5 anos depois - HIATUS
12 Capítulo 11
Notas iniciais
DEPOIS
Quando seus olhos se encontraram com os meus, um frio correu pela minha espinha. Você se aproximou, devagar e solenemente, sem desviar a atenção de mim. Senti o seu nervosismo, porque era o mesmo que eu sentia. O que você pensou naquele momento? Você me reconheceu?
Talvez sim. Talvez não. Pela primeira vez eu não tinha nada em mente. Cada parte do meu cérebro estava concentrada em te analisar. Seu rosto magro, seus olhos marcados por cansaço e talvez experiências desagradáveis. Você hesitava, tanto quanto eu.
– Eu... – Você disse. Sua voz era rouca, não tinha beleza nenhuma.
Antes que você continuasse, um convidado inesperado nos interrompeu. O Sr. Beraldo vinha na nossa direção, com um enorme sorriso de satisfação no rosto. Imediatamente, levei a mão aos olhos. Ainda estava chorando, e a minha maquiagem certamente deveria estar borrada.
– Correu bem rápido para o estúdio, não é? – ele falou, apoiando o corpo na lateral do piano.
Sorri. Um sorriso falso, repleto de mentiras. Senti que meus dedos tremiam, ainda posicionados nas teclas. Escondi as mãos entre as pernas e olhei na direção do chão, em uma tentativa de evitar que o diretor percebesse o meu nervosismo.
– É... – Respondi – Eu queria tocar um pouco...
– É bom ver você de volta aqui – ele disse – Mal posso esperar para te ver tocar nos concertos de novo. Falando nisso...
Algo pareceu chamar atenção dele.
– Você já deve ter conhecido o Victor, não é? – Ele apontou para você. – Ele dá aulas de piano para as crianças. Chegou aqui faz apenas alguns meses.
Victor. Foi a primeira vez que eu ouvi o seu nome.
Você olhou na minha direção. Seu olhar era confuso, dizia milhares de coisas ao mesmo tempo. Eu congelei no lugar, nem a presença do diretor conseguia me fazer sair do transe em que tinha entrado.
– Oi – Você falou, dando um pequeno aceno em minha direção. Seu rosto era inexpressivo, mas você tentava esconder seus sentimentos, era perceptível.
– Oi – respondi sem forças.
Um estranho silêncio se seguiu, mas você não parecia disposto a aguentá-lo ainda mais. Você se aproximou do Sr. Beraldo e estendeu a mão, com um sorriso tão falso quanto o meu.
– Eu já vou indo – você disse.
– Não quer ficar mais, Victor? Você e Clara podiam tocar um pouco...
– Não, obrigado, Sr. Beraldo. Eu preciso ir, de verdade.
E da mesma maneira repentina que você surgiu, você saiu do estúdio. Mas para mim, era como se você nunca tivesse saído.
***
Eu voltei para casa completamente alheia. Todo o meu corpo se movia automaticamente, como se eu já não tivesse controle sobre ele. Eu pensava em você, Victor. O cara que tinha me atropelado e que dava aula de piano para crianças. O cara que tinha bebido até cair e que trabalhava em um curso de música comunitário. Quem era você, afinal?
Essa pergunta me perturbava. E por um momento, tudo o que eu queria era que tivessem pena de mim. Eu me sentia miserável. Queria que minha mãe me abraçasse e me deixasse encostar a cabeça no seu colo. Queria que Nicolas me abraçasse e me levasse para sair, apenas para esfriar a cabeça. Queria que Amanda viesse brincar comigo e que me chamasse de "mana". Queria que Clara Fernandes fosse a garota recém traumatizada por mais tempo.
E então eu cheguei em casa.
Amanda estava na sala, vestindo o seu moletom rosa e desenhando com giz de cera em cima da mesa de jantar. Ela notou quando cheguei, mas logo voltou a sua atenção ao que estava fazendo. Me aproximei, um pouco hesitante.
