90 Dias É Pouco

1 A solução dos meus problemas


90 DIAS É POUCO


Hoje eu lhe contarei uma história de um cara que havia um sonho. Mas não era um sonho especial, muito pelo contrário, é a história de um cara que tinha um sonho qualquer! Isso mesmo! Veja bem: quantas pessoas no mundo desejam seguir uma profissão que elas muito gostam, mas no grande e lindo país maravilhoso delas, essa profissão, essa bendita profissão não lhes dão muito dinheiro? Não as permite terem uma vida tão sustentável, com direito a aquelas mordomias que com certeza você sempre quis ter ou já tem. Muitas, não é verdade? E eu poderia dizer, claro — sem ter muito o conhecimento da situação nos outros países – que quando falamos de profissões que num país não te dê um bom salário, falamos de Brasil. Mas hoje meu caro, eu lhe apresento um cara que encontrou a solução para esse problema que estragou e estraga até hoje o sonho de muitos: Eu!

Introdução – A solução dos meus problemas.

Desde criança eu sempre gostei de criar, era algo que me dava um prazer imenso. Eu gostava de criar qualquer coisa que podia ser criada, uma história, uma maquete, um brinquedo reciclável, um utensílio, um desenho, o que era realmente não importava tanto, desde que eu estivesse criando, eu me divertiria com aquilo. Era incrível aquela sensação de todo o trabalho que tive para deixar aquela coisa abstrata pronta não ter sido em vão. Pois então, foi com a presença desse enorme desejo que eu cresci. E na hora de escolher a minha profissão, eu teria que pensar em qual gênero de criação eu iria trabalhar. E foi nessa decisão que todo pré-adulto deve tomar que a minha falta de fé no meu próprio país surgiu.

Calma, eu vou explicar direitinho.

Na minha adolescência, ao decidir minha futura profissão, eu me imaginava numa casa confortável, sem muitas riquezas, mas nela contida todas as coisas que sempre desejei. Minha mulher e meus filhos, meu carro, meu computador da NASA, meu cachorro e até mesmo com direito a uma empregada me servindo. Mas eu também imaginava que tudo aquilo teria sido conquistado com uma profissão que eu gostava e sempre havia sonhado em seguir. Eu queria uma vida estável, nunca desejei ser rico, mas sempre desejei ser bem de vida. Ganhar cinco mil ou mais era pra mim uma vida ótima – mesmo que ainda assim, esse salário não seja lá essas coisas hoje em dia. A grande questão é que eu queria ganhar bem trabalhando bem.

Naquela época (e até hoje) jogar games era uma paixão imensa que eu tinha. Cada vez mais, jogar fazia parte do meu cotidiano. Até que houve uma etapa da vida que um estalo surgiu na minha mente: como será que cria um jogo? Então a partir daí você pode imaginar facilmente o desfecho da minha explicação. Juntando uma das minhas paixões com outra, nada mais justo que eu decidir trabalhar com criação de games. Era perfeito. Um game juntava todos os gêneros de criação em uma só arte: desenhar, história, personagens, maquetes, cenários, tudo em uma só coisa. Era justo pra mim. Então, na metade da minha adolescência eu já havia decidido o que queria pra minha vida.

Mas a vida é injusta conosco.

Meu país era injusto.

E bem, eu ainda não sabia disso.

Foi na faculdade que eu descobri que a profissão que eu havia escolhido para minha vida me proporcionaria um salário de 2.271 reais. Foi um baque pra mim, já que eu estava na metade da faculdade e não poderia mais voltar atrás. Eu havia entrado numa rua escura sem saber aonde aquilo iria chegar. Mas há algo a acrescentar nessa analogia: apesar de eu estar entrando em um beco escuro, eu sabia que lá tinha putas me esperando. Se você entendeu como deveria entender, sabe que apesar de eu ter escolhido uma profissão que não me desse tanto dinheiro, eu estaria adorando realiza-la. Mas não era o salário bom que eu queria. Vai que as putas tivessem AIDS?

Enfim nada melhor do que uma boa dose de bebidas com um amigo para espantar a decepção com a vida.

- Cara, eu realmente não sei mais o que fazer.

- O que foi dessa vez, Peter? Mais uma garota ferrou contigo? – ele riu de mim e deu uma golada na garrafa de cerveja.

- Por incrível que pareça, não. Não sei se é mais suave ou se é pior. Você conseguiria viver de boa com um salário de 2 mil reais?

- Hmm, olha cara, com muito sacrifício, me abdicando de muitas coisas que eu gostaria de ter, acho que sim. Mas desse jeito eu não viveria de boa e sim preocupado com o que eu poderia ter ou deixar de ter. Digamos que pra viver bem tranquilo, eu deveria ganhar uns 10 mil reais. – realmente, ele não era nada exagerado. – Porque? Você sempre disse que trabalhar com jogos ia te dar mó grana, que não sei o que, que tu ia ganhar bem e blablabla.

- E não estou errado, falou? Essa é uma profissão que dá muita grana, só que não aqui no Brasil. Pra se ter uma ideia, um programador no exterior ganha 15 mil dólares, dólares, hein? Enquanto aqui...

- Ué cara, vai para exterior então.

- Quem dera se fosse simples assim. Se eu não me engano, você só pode ficar até 90 dias num país com autorização.

- To ligado, to ligado. Ué, case com alguém de lá e você vai ganhar a nacionalidade! AUEHA – ele riu pra cacete, como se eu não fosse conseguir aquilo. Mas realmente, era irrelevante dar certo.

- É verdade mesmo? É só casar com alguém e vou poder morar lá?

- Sim, vai falar que não sabia?

- Cara, você me deu uma boa ideia. Vou fazer isso!

- Não viaja. – riu mais ainda. – Você acha que tem como você ir pro exterior, conquistar uma mulher e a fazer casar contigo em três meses? Acho que nem um profissional da arte de sedução conseguiria isso filhão.

- É claro que tem como, não é impossível. – me levantei rapidamente e dei o último gole na cerveja. – Valeu Guga, você me deu uma solução para o problema! Flwflwflw!

- O que? Ficou chapado cara? Eu falei zoando! – ele chegou até tentar me convencer, mas eu já estava saindo pela porta.

De fato, aquilo era uma maluquisse tremenda. Não daria certo de jeito nenhum! Seria preciso mais de 90 dias para conquistar uma mulher de tal forma que ela aceitasse se casar comigo. Só se eu fizesse uma ficar fascinada por mim, o que também era algo meio impossível. Mas o pensamento que me predominava e a analogia que me motivava eram que, se eu já estava afundado na lama, por que não aproveitar o banho?