90 Dias É Pouco
2 Aprendendo que nem sempre as coisas são tão fáceis
Depois que saí repentinamente da casa do meu amigo, eu estava mais que decidido a ir para o exterior tentar ganhar a vida lá. Eu dormi pensando naquilo.
“Eu tenho que ir, não é certo desistir tão fácil assim dos meus sonhos, se não tudo que eu sonhei até agora e a grana que gastei na faculdade foi totalmente em vão. Eu vou conseguir, eu vou conseguir!”
E quando eu acordei, e aquilo que aconteceu estivesse funcionando como um sonho, eu estava acabando de voltar à realidade: “É, eu não vou conseguir.” Óbvio.
Eu não sabia mais o que fazer, eu estava perdido, não sabia se escolhia lingüiça ou salsicha, chocolate ou morango ou qualquer outro trocadilho do gênero, simplesmente eu estava preso na maior dúvida da minha vida. Uma dúvida que mudaria totalmente o rumo dessa história. Só que mesmo eu não sabendo o que escolher, eu não podia ficar parado. Restava-me continuar seguindo a rotina comum: ir para a faculdade.
Era quinta-feira, e eu teria aula de roteiros cinquenta minutos além do horário de aula normal. Então não era preciso me arrumar tão rápido. Mas enquanto tomava banho, colocava a roupa e até mesmo penteava o cabelo, eu pensava sobre minha vida. Sobre o que eu iria fazer. E eu percebi que eu precisava de alguém que me superestimasse – difícil, né? Como resultado, acabei pensando em quem? No Luque. Eu estava louco, sério. Você não sabe, mas Luque era um amigo da faculdade, mais conhecido como Lucão. Aquele cara era daquele tipo maromba em que as mulheres viviam em cima, e apesar de ele ser babacão, ele entendia sobre as mulheres. Na verdade eu não tinha certeza, pois eu não sabia se as mulheres se sentiam atraída pelo desenrolo dele ou pelo fato de ele ser bombado. Mas ele era o amigo mais próximo que pegava todas na área, então, ele parecia ser ideal para me ajudar com minhas maluquisse, já que ele era uma das pessoas que mais me superestimava na faculdade. Entretanto, eu pensei bem, desisti e considerei que aquele pensamento havia sido um leve distúrbio meu. Nessa hora eu já tinha terminado de me arrumar, claro, a hora passou rápido de tal forma que me deixou leso. Bem, fazia parte.
- Peeeeeeeter!!! – ouvi uma voz de longe enquanto eu chegava à faculdade. Eu poderia pensar um pouco e reconhecer de quem era a voz, mas ela havia sido mais rápida do que meus próprios pensamentos! Me agarrou por trás e gritou no meu ouvido. – É verdade que você vai se casar com uma gringa?! – claro, só podia ser a July, uma grande irmã pra mim, também fazia a faculdade de Jogos Digitais. E sim, ela sempre fazia isso quando me via de manhã.
- Eu? Como você sabe disso, garota? – como?
- Não interessa, que história é essa? Você casar? Não pode! – bateu no meu ombro, como sempre também. – Logo você vai acabar me abandonando, me trocar por essa gringa, esquecer que eu existo, e vou ficar aqui com esses ogros sem ninguém pra afastar eles de perto. Ó meu deus! Quem irá ser meu grande irmãozinho agora? – juro, ela resmungou quase chorando. — Quer saber? Vou ficar deprimida.
- Mas o que?
- É, vou ficar deprimida! Estou deprimida, estou deprimida. Estou deprimida! – ela começou a me socar repentinamente, e antes que você pergunte, ela sempre foi meio louca sim. – Como você pôde????
- E aaaaaaaaaaaaaae meus jovens amigos! – Guga havia chegado batendo no meu ombro, era um certo tipo de cumprimento e cumplicidade. – July tendo ataques estéricos de novo, Peter?
- Sim, por que será? Estou sentido cheiro de fofoqueiro.
- Ué cara, relaxa ae, uma hora ou outra todo mundo vai saber mesmo, só estou adiantando as coisas. Hehe. – ele olhou pra mim com uma cara risonha, estava me sacaneando, como eu disse: “seguir a rotina”, aquilo era uma parte dela.
