Quando acordei pude reparar melhor no quarto em que estava. A luz do sol ultrapassava as cortinas dando ao lugar uma luz dourada e mágica. O quarto não passava de um longo retangulo pintando de branco. Dormia em uma cama larga e confortável. Havia um projetor de imagens na parede da frente, o simbolo prateado de Capitol na parede ao lado junto a porta. Havia uma larga cornija junto ao projetor, e em cima dela, se viam várias imagens de presidentes e uma pequena placa dourada, onde, quando levantei descobri escrito "Propriedade de Capitol. Qualquer coisa furtada poderá terminar em sérias consequências". Desprezei aquela desconfiança miserável de roubarmos algo enquanto estamos no corredor da morte. Sem falar que não consegui imaginar uma consequência pior do que ser mandado para os Jogos Vorazes.

Sentei-me na cama tentando desembaralhar tudo que havia acontecido de ontem para hoje, mas não consegui nem ao menos começar pois a voz irritada de Ethe surgiu no corredor, bateu apressada na minha porta e a abriu com força. "Que bom que a bela adormecida já acordou. Vamos, levante que o café já está na mesa", disse enquanto me puxava da cama com suas garras verdes, precebeu que ainda usava o mesmo vestido de ontem e o máximo que fez, foi dizer que não havia tempo para trocas de roupa.

Sendo forçada a levantar da cama, a segui pelo espaçoso corredor até chegarmos à uma enorme sala, duas vezes o tamanho do quarto onde estava instalada. Havia uma enorme mesa coberta de comida que jamais havia conhecido e o resto do cenário não teve importância visto que estava faminta pois não comia nada fazia quase um dia. Esse pensamento me levou ao último almoço com meu pai e lágrimas ameaçaram subir novamente, mas controlei a respiração até contê-las.

Não era a única na mesa. Havia um rapaz magricelo vestindo roupas alguns números maiores que ele, parecia estar com mesma fome furirosa que eu, pois não havia intervalo para respirar entre uma garfada de comida e outra. Nunca o tinha visto, mas sua aparência e postura indicavam que era o tributo que me acompanharia. Ethe olhava com desprezo tanto para mim quanto para o garoto. Havia se sentado na ponta da mesa e mordiscava uma pequena torrada coberta com algo gelatinoso rosa. A última figura era Blight Fairbairn, o ganhador da 56º edição dos Jogos Vorazes. Era uma critura quieta e tímida. Sofreu bastante com os Jogos e desde que ganhara se eremitara em sua casa na Vila dos Vitoriosos e só aparecia no período da Colheita. Parecia um pequeno boneco de cera articulável e com o olhar perdido. Tinha os olhos baixos e encarava sua comida como se ela lhe contasse segredos do passado. Não pareceu notar minha presença ou de qualquer um na sala.

Sentei-me na mesa e ataquei a primeira coisa que vi pela frente. Fiquei imaginando o que poderiam ser todas aquelas comidas, e as variações de pratos que poderia criar. Senti uma saudade imensa de minha casa e pensei que trocaria qualquer fartura de temperos e frutas pela escassa comida que havia no meu verdadeiro lar. Comi uma espécie abacate alaranjado doce, cheio de sementinhas pretas. Ninguém me explicou o que estava comendo, ou tentou puxar assunto na mesa. Talvez fosse melhor o silêncio. Tentei afastar toda a bagunça em mim, para depois do café da manhã.

***

A manhã nos foi dada para pensar sobre a nossa morte e como gostariamos de ser enterrados. Ou foi pelo menos isso que ficou explicíto. Blight não abrira a boca para senão enfiar comidas nela e Ethel não fez nada a não ser lançar olhares assassinos para mim e para o garoto. Não permitiram voltar para o quarto a não ser para trocar de roupa. Havia um padrão de roupas simples em cores preto, cinza e branco dentro do armário de roupas. Busquei uma blusa cinza e uma calça preta. Na blusa havia o símbolo de Capitol, como para lembrar que estavam lá onde quer que fosse. Não havia chuveiros de modo que tive que apenas lavar meu rosto com água. Respirei fundo antes de voltar para a sala social.

