CAPÍTULO 01

Você se lembra de quando a gente se conheceu? Um momento bem inesquecível, não é?

Um desafio e tanto até a gente finalmente se encontrar.

Foi no último ano do ensino médio quando tudo aconteceu. Eu namorava a menina mais gata do colégio, mas aí quando você entrou tudo mudou. Meu mundo virou de cabeça para baixo.

Se lembra da Cecília? Ela infernizou nossa vida um tanto, não foi?

Bem, foi em uma manhã do primeiro dia do terceiro ano. Você era novata na escola. Todos sabiam que os novatos sempre andavam juntos nos primeiros dias até cada um encontrar seu grupinho. Como eu quis que você se juntasse ao meu logo no primeiro dia.

O primeiro dia é sempre aquela mesma bobeira. Introdução, nomes, de onde é e o que quer fazer. Ah e também tem aquele “como foram suas férias”.

Confesso que não prestei atenção nas primeiras vezes que você falou, pois sabia que todos os professores fariam a mesma coisa — o dia todo.

Os primeiros tempos de aula passaram devagar e saí correndo da sala para não ficar preso com Cecília e os outros.

Thalita, a questão é que eu já estava querendo terminar aquele namoro mesmo antes de te conhecer. Mas foi com você que tive coragem de fazer o que já vinha procrastinando há tanto tempo...

Bom, o intervalo chegou e fui para a cantina. Comprei meu salgado, o mesmo de sempre, nem precisava pedir, pois a tia da cantina já sabia de cor! Ah saudades daquele tempo. Saudade de nós. Se ao menos eu soubesse que sentiria tanta falta assim…

Sentei em uma cadeira na mesa perto da cantina e foi quando tudo aconteceu. Te vi conversando com outra garota e você parecia tão animada! Fiquei te admirando por um tempo. Por tanto tempo que acho que ficou meio óbvio, pois o Henrique veio falar comigo.

— De olho na novata? — Ele perguntou com um tom provocativo. Apontando o guaravita para você e a outra menina que estava conversando. — Ela é mesmo uma gata. Mas deixa para os outros, mano. Você já tem uma. Além do mais deixa o papai aqui mostrar o que sabe fazer! — Ele disse animado. A minha vontade de socar a cara dele era enorme! Mas não podia começar fazendo showzinho logo agora na sua frente. Suspensão no primeiro dia de aula não entraria para o meu currículo.

A verdade — descobri depois de um tempo — era que eu estava com medo. Medo de acontecer algo contigo Thalita, simplesmente por conhecer a reputação do Henrique. Decidi a partir daí ficar de olho em ti.

Mas hoje eu sei que não era sobre você quem ele estava falando…

…

O intervalo passou e as aulas continuaram. Procurei por você na sala de aula. Te encontrei sentada no fundo. Só que do outro lado da sala. Sentada ao lado de má companhia. Juro que quis ir até você e te socorrer. Mas não podia fazer isso sem fazer uma cena. E como sempre eu estava envolvido em tudo! Os caras não me davam descanso.

Quando descobri seu nome, foi a coisa mais linda que já ouvi. Thalita. Ah que nome belo!

Você falou com uma paciência incrível e uma voz tão calorosa e misteriosa! Nem parecia que já tivesse falado a mesma coisa pelo menos umas 10 vezes naquele dia.

Thalita, eis aqui as palavras da minha primeira impressão de você: misteriosa, linda e perigosa.

Foi o suficiente. Acho que pode-se dizer que foi amor à primeira vista. Pelo menos para mim.

Mas quais eram as chances de nós darmos certos? Uma em um milhão? Decidi naquela manhã que valeria o risco.

Apesar de querer acabar com o namoro logo, não deixei de ser cavalheiro. Minha reputação também estava em jogo. Levei Cecília para casa e ainda ouvia-a reclamar de que estivera distante o dia tudo. Não só o dia todo, mas sim o verão inteiro. Não pude discordar. Estava mesmo evitando falar com ela. Fiz programas diferentes dos dela. Só ia em um ou outro evento para manter o clima.

