Notas iniciais
Me perdoem pela demora pra postar! Tive uns probleminhas familiares, mas aqui está

A sala era escura e cheirava a sangue e mofo. Apenas um raio de sol penetrava aquele ambiente através da fresta da porta entreaberta. A porta rangiu até abrir completamente, por onde entrou o digníssimo rei Arthur, belo e indomável, trajando suas vestes vermelhas como o sangue da pessoa que estava amarrada no chão da salinha. Chão que estava repleto de manchas de dejetos humanos. O cheiro ocre dava ânsias de vômito até mesmo em Arthur, que deveria estar acostumado com o ambiente.

O homem amarrado estava de joelhos. A face ensanguentada implorava por uma clemência que sabia que nunca teria. Observou Arthur retirar uma pequena adaga das vestes e se aproximar devagar, olhando pra ele através dos olhos negros e perfurantes.

— Meu senhor... por favor, me perdoe! –pediu o homem já entrando em prantos. Não conseguia nem pensar nas torturas que passaria depois do que fez. Rei Arthur era tão cruel que ninguém ousava ao menos dizer “não” a ele.

Arthur era o charme em pessoa. Retirou o capuz, expondo os cabelos negros amarrados em rabo de cavalo, brilhantes e bem penteados. Ele estava com um semblante irritadiço e a qualquer momento poderia arrancar a cabeça daquele homem.

— Tem ideia do que fez, indigente? –lançou a pergunta. A voz era cruelmente assassina. — Você colocou uma bomba no bote de fuga da menina? E se ela estiver morta nesse momento? O tesouro se perderá por séculos!

— Mas senhor... ela não é a guardiã! Ela é uma farsa!

Com aquelas palavras, Arthur apertou os punhos. Ele sabia que parte daquilo poderia ser verdade... mas ainda eram suposições, ele não sabia ao certo. Arthur tinha duas definições na cabeça: ou Wyvia era uma usuária assim como ele –e ninguém sabia que Arthur era um – ou realmente era a guardiã dos manuscritos. Era uma via de mão dupla. O que mantinha a segunda hipótese viva e clara em sua mente era o fato de que os manuscritos realmente contavam sobre uma moça em forma de águia... aquilo não podia ser baita coincidência.

— Por que diz isso? –ele perguntou se ajoelhando diante do homem.

— Porque eu sei que ela comeu aquilo que as pessoas de outras ilhas chamam de Akuma no mi! –disse o homem quase chorando.

— Como sabe sobre essas informações de Akumas no mi?! –gritou Arthur desferindo um soco no rosto do homem e o agarrando pelo colarinho.

Chorando, o homem fitou os olhos enegrecidos de seu rei.

— Porque sei que o senhor também comeu uma. E isso é proibido no nosso país, não é?

Sem querer saber como o homem sabia da informação, tudo o que Arthur fez foi enfiar a ponta da adaga na garganta do homem. Observou-o engasgar com o próprio sangue, buscando respirar de alguma forma. O sangue inundou a manga já vermelha da túnica de Arthur. Ele se levantou elegantemente e se retirou dos aposentos, pronto para mandar uma frota atrás de Wyvia em todas as ilhas vizinhas. A moça provavelmente sabia, assim como o homem que acabara de morrer, que ele era um usuário também. Wyvia tinha nas mãos o poder de acabar com o reinado de mentiras de Arthur... mas também havia a possibilidade de ela realmente ser uma guardiã e aquele dilema destruía Arthur por dentro. No fundo queria eliminar aquela garota e os problemas que traria, mas também queria verificar se ela era a guardiã dos tesouros. Era uma decisão difícil, mas o homem preferiu confiar em si mesmo e em suas habilidades. Teria uma rebelião em mãos caso a população descobrisse que ele fazia uso de uma fruta proibida no país –como tudo fora da ilha era proibido em Jaman.

— Eu mesmo vou atrás daquela fedelha. –disse ele para si mesmo, pronto para prepara suas espadas para partir. — Agora é pra valer.

***

Mihawk bebia em silêncio enquanto Shanks ria descontroladamente. Era constrangedor, mas ele conhecia muito bem o velho amigo, ignorando seus ataques histéricos pós bebida. O ruivo vivia bebendo, raramente tinha momentos totalmente sóbrios, mas aquele tom de embriaguez lhe dava uma sanidade tão grande que parecia ser melhor ouvir seus conselhos quando estava sob efeito do álcool.

— Você não percebeu que está amando essa moça? –perguntou Shanks após parar de rir aos poucos. Seu sorriso ainda era gigante.

— Não diga bobagens! –grunhiu Mihawk deixando a caneca vazia no chão e passando os dedos entre os cabelos úmidos de suor. — Eu não sinto nada por essa moça... Além disso ela não tem nem vinte anos ainda. Isso seria errado.

— Mas ela sente algo por você. E agora, olhos de falcão? -Shanks olhou para o amigo com as sobrancelhas arqueadas para cima, como se apontasse um desafio. — Você seduziu essa menina com seu charme e nem tem ideia disso!

