5 anos depois - HIATUS
4 Capítulo 4
Notas iniciais
ANTES
– Vamos fazer uma aposta. – Nicolas disse tirando o violão do suporte e tocando algumas notas aleatórias. Depois dos simulados de sábado, a casa dele era parada oficial. Eu, Nicolas e Fernanda passávamos nossos sábados à tarde assistindo matinês de filmes cult na televisão de 90 polegadas do seu quarto, que Fernanda apelidou de “exagero capitalista”.
Naquele dia ela não tinha podido ir porque ia visitar Marcos, o seu namorado da época, que fazia faculdade de Filosofia e raramente tinha tempo para vê-la. Eu e Nicolas ficamos sozinhos e estávamos completamente entediados. Já tínhamos assistido Star Wars, apenas o episódio cinco porque Nicolas achava que era o melhor, e a trilogia completa de Senhor dos Anéis. A história da aposta me animou um pouco.
– Que tipo de aposta?
– Uma aposta de músicas. – Ele sorriu – Eu vou tocar uma música, se você errar vai ter que me pagar um açaí tamanho grande.
– E se eu ganhar? – Perguntei interessada.
– Eu te pago um frozen yogurt grande com topings extras. – Ele acabou me convencendo. Frozen yogurt era a minha sobremesa de baixa caloria favorita, mas eu quase nunca conseguia comer já que a loja mais próxima ficava em Copacabana.
– Aceito.
Nicolas começou a tocar. Ele não tocava muito bem, mas era bem melhor do que a maioria dos garotos da escola. Eu e ele tínhamos entrado juntos no Clube Comunitário de Música quando tínhamos uns 11 anos de idade e desde então a música era o nosso elo de ligação.
– “She's got a smile that it seems to me/ Reminds me of childhood memories/ Where everything/ Was as fresh as the bright blue sky”.
Ele começou a cantar junto, quase ostentando o seu inglês perfeito e a sua voz afinada. Fechei os meus olhos e tentei me concentrar na melodia. Era rock, eu sabia, mas não fazia a menor ideia de que banda fosse. Se tratando de qualquer música que não tivesse sido composta a mais de 200 anos atrás, eu era completamente idiota. Nicolas cantou o coro uma única vez e então parou, esperando a minha resposta.
– É do Nirvana? – Perguntei me lembrando da banda que ouvimos no sábado passado.
– É claro que não. – Ele riu como se aquilo fosse ridículo – Tenta outra.
– Arctic Monkeys?
– Passou longe.
– AC/DC? Pink Floyd? The Police? Ramones? – Esgotei o meu estoque de bandas completamente.
– Posso te dar um conselho? É melhor desistir.
Nós rimos e ele tocou outra vez, dessa vez cantando até o final.
– Se chama Sweet Child O' Mine. – Ele disse – É do Guns N’ Roses, um clássico. Todo mundo sabe tocar.
– Menos eu. – Dei de ombros.
– Quer que eu te ensine? – Ele perguntou me surpreendendo. Eu tocava piano e as minhas habilidades com o violão eram questionáveis. Ele sabia disso, ainda sim me deu o violão e resolveu que me ensinaria a tocar.
Ficamos quase uma hora nos primeiros versos. Os meus dedos não colaboravam e as notas saíam piores do que eu podia imaginar. Ainda assim, Nicolas tinha paciência comigo e continuava me ensinando, ajustando os meus dedos nos dele em uma tentativa de fazer sair algum som bom. Depois da décima quinta tentativa eu desisti.
– Acho que eu quero comer aquele frozen yogurt agora – falei levantando da cama.
– Você quer dizer açaí. Eu venci, você paga.
Terminamos comendo açaí na barraquinha da esquina, conversando sobre como eu precisava ter bom gosto musical e como isso afetaria a minha popularidade praticamente nula. Aquele dia acabou bem rápido. Não me lembro se eu e Nicolas voltamos a comer açaí juntos de novo. Você não faz ideia de quanto aquela lembrança era preciosa para mim. Foi um daqueles momentos que eu nunca esqueci e um dos que eu mais senti falta, depois de tudo.
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