gola da camisa e saí arrastando até chegar a um portão próximo. Era um portão que se pareceria com um portão de cofre. Ele estava destrancado, o abri e entrei com Armin ali dentro. O fechei e levei Armin até o canto da parede onde ele poderia ficar sentado.

– Droga… – murmurou ele entre gemidos de dor e uma tentativa não fracassada de controlar a respiração.

– Eu… Eu…

A bala estava bem superficial, se fizesse um pouquinho de força, a faria sair. Pelo que eu entendia de física, uma bala daquele calibre só poderia ficar superficial daquele jeito se tivesse atravessado um corpo que a desacelerou. O cara que tinha sido baleado havia salvado a perna de Armin. Mas meu coração congelou, e se fosse Andrew?

Rasguei a calça desde a parte da ferida até o final. Consegui tirar a bala com um pouco de esforço e tentando ignorar um pouco os gritos que Armin dava a cada movimento que fazia em volta da ferida.

Amarrei os trapos da calça que eu havia retirado por cima da ferida, tentando conter um pouco o sangramento.

– A gente tem que sair daqui. Se encontrarem a gente aqui, já era. Estou ferido e quase sem munição. Se eu me esforçar um pouco, acho que podemos…

– Eu sinto muito.

Ele estava sentado e eu de joelhos a seu lado. Cabisbaixo, o choro começou. Ele estava ali por minha causa, os caras que me procuraram só pegaram Armin porque não sabiam quem era o portador da síndrome.

– Eu sinto muito por tudo. – sussurrei entre soluços.

– Você não teve culpa.

– Eu sinto muito. Eu te meti nisso. Eu só te meti em confusões a vida inteira e estraguei a ligação que tínhamos porque não aceitava que meu irmão tinha outros amigos além de mim. Eu sinto muito por ser covarde e fazer você se ver na obrigação de me defender contra tudo e assumir coisas que não eram culpa sua. – depois de um longo soluço, pude olhar em seus olhos que estavam fixos em mim. – Eu sinto muito mesmo. Eu queria recomeçar quando eu voltei para Shapersgreen, mas eu só consegui ser um irmão pior do que eu era antes.

Estava do seu lado direito, ele pousou a mão direita em meu ombro. Tinha certeza de que tudo se resolveria entre nós naquele momento, ele diria algo bonito, nós dois sairíamos dali felizes e amigos como quando éramos pequenos.

Um rangido alto soou, era o portão se movendo. Eu tinha que ter certeza que defenderia Armin pelo menos uma vez na vida, nem que eu tivesse que morrer para isso. Mesmo que minha tentativa fosse fracassada, eu queria que ele soubesse que eu estava disposto a dar minha vida como pedido de desculpas. Passei meu braço para o lado esquerdo de seu corpo, ficando de frente com ele e de defesa para o atirador que viria. Eu deveria ter dito algo, ele deveria ter dito algo. Eu só vi lágrimas escorrendo pelo seu rosto, assim como eu. Não parecíamos tão diferentes agora. Ficamos paralisados por um momento, até percebermos que não houve disparo algum e o portão simplesmente fechou.

Olhei para trás, uma mulher estava a nos observar. Olhei de cima a baixo. Seu corpo estava ferido e sujo, seus braços estavam enrolados com bandagens e o rosto estava com alguns arranhões e duas pequenas queimaduras. Seu vestido de noiva estava sem renda e sem as camadas que davam a beleza de todo o visual de noiva. Estava rasgado, curto e meio transparente.

– Deixem de choro vocês dois. A popozuda aqui chegou.

Notas finais
Significado de saukerl: bastardo, idiota. Significado de saumensch: porca, filha de uma porca.