O coração do falcão palpitou exatamente como no dia anterior. A lembrança do beijo doce veio em sua mente e passou diante de seus olhos. Aquilo não era uma ilusão e nem um sonho, aquilo realmente aconteceu e foi por parte de Wyvia. Ela o olhava com tanta adoração naquele dia que finalmente o falcão se deixou compreender. As palavras de Shanks pareceram revelar aquele quebra cabeça que estava com peças faltando. As peças do descobrimento, do que realmente havia em jogo naquele momento: um sentimento. O falcão se remexeu inquieto, pensando no que se passava consigo mesmo desde que Wyvia chegara. A vida dele mudou de certa forma. Passou a cuidar dela, prepara comida com capricho, passar algumas horas da noite em claro pensando no que aconteceria caso ela fosse embora da ilha e como doía pensar no que o povo de Jaman fizera a ela.

Certamente havia algo de muito forte nisso, porém era difícil para o falcão acreditar em si mesmo. Sentia sim algo por aquela moça e ela sentia algo por ele. Mas será que era realmente certo sentir algo assim?

— Ela é muito jovem. –protestou, suspirando, procurando alguma justificativa para abandonar apenas a pequena ideia de haver um sentimento forte em si. Os olhos dourados da moça vieram em sua mente e o beijo doce também. Ele sentiu imediatamente uma vontade de retribuir.

Shanks se jogou para trás de forma impaciente. Ele se levantou, sem derramar uma gota de bebida de sua caneca. Ver o amigo se proibir de amar daquela forma era algo que o incomodava muito. Os olhos castanhos do ruivo agora fitaram os dourados do amigo com uma pontada de preocupação e uma base de sermão que logo viria. Pela primeira vez em muito tempo viu o amigo sem o toque de péssimo humor na face e com aquela calma devido a presença de uma pessoa nova na ilha. Não era justo que ele se limitasse tanto a procurar amar.

— Já tive encontros com moças bem mais jovens que eu. –disse o ruivo tomando um longo gole da caneca. A lembrança de beijos doces e inocentes vieram em sua mente assim como quando Mihawk se lembrava de Wyvia. — Moças que me encantaram durante viagens, e devo admitir que nunca achei isso errado. A mais jovem com quem me encontrei tinha 18 anos, e devo dizer que eu nunca me senti tão jovem como quando estava perto dela. Acho que você deve se sentir assim também. É bom sentir que tem menos 20 anos sobre os ombros na presença de moças jovens, cheias de carinho e juventude para nos dar! Ainda mais pra você que é quase um coroa!

E as risadas voltaram na expressão do ruivo. Revirando os olhos, Mihawk pensou seriamente naquelas palavras. Seu olhar se voltou para o castelo, onde procurava Wyvia em cada uma das janelas, sem encontrá-la. Por que uma moça como aquela lhe afetava tanto? Era tão simples, delicada, misteriosa e tímida. Desde acontecimentos anteriores, Mihawk admitiu a si mesmo que a protegeria de tudo e de qualquer coisa, e ele nunca fizera aquilo por ninguém. Será que era certo?

Destruindo sua armadura de frieza e implacabilidade, o falcão se levantou e deixou Shanks alí, rindo igual bobo e bebendo. Caminhou em direção ao castelo, fazendo um gesto que significava um “até mais”.

— Estarei na praia até amanhã, Olhos de falcão! Seja feliz, você merece, seu chato! –gritou Shanks bebendo o resto da bebida e voltando por onde viera. Sabia que tinha contribuído com alguma coisa, afinal, os olhos de seu amigo buscavam por Wyvia, ele tinha certeza daquilo.

***

Após o banho, Wyvia se sentou diante da penteadeira e passou delicadamente o pente pelos cabelos loiros. Os cabelos pararam de crescer quando chegaram nos ombros. A moça não gostava de deixar os cabelos maiores do que aquilo. Passou os dedos gentilmente percorrendo todo o comprimento dos cabelos e lembrou-se de quando Mihawk fizera o mesmo há uma semana. Sentiu saudades do toque dele, mesmo que fosse apenas desesperado ou inconsciente. Ela então tocou os lábios e lembrou do beijo. Foi tão corajosa em fazer aquilo que acabou sorrindo sozinha. Shanks disse que era notável o quanto ela estava apaixonada por Mihawk, e olhando a si mesma, ela notou que era verdade. Pensar nos olhos dourados de Mihawk era como um chamariz para um sorriso dela. As bochechas ficaram levemente avermelhadas ao lembrar do beijo e de quando o abraçou após o pesadelo no primeiro dia na presença dele.

Sentada no banquinho da penteadeira, ela abotoou a pequena blusa de pijama que Perona lhe dera. Era uma blusa branca com brilho que deixava sua barriga a mostra. A calça roxa de plush que ganhou também de Perona quase passava dos pés da menina, por ser um pouco grande para seu pequeno corpo, mas o importante era que estava confortável. Queria passar o resto do dia no quarto, se recuperando da caminhada que fizera com Shanks da praia até o castelo. Sua perna doía, mas estava se recuperando rapidamente.

