5 anos depois - HIATUS
5 Capítulo 5
Notas iniciais
DEPOIS
As pessoas que eu mais queria ver não vieram ao hospital. Segundo a minha mãe, os médicos recomendaram que eu visse apenas os familiares mais próximos e evitasse receber muitas “notícias chocantes”, como se descobrir que fiquei em coma por cinco anos já não fosse chocante o suficiente. Nesse meio tempo, eu recebi a visita de mais terapeutas, psicólogos e especialistas do que eu podia imaginar.
Meus movimentos tinham voltado, mas ainda era como andar debaixo d’água. Eu podia andar sozinha, falar normalmente e comer sem precisar de ajuda. Mas o que eu realmente queria saber era se eu poderia voltar a tocar. Depois de um mês, eu me acostumei com a ideia de que tinha perdido a minha vaga no Conservatório Brasileiro de Música, a mesma que eu tinha me esforçado como nunca para conseguir. Eu tinha perdido tudo, restava apenas a esperança de continuar vivendo.
Dois meses depois e eu já estava usando roupas normais, me preparando para ir para casa. Era uma sensação estranha. Meu corpo não parecia muito diferente, embora o meu rosto tivesse se tornado mais magro e meu cabelo estivesse cortado na altura dos ombros em um corte reto. Me ver no espelho ainda era como ver uma estranha. Eu tinha 21 anos agora, mas na minha cabeça eu ainda ia fazer 17.
– Já está pronta? – Minha mãe perguntou entrando no quarto.
Eu estava sentada na cama depois de uma bateria de exames. Os médicos disseram que eu precisaria voltar para a terapia e para um check-up eventual. Fora isso, aquele seria o meu último dia no quarto dos adesivos fluorescentes.
– Eu já estou indo... – Respondi olhando para os foguetes e asteroides no teto pela última vez. Vou confessar que faltou coragem naquele momento. Eu estava cansada e encarar a realidade era um esforço que eu não queria fazer, pelo menos não agora.
– Clara, eu vou estar te esperando do lado de fora.
Minha mãe saiu do quarto. Ela sempre sabia quando eu queria ficar sozinha. Então, naqueles meus últimos momentos de alienação e fuga da realidade, eu chorei. Nem mesmo eu sabia o porquê, mas aquele tipo de coisa acontecia direto agora. Eu não estava bem. Na noite anterior, eu tinha tido o mesmo sonho, aquele em que você aparecia. Aquilo me perturbava.
Me despedi mentalmente do meu quarto fluorescente espacial e caminhei para a porta. Naquele momento eu pensei em encontrar Nicolas, em ver os meus irmãos e ir para casa. Eu sentia falta das coisas mais banais possíveis, como acordar com o despertador, tomar café e ir para a escola. Eu queria viver normalmente de novo.
Saí do quarto e fui com a minha mãe para o estacionamento, onde uma SUV preta estava estacionada. Dentro do carro, que ela e papai provavelmente compraram enquanto eu estive “fora”, estava uma garotinha de olhos verdes que eu conhecia muito bem. Amanda estava completamente diferente desde a última vez que a vi. É claro, ela devia ter uns seis anos de idade agora, e estava bem grandinha, com o cabelo cacheado bem longo como o meu costumava ser. Assim que mamãe abriu o carro, ela saiu segurando uma pelúcia do Bob Esponja.
– É ela? – Eu ouvi quando Amanda perguntou no ouvido da minha mãe, que sorriu e respondeu que sim. Não aguentei a emoção e fui na sua direção, para dar um abraço apertado na minha irmã. Eu sentia mais falta dela do que imaginei que podia sentir.
– Amanda... Eu senti tanto a sua falta... – Disse me aproximando dela.
Antes que eu pudesse abraça-la, ela se afastou, segurando a mão da minha mãe. Eu senti algo estranho dentro de mim. Não estava preparada para o que viria.
– Você se lembra de mim? – Perguntei engolindo seco – Eu sou Clara, sua irmã mais velha.
Ela me encarou como se eu fosse uma estranha. Eu senti uma pontada de dor no peito.
– Você é a garota que a mamãe visita todo o dia. – Ela disse as palavras que me derrubaram de vez.
– Ela é a sua irmã, Amanda. – minha mãe interviu com um sorriso – Ela te viu quando você era pequeninha.
Ela olhou na minha direção e se encolheu com o seu Bob Esponja de pelúcia nos braços. Eu sentia que poderia chorar. Ela não lembrava de mim, tinha medo. Tudo bem, ela tinha apenas um ano antes do acidente, talvez fosse realmente chocante para ela. Ainda assim, não consegui esconder a minha frustração e minha mãe, percebendo a situação, colocou Amanda de volta no carro.
– Não se preocupe com ela – disse colocando a mão no meu ombro – Ela é só uma criança, ainda não se acostumou com essas coisas. Aposto que vocês duas logo vão começar a se dar bem.
Respondi minha mãe com um sorriso forçado e entrei no carro. Estava me sentido triste o suficiente para morrer e ansiosa o suficiente para perder a calma. Encostei a cabeça na janela do passageiro e observei enquanto deixávamos o hospital. Estávamos no outono, mas o sol brilhava bem forte e estava um dia bem bonito. Pensei em você, embora minha vontade fosse te esquecer, e imaginei onde você estaria agora. Será que você estava vendo o mesmo sol? Ou será que estava dentro de alguma cadeia pagando pelo seu crime? Afastei os pensamentos da minha mente e tentei ter esperança. Eu estava indo para casa. Finalmente.
