68º Edição: Jogos Vorazes
11 Onze
Segurei o envelope nas mãos e pude observá-lo mais detalhadamente. Era retangular e de um branco puríssimo. Não havia nome de destinatário ou remetente, carregando somente um selo rosado com o desenho de um cajado e duas cobras enroladas nele. O envelope já estava aberto das muitas vezes que meu pai provavelmente leu. Levantei a parte da frente e retirei um papel dobrado em três vezes. Parecia loucura da minha cabeça, mas podia sentir aquele perfume doce que a mulher, Afrodite carregava com ela. Uma sensação de formigamento correu pelo meu corpo antes de desdobrar a carta para ler. Também pude sentir como se borboletas ansiosas voassem pela minha barriga angitando ainda mais minha curiosidade.
Abri a carta e corri os olhos dando uma visão geral. Era uma caligrafia fina e delicada, indicando que era feminina. Passei os dedos pela carta como se pudesse tirá-las de lá. Podia não ter certeza se meus sonhos eram reais ou frutos da minha imaginação, mas aquela carta realmente fora escrita por minha verdadeira mãe, Afrodite ou quem quer que fosse. Fiquei um tempinho criando coragem para ler seu conteúdo, a cada instante a carta revelava algo daquela mulher dos meus sonhos, o que me deixava nervosa, encontrei o simbolo de uma pequena pomba branca no final da folha, junto com a assinatura da mulher. Uma letra caprichada e viciante a assinava o nome Afrodite. Segurei a respiração ao ler aquele nome. Minha cabeça deu um pequeno nó diante daquilo. Meu pai jamais havia dito nada de minha mãe, muito menos seu nome, e no sonho ela também se chamava Afrodite, não podia ser apenas uma coincidência. Respirei fundo e lí seu conteúdo.
A carta era longa e preenchia frente e verso, e a cada paragráfo e sentença lida meu coração disparava diante daquela história.
Afrodite escrevia de coração, contava seu amor por meu pai e por mim, e como era doloroso ter que se separar de nós. Depois disso a carta era uma loucura sobre deuses e guerras e parentescos divinos, profecias e rinchas entre irmãos, semideuses e coisas no meio desses termos.
Se antes me encontrava aflita com toda a história sobre os Jogos e Capitol, agora tinha meu coração acelerado enquanto perdia o senso da noção para acreditar na existência de deuses e monstros.
Aparentemente, meus sonhos com Afrodite eram tão reais quanto o fato dela ser minha mãe. Na carta, ela contava sobre sua louca família e sobre as relações que eles mantinham com os mortais e o mundo mortal.
Escrevera que filhos entre deuses e humanos, são denominados semideuses, e que antigamente havia um acampamento preparatório para pessoas como eu, mas o mundo atual devastou muitas coisas ligadas aos deuses incluindo este acampamento. Disse que eu nasceria especial e diferente das outras pessoas, com algum poder sobrenatural ligado a divindade dela e que isso despertaria a atenção de alguns monstros e criaturas mitológicas, mas de qualquer modo estaria a salva, pois “o mundo atual, apesar de toda a devastação que trouxe para nós imortais, trouxe a vantagem de afastar os monstros de Panem e de nossos filhos.” Deixou essa afirmação vaga, sem nenhuma explicação sobre que devastações eram essas, mas ao que pude entender, a criação de uma nova era humana não tinha espaço para a mitologia ou culturas antigas, enfraquecendo os deuses.
O resto da carta era explicando sobre o mundo dos deuses e criaturas mágicas, sobre seu lar, o Olimpo e sobre o Mundo Inferior e como tudo era encoberto através de uma névoa. Comentara sobre os grandes heróis semideuses conhecidos, alguns sues filhos, uma garota chamada Piper, Amelia, Kylah, Noah, e grandes nomes na história, alguns que nem sequer conhecia, mas que indicavam serem pessoas de grande influência.
Terminava a carta com um apelo, “Sempre deixei claro minha filosofia que, assim como o amor, a verdade é sempre uma loucura e por isso é tão difícil de acreditar e de aceitar. Mas espero que me entenda e compreenda que fui sincera e verdadeira. Sempre valorizei seu voto de confiança em mim e jamais o esquecerei. E se lhe escrevo essa loucura é para previní-los, que nossos filhos tendem a ter vidas díficeis acima de tudo, e que precisarão ser fortes para enfrentar este mundo. Peço que não esconda essa verdade de nossa filha, ela sempre tende a aparecer, e não desejo que seja de modo doloroso. Não poderei aparecer mais ou estar com vocês, mas não se enganem, não os abandonarei. Com amor, sua Afrodite.”
