7:47 Sete & Quarenta e Sete
2 O Vizinho
Notas iniciais
– Ótimo, perfeito. Tenho certeza que não irá se arrepender, Sra. Gavin. — Sorri fazendo sinal para que Rachel trouxesse a pasta com todas as papeladas para assinar.
Depois de assinar tudo, Andrews acompanhou a minha mais nova cliente até a saída do prédio. Quanto mais gentilezas, melhor para a empresa, não é mesmo? Apenas quando escutei Aba, que ficava na portaria, confirmar que ela havia saído sorridente, deixei-me relaxar na cadeira que já não me parecia tão desconfortável.
– A senhora aceita água, chá ou um cafezinho? — Rachel perguntou ajeitando seu terninho cinza. Ela sempre estava atenta e nunca parecia ser desleixada no que fazia. Gostava da sua dedicação, e bem, da cor de seus cabelos. Eram ruivos naturais e por muitas vezes me peguei imaginando ter uma cor dessas sobre os meus castanhos claros... Será que ficaria bom? Mas será que tem essa tonalidade? Balancei a cabeça saindo do devaneio.
Apoiei o queixo na mão esquerda e suspirei feliz.
– Não, Obrigada. Mais uma cliente Rachel! — Disse guardando as papeladas e entregando para ela. — Essa é muito importante.
– Ela veio de Seattle diretamente para cá. — disse pegando as papeladas e guardando-as em um pasta maior. Concordei.
– Eu sei, por isso cheguei as pressas. Desagradar alguém do nível dela, não é bom. — Me levantei e meus saltos cantaram passos até a porta. — Bom, vou terminar as edições que tenho de entregar até a próxima semana. Quando Andrews chegar, diga para ele passar em minha sala, por favor.
– Tudo bem. — Respondeu digitando rapidamente meus comandos no seu tablet. — mais alguma coisa, Senhora?
– Ligue para — Meu celular tocou e fiz sinal de "um minuto" para ela procurando o aparelho na bolsa. Quando achei, vi que era Luka. — Oi, Luka, o qu-
– Amy, o Chase! — Ela gritava. — Bateram nele! O carro, o carro bateu ele. Ele deu de cara no porta-malas ou foi o porta-malas que deu no nariz dele? Sei lá! Quebrou o nariz! Não? Ah, não quebrou o nariz. E o óculos! Quebrou o óculos Chase? — escutei o garoto no outro lado e fiquei mais confusa. — É, quebrou o óculos! Foi o vizinho. — Disse enraivada. — Mas eu vou... Segura aí Amy, vou pegar ele!
– Luka? Luka!
Ela havia desligado o celular.
Olhei para Rachel sem entender e ela muito menos por não saber o que se passava.
– Cancele todos os compromissos de hoje. — Peguei minha bolsa e Rachel ia me acompanhando praticamente correndo enquanto eu chegava no elevador. — Transfira os mais importantes para amanhã, e encaixe o restante no decorrer da semana. Tenho que ir, aconteceu alguma coisa e preciso resolver.
– Tudo bem. — ela digitava. — Mais alguma coisa?
– Ligue para Alexander do RH e o alerte sobre minhas encomendas. Ainda não chegaram. — Entrei no elevador. — Ah, diga para Andrews passar outro dia em minha sala. Até mais.
O elevador se fechou e eu suspirei. Mesmo com pressa e tentando ligar para Luka, eu não poderia nunca deixar de resolver as questões do trabalho. É, era a minha vida.
Tenho certeza que logo, logo terei de pagar multas altíssimas por ter ultrapassado a velocidade indicada, alguns sinais fechados, por está dirigindo enquanto tentava falar no celular e, bom, não levarei multa por isso, mas quase atropelei um rapaz no caminho.
Depois da ligação de Luka, eu saí o mais depressa possível da empresa. Apenas sei que o vizinho — Talvez eu estivesse louca, mas só me vinha o "Cara" em mente. Os outros vizinhos me pareciam ser sempre pacíficos e cuidadosos, ao contrário do idiota que morava à direita de nossa casa. -, atropelou Chase, e Luka poderia estar:
1) Batendo no vizinho.
2) Socorrendo nosso irmão.