Ethe havia sumido pelos corredores e a sala havia mergulhado em um completo silêncio. Além da mesa de comidas, havia um enorme projetor desligado muito maior que a do quarto onde estava e algumas poltronas em couro em frente a ela. Uma pequena mesa com algumas revistas da moda de Capitol finalizavam o ambiente. Olhei para as capas, com mulheres três vezes mais extravagantes que qualquer roupa ou maquiagem de Ethe, uma estava aberta em uma página que contava os segredos de beleza de uma mulher chamada Mondina Pictus. Aparentemente eram cirurgias domésticas e pílulas de enjôo, seja lá o que significasse aquilo. Desviei os olhos, enojada da futílidade das revistas que tinham materias capas não muito diferentes de entrevistas como a de Mondina.

Reparei que o garoto do meu distrito me encarava, agora que estava de frente para mim, pude perceber que não tinha mais de quatorze anos. Sentei ao seu lado, procurando palavras e um sorriso, mas ele logo desdobrou do meio de suas roupas um pequeno envelope e me entregou com suas mão trêmulas e geladas. "Seu pai, me pediu para te entregar isso." Disse tímidamente, a voz falhada. Talvez não fosse a única a estar chorando por lá. Pensei no que minha mãe havia dito no sonho e engolhi em seco. Agradeci em silêncio, meus olhos pousando na carta. Quis abrí-la, mas o garoto voltou a falar. "Também pediu para dizer, que confia em você e que te espera no Distrito." Tentei sorrir, mas a sombra das palavras do meu pai me trouxe um nó na garganta. Engoli o nó e agradeci novamente.

O garoto me olhava com olhos arregalados, tinha a voz fraca quando me perguntou "o que vamos fazer?" e lançou um olhar para a figura reservada de Blight. Não queria fazer nada a não ser acabar com o mistério da carta, mas a maneira tão frágil do garoto me fez não querer ignorá-lo, afinal, também estava tão condenado quanto eu.

"Acho que devemos falar com ele. Está aqui para nos dar conselho e tentar nos ajudar." O garoto assentiu. Levantou a mão direita para mim esperando que eu a apertasse. "Sou Mair, e você é Amery, seu pai me contou seu nome" Assenti sem saber ao certo que dizer em seguida. A contragosto, guardei o envelope de meu pai no bolso da calça e levantei-me. Mair veio ao meu encalço. Fomos em direção a Blight que olhava desinteressado para além da enorme janela da sala. Nós o acordamos de seu transe, pareceu chateado ao nos ver. Disse um "vocês." e esperou que falássemos o resto.

Mair olhou para mim, antes de pigarrear e falar "queremos sua ajuda, seus conselhos para vencermos." A palavra vencermos não pareceu convencer ninguém, nem mesmo a Mair, mas Blight olhou-nos com compaixão e fez menção para sentarmos a seu lado.

O homem encolheu as mãos e as escondeu entre bolsos de sua blusa. Lançou olhares para nós. Tentei não parecer incomodada com a fato que os lançava mais a mim que ao garoto, mas por fim palavras saíram de sua boca.

"Não há muita coisa para dizer a vocês que vá ajudá-los. Talvez devessem aceitar que só a sorte pode poupar a vida de um de vocês." Mair olhou para ele incrédulo. Não quis discordar pois sabia que era verdade, mas Mair de opôs. "Como, como pode dizer isso? Está aqui para alguma coisa!"

"Estou aqui porque Capitol ordena, garoto. Pois não trocaria o conforto de minha casa por uma viagem com dois adolescentes que irão morrer." Suas palavras foram duras e diretas e morreram no ar. Minhas mãos tremiam sem saber ao certo de raiva pela frieza do homem ou por saber que eram verdadeiras. Mair limpava lágrimas que caiam em seu colo. Blight voltou a me encarar. Me fitou por um longo tempo e esperei que fosse dizer algo ou se remidir, mas ao invés disso soltou "mas que diabos de cor seus olhos possuem, garota?!"