Terminei de ler a carta com o coração nas mãos. Se fosse qualquer outra pessoa que me dissesse sobre aquilo teria rejeitado e acreditado que não passava de uma história inventada, mas existia algo naquela mulher que me faria acreditar que tudo aquilo era verdade. Conforme lia, alguns acontecimentos que marcaram minha infância e que até agora pareciam confusos, começavam a fazer sentido. Como a presença de pessoas que me olhavam de modo assassino, de homens e mulheres que comentavam perto de mim coisas sobre mitologia; ou ataques, como o de certa vez, eu muito pequena, meu pai me contara como quase morri nas mãos de um pacificador muito estranho, ou... ou um pouco antes de todo o incêndio na floresta, onde uma criatura, na época parecia algum animal exótico, andentrava na floresta, tinha o que parecia ser fogo nas mãos, mas quando fui chamar meu pai, a figura já havia sumido entre as árvores.
E agora não só compreendia toda aquela insanidade escrita, como tudo parecia claro e verdadeiro para mim, trançando e ligando fatos cruciais de minha história. Meus olhos de cor indefível era um traço inquestionável de minha mãe. Minha mãe, deusa do Amor e da beleza, essa afirmação ainda soava estranha, uma parte de mim ainda fechava os olhos para aquele mundo, mas pouco à pouco se entregava.
Reli a carta mais algumas vezes para se assegurar que não passava de doidices. Tinha esquecido o mundo enquanto lia, ficando num estado parecido que o de Blight. Voltei a realidade já era quase uma e meia da tarde. Podia sentir que algo em mim nascia. Um sentimento confuso mas bom, como se, apesar de todo o mal que estava por vir, a aparição de minha mãe fosse o ponto de esperança que me faltava para acreditar que tudo terminaria bem. Momentos desesperadores nos fazem aceitar tudo aquilo que sorri como algo bom é confiável.
Ainda nesse momento de levitação, dobrei a carta e a guardei novamente no envelope, e foi quando reparei em algo mais. Havia um pequeno papel rabiscado com uma letra robusta e trêmula. Reconheci a grafia de meu pai e busquei aquele papel. Era uma pequena mensagem que não havia notado ao puxar a carta. Tinha sido escrita na tarde de ontem, provavelmente depois que desmaiei. Era uma pequena nota.
"Querida filha, espero que me perdoe por ter escondido essa carta de você por tantos anos. Mas agora não há mais motivos para isso. Queria que tudo fosse diferente para nós, mas o presente é esse e temos que aceitá-lo (mãs não sem antes lutar). Confiamos em você e, independente do que vier a acontecer, nós te amamos muito."
Segurei carinhosamente as palavras do meu pai, como se pudesse tirar o próprio de lá. Talvez porque estava indo para os Jogos ou porque jamais conseguira sentir raiva de meu pai, não estava brava ou irritada por ele ter escondido por tanto tempo aquela verdade de mim. Claro, teria sido bom saber de tudo aquilo antes, mas compreendia seus motivos de silêncio. Meu pai ainda amava minha mãe muito, e talvez tivesse dificuldades em aceitar tudo aquilo como real.
Uma pontada de saudade surgiu forte em mim. Tentei afugentá-la, mas algo me dizia que ela já havia instalado residência em mim. Senti que o nós referido no bilhete também era sobre Walsh, o rapaz que crescera comigo e agora, descobria o quanto sentia falta dele também.
Nós nunca conseguimos aumentar a intimidade do jeito que meu pai planejava, mas isso não significava que não sentia nada por ele. Ele parecia estar sempre por perto em minha vida, e agora, tanto ele quanto meu pai, as duas pessoas mais próximas de mim não estariam mais lá. Nunca desejei tanto abracá-los neste momento. A presença deles ali teria me feito um enorme bem, visto que ainda estava na fase onde a verdade se mistura lentamente com a realidade, causando uma espécie de dormência que afasta outros sentidos.
Fiquei encarando o bilhete enquanto me perdia em pensamentos sobre todas aquelas revelações. Afrodite mencionara que havia mais a contar, mas que só poderia ser feito depois que lesse a carta. Algo me dizia que não poderia ser bom as novas notícias, mas anciava do mesmo jeito, poder ver minha mãe novamente.
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