7:47 Sete & Quarenta e Sete
1 De quem é esse carro?
Notas iniciais
O despertador de Luka mais uma vez me fez pular da cama. O relógio em forma de moeda gigante jazia no quarto ao lado, onde era exatamente o quarto de minha irmã do meio.
Depois de um tempo, parei de usar o meu por que o dela já fazia o trabalho completo de acordar até os vizinhos se assim preciso.
– Mais cinco minutos... — Disse Luka cobrindo os olhos por causa da luz vinda da janela, que a pouco estavam fechadas, mas abri por que sabia que só assim a garota acordaria de vez.
– Tudo bem, — Olhei ao redor e vi que ela havia colocado mais pôsteres da série de zumbis. Sorri. Ela adorava isso. — Mas não demore tanto, não quero mais uma reclamação vinda da escola por atraso.
Ela respondeu com o rosto coberto pelo travesseiro, o que não deu para entender nada do que tentou dizer. Revirei os olhos e saí de seu quarto me encontrando com Chase que voltou batendo com a cabeça na parede por causa da colisão.
– Ai, Amy! — coçou a cabeça fazendo uma careta.
– Desculpe, desculpe — passei a mão no local. — Tudo bem. Tudo bem.
Chase olhou primeiro para minha mão e estancou no lugar. De alguma forma, isso me fez lembrar sua primeira queda mais perigosa... Bom, para mim foi perigoso.
Anos Atrás...
"Chase havia sumido mais uma vez. Argh! Já estava sem paciências para correr atrás do garotinho com seus cabelos, que ainda não haviam escolhido uma cor específica para dizer ser a cor permanente. Hora eram avermelhados como avelã, outrora eram quase ouro e até chegava a confundir às vezes com a mesma cor de terra seca. O garoto estava mais uma vez se escondendo para não tomar banho.
Mas ele não se esconderia. Não dessa vez!
Três dias antes, por acaso, havia descoberto seu "esconderijo" que ficava entre nosso quintal e o da vizinha que morava atrás, a Sra. Sullivan.
Como haviam algumas árvores e a vizinha quase não vivia em casa, sua grama crescia e ela apenas aparava a parte da frente, a de trás era como uma floresta. E era logo ali, entre nosso quintal e o dela, que Chase havia feito sua cabaninha com pedaços de paus e até alguns lençóis mais antigos — que uma semana antes, havia dado falta e achava que tinham levado da lavanderia. -, e mais alguns objetos para compor seu esconderijo.
Vi o deslumbre de seus cabelos meio avermelhados ou claros, passando pela janela da sala. Dei a volta e corri para a cozinha saindo pela porta de trás e indo direto para o esconderijo recém descoberto. Esperei atrás da árvore. Quando o vi se aproximar rindo, achando que havia me despistado, saí de trás da árvore e o agarrei nos braços.
– Te peguei! — caminhei de volta para casa. O garoto esperneava.
– Me solta! Não quero ir! Não quero! Socorro! Ela quer me matar! Chamem a Polícia! Eu vou morrer!
Já estava acostumada com os pedidos de socorro e até os vizinhos mais próximos não vinham mais correndo para ver se era um caso de emergência mesmo. Já que na primeira vez, logo que nos mudamos para a vizinhança, o Sr. Turner, que mora à frente, chamou a Emergência achando que havia realmente um assassino em casa. Foi um alvoroço, mas no final deu tudo certo, de acordo com Chase que ganhou bombons da filha do Sr. Turner, Melanie, logo após o ocorrido.
– Pare com isso, Chase. Você já é um rapazinho, precisa tomar banho, ficar limpo como sua irmã.
Em vão, ele continuava a espernear até que na metade da escada, logo na subida, o garoto escapou de meus braços e caiu. Por alguma ação divina, ele apenas caiu sentado, de lado, no degrau e machucou a cabeça na parede.
Entrei em completo desespero, descendo as escadas com ele nos braços até me sentar no chão. O garotinho chorava copiosamente escondendo o rosto em meu peito. Aninhava-o em meu colo e olhava-o com culpa. Era uma desastrada! Se eu tivesse tido mais cuidado... Tateei seus braços e pernas em busca de um ferimento grave. Não tinha, apenas devia ter dores no corpo.
– Desculpe, desculpe. — tentava o acalmar passando a mão atrás de sua cabeça para ver se havia machucado ali. -, Tudo bem. Tudo bem. Eu pedi para não se debater, meu pequeno. Não chore, eu estou aqui...
– Mas você não é minha mãe! — gritou com a voz embargada pelo choro.
