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4 Capítulo 4: Destino
Notas iniciais
Faz mais de 30 minutos que ficamos aqui sentando, escutando o tempo passar. Aquele barulho de relógio até que me confortava. Já fazia 1 mês que estou vendo o médico, mas nenhum progresso. Não acho que preciso de um médico.
— Sabe, um dia você terá que falar. Se não nunca vai parar de vir aqui.
O Dr. Hopper fala, calmamente. Desde o primeiro sessão ele espera que eu conte o que aconteceu lá, o que eu sinto, o que quero falar e outras 30 perguntas que eu não me lembro.
— Eu não preciso de médico.
Falo olhando para baixo, mexendo na unha. Toda sessão ele pegava o caderno e caneta dele, e ficava me encarando. Era meio constrangedor. Mesmo que eu não tenha falado nada a sessão inteira, ele observa e fica escrevendo em caderno dele. E hoje, ele fez o mesmo, me observou e começou a escrever no caderno.
— O que você coloca no caderno? Eu não To falando nada.
Falo meio irritada, talvez ele esteja colocando uma informação falsa. Ele tira o olho do caderno, olhando para mim.
— Estou escrevendo suas comportamentos, esse caderno serve como anotar as coisas que você falou, e sua comportamento também.
Disse ele sorrindo um pouco para mim, continuando:
— Agora,você está balançando a perna, isso indica que você está... Irritada, ou perturbada.
Paro de balançar a perna e viro os olhos. Odeio psicologia.
— Agora, volte para a sua memória, o que você vê? O que você sente?
Dr. Hopper pergunta, inclinando para frente um pouco e pegando a caneta já para escrever. Fico encarando a cara dele, sem responder. Alguns segundos depois, então ele fala:
— Sabe, você pode chorar, falar que dói, desabafar é bom, estamos aqui por isso. As vezes afundar nas memórias do passado, é bom.
Ele me observa, olhando nos fundos dos meus olhos. O jeito que olhava, parecia que conseguia ler a minha mente, minhas memórias. Então desvio o olho. Abro a boca finalmente para falar,quando o relógio toca. Era o sinal de que nossa sessão havia acabado, então fecho a boca. O médico desliga o relógio, um pouco decepcionado. Talvez porque achava que desta vez conseguiria algo de mim. Ele fecha o caderno e olha para mim novamente.
— Pense nisso. Até a próxima sessão, se afunde nas suas memórias, e me conte o que você sentiu, não precisa contar detalhe. Tudo bem??
Ele fala calmo, num tom de gentil. Concordo com a cabeça, sem responder. Eu poderia tentar fazer isso,já que era uma coisa constante que eu fazia. Mas não iria falar para ele o que eu senti. Não mesmo. Suspiro fundo e saio do quarto. "Eu te amo." Escuto uma voz antes de sair do prédio, então fecho o olho tentando ignorar. As vozes continuam e percebo que já é tarde de mais, já estava me afundando nas minhas memórias.
Talvez nós afundamos nas memórias do passado porque tem medo de coisas novas, novas pessoas, novo amor. Ou não, talvez porque diferente das pessoas, a memória não muda, mesmo que as pessoas tenham mudado.
************
**Emma's POV
— Oi.
Digo, e me arrependo de dizer. O jeito como eu disse fez com que soasse como alguém frágil, com medo. Então após alguns segundos, escuto uma voz grave e fria mas afeminada, descobrindo que quem estava comigo era uma soldada.
— Ah, oi. Você finalmente me respondeu.
Dou um pequeno sorriso, com um pouco de alívio, já que a pessoa não parecia ser o inimigo, que iria me machucar. Talvez seja de outra equipe. Penso comigo mesma. Procuro um lugar também e sento.
— Desculpe, eu pensei que fosse alguém, querendo me machucar.
Dou um suspiro, já procurando algo para comer. Mas eu não havia trazido nada, nem uma bolacha de água e sal, e água está com o Killian. Havia apenas balas de arma nas minhas bolsas, e eu havia deixado a minha mochila no deserto, ótimo...
— Tudo bem, não vou te machucar.
Ouço de novo a mesma voz grave,fria. Me dava arrepios ouvir a voz dela, mas ao mesmo tempo aquela voz me confortava.
— Ah... hm, sou Emma.
Falo confuso, não sabendo mais o que falar. Ouço uma risadinha dela, e automaticamente sorrio.
— Prazer, Emma. Sou... Regina.
Regina. Eu gosto deste nome. Penso comigo mesma. Bastante usada no EUA. Tiro o capacete de mim, e arrumo o meu cabelo louro que estava úmida. Ouço a Regina suspirar, mexendo na mochila dela.
— Tome uma, deve estar com fome.
Disse ela me entregando uma barrinha de chocolate. Ao pegar a barra toco na mão dela, apesar de estar chovendo e estar com uma temperatura ambiente baixa, a mão dela estava quente.