***
Eu já esperava que tivessem vários parentes esperando por mim, eu só não contava que haveria uma verdadeira festa à minha espera. Eu nunca tinha visto a casa tão cheia. Quando saltei do carro, logo senti o cheiro de churrasco, que meu pai provavelmente estava fazendo nos fundos da casa. Havia carros estacionados aos montes na nossa calçada e balões coloridos por todos os lados. Eu não reconheci mais da metade das pessoas. Seus rostos eram um verdadeiro enigma para mim.
– O que você acha? – Minha mãe perguntou orgulhosa enquanto caminhávamos pelo jardim. Amanda já tinha corrido para dentro da casa, provavelmente para encontrar outras crianças.
– De verdade? – suspirei – É bem... Legal... Todo mundo sabia que eu iria ser liberada hoje?
– Eu avisei para todos os nossos parentes – disse – E adivinha quem está aí? Joana.
Eu sorri imediatamente.
– Ela já voltou do Canadá? – perguntei animada com a ideia de encontrá-la novamente.
– Voltou a três anos atrás.
Joana era uma pessoa única. Ela era a irmã mais velha de Nicolas, mas sempre aparentou ser mais nova. Era uma das pessoas mais inteligentes e bonitas que eu tinha conhecido, tanto que tinha ido estudar em Quebec com apenas 16 anos. Quando eu era pequena, ela costumava dizer que eu e Nicolas ficaríamos juntos. Se dependesse dela, já tínhamos nos casado durante o ensino médio.
– Clara, você se lembra de mim? – Um sorriso simpático se abriu no rosto cheio de sardas de Joana, que foi a primeira a sair da casa para me receber. Eu sorri de volta e ela me envolveu em um abraço de urso. Era a primeira vez que alguém me abraçava assim desde que tinha acordado. Me senti aquecida.
– Nem parece que é de verdade... – Ela disse me apertando mais – Você não sabe o quanto eu e Nicolas sentimos a sua falta. Ele ia te visitar quase todos os dias nos últimos anos... Nós sempre acreditamos que você ia acordar.
Eu senti um aperto no coração assim que ela falou dele. Eu queria vê-lo, mais que tudo. Olhei em volta e comecei a procurar por Nicolas, normalmente ele seria um dos primeiros a vir falar comigo, mas não o encontrei em lugar nenhum.
– Você está procurando por ele, não é? – Joana riu, apertando as minhas bochechas – Meu irmão não veio hoje. Ele está viajando a negócios com o meu pai, eles voltam amanhã.
Negócios? Ok. Imaginar aquele garoto de 17 anos, magricela e roqueiro usando um terno e viajando em jatinhos era o tipo de coisa que eu não conseguia imaginar. Ponto para a realidade, meu melhor amigo não estava aqui para me ver. Abracei Joana mais uma vez e fomos direto para os fundos da casa. A minha casa. Não parecia muito diferente daquela noite que eu fugi. A piscina de fibra ainda estava no mesmo lugar, havia algumas cadeiras de praia das quais eu me lembrava e várias mesas de plástico espalhadas em volta da piscina davam um clima de festa. Meu pai não estava fazendo churrasco, para a minha decepção, mas outro homem estava na churrasqueira de tijolinhos.
– Como você está? – Joana me perguntou se sentando e puxando uma cadeira para mim. Logo várias outras pessoas, alguns parentes, tios, primos dos quais eu lembrava vagamente, me cercaram. Todos sorriam e me perguntavam a mesma coisa.
– Eu estou bem – respondi – Só tenho um pouco de dificuldade para me mexer, mas os médicos disseram que com a fisioterapia eu vou melhorar. Por enquanto é só não me esforçar muito.
– Você está com fome, meu amor? – Uma das minhas tias, daquelas que só aparecem em eventos especiais, me perguntou tentando me empurrar um prato cheio. Eu senti meu estômago embrulhar. Confesso que não estava comendo muito bem desde que passei a me alimentar sozinha.
– Não, obrigada tia. – Recusei educadamente e continuei sentada respondendo às perguntas mais óbvias como “você está bem?” ou “você está cansada?”. Comecei a me sentir incomodada.
– Você está doida para se trancar no quarto, não está? – Joana me perguntou em um dos seus momentos eu-sei-exatamente-o-que-você-está-pensando.
– Não vou mentir, eu estou exausta.
Ela riu, bebendo mais um gole de refrigerante. Joana era loira, mas agora estava com o cabelo platinado, parecendo uma daquelas modelos europeias. Era quase engraçado vê-la em uma festa, bebendo em um copo de plástico e comendo carne com as mãos. Ela era a pessoa mais politicamente incorreta que eu já tinha conhecido.
– Falando nisso – falei, me lembrando de algo importante – Eu não vi Rodrigo, nem meu pai. Onde eles estão?
Joana hesitou. A essa altura você já deve ter percebido que eu criei um certo receio de hesitações. Sempre que alguém fazia isso, eu sentia que algo estava errado.
– Você já ouviu falar do Black Suits? – Ela perguntou divagando um pouco.
– Não. É alguma banda de rock?
– Começou um pouco antes do acidente... Eles não eram tão famosos na época. Rodrigo foi chamado para fazer parte da banda um pouco depois de terminar o ensino médio. Eles estão em uma turnê agora.
Mais uma vez eu precisei engolir informação demais. Meu irmão mais novo estava em uma banda famosa. Ok. Até que não era tão ruim, pelo menos ele estava bem. Ainda que eu quisesse vê-lo muito agora.
– E o meu pai? – Perguntei – Ele está no quartel?
Ela olhou nos meus olhos e segurou a minha mão. Um sinal na minha mente me alertou que o que estava para vir não era bom.
– Clara, eu acho que quem precisa conversar isso com você são os seus pais. – Ela engoliu seco – Mas eu não vou esconder de você... Patrícia e seu pai não estão mais morando juntos.
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