Conhecendo minha irmã... Bom, eu fico com a primeira opção.
Em tempo recorde e levando dez, quinze ou até vinte minutos a menos que o normal, estacionei perfeitamente o carro na garagem e pesquei a bolsa saindo dele apressada. Joguei os sapatos ainda na pequena varanda de casa, e entrei procurando os dois.
– Chase? Luka?
– Aqui em cima!
Foi Chase que respondeu. Bom, pelo menos ele conseguira falar, isso eram uma coisa boa, não? Subi rapidamente as escadas e os encontrei no quarto do garoto, estavam rindo de algo. Luka estava sentada no chão ao lado de Chase que estava sobre o carpete com estampa de HQ's. Coloquei a mão no peito, parecia que Luka estava velando o irmão. Minha nossa...
– Por que estão no chão? — perguntei me aproximando e sentando ao lado de Luka para observar Chase. — Quem fez isso?
O queixo, nariz e mãos do garoto estavam com curativos personalizados. Não tinha machucados maiores, o nariz e queixo estavam com arranhões por causa da batida, e suas mãos por que caiu apoiando-as no asfalto. Creio que só não machucou mais os braços, por que estava com a camisa de mangas compridas. Reparei que estava sem os óculos, quebrou mesmo. Mas só assim pude ver que seus olhos, já não eram mais verdes, como quando criança, agora estavam quase... amarelados? É, amarelos.Bonitos.
– Amy, devia ter visto! — disse Chase animado. — Luka saiu correndo e tacou o celular no queixo do vizinho! Acho que quebrou. Quebrou o celular, Luka?
– Só rachou a tela, — ela disse estufando o peito pelo elogio do irmão -, não deu pra te atender Amy, foi mal. Não funcionava o touchscreen. — e voltou-se para o irmão. — Ei, mas não foi só o celular, Chase. E aquelas pedras que joguei e quebrou o vid-
– Quem fez isso?! — perguntei mais alto e os dois se calaram.
– O vizinho, aquele que colocou o carro aqui na garagem de casa mais cedo. — Luka disse, mas sorriu. — Mas tá tudo beleza, eu deixei ele marcado.
– A armação do meu óculos quebrou e a lente rachou, mas o melhor é que o vizinho aí, vai ficar com um hematoma legal por causa do celular da Luka . — Chase concordou rindo.
– E o que ele fez? Fugiu? Ele foi embora e deixou vocês assim? — Rosnei de raiva. — Me conte exatamente o que aconteceu Luka. E nada de interrupções, Chase.
– Tá bem...
Chase respondeu desanimado e Luka começou sua versão.
De acordo com a garota — que agora estava sorridente pelo seu ato. — e que acabou com as pedras do jardim estilhaçando as janelas do carro do "Cara", sim, era realmente o Cara.
Eles haviam acabado de descer do ônibus escolar e estavam disputando corrida para quem chegava primeiro em casa, o prêmio seria a última tortinha do armário. Eu não deixei de rir disso, a tortinha foi uma das causas do carro atingir Chase que estava à frente na corrida. Luka gritou tentando impedir, mas o carro saiu "do nada", como diz Luka, e pegou Chase de supetão, não dando tempo dele desviar.
O "Cara" desceu do carro e Chase disse que ele parecia nervoso e perguntava se ele estava bem. Depois de se certificar que Chase estava apenas com alguns arranhões, disse que resolveria tudo outra hora, por que naquele momento estava atrasado para uma coisa importante. Engraçado não? A "coisa importante" era mais importante que a saúde e bem estar do meu irmão... Aah, eu só não resolveria isso agora, por que não sabia para onde ele iria naquele momento.
Então perguntei sobre a ligação de Luka e dela ter dito algo como "segura aí. Vou pegar ele!". Ela gargalhou e o irmão a acompanhou. Luka, atirou o celular no queixo do "Cara" no momento em que ele disse que tinha de ir embora. Ele se assustou e Chase se sentou na grama um pouco tonto mas rindo da situação que ele acabará de se meter. Não ele, e sim o "Cara". Luka começou a gritar sobre ele ser um delinquente e até soltou uma série de xingamentos. Eu a repreendi por esse ato, mas ela não pareceu se importar e continuava a contar animadíssima por sua "bravura".
