50 Coisas Para Fazer Antes De Se Apaixonar

3 17 - Pedir demissão do emprego chato


Sofrer nunca mais
Eu desisto então vai
Agora vai ser melhor assim
Segue teu caminho que eu mereço ser feliz.
— Amor de Mentira, Forró Real

Quando eu tinha nove anos escolhi a profissão que eu queria ter. Eu estava acompanhando os planejamentos de casamento da minha prima fazia semanas, mas naquele dia foi quando fomos escolher o vestido. Ver a felicidade estampada no rosto de minha prima fez eu me sentir realizada. Escolher o salão de festa e flores, decoração, música, tudo que estava envolvido com o casamento minha prima me levou pra todos os lugares. Todo o glamour e amor que o casamento dos sonhos se espera foi devorado pelos meus sonhos. Eu queria fazer aquilo minha vida inteira, ver a felicidade no rosto das pessoas dessa forma. Eu queria organizar casamentos, ver o final dos contos de fadas se realizarem.

Desde então eu sempre fiquei envolvida em organizar festas também, sempre fiz parte de comissões das formaturas e planejamentos de eventos de caridade que minha escola participava todos os anos. Buscar a felicidade se realizando nas pessoas se tornou meu vício.

Quando comecei a faculdade já tinha a meta de depois de um estágio eu iniciaria minha própria empresa de organização de casamentos, focada principalmente nisso, não qualquer tipo de eventos.

Mas aos poucos acabei me perdendo, e quando dei por mim eu estava trabalhando na mesma empresa que comecei o estágio fazia três anos. Tudo por causa do diretor dela. Samuel. E agora que tudo acabou entre nós está insuportável ter de encontrar ele todos os dias.

Faz pouco tempo, mas sinto que toda vez que ele me vê ele vai dizer "Você está despedida". Seria bom, pois eu receberia os benefícios. Mas pro meu azar ele ainda acredita que pode simplesmente fingir que não sou e nunca fui algo que o afetasse. O que me deixa ainda mais furiosa.

Pra piorar a situação, quando você leva o fora, você não se sente muito a vontade de ver casais, mas infelizmente esse é o meu trabalho. O dia inteiro tenho que escutar promessas e declarações de amor, ajudar no planejamento e unir famílias, ver a troca de votos.

E depois de tudo que passei, acho que finalmente cheguei na fase de não querer ver ninguém assim na minha frente.

Eu ainda acreditava no amor verdadeiro, mas cansei de ignorar meu orgulho ferido. Eu precisava colocar em prática o que Nanda me disse ou eu iria surtar.

—Mônica? Mônica? Você está bem?

Saio dos meus devaneios e dou de cara com uma cliente insuportável que já faz duas semanas que está em dúvida da cor das toalhas de mesa. E me sinto ainda mais lamentável quando penso que não era bem isso que eu planejava para um dia que tinha que ser minha folga.

—Desculpe, estou com um pouco de dor de cabeça. O que você dizia? — Arrumo a prancheta para escrever novamente.

—Eu disse que se o salão for com esse fundo salmão seria melhor escolher esse tom de roxo, que é mais puxado pro rosa que o que meu noivo sugeriu. Não acha?

—Claro. Boa escolha. — Risco na prancheta "consultar o oftalmologista pra ver se não sou dautônica", nunca uma noiva foi tão exigente com cores que, para mim, eram exatamente iguais. Volto a lista dela e digo — vai querer os pratos de porcelana?

—Quero sim, mas é porcelana branco neve?

Deus do céu, existe porcelana dessa cor? Pra mim era tudo branco, só branco.

—Vou conferir. Olha vou pegar um café , você quer um?

—Americano, por favor.

Ela vai agradecer se a cafeteira simplesmente não aguar o café.

—Enquanto isso vou deixar com você nossos catálogos de amostra de convites. Você pode montar o seu, esses são só para você poder ter uma ideia. Já volto.

Saio do meu escritório é vou até a cafeteira. E faço orações pra cafeteira não deixar o café aguado. Quando escuto duas garotas novas do estágio conversando. Elas não vêem que estou na sala do café e consigo escutar a conversa com a porta entreaberta.

—Ele terminou com ela por mensagem. Ela só conseguiu o cargo que tem porque namorava ele.

—Eu ouvi boatos — ela para e olha para os dois lados antes de continuar, e diz mais baixo — que por causa dela ele está com aquela dívida.

Essas boatos estão indo longe demais. Não basta falarem da minha vida amorosa e agora eu sou uma golpista?

— Os pais dele não aprovavam o relacionamento, a Val me disse que o pai dele jamais aceitaria alguém como ela.

—Ela nem é tão bonita.

Assim que o café fica pronto eu saio da sala assustando as duas.