Senti como se alguém tivesse dado uma bofetada em meu rosto. Se as palavras dele me machucaram? Claro, eu sabia que não era mãe de nenhum dos dois. Mas, tentava ao máximo passar conforto que minha mãe daria se estivesse presente. Eu vinha tentando, eu realmente tentava...
– Não pequeno, não sou a mamãe, mas amo você tanto quanto ela. E vou cuidar de você e de Luka. Sei que está triste e peço desculpas por ter deixado você cair e ter batido essa cabecinha teimosa na parede e esse bumbum na escada. — Enxuguei suas lágrimas que já haviam cessado. — Não irá mais acontecer, tá bem?
Ele concordou.
– Bom, agora banho."
Senti como se Chase houvesse parado no tempo e recordado do passado, no mesmo instante que eu. Ele pigarreou e coçou a cabeça.
– Tá, tá. Tô bem, valeu! Eu... Eu vou tomar banho. — Entrou no banheiro rápido e fechou a porta no segundo seguinte. Não entendi, mas também não procurei questionar.
– Vou arrumar a mesa para o café! — Disse alto enquanto descia as escadas indo para a cozinha. Meu banho vinha sempre após tudo pronto: As tortinhas do Chase, as barrinhas de cereais, também fatias de bolo para Luka e o café expresso na mesa. Quando acordávamos mais cedo ou quando eu podia chegar mais tarde no trabalho e eles não tinham aula, preparávamos um café-da-manhã mais requintado com direito até a bolinhos de chuva.
Então com a primeira etapa concluída, eu subia para arrumar o meu quarto, me banhava e já descia pronta. O meu café eu tomava no trabalho.
Já com o tempo quase estourando, avisei que iria tirar o carro da garagem para matar tempo enquanto Luka e Chase pegavam suas bolsas e fechavam a casa.
– Onde esta o -
– No armário acima do balcão da cafeteira. — virei e respondi antes mesmo de Chase terminar a frase. Reparei que hoje estava com uma camisa de mangas compridas do Homem-Aranha. Ele estava atrás das tortinhas que eu sempre fazia e separava do café os guardando no armário pra ele devorar no caminho da escola.
Já fora de casa, vi um carro estacionado logo atrás do meu.
Mas o quê? Mas o quê?!
Caminhei apressada até lá e olhei ao redor procurando o possível dono do carro esporte, claro que não veria ninguém. Aproximei e grudei a testa na janela procurando alguma informação. Nada. Olhei rápido no relógio e já estava atrasada.
– Argh! De quem é isso?!
– Do vizinho. — Olhei para ver Luka apontar para a casa ao lado com uma expressão divertida no rosto.
– Mas o que ele tinha de? Ai, deixa pra lá, vou resolver isso agora.
Caminhei a passos pesados até a porta da casa vizinha e apertei a campainha uma vez. Ninguém. Apertei mais duas vezes. Sem sinal de vida. Me inclinei um pouco para o lado e encostei a testa na parte de vidro da parede que ficava logo ao redor da porta: Via apenas o borrão de alguns móveis, talvez uma escada mais a frente... Mas nenhum movimento. Olhei mais uma vez o horário.
– Ah! — Tasquei o indicador na campainha o tocando várias vezes. Vamos, vamos! Atenda!
Ouvi passos vindo de dentro da casa e tirei o indicador do botão.
– Já estou indo! Nossa! — Escutei a voz alta e masculina. Estava estranha, um pouco falha. Claro, o acordei as pressas com o toque ensurdecedor da campainha. Até que a porta foi destrancada e aberta para minha surpresa.
– O que é que você quer?!
Dei dois passos para trás. O homem ou o rapaz, não sei, estava sujo e amarrotado demais para saber o exato agora. Os cabelos escuros e aparentemente lisos, estavam para todos os lados e ele mantinha um olho fechado por conta da luz do dia. Me surpreendi não por sua aparência — por que isso eu via todos os dias pelas manhãs em Chase. — , mas como me respondeu com tanta arrogância. Fiquei um tanto sem reação de início. Ele levantou uma sobrancelha esperando minha resposta. Pigarreei e tentei ser o mais educada e breve possível, ele estava bêbado ainda, ou de ressaca. Sentia o hálito de álcool à distância e tratá-lo de forma agressiva, não adiantaria meu dia.
– Você estacionou seu carro na minha garagem e eu gos-
– Claro que não! Tá louca? Ele tá na minha garagem.