— U... Uau, barra de chocolate? Isso é raro. Eu posso mesmo?
Percebo que minha voz tremeu um pouco. Ouço uma pequena risada dela de novo fazendo com que eu ficasse mais confortável.
— Pode comer, tenho mais uma para mim.
Ouço barulho de embalagem sendo aberta e eu abro o meu também para comer. Estava faminta. Então o ambiente fica totalmente em silêncio, nenhum de nós abríamos a boca para falar algo. Geralmente essas silêncio me constrangia bastante. Mas essa não foi o caso. Sentia que cada vez que ficasse mais em silêncio nós dois ficamos confortáveis, como se já nós conhecesse a um bom tempo e que não precisava de palavras para nós comunicar.
— Você é nova? Digo... Como soldada.
Abro a boca finalmente, quebrando o silêncio.
— Não.
Regina fala num tom calmo. Ela era bastante fria. O que fez ela tornar desse jeito?
—E você?
Regina me pergunta.
— Sim, é minha primeira na verdade.
Bebo a água que Regina tinha me oferecido com a barra de chocolate.
— Eu matei um dos nossos soldados hoje.
Falo, calmamente. Não sei porque falei isso.
— ... Amigo fogo?
Ela fala confusa. Amigo fogo é quando um soldado mata o outro soldado, que não seja o seu inimigo, ou seja seu aliado.
— Ah, não. Não desse jeito.
Falo rapidamente, e suspiro antes falar.
— Ele estava ferido, não conseguiria sobreviver até levarmos para o base. Então...
Eu paro de falar um pouco, lembrando do momento. Eu precisava fazer isso. Foi a coisa certa. Mas não me sentia bem com isso, não me orgulhava.
— Você teve que matar.
Ela fala firme, completando a minha fala. Franzo a minha testa sem saber o que falar.
O silêncio surge novamente então percebo que a chuva havia parado. Coloco a minha blusa como travesseiro e deito nele. Apesar de chuva tenha parado a temperatura estava baixo e eu comecei ficar com o frio já que tirei blusa para usar como meu travesseiro. Espirro um pouco alto e tremo um pouco.
Ouço o suspiro da Regina, então ela fala:
— Tome.
Estico a minha mão para ela, procurando o que ela havia dado para mim desta vez. Mas a igreja estava escuro demais e não soube onde estava a mão dela.
— Aqui.
Ela puxa a minha mão, me dando uma blusa.
Sinto a minha mão esquentando assim que toco na mão dela.
— Você não se prepara? Como uma pessoa vai para campo e não leva mochila, nem uma blusa de reserva?
Ela fala num tom de sarcasmo, então fico sem saber o que falar. Eu não tinha esquecido de trazer essas coisas. Havia deixado no campo porque estava correndo perigo. Me irrito um pouco.
— Obrigada.
Digo, colocando a blusa, quando sinto um cheiro gostosa. Era perfume dela. Maçã? Sorrio um pouco, apesar de ela ser fria, ela tinha um lado fofa. Fico pensando se eu conseguiria voltar para o base. Mas talvez a Regina saiba voltar. Quando percebo havia pegando no sono, se afundando nas cheiros de maçã da Regina.
— Boa noite.
Ouço um sussurro, antes de minha consciência apagar totalmente.
—
Acordo de manhã com barulho de explosão, fazendo com que eu assuste. Olho em volta e vejo tapetes em todo o lugar, era igreja islâmico. Cheiro a blusa que eu estava vestindo, sentindo cheiro de maçã. Regina. Lembro dela e olho para atrás, onde ela estava sentada, já acordado olhando para mim. O cabelo dela era escuro, que estava um pouco mais comprido que o ombro. Percebo que ela estava com uma arma na mão. Ela fazia cara de surpresa.
— Bom dia.
Falo para ela calmamente, educada. Ela não me responde e faz uma cara mais confusa. Então vejo a roupa dela e concluo.
— Você... É soldada iraquiana.
Entendo o porquê dela estar tão surpresa, confusa.
— Pensei que era uma soldada americana, já quer falava inglês tão bem.
Continuo. Ela continua sem me responder então levanto, tirando a blusa e entregando para ela.
— Obrigada.
Falo sorrindo. Ela era a minha inimiga, eu sei disso. Mas é que... Eu não me sentia como se ela fosse minha inimiga.
— Err... De nada.
Ela finalmente fala, mas ainda confuso. Tento deixá-la mais confortável então digo:
— Você cheira maçã.
Dou risada ao dizer.
— Você não vai tentar me matar? Eu sou sua inimiga.
Ela Pergunta confusa. Então paro um pouco de dar risada, olhando nos fundos do olho dela.
— Não.
— Por que?
— Você também poderia ter me matado, mas não fez. Por quê?
