5 anos depois - HIATUS
6 Capítulo 6
Notas iniciais
ANTES
– Mãe, como você e papai se conheceram? – Eu perguntei certa vez, voltando da escola. Devia ter uns dez anos de idade. Naquela época, eu estudava em um colégio perto da minha casa e voltava a pé com a minha mãe e Nicolas.
– Eu já te contei essa história, Clara – ela respondeu com um sorriso.
Eu e Nicolas nos entreolhamos. Eu amava ouvir as histórias da mamãe.
– Conta de novo. O Nicolas ainda não ouvi. – falei apontando para o meu amigo que parecia igualmente interessado.
Ela sorriu para nós dois, e olhou para o horizonte, como se estivesse se lembrando de alguma coisa bem distante.
– Eu e seu pai nos conhecemos na escola. — Seu rosto se iluminou, a deixando ainda mais radiante. — Eu tinha doze anos. Nós éramos da mesma turma e brigávamos o tempo todo. Os nossos pais brigavam também por causa da gente. Nossas famílias mal se suportavam.
– Porque vocês brigavam? – Perguntei, como se ainda não soubesse a resposta.
– Ele falava do meu cabelo com trancinhas – Ela riu – E eu o chamava de “cabeça de fósforo”, por causa do cabelo ruivo.
Nicolas fez uma careta.
– Mas então como vocês ficaram juntos? – Ele perguntou, parando para amarrar o seu cadarço solto.
– Foi na nossa festa de formatura da oitava série. Roger estava todo arrumado com um smoking que o pai dele tinha o obrigado a usar. Foi engraçado porque os professores nos obrigaram a dançar um com o outro. – Ela riu – E sabe o que aconteceu?
Meus olhos se arregalaram. Era a minha parte favorita da história.
– Eu percebi que era completamente apaixonada por ele.
DEPOIS
Eu me pergunto porque perdemos as coisas que mais amamos. Porque somos testados a ponto de não conseguirmos mais suportar. Existe algo em nós que precisa ser tirado? Existia algo em mim que não estava certo? Eu não sei. Você sabe? Me responda a verdade.
No dia da festa, o mesmo dia em que eu finalmente voltei para casa, eu me senti deprimida pela primeira vez. Não foi só por causa dos meus pais, do meu irmão, da porcaria dos cinco anos. Eu estava sendo incrivelmente egoísta, mas o único motivo que me desestabilizava era a mim mesma. Você faz alguma ideia de o quanto conseguiu me quebrar? Talvez não faça. É o tipo de coisa que só eu posso entender.
E então a festa... O que aconteceu depois da festa, você deve querer saber? Nada terminou bem, no final das contas.
– Clara! Filha, por favor, abre a porta! – Minha mãe gritava do lado de fora do quarto. Eu realmente tinha dado o meu melhor, mas não consegui ficar até o final. Eu queria ficar sozinha. Eu queria fugir do mundo pelo menos um pouquinho. Então logo depois da conversa com Joana eu corri para o meu quarto.
– Clara, por favor. – dessa vez era Joana. Sua voz estava muito fina, como em todas as vezes que estava preocupada com alguma coisa. Já devia passar das seis da tarde, a maioria dos convidados já deviam ter ido embora.
Eu fingi que elas não estavam do outro lado. Me encolhi na cama e abracei meus joelhos, da mesma maneira que fazia quando era pequena. Lá fora tinha começado a chover. O barulho da chuva era aconchegante para mim, me fazia sentir tranquila.
– Filha, todo mundo já foi para casa. – Percebi que minha mãe estava com a voz embargada. – Eu só quero conversar. A Joana está aqui também. Por favor, abre a porta...
Eu era teimosa, mas não conseguia ouvir pessoas chorando e não fazer nada. Levantei e me sentei. As lágrimas molhando a minha roupa amassada. A sensação quente no rosto a qual eu já estava acostumada. Gritei.
– Porque você e o papai se separaram?! Porque o Rodrigo não está em casa?! O que aconteceu com a minha família? – Chorei – O que eu fiz, mãe? Qual é o meu pecado?
Silêncio do outro lado. Minha mãe devia estar chorando. Joana estava não falava nada. Eu me calei. Deitei de novo na cama e imaginei os adesivos florescentes. Foguetes, asteroides, planetas. Era onde eu queria estar. Bem longe daqui.
Não me lembro quanto tempo passou. Eu dormi e quando acordei devia ser de madrugada. Destranquei a porta. Minha mãe ainda estava lá, escorada na parede, com o rosto inchado. Eu caí de joelhos ao seu lado.
– Mãe... Você me esperou a noite toda? – Sorri, sem ânimo.
Ela se remexeu, acordando.
– Clara... Me desculpe... Eu não queria que você soubesse das coisas tão de repente. – Ela suspirou — Eu não sei porque isso aconteceu. Mas eu estou feliz porque você está aqui. Você e Amanda. Vocês ainda estão aqui.
Eu a abracei o mais forte que pude. Meu coração quase que saindo pela boca. Você não tinha me tirado tudo, afinal de contas.
– Desculpa, mãe... – Disse com a respiração entrecortada. – Eu só estou com medo. Eu ainda não me acostumei com isso tudo. Eu precisava saber, não tinha como você esconder para sempre. É só... Não sei... Me desculpa.
– Clara... – Ela me abraçou forte – Eu vou te ajudar. Eu sei que é difícil, mas eu não vou te deixar sozinha. Você estar aqui comigo é um milagre. Eu não posso deixar isso passar.
– Tudo bem, mãe... – Eu disse – Tudo bem.
Mas de verdade, não estava tudo bem.
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