- Você não podia, Peter! Me trocar desse jeito??? Definitivamente não! – July realmente estava chorando dentre resmungos e socos no meu peito que não doíam tanto.
- July, calma! – segurei forte nos braços dela. — Eu não vou me casar com nenhuma gringa. Nem com ninguém. – falei firme para ela parar com aquela birra. – Se beeem que eu acho de difícil, hein? Vai me falar que você não se lembra daquelas minhas falhas na tentativa de um relacionamento? Hunph.
- Mas, o Guga disse...
- Guga é doidão, relaxa.
- Sim, sou doidão, mas já está na hora da aula. Bora logo.
E depois que ela parou com aquilo, fomos caminhando para a aula. Realmente, a July sempre foi meio doida daquele jeito. Eu sei, eu sei, de certo modo, eu sei que ela faz zoando. Mas eu sei também que essa zoeira dela tem um fundo de verdade. Nós no tornamos amigos desde a primeira aula na faculdade. E apesar de parecer desorientada das ideias, ela tirava notas ainda mais altas do que eu. Quem sabe eu não a considere até mesmo como uma das pessoas mais inteligentes que eu conheço? E a mais louca também, sem esquecer-se desse detalhe. Enfim, eu sei que tem um fundo de verdade por conta de imaginar que realmente eu faria uma grande falta na vida dela caso eu fosse para o estrangeiro ganhar a vida lá. Mas se precisasse, eu teria que a fazer passar por isso, infelizmente. Eu acho que até mesmo ajudaria a vida de todos os meus amigos em volta que faziam a mesma faculdade que eu. Então era um sacrifício que precisava ser feito.
E eu? Sentia-me em cima de uma corda bamba diante de um precipício enorme, onde eu teria que decidir se me jogo da corda ou se vou até o final da mesma. Foi aí então, que quando eu estava quase entrando na sala, eu vi quem? O Lucão.
Permaneci com um pé dentro e outro fora da sala, pensando se eu ia falar com ele pra pedir ajuda — o que significaria tentar ir para outro país, ou entrar na sala, onde eu desistiria dessa loucura. Eu deveria entrar. Sério mesmo. Só que não. Eu tirei o pé de dentro da sala e avisei para meus amigos:
- Vão lá enquanto resolvo algo aqui fora, já volto!
E bem, quando eu olhei para o lado, Luque estava sentado em uma cadeira logo a frente de sua sala. Pelo que me lembro, haviam duas garotas sentadas em cada perna dele. Uma acariciava seu peito e a outra o cabelo do mesmo. Talvez ele fizesse um tipo de faculdade de mágica escondido de todos, porque aquilo era incrível e absolutamente estranho. O doido parecia àqueles milionários que chega a uma boate cara e várias garotas ficam em cima dele, sendo que ele havia entrado na faculdade através de bolsa – sim, ele não pagava a faculdade por não ter uma condição financeira tão boa assim (pelo menos é o que diziam, mas eu nunca acreditei – e você está vendo o porquê).
Eu me aproximei devagar, até pensei em hesitar, mas segui em frente e falei com ele.
- Luque, posso levar um papo contigo?
Ele olhou pra mim. As garotas também. Era meio constrangedor, certo?
- Hm? Levar um papo comigo? Diz aí. Só espero que seja um assunto importante, minhas meninas não vão esperar, falou?
- É rápido, eu acho que é do seu interesse.
- O que seria do meu interesse? Jogos? Hahahahaha!! – tsc, até as garotas começaram a rir. Mas era aquele riso debochado, entende?
- Cara, vai me fazer ter que falar AQUILO? – haha, cutuquei a ferida. Ele ficou sério rapidinho. – Eu não quero que você passe por essa situação. Eu sei de tudo.
Ele olhou para as garotas, olhou para mim e disse: “Xô meninas, xô.” E elas saíram. Iriam por acaso desacatar o seu “mestre”? Pff. Ele? Permaneceu olhando sério pra mim, e assim que as garotas entraram na sala e fugiram da nossa visão, ele levantou rápido agarrando meu ombro.
