5 anos depois - HIATUS
10 Capítulo 10
Notas iniciais
DEPOIS
Na semana seguinte, o mundo voltou ao normal. Meus parentes pararam de me ligar por volta do quinto dia. As visitas terminaram no fim de semana. Minha mãe melhorou e Joana não precisava mais ficar na nossa casa. Amanda continuava distante. Nicolas continuava trabalhando. Tudo estava no seu lugar. Exceto eu, é claro.
Pelas minhas contas, era segunda feira. Eu costumava odiar segundas feiras. Acordar cedo depois de um fim de semana cheio não era muito agradável. Mas naquele dia eu acordei cedo, especialmente às nove da manhã, porque tinha um lugar especial para ir.
O Clube de Música Comunitário ficava em uma rua lotada de prédios grandes e imponentes, com fachadas de vidro e homens de terno e maleta saindo e entrando neles. Apertadinha entre dois edifícios, ficava a construção de tijolinhos de apenas um andar, mas que parecia ser maior por dentro do que por fora. O clube existia a quarenta anos, era quase uma relíquia.
Fazia muito tempo desde a última vez que tinha andado sozinha pelo meu bairro. Basicamente, tudo era o mesmo, exceto pela quantidade incrível de prédios novos que tinham sido construídos. Andar de novo, dar bom dia para as pessoas que passavam por mim, sentir o sol no meu rosto... Você não faz ideia de como eu sentia falta daquelas coisas. Cheguei até mesmo a quase entrar em um ônibus só para me lembrar de como era. Era como se dessa vez o mundo passasse em câmera lenta.
De todos os anos que eu tinha feito aquele mesmo caminho, eu nunca tinha notado como as árvores da calçada faziam um corredor perfeito, quase como uma vista hollywoodiana. O sol iluminava o centro da rua, e as calçadas tinham uma sombra generosa. Também notei o cheiro de pão fresco e bolo de morango que vinha da confeitaria portuguesa na esquina. As pessoas apressadas, sempre correndo por algum motivo, sempre falando, sempre com a mesma expressão de cansaço. Será que elas imaginavam que algo poderia acontecer a qualquer momento? Que um dia a vida delas poderia simplesmente parar?
Isso nem mesmo passava pela cabeça delas.
Eu sabia, porque já tinha andado daquele mesmo jeito. Com pressa, sem tempo para as pequenas coisas. Mas a vida tinha dado o seu jeito de me ensinar alguma coisa, afinal.
Avistei os dois prédios. O menor tinha fachada de vidro transparente e devia ter no máximo sete andares. O maior era negro, com um letreiro enorme onde se lia o nome de uma grande empresa de carros importados. No meio deles estava o clube. Os tijolinhos estavam desbotados e tinham adquirido um estranho tom rosa. O jardim já não tinha margaridas, a paixão do Sr. Beraldo, mas apenas mato bem cuidado. A fachada era a mesma, e a grade da entrada tinha sido pintada de branco, adquirindo um visual típico de casas do subúrbio americano.
Entrei. O Sr. Beraldo me esperava no hall de entrada. Ele tinha perdido peso, seu corpo estava fino e os ossos do rosto eram visíveis. Ainda assim, o sorriso era o mesmo, acolhedor, sincero e tipicamente italiano. Alguns alunos que conversavam sentados nas poltronas olharam em nossa direção, assim que fui puxada para um abraço pelo diretor.
– Clara! — Ele exclamou animado com o seu sotaque carregado — Nem acredito que estou te vendo de novo, garota!
– Bom dia, Sr. Beraldo — Sorri, ajeitando o meu cabelo assim que no afastamos.
– Joana me avisou que você viria — falou — Você não sabe o quanto eu queria ter você de volta aqui. Em cinco anos nunca vi alguém que fosse tão apaixonada pelo piano como você.