Ele entrou no carro irritadíssimo reclamando alto por ela ser uma louca e Chase nesse momento achava que ele passaria com o carro por cima da irmã. Então além de atropelar meu irmão, quase faz o mesmo com minha irmã?! Mais uma boa razão para eu colocar fogo em sua casa...
Luka não perdeu tempo e simplesmente pegou todas as pedras que enfeitavam o jardim e jogou todas no carro dele. Estilhaçou tanto a janela do motorista quanto a traseira, além de deixar uns belos amassados na lataria vermelha. Bom, eu esbocei um certo orgulho por Luka nesse quesito, ela sempre fez isso de defender a família com unhas e dentes, em algumas ocasiões, eram com unhas e dentes no modo literal mesmo. Eu tinha consciência de ser um ato errado, mas a essa altura do campeonato e vendo a irresponsabilidade da parte dele, eu apenas parabenizei a garota de cabelos repicados e algumas mexas claras nas pontas nos cabelos cor de mel. Que estilo estranho, mas essa era Luka, a que usava meia-calça rasgada e tinha uma coleção de botas no armário, além de um vício inexplicável em zumbis.
Depois de todo o alvoroço, já era o início da noite e Luka saiu dizendo que iria visitar Koda, seu amigo que morava um quarteirão abaixo, era uma "Emergência Z", de acordo com ela. Chase desceu e passou o resto da tardinha e início da noite na calçada de casa, grudado em seu videogame. Eu o lembrei sobre os óculos, mas o garoto disse que não tinha problema e já sabia como era o jogo até de olhos fechados.
Nesse meio termo, liguei para a ótica de Alice, a oftalmologista de Chase, e já sabendo quem era, perguntou se a ligação era para a encomenda de um novo óculos. Tanto eu quanto Alice rimos do fato. Chase nasceu com grau médio de hipermetropia e depois que passou a estudar, ela foi diminuindo com mais intensidade causando a miopia, o que levou aos óculos que ele usa até, bom, vai usar outro agora. Mas, sempre tivemos um pequeno problema: Ele sempre dava um jeitinho de quebrá-los. Desde uma queda de skate, um pulo em falso da escada que terminava em queda, até um acidente de carro, Chase conseguia destruir com facilidade "seus olhos", como o próprio se referia aos óculos que usava.
Alice já sabendo todas as informações, apenas deu previsão para a busca do mais novo óculos do garoto. Conversamos um pouco e desliguei quando vi que Alexander estava me ligando. A ligação era o aviso de que as encomendas iriam chegar amanhã, agradeci e com a chegada de Luka, desliguei o celular.
– A "Emergência Z", foi? — Perguntei indo para a cozinha.
– É que vai ter um show aqui na cidade e... Eu, hum... Eu já confirmei presença... E-
– Você o quê?! — bati com a tábua de cortar no balcão. ela se assustou balançando as mãos.
– Eu sei, eu não pedi permissão, mas vai ser o único show que a banda vai dar aqui — ela baixou a cabeça e Chase entrou nesse momento.
– Começou a chover... Mas pelo menos consegui bater um novo recorde, nem tava enxergando direito e... O que aconteceu? — Chase caminhou até mim, olhou e apontou para Luka enquanto pegava uma tortinha de morango na geladeira. — O que ela fez agora?
– Sua irmã confirmou presença num show e teve a audácia de não me pedir. — disse com os olhos fixos em Luka.
– hum... Partiu Tv! Nessa eu não me meto! — Colocou a tortinha de morango inteira na boca, bateu as mãos e caminhou para a sala. Luka olhou-o de canto enquanto ele passava por ela e voltou o olhar para mim que estava a encarando.
– Por que não ligou para ao menos pedir? Eu tenho celular sabia? — ela suspirou com minha pergunta.
– Desculpa, mas eu... Ai, Amy! É a minha banda favorita! — ela levantou os braços.
– Você não vai. — disse calmamente.
– O quê?! Mas eu... Mas, Amy! — gritou. Eu a repreendi com o olhar, e peguei alguns legumes e temperos para cortar e preparar o jantar.
