50 Coisas Para Fazer Antes De Se Apaixonar
4 6- Bazar dos corações partidos
Quando abro a porta de casa dou um longo suspiro quando vejo os rastros do zumbi que eu estava. Nanda era mesmo um anjo pra ter tanta paciência durante todo esse tempo comigo. Vejo roupas pela casa, algumas caixas de lenço vazias, alguns cartões picados, e os presentes que Sam tinha me dado. Eles estavam por todos os lados e assombravam todos meus sonhos. Como namorei ele por muito tempo, sinto como se metade das minhas coisas foi ele que me deu, sua presença aqui é mais forte do que eu pensava. Se eu acreditasse em Feng Shui eu diria que isso que estava deixando meu espírito tão pra baixo, mas posso aplicar isso para transformá-lo novamente, preciso me livrar de todo esse lixo.
Desço de novo e saio do prédio, vou até a mercearia da esquina e peço algumas caixas de papelão. Quando chego no apartamento começo fazendo a limpa. Cada presente conta uma parte da nossa história, coisas que eu tinha prometido pra mim mesma que jamais deixaria pra trás.
Na sala tinha o moletom que ele me deu quando teve o inverno mais frio de São Paulo, lembro até hoje como foi quando ele comprou. Estávamos no shopping olhando roupas para minha entrevista de emprego, eu estava na faculdade e tinha começado a procura por estágio. Sam estava comigo olhando outras partes da loja, ele sempre fazia brincadeiras com as peças que via e tentava me fazer rir. Eu estava com tanto frio que usava sua jaqueta de couro anos 50, eu amava ela. Ele tinha comprado para fazer uma peça de teatro do ensino médio, mas nada se comparava com quando ele passava gel no cabelo bem penteado e colocava um óculos escuro e parecia com ela, dava aquele sorriso cafajeste e me deixava louca.
—Que tal você usar isso? Eu te contrataria — Ele deu aquele sorriso dele que sempre me deixava sem jeito.
Era um moletom daqueles que eu gostava de usar como pijama no frio com estampas florais bem clarinhas e meigas, com uma calça estampada com listras bem ridículas, mas que eu amei.
—Que lindo! Com certeza. Você que vai pagar?
Ele riu.
Não foi aquele dia que ele me deu esse moletom, na outra semana ele apareceu no meu apartamento a noite, me perguntando se eu estava com frio. Naquela noite estava fazendo -1C°, eu estava com todas minhas roupas de frio. Ele me entregou um pacote e disse:
—Vou dormir com você e você vai ficar quentinha.
Bati nele e ri, ele acompanhou minha risada. E lá estava o moletom, ele sabia que não era bem um presente de namorados, mas era uma coisa que eu iria amar.
Usei esse moletom aquele inverno inteiro.
No meu quarto tinha ainda mais coisa. Eu já tinha recolhido e feito uma pilha com as fotos, mas isso vou limpar outro dia, ainda não sei se devo jogar fora lembranças tão boas. A parte ruim de um relacionamento que dura tanto tempo é pensar que nunca vão se separar, muitas daquelas fotos são fotos de coisas que fiz pela primeira vez e ele estava do meu lado.
Sam gostava de colecionar coisas e eu também. Fizemos muitas coleções juntos. Olho pra minha coleção de naves LEGO do Star Wars e lembro como foi difícil encontrar todas, nós juntamos dinheiro por seis meses e andamos em quase todos os shoppings do estado pra encontrar todas elas. Não posso jogar isso fora, além do mais, continuo sendo fã de star wars.
Quando abro meu armário vejo milhares de ursinhos de pelúcia, tradição de Sam em nossos aniversários: um novo ursinho de pelúcia. Ele me dava um todo mês. Não quero nem contar quantos têm. Coloco todos eles nas caixas, três delas cheias só de ursinhos.
Encontro outras peças de roupa, alguns sapatos, cadernos, até mesmo enfeites... Dos livros que ele me deu pego apenas os que mais me lembravam ele pra colocar na caixa, afinal livros são preciosos e faço o mesmo com os filmes.
Na cozinha eu deixo as xícaras, são presentes bem úteis, mas também jogo alguns enfeites na caixa.
Sam já me deu alguns quadros que só coloquei na parede porque gostava muito dele, mas eles eram um estilo de arte totalmente oposto do que eu gostava, do estilo Romero Brito. Engraçado, como gosto de arte, mas não sou fã de Romero Brito. Sam nunca soube disso. Coloco eles na caixa também.
Depois de separar as caixas faço uma boa faxina ouvindo músicas bem agitadas, chega de Pablo, acabou a sofrência. Muitas dessas músicas Sam não gostava, e pensar que deixei de cantar várias delas no karaokê só porquê ele não gostava.
Quando termino, tento decidir o que fazer com todas as caixas. Meu guarda roupa está quase pelado.
Quando Sam e eu terminamos ele não quis nem saber se iria querer alguma coisa de volta, muitas coisas dele ainda estão aqui e fiz uma caixa só pra elas. Ele me deixou com tudo, até o dinheiro que estávamos juntando pro nosso casamento. Isso me magoou tanto no incio, ainda magoa, pensar que ele não está nem aí. Mas agora vou aproveitar isso.
Antes de devolver a caixa do Sam eu tomo um bom banho, me arrumo, quero parecer bem na frente dele. Pego a caixa e com meu carro vou até sua casa. Graças a Deus ele mora relativamente longe, para encontrá-lo no meu bairro ele teria de estar lá de propósito. Sam mora em um sobrado bem bonito, eu amava meu sogro e sempre estava aqui para cozinhar alguma coisa diferente para eles. Toco o interfone e sei que tem câmera então já me preparo pro que vier. Demora mais que o costumeiro pra atender, o bibe toca e demora alguns segundos para voz sair.