Flashes de memória passaram pela minha cabeça. Minha primeira apresentação, o concerto com a orquestra de um colégio alemão, a batalha de bandas em que eu fui forçada por Nicolas a tocar violão e acabei fazendo o nosso grupo perder… Tinha sido a tanto tempo assim?
– O seu trabalho é bem simples — ele continuou — Precisamos de alguém que entenda teoria musical para ensinar a turma iniciante. Não é muito difícil, os garotos nessa idade são bem tranquilos.
Voltei à realidade.
– Nessa idade? Quantos anos eles têm?
Ele limpou a garganta, um pouco desconfortável.
– Entre 10 e 13 anos.
Tranquilos? pensei, nem um pouco. Mas me limitei a sorrir e balançar a cabeça. Talvez uma mudança de clima fosse boa para mim.
– Tudo bem — respondi — eu já ajudava com as turmas infantis antigamente, não é?
Ele sorriu aliviado.
– É claro, Clara! Eu tenho certeza que você vai bem.
Me agarrei às palavras que ele dizia. Tudo iria ficar bem, no final das contas.
***
A minha turma me esperava em uma sala apertadinha. Todos pareciam ter no máximo 12 anos de idade. A maioria eram meninos. Senti minhas mãos suarem frio. Eu era uma professora. Meu Deus. Quanto tempo eu tinha dormido?
Senti todas as minhas aulas de teoria voltando à memória. Lembrava dos primeiros dias, tentando entender qual era a diferença entre aquelas milhares de bolinhas pintadas de preto e o que elas significavam. Fui para a frente do quadro e escrevi meu nome como sempre quis fazer quando era criança.
– Bom dia — disse por fim — Meu nome é Clara Fernandes. Eu sou professora de teoria musical.
***
A minha primeira aula não foi tão ruim como parecia. Pelo menos, não terminei com bolinhas de papel no meu cabelo. Admito que era um medo bobo, mas qualquer coisa passava pela minha mente àquela altura.
Dei mais duas aulas depois daquela. Em todas elas eram a mesma coisa, alunos novos e na maioria meninos. Fiquei surpresa em como consegui lidar com as piadinhas e a bagunça. Eu finalmente estava sentindo o peso da idade. Afinal, eu já tinha quase 22 anos, era uma adulta agora. Pelo menos, eu deveria ser.
Eram quase quatro horas da tarde quando terminei com a última turma. Estava cansada, doida para voltar para casa e deitar na minha cama, mas algo ainda me esperava. As palavras do Sr. Beraldo ressoavam na minha cabeça durante todo o dia.
– Depois das aulas, você pode tocar um pouco nos pianos do estúdio — ele disse enquanto me guiava até a sala — Nessa hora não temos nenhuma aula prática, então o máximo que vai acontecer é você encontrar o pessoal da limpeza.
Então ali eu estava. O estúdio, o meu lugar favorito de todo o clube, repleto de pianos que tinham sido doados ao longo dos anos. Agradeci mentalmente pela sala estar vazia e logo encontrei o meu alvo. Um Steinway modelo B. Senti como se as pontas de meus dedos pedissem por pelo menos uma música.
Deixei minha bolsa ao lado da banqueta e me sentei. Posicionei minhas mãos sobre as teclas, toquei. Meus dedos não acompanharam meu movimento. Eles travaram, se embolaram como se estivesse com câimbras.
Tentei. Uma. Duas. Três. E depois veio a dor. Nas mãos e na cabeça. O som estridente das notas fora de tom pareciam a trilha sonora de algum pesadelo. Senti meu rosto queimar. Era a mesma sensação de perceber pequenas partes do seu mundo desmoronando aos poucos.
Comecei a chorar. Pouco e silenciosamente. Os dedos ainda posicionados, esperando por alguma melodia. Solucei. Apertei minhas mãos, deixando que as minhas unhas ferissem a pele.
E então, ouvi um barulho.
Touca, uniforme, olhos verdes. Bem na minha frente.
– Me desculpe. — Você falou — Eu não sabia que tinha alguém aqui.
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