—Querem uma entrevista? Por que não estão trabalhando? Duas estagiárias e já estão assim? Antes de espalhar boatos tentem sobreviver ao primeiro ano aqui. Aposto que não querem alguém complicando a vida de vocês. Sejam profissionais.

E jogo um café em cada uma (só que não). Mas deu tanta vontade.

Volto pro meu escritório com o sangue quente, hoje definitivamente não é meu dia. Se controla Mônica. Você consegue.

—Desculpe, não tinha o Americano, mas eu trouxe esse. Então o que achou? Tem uns bem românticos não? -Tento forçar um sorriso.

—Sim muito bonitos. Vou conversar sobre os convites com a família e volto com a decisão.

—Vai querer um vídeo de retrospectiva no casamento?

—Vídeo de retrospectiva? — Como ela nunca viu um? Todo mundo já viu vídeos de retrospectiva.

—Aqueles vídeos que mostra fotos dos dois é de como começaram o namoro, até onde estão.

Ela me olha e ri com deboche.

—Querida, isso são só negócios. Não sou boba em acreditar que vou me casar com quem amo. Prefiro casar com quem pode me dar uma boa vida.

Fico em choque.

As coisas parecem cada vez mais distantes do que eu tinha planejado.

—Até amanhã. -Ela pega sua bolsa e levanta. Quando está quase saindo ela se volta para mim e diz — você também devia fazer isso. O amor acaba na lua de mel. Quando nos dizem que vão nos amar pra sempre é uma mentira, uma ilusão. Quando você planejar seu próprio casamento, você vai me entender.

Então ela sai.

Eu gostaria de chorar. Mas minha raiva impede. Quando foi que tudo começou a ruir dessa forma? Como eu não vi que estava cada vez mais fundo?

O celular toca e vejo uma mensagem da Nanda. "Escolha o primeiro ítem da lista, está na hora de se recompor amiga."

Olho a lista, tão infantil. Mas sinto que tudo que eu sempre quis fazer quando criança estava lá. E eu ainda tenho muita coisa que quero fazer. Estou perdendo meu tempo nesse inferno.

Já sei qual vai ser o primeiro.

Levanto da cadeira e vou até o escritório de Sam. Entro lá sem bater mesmo, ele levanta a cabeça da pilha de papéis e me encara assustado. Jogo meu cartão de identificação sobre a mesa e disparo.

—Me demito.

Volto para meu escritório e sinto que todos no corredor me encaram surpresos enquanto passo. Provavelmente já começaram os boatos que me demiti por causa de Sam. Mas dessa vez eu não ligo pro que pensam. Que se danem. Começo a arrumar as coisas da minha mesa e peço pra uma das estagiárias que encontrei mais cedo uma caixa pra me ajudar a pegar as coisas.

Abro a gaveta que tinha minhas fotos com Sam, fotos que quis manter para não esquecer, mas agora não quero mais lembrar.

A garota chega com a caixa é começo a enfiar tudo que é meu lá. Aproveito e vou separando os arquivos para quem me substituir faça um bom trabalho.

Ele entra na minha porta estantes depois.

—Vai mesmo se demitir por minha causa?

Isso me deixa ainda mais frustada. A garota faz uma cara de que não sabe bem como tem de agir.

—Obrigada, pode ir agora — falo pra ela. Depois me viro para ele e digo -não. Não é por sua causa. É por minha causa.

Ele respira inconformado.

—Olha Mônica, aquele dia eu não conseguir ir falar com você... -corto ele no meio da sentença.

—Olha eu não quero saber. Isso não tem nada a ver com minha demissão.

—Você está se demitindo porque não consegue ver seu ex todo dia. Isso que está acontecendo. Mônica seja mais profissional.
Ah ele não disse isso...

—Samuel, — falo furiosa — seja você mais profissional, está no meu direito me demitir.

—Por isso termina...

—Eu estou me demitindo. Não estou pedindo satisfações sobre o que já aconteceu. Essa é minha carreira e agora vou dar um novo rumo para ela. Se você quer passado, pode ficar com isso.
Com minhas coisas prontas, empurro fotos nossas para o peito dele e deixo o escritório.

—Você vai se arrepender disso. Esse sempre foi seu sonho.

Não resisto e solto a frase que ele me disse quando estava terminando comigo.

—Não estou mais tão afim disso.

Não olho pra trás para ver sua reação. Como Nanda sempre disse: "as vezes tudo que precisamos é de trinta segundos de coragem insana". Quando pisei na calçada me senti feliz e tirei um peso das costas.

Penso que música seria perfeita para esse momento e passo por um bar e escuto um forró com a letra perfeita.

Acho que nunca me senti tão feliz por estar desempregada.