Parecia verdadeiramente incrédulo e intrigado. Senti os olhos de Mair pousando sobre os meus também. Olhei para Blight, sem entender. Não soube como responder na hora a não ser com palavrões, mas achei que isso diminuiria as chances de nos ajudar em qualquer coisa. Respirei. "Isso não importa. O que importa é você nos dizer qualquer coisa que nos ajude. Está aqui há mais de dez anos, precisa nos ajudar."

Pareceu ter algum efeito nele, pois arrumou sua postura antes de arruinar ainda mais nossas expectativas. "Pois bem, se querem mesmo saber. Não há nada que possa fazer por vocês. Nada. Capitol nos manda para cá simplesmente para que seus moradores achem que eles não largam vocês aqui sem qualquer ajuda. E com moradores quero dizer pessoas como Ethe e seus problemas de aparência. Não posso ajudá-los pois eu sobrevivi aos Jogos por uma miserável sorte e nada mais. Não sei sobre técnicas de luta ou de sobreviência, não sei nem ao certo onde será a Arena." Fez uma pequena pausa. "Se querem mesmo ajuda, talvez devessem parecer mais confiantes e mortais, pois para pessoas como nós, ou como vocês, a única coisa que os salvará serão os patrocinadores, e os patrocinadores, gostam somente daquilo que inspira morte de um jeito positivo."

Houve um silêncio pertubador naquela sala. Olhava para ele de olhos arregalados enquanto Mair chorava em silêncio. Blight me encarou por um tempo, antes de perceber que a conversa não iria mais fluir, então voltou ao seu estado de vegetação, ignorando a todos.

Voltei minha atenção para Mair. O garoto chorava copiosamente e não soube o que fazer. "Olhe, chorar não nos tirará dessa situação. Se um de nós tem chance de vencer não será chorando." Segurei sua mão que trêmia. Nunca fui boa em falar sobre o que sentia e por vezes isso me levou a guardar mágoas calada. "Ei! Você o ouviu, nós temos chances. Se ele sobreviveu, significa que um de nós também pode. O que precisamos fazer é convencer que podemos ganhar, entendeu?"

Ele soluçava e se devencilhou de minha mão. "Você não entende, eu vou morrer, não tem como ganhar não sei nada." Fiquei perdida neste instante já sem argumentos, queria poder fazer qualquer coisa para ajudá-lo mais minha única vontade foi juntar-se a ele para chorarmos juntos.

Por volta desses pensamentos, os passos de Ethe foram se tornando sonoros até que sua figura se materializou a nossa frente. Trazia um sorriso no rosto o que a tornava ainda mais assustadora. "Chegaremos ainda hoje! Será a noite e seremos um dos primeiros! Então poderei me ver livre de vocês para dar entrevistas" Gritou, batendo palmas. Aquilo não ajudara muito, e Mair voltou a chorar ainda mais.

Respirei fundo tentando raciocinar, senti a ponta do enevole roçar nas minhas costas, lembrei de algo dos sonhos com minha mãe que martelavam em mim. Estabilizei a voz antes de dizer. "Mair, olhe para mim." O garoto levantou o rosto manchado de lágrimas. Tentei me mostrar forte e resignada. "Olhe, você precisa ser forte, entendeu? Precisa ou se não, não conseguirá ganhar. Nós temos que acreditar que podemos, entendeu? Então pare de chorar e pense que você consegue, ouviu?"

O garoto olhava para mim intensamente e balançou a cabeça positivamente. Minhas palavras pareceram ter efeito nele, pois na hora, limpou as lágrimas e foi se acalmando. Ethe olhava para nós calada. Não havia impaciência ou irritação nela. Mas logo reparou que eu a encarava e voltou ao seu habitual. "Então entenderam. Chegaremos à noite. E daqui a pouco, duas horas mostrarão os outros tributos." e saiu apressada pelo corredor.

O resto das horas se passou devagar. Blight em seu transe esquecido do mundo, Mair controlando sua respiração, vez ou outra olhava para mim inquieto, mas não voltou a chorar em nenhuma outra parte do dia. Olhei para o relógio que marcava que onze horas da manhã. Deduzi que Ethe não aparecia até bater uma hora e meia da tarde para almoçarmos, o que me dava duas horas e meia para ler, pensar e repensar sobre o assunto da carta e meus sonhos.