—Sam, eu sei que está aí.
—Se arrependeu?
—Não. Vim trazer suas coisas que estavam no meu apartamento, já que você já me levou as minhas, eu não preciso entrar.
Levanto um pouco a caixa para que ele possa ver na câmera. Lembro do dia que apareceu no meu apartamento com uma caixa com minhas coisas. Ele não tinha feito nem questão de ver meu rosto.
—Você podia ter me ligado. Pode ficar com você.
Poxa, essa doeu. Mas que filho da mãe. Não, ele vai aparecer na minha frente, esse covarde... Paro de xingar mentalmente quando vejo vários jogos que eu sei que ele realmente gostava e muitos que são bem caros. Minha cara de nojo desaparece e eu consigo me controlar.
—Já imaginava. Depois não reclame.
Viro as costas e volto pro carro. Tem tanta coisa, tanta coisa tão cara em todas as caixas. Dá dó de jogar tanto dinheiro fora. Volto pro meu apartamento e Nanda já está em casa.
—Você saiu mais cedo? Está tudo bem?
Ela parece preocupada então eu sorrio para conforta-la.
—Pedi demissão.
Ela pisca.
—Sério? E você fez essa faxina toda?
—Sim. Já risquei o número 17 da lista.
Ela ri e me abraça. Como se eu tivesse acabado de vencer um campeonato. Quase derruba a caixa que eu estava carregando.
—Estou tão orgulhosa de você!!
—Agora não sei o que fazer com tudo isso que sobrou. — Levanto a caixa de Sam que eu estava segurando e aponto com a cabeça todas as outras.
O celular da Nanda toca e ela vai atender.
Olho pra dentro da caixa que eu segurava, que desperdício jogar tudo fora. Eu poderia vender, estão todos novinhos. Bazar de coração partido. Poxa, essa é uma ótima idéia. Ligo meu notebook e começo a criar um site. Agora que estou desempregada tenho tempo de sobra pra fazer tudo isso, vou me livrar de todo esse lixo e ainda vou ganhar dinheiro. Eu sou um gênio.
Bazar dos corações partidos <|3
Pego as coisas e vou tirando da caixa arrumo elas pelo corredor e pego a câmera profissional da Nanda. Vou tirando foto de cada um dos itens. Começo a pesquisar em outros sites o preço original e faço mais ou menos uma média de quanto cobrar, pra não esquecer coloco uma fita e faço uma tabela no Excel com cada um dos itens.
Quando Nanda termina a ligação já estou na metade da tabela e ela olha por cima do meu ombro.
—Ual, organizar coisas é mesmo seu trabalho.
Dou risada.
Depois de algumas horas a tabela está pronta e as fotos também, começo a organizar o site e tudo que é pedido e necessário pra conseguir colocar ele no ar e eu conseguir meu dinheiro.
Vou arrumando ele o resto da noite até estar perfeito.
Demorou uma semana, mas o site já está perfeito. Então posto tudo e começo a anunciar o site em várias redes sociais e páginas. Pelo visto muita gente achou criativo, já que não demora muito para aparecer as visualizações.
No meu Facebook vejo que os amigos de Sam curte, não demora nem vinte minutos e recebo uma ligação.
—MEUS JOGOS ESTAVAM COM VOCÊ?!
Afasto o telefone antes de dizer alguma coisa.
—Eu tentei te devolver Sam, mas você me deu tudo. Só lamento.
—Não acredito que meu Nintendo estava na sua casa, ele é de colecionador e ainda funciona, está novinho e com vários jogos. Não acredito que você está fazendo isso! Pensei que ele estava com o Gabriel. -Ele está furioso. Só brigamos dessa forma uma vez.
—Estava, mas antes dele viajar no início do ano ele deixou aqui e pediu pra mim te entregar. Como terminamos logo depois, ficou meio difícil.
Ainda bem que ainda não postei todas as coleções de CDs que valem uma fortuna. Sam deixou no meu apartamento até mesmo fitas antigas. Vou conseguir uma grana preta só com isso.
—Sam, se você quiser de volta, compre. Ele é meu agora, não adianta chorar. Pra você dou desconto de cinco por cento, se quiser.
Ele ri debochadamente.
—Tem razão, eu esqueci como você era. Acho que foi por isso que terminamos.
Ignoro ele. Ele ainda me machuca e sabe disso.
—Se não quer o desconto tudo bem. Tchau.
Desligo o celular. No fundo, eu gostaria que ele tivesse aceitado, isso acabaria com o orgulho dele e seria muito bom pro meu.
O Nintendo é o primeiro que recebe uma mensagem de pedido, é claro. Olho e vejo que é Gabriel, ligo pra ele na mesma hora.
—Sam pediu, não foi?
—É de colecionador... -ele tenta mentir, mas é péssimo nisso.
Sua voz começa a falhar no final e consigo imaginar que essa pausa foi para engolir seco.
—Fala pra ele que dou cinco por cento de desconto pra ele.
No fundo eu sei que estou sendo infantil, mas está tão bom que não resisto.
—Desconto? -Gabriel diz com animação. -Mônica, eu juro, não é pra ele.
—Gabriel, vou te vender só porque você não fez nada e sim ele. Pela nossa amizade, mas não vamos mais poder ser amigos depois disso, eu não consigo.
—Eu sei, eu entendo.
—Cinco por cento de desconto. Te mando um e-mail com as informações.
Consigo ouvir ele gritar "yes!" e desligo o telefone.
No fundo eu sei que é para Sam, mas que se dane. O dinheiro é meu.
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