- E AÍ, CARAAAA!!! – eu soltei umas risadas mesmo com ele me sufocando e gritando daquele jeito, claro. – Diz aí parceiro, o que tu manda? Conseguiu ficar com aquela garota que você gostava?! Conseguiu né? Tu é o Peter, lógico. Rei delas! HAHAHA! – acontece que todo aquele ar superior, expressão séria, sentado no trono como um rei, era pura pose! Lucão era uma das pessoas mais bobas que eu conheci. Provavelmente era uma tática dele para conquistar as mulheres. Mas a grande questão é que ele não estava me zoando ou sendo irônico me chamando de “rei delas”, por mais que ele soubesse que eu era um fracasso com as garotas, ele sempre me superestimou muito em relação a elas. E bom, eu posso te dizer que isso sempre me ajudou, e muito. Ter alguém que confiava no meu taco era essencial, pois a situação era meio critica pelo fato de nem eu mesmo confiar no próprio.
Em relação a AQUILO, eu não o ameacei a contar para elas que ele era fanático por coisas de nerd – jogos, livros fictícios e coisas do tipo. Aquela pose de descolado era o que ele queria manter para ele, e eu nunca mexi com isso. Eu costumava a “ameaça-lo” só para ele perceber que o assunto era sério e então fazê-lo despachar as garotas de perto. Nós respeitávamos o ambiente um do outro.
- Luque, você precisa me ajudar, cara. Meu futuro depende disso.
- OPA! Resolver futuros é comigo mesmo. “Cê” sabe que pode contar com o Lucão aqui. Espera! – gritou. – Me deixa adivinhar... Mulheres?! – não era de se admirar uma adivinhação desta, quando eu o pedia ajuda, esse era sempre o assunto da vez.
- Eu quero que você seja oficialmente o meu tutor no enigma chamado Mulheres. Topa? – ele ficou sério. Eu sabia que ele sempre quis ser o meu tutor, me tornar “pegador” que nem ele.
- Jovem gafanhoto... Vamos tomar um suco. – bateu nos meus ombros, e bom, fomos até a lanchonete da faculdade.
Chegando lá, eu expliquei para ele que eu precisava me tornar profissional nessa arte e conseguir fazer uma mulher do exterior casar comigo em noventa dias. Ele me olhou com um olhar e tanto, como se aquilo fosse um grande desafio e uma grande loucura ao mesmo tempo; pois além de até ele saber que aquilo era uma missão impossível, eu iria fazer uma grande besteira me casando tão novo assim.
- Peter, você já foi menos louco! Por quê diabos você quer ir para o exterior se casar com uma gringa? – questionou-me. – A July vai te matar, meu irmão. Não quero estar na sua pele quando ela souber disso.
- É, eu sei.. – suspirei. – Eu descobri que não vou ganhar tanto aqui no Brasil como artista 3D em games. Trabalhar no exterior é a melhor solução para eu conseguir realizar meu sonho. É por isso que meu futuro depende disso. Você precisa me ensinar a conquistar mulheres. Minha vida amorosa e sexual também depende disso! E você é o mestre nisso, cara.
- Hehehe! Eu já te disse que resolver futuros é comigo mesmo? – Ele bateu no meu ombro mais uma vez, e agarrou meu pescoço com o braço. Em seguida, me forçou a olhar para o céu, e gesticulou com a mão em direção ao mesmo enquanto dizia: – Está vendo essas nuvens, meu caro? – olhou para mim e depois para o céu. – Elas estão dizendo que segundo as constelações espectrais desse universo paralelo com milhares e milhares de dimensões internas sobre a demanda camada de ar que paira sobre o planeta Terra, você, Peter, o pica das galáxias, vai conseguir conquistar uma mulher e fazer ela se casar contigo em menos de noventa dias! – olhou para mim novamente – Meu jovem, junto com os meus ensinamentos... Nós vamos ir para o exterior, e mostrar para aquelas gringas quem somos nós! ESTÁ PREPARADO PARA ESSA DEMANDA, GAFANHOTO?! ESTÁ PREPARADO? – eu te disse que ele era louco, e eu estava embarcando nessa também.
- Pois então, Luque, mais conhecido como Lucão, o rei das novinhas, eu lhe digo: Eu já nasci preparado!
- É ASSIM QUE SE FALA! – parou. – Certo, mas como vamos fazer isso?
Ok. Vamos ter que pensar um pouquinho.
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