No céu nublado e a fria névoa da manhã

O jovem ladrão corria sem medo

Suas mãos leves e pés velozes

O preveniam da captura

A imensa muralha de pedra em volta da cidade

Tinha suas seguras brechas

Uma escapada rápida e sem delongas

Assim eram os dias do jovem

Com os saques, irmãos e irmãs bem alimentados

Medo, uma palavra desconhecida

Audácia e sangue frio... seu lema



Sua rotina parecia imutável

Muitas vezes a sorte estava ao seu lado

Nas raras vezes de azar

Fora brutalmente capturado!

Jogado nos fundos da terra

Tentando encontrar conforto nas úmidas pedras

Passando longas noites de frio e fome

Pequenas alucinações já o assombravam

A dor de ver seus irmãos o agonizava



Em um longo e novo dia

Homens o carregam para a praça

Algemado pela vergonha, uma execução pública

A lâmina do carrasco já estava alta

Os sinos da morte já ecoavam em seus ouvidos

Uma forte dor nasceu em sua nuca

Os pavorosos gritos surpresos da multidão

O abraço da morte não lhe foi dado

Os olhos verdes do jovem foram lentamente se fechando

Não... ainda não acabou.



De volta à cela da solidão

A luz da lua entrava pela grade

Sua dor física o deixava tonto

Pela primeira vez na vida

Desejou a egoísta morte rápida

Ele suava frio, algo há tempo ardente

Antes de fechar os olhos, desejando o descanso eterno

A luz da lua havia diminuído

Um som doloroso de ferro batendo

Os bastões da grade desabam silenciosos no chão

Uma silhueta desliza para dentro

Sim, aqui se pode tudo acabar...



‘’Seria esse o paraíso?’’, o jovem se perguntara

Despertando no meio da floresta, um ar quente e convidativo

As dores haviam abrandado

E a doce cama de grama onde fora deitado

Desafiava-lhe a um longo descanso

Ele lentamente vai abrindo os olhos

Alguém carinhosamente acariciava seus cabelos

Uma bela ninfa teria tido compaixão pelo pobre humano

Olhos castanhos, cabelos escuros e uma pele branca cor de leite

Suas feições eram delicadas, seu corpo era um legitima escultura grega

‘’Que lindo ser divino... ’’ exclamava seu coração.



Dias e dias...

E o guerreiro já quase totalmente recuperado

Semanas e semanas...

Treinava com uma espada que havia encontrado num riacho próximo

Meses se passaram...

A floresta havia se tornado sua casa

Em seus longos treinamentos com a espada

O jovem também sentia prazer em ouvir a natureza

Em uma pedra no riacho, a ninfa entoava belas canções

Melodias tão belas que até mesmo os pássaros cessavam seus cantos

Felizes sorrisos eram trocados entre o guerreiro e a jovem ninfa

Eles dividiam o mesmo sentimento, assim como o mesmo medo

O medo de se machucar por amor...



Em uma noite de lua cheia

Estrelas cadentes escorriam pelos céus

Os dois estavam deitados em uma clareira

Um vento quente de verão soprava

O jovem se levantou e estendeu sua mão

Era um singelo convite para um banho no riacho

Sem demoras, já despidos pularam na água

Brincaram e nadaram na água como crianças

Em algum momento, seus rostos ficaram frente a frente

E o beijo sob a luz do luar fora inevitável

Selando o sentimento verdadeiro entre eles...



Ao redor, barulhos quebram esse glorioso momento

Em segundos, uma saraivada de flechas voa em direção deles

Arqueiros reais finalmente haviam encontrado o ladrão

Os dois nadam até a outra margem

E em uma magia da ninfa

Já secos, vestidos e armados

Disparam floresta adentro...

Em um rochedo, o casal para

Logo se vêem cercados de arqueiros

Eles se defendem como podem, em vão

Uma flecha brota no peito da jovem

O guerreiro joga sua espada em um arco giratório

Afugentando temporariamente os inimigos

Ele segura o corpo inerte de sua amada

Olhando dentro dos seus olhos, lentamente o brilho foi sumindo

Um beijo em seus lábios frios numa tentativa de trazê-la de volta

Foi inevitável, uma parte do guerreiro havia morrido

Suas lagrimas escorriam pela pele pálida da ninfa...

Sua tristeza se transformou em raiva

A espada do guerreiro se tornou um relâmpago

Veloz e infinitamente destrutiva

Os oponentes caíram, decapitados



Em uma última homenagem

O jovem pega sua amada nos braços

A leva até a clareira, perto do riacho

Cava um buraco com as próprias mãos

E, graciosamente, a posiciona no fundo

Em volta dela, flores de todas as cores são colocadas no fundo

E, lentamente, a terra é jogada no túmulo

Ao terminar o enterro de sua vida

O guerreiro se ajoelha em reverência

3 dias e 3 noites...

Orando ao deus que o ouvisse

Para que proteja sua amada no outro mundo...

A vida também já o estava abandonado

E, caído no chão, agonizado pela falta de comida e água

Uma flor de pétalas brancas cor de leite desabrocha em cima do túmulo

Em um último suspiro, o humano morre.

Com um sentimento único

O último sorriso da verdadeira felicidade...