5 anos depois - HIATUS
7 Capítulo 7
Notas iniciais
DEPOIS
Naquela época, eu me perguntava como você era. O seu rosto ainda era apenas uma expressão de desespero nas minhas memórias. Eu queria saber sobre você, quem era a pessoa que tinha me atropelado e o que tinha acontecido com ela. Para as outras pessoas, eu devia me esquecer da sua existência. Mas isso era algo quase impossível para mim.
Meu desejo acabou se tornando realidade.
– Clara, você conseguiu dormir? – Joana me perguntou assim que cheguei na cozinha. Ela tinha dormido na nossa casa para cuidar de Amanda depois do que aconteceu. Eu me sentia péssima, como se não devesse ter levantado naquele dia. Não queria encará-la, muito menos minha irmã.
– O suficiente – respondi me sentando na mesa.
Ela tinha olheiras profundas, parecia abatida. Amanda estava sentada na minha frente, usando o uniforme da escola e brincando com o seu café da manhã. Senti meu estômago embrulhar totalmente. Eu estava em casa há apenas um dia e as pessoas a minha volta já estavam sendo afetadas. Enquanto todos tinham seguido suas vidas, eu ainda estava parada no mesmo lugar, os impedindo de seguir em frente. Essa era uma das piores sensações do mundo.
– Sua mãe ainda está dormindo? – Ela perguntou se sentando ao meu lado.
– Eu preferi deixar ela dormir – dei de ombros – Ela precisa.
Joana me encarou. Sua mão posou sobre a minha.
– Clara... Eu queria pedir desculpas... – Ela suspirou – Eu sou muito impulsiva, você sabe. Mas eu errei feio quando te contei tudo aquilo de uma vez só... Me desculpa, ok?
Eu sorri, de verdade, e apertei a mão dela.
– Eu não vou morrer por isso. Se eu descobrisse depois podia ser pior. – Respondi com sinceridade.
Ela parecia aliviada. Tomamos café tranquilamente depois disso. Amanda não falou comigo, mas já não parecia ter medo de mim. Se era um progresso? Eu não sabia. Mas estava disposta a consertar as coisas a partir de agora. Ver minha mãe chorando por mim tinha me mostrado que ainda valia a pena lutar, de alguma maneira. Eu não queria atrapalhar mais ninguém, então precisava recuperar o tempo perdido. Precisava voltar a viver.
– Tem planos para hoje? – Joana perguntou, enquanto lavávamos a louça juntas pela primeira vez em anos. Quando eu era pequena, ela me deixava secar os pratos e nós duas fingíamos que éramos donas de um restaurante. Me senti nostálgica.
– Tirando ficar em casa o dia inteiro... Nada. Porque?
– Nada demais... – Ela deu de ombros – Só que uma pessoa que queria muito te ver vai vir aqui hoje...
Eu senti o coração bater mais forte.
– Nicolas vai vir aqui em casa?! – Quase derrubei os pratos.
Ela sorriu animada.
– Ele chegou de viagem umas quatro da manhã, mas insistiu em te ver hoje. – Ela olhou para o relógio vermelho na parede – Ele já deve estar chegando.
Deixei os pratos sobre a pia saí correndo em direção à escada. Joana não parecia surpresa.
– Aonde vai com tanta pressa?! – Ela gritou.
– Me arrumar – respondi enquanto corria para o meu quarto.
Eu só esqueci que meu armário era o mesmo de 5 anos atrás.
***
Eu não tinha crescido muito nos últimos anos. Percebi isso quando o meu vestido velho entrou em mim perfeitamente. Eu até que estava bem comparado à minha aparência quando acordei no hospital. Tinha conseguido engordar um pouquinho, meu cabelo já não estava tão ruim e a maquiagem de Joana cobria uma pequena cicatriz na lateral do meu rosto. A maioria das minhas roupas estavam meio ultrapassadas – descobri que calças coloridas já não estavam tão na moda como antes – mas vestidos floridos e sapatilhas sempre funcionaram.
– Tem certeza que eu estou bem? – Eu perguntei à Joana assim que a campainha tocou. Eu estava nervosa como nunca. Nem parecia que eu iria me encontrar com o meu melhor amigo.
– É hoje que vocês ficam juntos – Ela piscou para mim e me fez ficar vermelha como um pimentão.
Nicolas estava encostado na moldura da porta. Nessa hora eu fraquejei. Senti medo de me aproximar, de falar. Ele parecia tão diferente. Estava forte, bonito, eu não podia negar. O cabelo castanho claro estava arrumado com gel, e as suas roupas – que eram de marca, a propósito – estavam tão simetricamente arrumadas que me fazia pensar se ele tinha feito algum tipo de curso com o meu pai. Ele sorriu quando me viu.