Mas eu queria terminar já havia tempo. Não tinha como estar mais claro. No entanto, Cecília sempre dava um jeito de adiar o inevitável e não foi diferente naquele dia.

— Cece — Chamei-a ainda no carro. — Precisamos conversar. — Falei sério para ver se ela entendia de uma vez.

— Mas você não quer entrar antes? — Ela falou, acariciando meu rosto com suas unhas grandes, Juro que ouvi um pouco de desespero na sua voz. Puxei o ar e respirei devagar, segurando sua mão. — Minha mãe fez aquela torta que você tanto gosta!

Aí confesso que ela me pegou de jeito. A questão é que eu adoro tortas. Especialmente as de limão. Era o meu ponto fraco. Até hoje se alguém me dizer que tem torta de limão dentro de casa eu sou o primeiro a entrar.

Assim tirei as chaves do carro e entrei naquela casa mais uma vez. Mesmo sabendo o que estava por vir e que seria muito difícil escapar.

…

Naquela tarde entrei na casa de Cecília. Hoje em dia sei que não devia ter feito aquilo, pois aquela tarde mudara o rumo de toda nossa história. O que era para ser algo simples e descomplicado, tornou-se difícil e complexo.

Havia realmente uma torta de limão, mas já estava comida pela metade. Ninguém mais estava em casa. Só nós dois…

Thalita, sei que ainda não estávamos juntos naquele dia, mas me senti como se eu estivesse te traindo. Traindo o amor da minha vida. Que mal acabara de chegar e eu já estava fazendo besteira. Como sempre. É óbvio também que não sabia que você seria o amor da minha vida, nem conseguia chamar de amor ainda… era somente uma paixão e atração física descontrolada, mas por mais que tentasse não conseguai escapar e depois de um tempo tive que aceitar que você me ganhou por inteiro, desde aquele primeiro dia.

Bem, vou contar o que rolou naquela casa, caso você ainda não saiba da história. Eu estava pronto para terminar o namoro, mas Cecília como sempre arranjava um jeito de adiar, de desviar do assunto.

— Cecília, será que podemos conversar agora? — perguntei sério. Já estávamos no quarto dela e ela odiava quando eu a chamava pelo nome todo.

— Cecília? Credo! — Ela reclamou, fazendo cara de nojo. Cece riu sozinha.

— Meu bem, é algo sério que quero conversar e você não está me dando atenção quanto a isso. — Fiz cara de bravo.

— Lorenzo…- ela falou meu nome e chegou mais perto. Estávamos sentados na cama. Tentei me afastar, mas ela chegava cada vez mais perto. — Escuta, sei que não sou o tipo de garota aberta a tudo, mas estou pronta. — Olhei para ela confuso.

Até que ela colocou uma mão no meu rosto e começou a beijar meu pescoço.

— Cece. — Tentava me afastar ela. A verdade é que eu sempre quis e ela sempre dizia que não estava pronta. E naquele momento, justo naquele momento ela dizia que sim? Então me perdoe se fui um pouco relutante para afastá-la, porém sou humano e hoje reconheço meus erros. Sem conseguir resistir, deixei que ela chegasse mais perto e bom, o resto você não precisa saber.

O que você precisa saber é que fui para casa aquela noite com meus pensamentos mais claros que nunca. Ou pelo menos eu achava. Meus sentimentos por você, Thalita, eram visíveis. Mesmo tendo acabado de te conhecer meu coração batia pela menina nova de cabelos castanhos tão misteriosa…

Ansiava conhecer mais sobre você.

Sim confesso que foi errado usar Cecília daquele jeito, mas nem tudo são contos de fada, não é?

Em vez de ir para casa pensando em você, devia ter pensando nela, não? Que tipo de cara faz isso?

Mas foi nesse dia, apesar de tudo o que aconteceu, nosso romance começou. O primeiro dia de 365 pela frente.

E sei que talvez você não queira começar a ler uma história onde o cara está com outra, mas tenho que dizer o quanto aquele dia significou para mim e a verdade é que nem tudo são um mar de rosas., principalmente a nossa história.