Quando fechou o último botão, ela voltou o olhar para o espelho e levou um susto. No reflexo, via a porta do quarto, que estava aberta e diante dela estava um Mihawk sem camisa, com o peito suado e com a mesma expressão de sempre: seca e rígida, com as sobrancelhas quase unidas.

— Mihawk-san! –exclamou Wyvia após o susto girando no banquinho e agora o encarando. Ela estava ciente de que ele podia ver sua barriga, então a cobriu com os braços, um pouco tímida.

— Desculpe se te assustei. –disse ele se aproximando dela. A aproximação revelava arrepios nos braços de cada um e um aceleração considerável dos batimentos cardíacos. Parece que sabiam que algo aconteceria e aquela sensação era destruidora.

Quero comprovar uma coisa, pensou Mihawk se ajoelhando diante dela. Ajoelhado em apenas uma das pernas, ele ficava exatamente da altura dela sentada naquele banquinho. A distância deles não era grande, na verdade era esmagadora.

Wyvia tremeu inconscientemente quando sentiu a mão de Mihawk percorrer novamente seus cabelos até chegar em seu rosto. As mãos dele eram grandes e ásperas devido ao treino com espada, e a moça pôde sentir isso em sua pele macia. Os dedos dele fizeram traços pelas bochechas dela até chegar nos lábios, onde ele contornou a carne macia. Fechando os olhos a moça apreciou o toque. O dedo indicador de Mihawk então contornou os lábios dela novamente e desceu pelo queixo, logo se depositando na garganta e envolvendo o pescoço dela com as mãos. Ele podia sentir a jugular dela pulsando com seu toque. Levando então a mão até a nuca, ele a puxou levemente, a fazendo abrir os olhos.

Os pares de olhos de ouro estavam em um contato demorado e atraente. Mihawk não cansava de fita-la daquela forma, admirando o contorno de seu rosto feminino e delicado e suas bochechas avermelhadas devido aquela distância e intimidade. Novamente os hálitos se misturaram naquela conversa de expressões e sem querer Wyvia mordiscou o lábio inferior. O gesto atraiu o olhar do falcão, que agora mudou. Ele parecia sentir desejo agora. Sentiu vontade de possuir os lábios dela agora, e ele não se demoraria para fazer aquilo.

— Wyvia... –ele disse o nome dela com leveza. Sua voz grave e arrastada era repleta de calor e emoção.

O falcão então levou a mão novamente para a bochecha direita da moça e com a outra mão segurou a cintura nua e macia dela. O toque a arrepiou de uma forma deliciosa. E foi então que sem leis e sem preocupações interiores, Mihawk se aproximou dela. Os lábios se encontraram como na primeira vez, primeiramente fracos e depois cheios de pressão. Ainda tímida ao toque, Wyvia segurou a mão dele que estava em sua cintura, como se pedisse um pouco de proteção e segurança. Os dedos se entrelaçaram no mesmo tempo em que o falcão abria os lábios dela com os seus. Apertou os dedos dela como se quisesse fazer com que ela se sentisse segura, assim como ela mesma pediu, e assim ele implorou por passagem entre a boca dela, com calma e com desejo. O beijo era tão morno e lento que fazia sons deliciosos a cada vez que os rostos mudavam de lado. Wyvia não era tão experiente assim em beijos, mas logo foi aprendendo com a paciência e experiência de Mihawk, que conduziu o beijo com desejo e carinho. Ele sentiu quando Wyvia envolveu seu pescoço agora. Não estava mais insegura ou com medo, agora realmente pertencia a ele com aquela demonstração de afeto. O cheiro de suor e a umidade do corpo de Mihawk só trouxeram a Wyvia uma sensação de que estava submissa. O cheiro másculo era inebriante e acordava nela instintos perigosos e novos.

Porém, o mesmo acontecia com Mihawk... e ele não queria passar daquilo e dar lugar para instintos. Ele encerrou o beijo dando outros leves pela bochecha dela, absorvendo o aroma de óleo de banho que emanava de sua pele... e com isso ele a tomou em um forte abraço. Sabia que estava suado, então não se demorou muito e se afastou dela, dando uma última olhada esclarecedora nos olhos dourados dela. Acabara de descobrir uma coisa para si mesmo, e aquilo era destruidor.

Se levantando com calma, observando o olhar apaixonado e admirado da moça, que estava com os lábios curvados em um sorriso, ele então deixou escapar um pequeno curvar de lábios seus, que poderia ser dito que era um sorriso, algo que ninguém nunca teve a oportunidade de ver.

— Vou preparar o jantar. –disse ele então começando a se retirar do quarto.

— Sim, Mihawk. –respondeu ela abraçando o próprio corpo e aguardando enquanto o homem saía do quarto.

E quando ele saiu, ela esboçou um sorriso tão grande que poderia ser visto até de costas. E ela começou a rir... totalmente apaixonada e abalada. Agora sim ela sabia que amava Mihawk.

E ele o sabia também. Amava Wyvia.

Notas finais
O que acharam? *--*