O rapaz ou homem além de estar péssimo e me interromper antes de terminar a frase, ainda me respondeu com rispidez, o que fez subir meu sangue. Raivosa apontei o dedo para seu peito.
– Eu disse e vou repetir: Seu. Carro. Está. Na. Minha. Garagem. O tire de lá agora! — Ele pareceu se espantar um pouco mas tomou a postura e entrou rápido em sua casa. Voltou com as chaves do carro e outro menor de cor clara, devia ser da garagem. Olhei para o lado quando a porta da garagem de sua casa começou a abrir e ele saiu em direção para se certificar que o carro estava lá. Só podia estar brincando comigo... Só podia.
– Meu carro, Madame– disse o Madame em tom de deboche -, como pode ver, está aq — Não terminou a frase. Ele olhou para o vão dentro do compartimento e voltou o olhar para mim sem entender.
Apontei o dedo para a minha garagem. Ele acompanhou o movimento e levantou o pescoço para olhar acima da cerca que eram feitas de uma espécie de planta com florzinhas pequenas, eram bem aparadas.
– Eu devo ter-
– Tire-o de lá agora. Tô com pressa. — disse sem pestanejar e caminhei para minha casa. Ele me acompanhou cambaleando um pouco. Luka e Chase estavam sentados na calçada e se levantaram assim que me viram com o vizinho da ressaca. Chase ajeitou os óculos de grau no rosto e deu uma risadinha do cara que cambaleava, e aproveitou para morder a tortinha como se estivesse assistindo algum filme de comédia. Revirei os olhos e entrei no meu carro. Olhei pelo retrovisor e vi ele entrando no seu, dava para perceber sua confusão por seu carro ter parado ali logo atrás do meu e em minha garagem, ao invés da sua. Ele rápido deu a partida e o tirou do caminho.
– Vamos! — Disse apertando a buzina despertando os dois que correram e logo entraram no carro. Luka na frente e Chase atrás, no assento do meio como sempre.
Luka apenas riu já conectando o celular no painel. Uma de suas músicas "morta feat. cremada" começou a tocar.
Manobrei rapidamente o carro para a rua e antes de tomar partida, olhei pela janela o homem ou rapaz... Devia criar um termo mais especifico já que não sabia seu nome."Cara", melhor assim, olhou no mesmo instante para mim.
Coloquei a cabeça para fora e fiz sinal de continência com dois dedos juntos para ele, sorrindo forçado.
– Obrigada!
Ele revirou os olhos e acelerou para dentro de sua garagem. Não pude deixar de rir da confusão dele.
– Tchau pra vocês também.
Luka apenas olhou de relance e jogou a bolsa no ombro. Já Chase ajeitou os óculos. — Ele sempre os ajeitava com o indicador na lateral da armação, na frente, e tinha cuidado para não tocar a lente no processo. — E deu um tchau tímido para mim.
Sorri e cantei pneus para fora dali.
Finalmente! Suspirei contente, quando cheguei no estacionamento da empresa.
– Bom dia, Senhorita Lellouche. — Abraham me cumprimentou como sempre fazia, todos os dias.
– Sra. Gavin já chegou?
Perguntei apressada e Aba assentiu sorrindo e deu uma olhada em seu relógio de bolso.
– Pelo menos dez minutos atrás, Senhorita.
Fiz uma careta e apressei o passo até o elevador. Os saltos não ajudavam em nada. Quando apertei o botão do meu andar, acenei para ele sorrindo.
– Desculpe! Atrasada! E bom dia para você — a porta se fechou. — também.
Por culpa do "Cara", eu poderia receber mais uma chamada da escola das crianças por atraso e perder uma das minhas melhores clientes!
É, hoje o dia não estava ao meu favor... Mas deveria ser otimista, tudo daria certo. Eu acho…
"Cara"
Passei o restante do dia com a certeza de que havia estacionado o carro na minha garagem... Mas como ele foi parar na garagem da vizinha estranha...? Não lembro. Não recordar, era um grande fato de merda que acontecia sempre quando eu passava do ponto nas bebidas em festa. Nunca lembrava do que eu fazia assim que acordava.
– ¿Quién sabe lo que hizo este irresposable esta arena para terminar aquí. Sempre haciendo lo que me encanta com um adolescente em la Universidad!
Olhei para trás apenas para ver Martina batendo no sofá com o cabo da vassoura enquanto reclamava da minha mini bagunça.
Martina era como uma empregada ou faxineira, sei lá, que eu havia contratado através de uma dica de Max, depois de ver como minha casa costumava ficar "um lixo", após minhas festinhas particulares. Mas a mulher era um pé no saco! Sempre estava reclamando do que eu fazia em casa, como nesse momento sobre eu ter deixado o sofá cheio de areia, o que eu não faço idéia de onde veio.