– Você não vai para lugar algum até colocar nessa sua cabeça teimosa que tudo que quiser ou pensar em fazer, terá primeiro de passar por mim. Você não pode simplesmente dizer "Vou pro show com vocês, galera! Uhuu!" — imitei-a. — Admiro-me de você de ainda fazer isso. Você está sob minha responsabilidade pequena, e se algo acontece? Então não vai.
Ela fechou a expressão e podia ver seu peito subir e descer e um bico se forma em sua boca. Ih, lá vem...
– Que chatice! Argh! Nunca me deixa fazer nada! Nada! nada!– cuspiu furiosa. — Não confia em mim. Nunca confiou, eu sou quase de maior tá?
– Quase não é maioridade. — disse calmamente, ela bateu com as mãos na mesa.
– Caramba, Amy!
Suspirei parando o que estava fazendo e a olhei séria.
– Lilliard Kamillè Lellouche, você não irá para esse show. — Disse friamente.
Vi as lágrimas começarem a brotar em seus olhos. Não vacile Amy, não vacile. Engoli em seco e me mantive firme. Ela sempre fazia isso quando queria me ganhar em alguma coisa. A garota era esperta... E o pior de saber que esse choro era falso, era não conseguir resistir a isso.
– Você é menor de idade, não me pediu permissão. Eu me preocupo com sua segurança. — ela começou a soluçar. Como ela conseguia isso?. Continuei com a expressão dura. — Então não irá.
– Mas vai todo mundo da turma, Amy... — vi que Chase estava com o queixo apoiado no sofá olhando para a cena. Suspirei.
– Luka, por que não pediu? E Koda? Ele não tem celular?
– Tem, mas era por que a animação toda de saber que a banda estaria aqui, fez eu esquecer... Entende? — ela sentou-se num dos bancos do balcão, me olhando com aqueles olhos piedosos. — Eu quero tanto ir, Amy...
Vi Chase esboçar um sorriso, ele sabia que eu iria acabar deixando. Espalmei as mãos no balcão, Luka pareceu tensa.
– Vou deixar você ir — levantei o indicador antes dela gritar, como sempre fazia. -, mas tem uma condição: Annie irá também.
– A Annie? É sério? — resmungou.
– A escolha é sua, ela vai e você também. Ou-
– Nada de show... — Chase completou aparecendo na cozinha. — Olha, acabei de ver o vizinho passar aí na frente.
"Cara"
Consegui finalmente largar o serviço e estava à caminho de casa. Preferi ir com mais calma, da última vez que tive pressa... o garoto da casa ao lado se machucou e eu também. A louca devia ser irmã dele e jogou o celular em mim. Um celular! Quem faz uma coisa dessas?! Mas pelo menos consegui o contrato com o ricaço de Seattle. Uma coisa boa hoje, pelo menos... Meu celular tocou e o atendi no volante.
– Sr. Laugh.
– Cara, sério que vai continuar com essa coisa de Sr. Laugh toda vez que atender o celular?
– Vai a merda, Max! — respondi aborrecido. — O que você quer? Tive um dia mais do que cheio hoje.
– Calma aí... — Podia sentir um certo receio em sua voz. -, queria só saber sobre a festa. Tá de pé ainda?
– Tá de pé? Ah, sim, claro. — revirei os olhos. Ele arranjava cada palavreado — mas vou adiar ela por alguns dias, estou com alguns problemas e vou ter de resolver antes.
– Ah, sério? Que pena... Eu tava pensando em chamar uns amigos lá do, lembra d-
–Tenho de desligar.
E desliguei. Tinha momentos em que não aguentava nem escutar a voz de Max. Ele era um bom amigo e muitas vezes me tirou de inúmeras enrascadas, mas, ultimamente me parecia que só queria aproveitar-se do que eu tinha. Não sei... talvez eu apenas estivesse tendo um dia ruim mesmo.
O que me fez passar a tarde e a noite inquieto mesmo, era decidir entre ir até a casa do garoto e ver como ele estava ou deixar isso para lá.
Ah, não iria, a garota quebrou meu carro!
O prejuízo era maior que os arranhões do garoto estranho. Bem que para mim, dinheiro não era problema. Mas, eu já tinha dado problemas pra moça que veio mais cedo em casa e depois ainda atropelei o filho dela.