– Oi — disse tentando parecer menos deprimida — O que você está desenhando?
– Um desenho — ela respondeu sem olhar para mim.
– Ah… Eu posso ver?
Ela puxou o papel para si e se retraiu.
– Esse desenho é pra Joana — ela disse apertando-o contra o peito.
Eu permaneci estagnada. Não falei nada, apenas dei mais um dos meus sorrisos falsos.
– Tudo bem — disse — Eu vou ver a mamãe, então.
Minha mãe estava no pequeno escritório que costumava pertencer ao meu pai. Ela sorriu assim que me viu. Seu rosto parecia outro. Os meses de alívio para ela tinham lhe dado um rosto jovem e um sorriso típico de Patrícia Fernandes. A mesma de quem eu me lembrava.
– Oi meu bem, como foi no Clube? — Ela perguntou desviando a atenção do computador.
– Foi… Bem. Deu tudo certo, eu acho.
– Não fica chateada. Dar aulas não é fácil, mas logo você se acostuma. Com o tempo você pega prática.
Ela sorriu calorosamente, voltou a sua atenção para a tela e começou a digitar furiosamente.
– Você não foi a única que resolveu voltar a ativa — ela continuou — Eu recebi uma ligação, vou dar aulas de Literatura na sua antiga escola.
Eu tentei sorrir. Uma parte de mim estava feliz pela minha mãe. Outra parte de mim queria chorar. Resolvi apenas abraçá-la e aproveitar o calor do seu corpo por um instante.
– Eu só preciso terminar o planejamento para amanhã. Mais tarde eu preparo o jantar, ok?
– Ok.
Fui direto para o meu quarto e joguei minha bolsa o mais longe possível. Não troquei de roupa, ao menos lavei o rosto. Procurei meu celular e digitei um número que já sabia de cabeça. Nicolas atendeu no quarto toque.
– Clara, aconteceu alguma coisa?
– Não.
– Aconteceu alguma coisa.
– Aconteceu. Eu quero sair um pouco, você pode vir aqui?
Ele não respondeu de imediato.
– Desculpa, Clara. Eu tenho uma reunião daqui a pouco, só devo ser liberado depois das nove.
– Não, sem problemas — respondi com um ânimo completamente falso — Eu só queria alguém para conversar...
– Se quiser eu posso passar aí amanhã de tarde.
– Não precisa, de verdade. Eu tenho trabalho amanhã de qualquer maneira.
– Tudo bem. Mas se alguma coisa acontecer pode me ligar, ok? Te vejo depois.
– Tchau, Nicolas.
Desliguei. Me recusei a pensar qualquer coisa, apenas me arrastei em direção ao banheiro. E daí que Nicolas não tinha tempo para me ver? Isso não era natural? Afinal, as pessoas já estavam seguindo com as suas vidas. Eu deveria fazer o mesmo, não deveria, Victor?
Sim, eu deveria. Era isso que eu repetia para mim mesma desde que tinha acordado em um hospital. Então porque eu não conseguia seguir em frente? Porque, Victor? O que estava errado comigo?
***
Deixei que a água gelada corresse por todo o meu corpo. Perdi a conta de quanto tempo fiquei no chuveiro. Me encolhi no chão, segurando minhas pernas, olhando fixamente para os azulejos brancos e azuis que se intercalavam.
Eu chorei em silêncio.
Minha cabeça zoneava. Minhas lembranças eram cada vez mais conflituosas. Você saindo do carro, seu desespero, essa cena se repetia inúmeras vezes na minha mente. Por fim, a dor. A sensação de formigamento nas pernas.
De repente o mundo parecia mais devagar. A água fazia cócegas quando entrava em contato com o meu corpo. Os sons se difundiam. A minha cabeça parecia pesar dez quilos a mais.
Eu estava apagando. Era como daquela vez, mas sem dor, sem medo, sem adrenalina. Ao menos senti quando perdi a consciência e quando o mundo se tornou negro novamente.
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