Será que fui à praia ontem?
Mas eu dava uma trégua por seu serviço ser muito bem feito e eu me divertia com o fato dela achar que eu não sabia espanhol. Como agora, ela estava me chamando de irresponsável, achando que eu não havia entendido uma palavra.
Não lembro de onde Martina veio, mas falava espanhol e se aventurava a tentar falar a nossa, mesmo trocando as palavras. Sempre escutava ela reclamando da vida ou, em algumas ocasiões, sobre minhas atitudes de "um adolescente irresposable de la Universidad", ou sei lá mais o quê. Não ligava, ela fazendo bem o trabalho, eu ficava satisfeito. E ela também, sempre quando recebia o pagamento pelos serviços, era o único dia em que não a escutava reclamar. Eu gostava de pagar bem meus funcionários.
Meu celular tocou e eu comecei a procura-lo no sofá.
– Onde tá essa coisa? — Puxava as almofadas até que Martina o encontrou. Atendi no mesmo instante sem ver quem era.
– Sr. Laugh falando. — Uma risada do outro lado da linha me fez resmungar, só era Max. — Eu tenho que parecer sério! — Expliquei. -, o que você quer?
– Lembra do metidão à rico e poderoso lá de Seattle?
– Sim, o que eu tenho com isso? Ele ficou pobre por acaso?
Max respondeu mas não o entendi por que Martina começou a bater no balcão da cozinha, virei na cadeira e vi que ela balançava a bolsa de feira. Concordei e apontei para minha carteira em cima da mesa, ela começou a falar mas não dei trelas. Virei para o computador outra vez. Opa! Mais cinco confirmações pra minha próxima festa.
– Repita o que disse, a velha queria dinheiro pra fazer as compras.
– Ele aceitou a reunião. — Max disse animado. Eu me encostei na cadeira, sabia que uma hora ele iria aceitar minha proposta.
– E o que ele quer? Que eu pague a passagem dele para cá? — Disse sarcástico. Acho que devia ter mandado Martina comprar umas vodkas pra próxima festa... Ah, faço isso depois.
– Não. Ele acabou de passar pela minha mesa e quer você aqui em menos de quarenta minutos.
– O quê?! Merda! Merda! — Me levantei num rompante e corri para o andar de cima. — Só quarenta? Manda Matt preparar a sala 2B e recebê-los agora. Enrole-os até Matt dar sinal de tudo pronto.
Escutava os dedos ágeis de Max no teclado de seu computador. Coloquei o celular no viva voz e comecei a arrancar as roupas do corpo.
– Você quer a papelada de transferência do-
– Isso também. Prepara as tabelas, estão na minha sala, na segunda gaveta a esquerda. Não os deixe sair daí. Já estou chegando.
Desliguei a chamada e corri para o chuveiro. Que merda! Quarenta minutos? Ah, se não fosse a resposta de que queria contratar nossos serviços... Aquele metido se veria comigo. Mas infelizmente, não podia encostar o punho na cara do ricaço... Ele poderia ser um idiota, mas era rico, tinha um nome muito reconhecido e era um ótimo cliente.
Desci as escadas passando as mãos nos cabelos, não teria tempo de passar gel ou qualquer outra coisa que os deixassem mais uniformes. Estava sem tempo pra isso.
Pesquei as chaves do carro e apertei o botão para abrir a garagem. Terminava o nó da gravata enquanto procurava a carteira, mas onde está? Bufei procurando pela mesa.
Passei a olhar por todos os lados... Ah, não! Será que Martina levou a merda da minha carteira?
Deixei isso pra depois, passei a mão pela mesa e peguei umas pastilhas de hortelã e joguei tudo na boca. Se eles pelo menos desconfiassem que eu estava um tanto...de ressaca, poderia garantir uns problemas futuros. Então era melhor prevenir do que remediar. Saí de casa indo a garagem.
Entrei no carro apressado e vi que a porta da garagem ainda estava abrindo. Estalei a língua insatisfeito. Bem que eu poderia ter a garagem aberta como o da vizinha, era tão mais prático e não iria me atrasar tanto quanto estava agora... Quando a porta abriu de vez, liguei a ignição e acelerei para a rua sem olhar pelo retrovisor.
– Chase!
Me assustei com o grito de alguém e no segundo seguinte escutei um baque na traseira do meu carro.
– Ah, não...
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