Pergunto para ela. Ela estava com arma quando acordei, o que indica que tentou me matar. Mas não fez. Ela apenas da o ombro sem me responder. Escuto o barulho de explosão perto, então ela arruma rapidamente as coisas. Ficamos olhando um a outro por uns segundos então ela da a costa, saindo pela porta, deixando-me sozinha, com um sentimento esquisito. Olho em volta de novo. Em seguida saindo da igreja também. Nunca fui de acreditar em destinos, mas desta vez, tive uma esperança. Se isso existe mesmo, espero que eu encontre com ela novamente.
**Regina's POV
— Oi.
Finalmente escuto uma voz afeminado. Percebo que a voz dela estava tremendo como se estivesse com medo. Tento consolá-la, sem parecer muito íntimo. Dou uma barra de cereal de chocolate e água. Aparentemente ela não havia trazido a mochila dela. Quem faz isso? Ela quer morrer? Ela se apresenta como Emma, e que era novata na guerra. Dei uma risada de leve. Essa menina não calava a boca. Acha que estou estou ligando para isso? Mas apesar de ela ser um pouco tagarela, desastrada por não trazer a mochila dela, eu fico confortável ao escutar voz dela. A mão dela era quente, macia. Escuto espirro dela, e vejo que ela havia deitado, colocando a blusa dela como travesseiro. O olho ja estava acostumando com o escuro mas não enxergava quase nada. Suspiro fundo e pego uma blusa de reserva da minha mochila.
— Tome.
Falo, esticando a blusa para ela. Mas ela não sabia onde estava a minha mão, quando pego a mão dela para dar a blusa.
— Você não se prepara? Como uma pessoa vai para campo e não leva mochila, nem uma blusa de reserva?
Falo um pouco fria, me ajeitando também para deitar.
— Obrigada.
Fico um pouco sem graça. Então coloco a minha mochila como travesseiro, o ambiente estava silencioso, só conseguia ouvir a respiração dela, e meu coração batendo forte, a chuva já havia parado. Olho para onde ela estava. Talvez já tenha dormido. Penso um pouco e falo:
— Boa noite.
Digo sussurrando. Sabia que ela já estava dormindo mas desta vez não falo num tom frio. Não sabia exatamente porque eu falei isso para ela. O som da respiração dela me confortava. Fecho os olhos aos poucos então pego no sono.
—
Acordo com o sol forte na minha cara e barulhos de tiro já explodindo na minha cabeça. Olho em volta, o telhado da igreja havia desmoronada fazendo com que o sol entrasse para dentro. Então vejo uma loira deitada de costa para mim. Emma. Fico observando um pouco ela, o cabelo dela era comprido, talvez um pouco acima da cintura. O cabelo louro brilhava com sol batendo nele. Fico observando quando percebo uma coisa, deixando com que eu ficasse de boquiaberta. Ela era soldada americana. Era a minha inimiga. Pego a minha arma imediatamente, mirando nela. Fico segundos parado, com arma mirando para ela. Mas acabo abaixando a arma. Sinto que não era certo matar quando estava inconsciente e incapaz de se defender. Suspiro fundo sem saber o que fazer. No que fui me meter? Pergunto para mim mesma. Olho para ela de novo, e decido esperar até ela acordar. Olho para o colar do Jefferson com a filha dele, Grace. Como que devo dizer para ela que o pai dela havia morrido? Meus pensamentos foi interrompida quando ouço um barulho, então olho para ela. Ela havia acordado. Fico olhando para ela sem saber o que falar. Vejo que ela também percebeu que eu era uma soldada inimiga.
— Bom dia.
Ela me cumprimenta então fico surpresa. Por que ela não está tentando me matar? Sou inimiga. Fico confusa, sem saber o que falar.
— Você... É soldada iraquiana...
Emma fala calmamente.
— Pensei que era Soldada americana, já que falava inglês tão bem.
Ela continua e fico sem responder ela. A arma ainda estava na minha mão, apesar de não estar mais mirada para ela. Ela arruma o cabelo louro dela, em seguida tirando a minha blusa, me entregando.
— Obrigada.
Ela fala com sorriso, e fico mais confusa. Por que ela não está tentando me matar??
— Err... De nada.
Ambos fica em silêncio, só com os barulhos de tiros e explosão.
— Você cheira maçã.
Ela fala, dando uma risada. Eu coro um pouco sem saber o que responder. O que diabo estava acontecendo?
— Você não vai tentar me matar? Eu sou soldada inimiga.
Pergunto confuso. Então ela para de dar risada me olhando no fundo do meu olho.
— Não.
— Por que?
— Você também poderia ter me matado, mas não fez. Por quê?
Dou ombro sem saber responder.
Os barulhos de tiros começa a se aproximar então começo a guardar rapidamente minhas coisas. Coloco mochila nas costas e olho de volta para ela, que ainda estava parada. Ficamos segundos sem falar nada, apenas olhando para ela, então viro e saio da igreja, voltando para o base, sentindo que um dia nós iríamos se encontrar em outro lugar de novo.
"Você não pode fugir do seu passado, muito menos de quem se tornou."
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