Estranho mesmo foi eu não ter recebido uma ligação de Henry, meu advogado, ou uma intimação para ir até a delegacia... eu sempre acabava detido pelas merdas absurdas que eu fazia. E era Henry que arcava de me tirar limpo de lá. Talvez a família do garoto tenha apenas deixado isso para lá.
A chuva já estava ameaçando cair, veio com força e me molhou por completo. Merda! Diminuí a velocidade por causa das gotas gordas que atingiam meu rosto com fúria. Até o tempo estava conspirando contra mim?! Esse carro já não iria mais servir, todo molhado por dentro! A garota tinha de jogar aquelas pedras no carro, e logo desse lado? Bufei batendo a mão no volante e a buzina começou a tocar sem parar.
– Ah! Qual é?! — Bati algumas vezes no volante até que o barulho cessou, mas era girar muito o volante e ele voltava a perturbar. Eu não mereço isso, eu não mereço...
Avistei a rua onde morava e suspirei aliviado. Quase em casa... Acabei vindo por outra entrada da rua. Mas assim que eu estacionei e saí do carro batendo a porta, e nem me dando o trabalho de trancá-lo, fui recebido com um empurrão.
– Ei! O que é isso?!
– Como você foi capaz de deixar um garoto machucado e ter ido embora sem prestar socorro? Hein?!
A vizinha chegou de supetão e sua expressão de ódio era tão visível quanto suas roupas molhadas pela chuva. Tentei parecer calmo, o que não estava.
– Olha, eu-
– Você foi um irresponsável de merda, sabia? Poderia ter matado Chase!
Andei um passo para trás. Então o nome dele era Chase. Espera, matado o garoto? Mas eu nem colidir com tanta força assim! Que exagero! Mas suspirei e tentei parecer mais calmo ainda.
– Eu juro que não vi ele. Foi um-
– Acidente? claro! — ela riu sarcasticamente e me encarou séria. Preciso dizer que isso me assustou um pouco. — Um acidente que poderia ter sido evitado! Você poderia ter matado ele!
Parei um momento a olhando, seus olhos escuros estavam vidrados em mim, estavam cheios de fúrias. Urgh! Seus cabelos um pouco claros, estavam grudados em seu rosto. Era bonita, isso não posso negar. Mas... Merda! Pensando um pouco melhor agora, aquela colisão simples com apenas alguns arranhões que eu até me lembre, poderia ter sido muito pior. Passei as mãos no rosto e nos cabelos, totalmente exausto.
– Eu, olha, eu... Me desculpe. — Abri os braços. — Eu estava atrasado para uma reunião importante e vi que Chase? — ela concordou com os braços cruzados. Continuei. — Chase devia ter surgido no mesmo instante em que eu saia da garagem. Eu não o vi, desculpe, eu não olhei pelo retrovisor. Mas perguntei se ele estava bem, eu perguntei e vi a menina ligar para alguém, achei que poderia ser o socorro e depois que dei a idéia de sair, fui atacado por ela. Ela jogou o celular no meu queixo! Acredite, está doendo até agora. Espera, você esta rindo da minha desgraça?
– Sim, isso foi o mínimo que ela poderia fazer por mim. — Ela tremeu um pouco pelo frio. Estava mesmo frio. No mesmo instante levantou as mãos em minha direção, o que me assustou.
– Quer saber?! Chase está bem e é isso é o que importa. — quando abri a boca para perguntar sobre o que eu poderia fazer, ela levantou o indicador me silenciando. — Não quero mais saber de nada! Chega! Não o quero perto deles! Já fez idiotice demais para um só dia. — rosnou. — Vê se cresce! Idiota.
Virou-se e caminhou para sua casa. Fiquei observando.
– E outra! — Ela virou-se fazendo seus cabelos encharcados baterem em seu rosto alvo. Seus dentes estavam batendo pelo frio. — O prejuízo do carro fica por sua conta!