– Clara. – Ele disse o meu nome, me envolvendo em um abraço apertado.
As sensações foram mistas. O cheiro do perfume caro, o tecido macio da camisa polo que ele usava, o calor que emanava do seu corpo quase que como um dia de sol. Eu hesitei e então envolvi meus braços ao redor do seu corpo, que agora era cheio de músculos, e deixei minha cabeça repousar em seu peito.
– Eu queria te ver – consegui dizer antes das lágrimas virem aos meus olhos.
– Eu também – ele disse – eu também.
Nós nos abraçamos por vários minutos. Mal percebi quando Joana saiu da sala e foi para a cozinha. Eu estava feliz. Nicolas era uma parte de mim, e eu era uma parte dele. Eu me sentia mais completa quando ele estava ao meu lado.
– Não chora, tudo bem? – Ele limpou uma lágrima que escorria do meu olho – Hoje é um dia feliz, não quero ver você chorar.
Eu sorri de volta. Ele se afastou e segurou uma chave de carro no ar.
– Então, vamos?
– Para onde? – perguntei.
– Surpresa – ele piscou para mim e me fez ir correndo para o carro, extremamente animado, como nos velhos tempos.
Na minha calçada, o Aston Martin preto se destacava dos outros carros da vizinhança. Nicolas parecia um daqueles filhos de empresários ricos de filmes, o que não era muito longe da realidade. Entramos no carro e saímos do Golden Falls, o residencial onde a minha casa ficava.
– Então, já parou para ouvir música? – Ele perguntou animado, sem tirar a atenção da estrada.
– Não fiz nada ainda – lamentei – Mal vi TV.
Ele fez uma expressão falsa de susto e começou a mexer no rádio.
– Então você precisa ver o que eu preparei para você – ele sorriu me mostrando um pen-drive preto – Eu juntei as melhores músicas dos últimos cinco anos aqui. São mais de duzentas. É um presente meu para você.
Ele sorriu, colocando o pen-drive no rádio. A primeira música começou a tocar.
– Desde quando você tem juntado elas? – perguntei boquiaberta.
– Desde que os médicos disseram que você estava em coma.
Ele me olhou com os olhos intensos. Os mesmos olhos dos quais eu me lembrava, mas com um significado diferente. Meu coração começou a bater acelerado. Eu fiquei sem palavras.
Passamos o resto do caminho em um silêncio quase religioso, ouvindo as músicas que ele tinha separado. Nicolas não percebeu quando uma lágrima teimosa escorreu do meu olho.
ANTES
– Eu não acho uma boa ideia.
Nicolas me encarava com o cenho franzido. Ele estava parecendo o meu pai, tentando me dar conselhos e me proibir de sair de casa. Ele tinha sido o primeiro com quem eu tinha falado sobre fugir para ir à festa e agora estava me dando um sermão sobre como eu era irresponsável.
– Fala sério, Nicolas – eu reclamei – Eu nunca fiz isso, você sabe. É só uma noite.
– É justamente esse o problema – Ele cruzou os braços irritado – Você nunca fez isso Clara, não está vendo que não vai dar certo?
Eu estava impaciente. A festa seria dali a três dias e eu já tinha o meu próprio esquema de como iria sair de casa. De todos, eu achei que ele me apoiaria, afinal de contas, era Nicolas quem sempre vinha com as ideias malucas de burlar as regras. Mas ele tinha me decepcionado. Na verdade, eu me sentia cada vez mais insegura agora que estava sem apoio de ninguém.
– Por que você acha isso? – Perguntei estressada, me levantando do sofá – Você e Fernanda sempre fazem esse tipo de coisa. Porque eu não posso fazer?
– Por que eu tenho um mal pressentimento, ok? – ele disse já vermelho de raiva, algo que raramente acontecia. – Quando você não tem certeza se deve fazer alguma coisa, é melhor não fazer. Você tem certeza, Clara?
Olhei no fundo de seus olhos. Ele estava preocupado de verdade. Era como se pedisse para que eu o respondesse, para que deixasse aquilo de lado e fosse assistir algum filme como sempre fazíamos. Não, eu não tinha, era o que eu devia responder. Mas eu me calei. Eu era teimosa, não admitiria derrota tão fácil. Peguei as minhas coisas e saí da casa de Nicolas pela porta da frente. Não olhei para trás.
Aquela foi a última vez que nos vimos antes do acidente.
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