E então a perdi de vista até escutar a porta de sua casa se fechar com força. Suspirei e caminhei para minha casa derrotado. Acho que tanto o dia dela quanto o meu, estavam cheios. Eu costumava sempre colocar a culpa de meus atos nas costas dos outros, e conseguia tranquilamente. Mas pela primeira vez, estava sobre as minhas e a sensação não era boa.
Joguei as chaves na mesa e Martina apareceu com sua bolsa e alguma coisa nas mãos.
– ¡Está regando el suelo Pasé la limpieza de la tarde!
– Martina por favor! Agora não! — Levantei a mão e ela não ligou, ao contrário, falou mais ainda. A deixei falando sozinha e subir para meu quarto. E eu lá queria saber se molhei o piso, na verdade, era meu piso! Podia molhar a hora que eu quisesse! Já farto de tudo, passei direto para o banheiro ligando o chuveiro. Entrei com as roupas mesmo sob o chuveiro e deixei que a água quente tirasse meus tremores causados pela chuva fria e talvez até essa sensação de... Consciência pesada? Então era assim a coisa de se sentir culpado por algo? Não era bom.
Encostei a testa na parede fria e deixei a água escorrer pelos meus cabelos que duplicavam de tamanho, quando molhados. Bati com o punho fechado na parede e desliguei o registro.
Como fiz um lanche simples no trabalho antes de vir para casa, não sentia fome no momento. Já seco, vestido e aquecido, passei a toalha nos cabelos e joguei no cesto perto do banheiro. Olhei-me no espelho que cobria metade da parede esquerda e ficava de frente para o closet. Estava com calças de algodão escuras e uma camisa do mesmo material branca. Essa camisa não fica legal. Tirei-a e joguei no cesto e peguei uma camiseta branca no closet.
– Melhor. — Passei as mãos nos cabelos úmidos e de alguma forma lembrei dos cabelos molhados da moça. Eu hein.
Fechei a porta e desci as escadas de dois em dois degraus e logo estava na sala de estar. Olhei ao redor e Martina não estava, já tinha ido para casa e acabei esquecendo de pergunta-la sobre minha carteira... Ah, faço isso quando ela aparecer de novo. O chão estava limpo, sorri revirando os olhos, Martina limpou de novo antes de ir.
Liguei a TV e joguei o controle na poltrona e caminhei para cozinha. Lembrei do meu machucado quando bati nele no banho, então fui até o freezer peguei um pacote de ervilhas congeladas e encostei no queixo dolorido. Fiz uma careta. E lembrar que esse machucado foi obra de uma garota furiosa com um celular em mãos, e ainda mais! Como uma mira perfeita!
Peguei uma taça e o enchi até a metade de vinho branco jovem e me sentei no balcão da cozinha mesmo, de frente para a janela panorâmica que pegava todo um lado da cozinha. Relaxei segurando o pacote gelado no queixo. Levantei os olhos e os vi. Lá estavam os três na sala de estar de sua casa iluminada, estavam conversando algo divertido, pois todos riam. Deixei escapar um sorriso ao ver a cena: Chase estava sentado no sofá e balançava as mãos no ar. A menina que jogou o celular em mim, estava de pé concordando e ria olhando para Chase. Já a moça que me encontrou até pouco tempo estava frente a grande estante de livros que ficava logo ao lado a televisão. Estava com roupas quentes e um copo em mãos. A vi pegar um livro e também estava sorrindo.
Era uma cena agradável, Chase parecia bem para alguém acidentado, isso era bom. Olhei ao redor, minha casa, onde estava e suspirei. Na Tv passava o 'O Rei Leão', até que gostava desse filme. Minha casa era mais espaçosa do que a deles, mas era tão silenciosa. Costumava ficar movimentada com as festas que dava, mas quando todos iam embora, voltava ao silêncio novamente. Ah! Eu deveria logo confessar a mim mesmo que estava com inveja da felicidade deles. Grrr! Pulei do balcão e guardei o pacote no freezer e joguei o resto de vinho na pia. Era melhor eu ir dormir, já estava ficando sentimental demais para meu gosto.
Desliguei a TV e diminui a luz da casa. Caminhei desleixadamente até a janela da cozinha para fechar as persianas e vi a vizinha indo para a janela também. A observei afastar algumas coisas, olhou para mim e acenou sorrindo.
O quê?!
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