365 Dias Sem Você
3 Capítulo 02
Capítulo 02
Querida Thalita, você se lembra dos nossos sonhos?
Eu queria ser surfista profissional. Você escritora.
De mundos tão diferente como podíamos dar certo? Era uma chance em um milhão mesmo.
Mas como é mesmo aquele ditado?
“Os opostos se atraem”
Hoje eu não tenho nenhuma dúvida de que foi isso o que aconteceu entre nós. Os opostos se atraíram. Você é e foi meu ímã todo esse tempo. Parece que tudo o que fiz e faço gira ao seu redor e acabo sempre voltando para você. Para a nossa história.
E assim o segundo dia não poderia ter sido pior.
Não consegui terminar meu namoro e você apareceu tão linda outra vez. Vi você chegar e se dirigiu ao mesmo lugar do primeiro dia. Com as mesmas companhias. Antes das aulas começarem, fui na sua direção, com os olhares dos nossos colegas acompanhando cada movimento. Por que era tão ruim assim falar com o aluno novo?
— Oi — Falei um pouco tímido. Eu não costumava ser daquele jeito, mas você me deixava assim. Você olhou para mim e sorriu. Meu coração bateu mais forte.
— Oi — Você respondeu.
— Thalita, não é? Quer ir sentar ali com a gente? — Eu disse apontando pra onde estava. Meus colegas encaravam surpresos. Você anuiu e deu de ombros. Fui para o meu lugar com você atrás e pode imaginar a minha alegria quando você se sentou ao meu lado?
Podia ouvir os cochichos da turma começarem. Se ao menos soubessem o que aquele dia e aquela decisão traria para nós.
Mas se você estiver pensando que eu faria tudo de novo, está certa! Contudo, não faria nada diferente. Acho que por mais que tenhamos passado por tantos desafios, eu não mudaria uma coisa sequer.
Pois a vida me apresentou ao amor e dele não quero me desprender nunca mais.
Naquele mesmo dia, Cecília apareceu na sala, com o maior sorriso que já tinha visto. Ela se sentou ao meu lado esquerdo, como sempre fazia, a cadeira já fora reservada para ela. Cece me deu um beijo na bochecha e quando olhei de soslaio para você notei que estava desconfortável com a situação. Mas Cecília sendo Cecília não ía deixar de fazer uma cena.
— O que a garota novata está fazendo aqui? — ela disse alto o suficiente para metade da turma se virar e ver o que estava acontecendo. Suspirei. Era esse tipo de comportamento que não aguentava mais. — Não sabe que os novatos não andam nem sentam perto dos veteranos? — Ela continuou a provocar, praticamente cuspindo em você. Olhei para você e murmurei um “desculpa” baixinho. Mas pelo visto Cecília ouviu.
— Por que você está pedindo desculpa para ela? Pelo visto ela não sabe que não é para andar com a galera de cima?
Galera de cima? Como é?
— Cece…- Tentei chamá-la. Mas ela já estava longe do meu alcance. A partir daí soube que ela ía nos atormentar pelo resto das nossas vidas.
— Lorenzo, vamos nos sentar em outro lugar. — Ela disse pegando suas coisas e levantando do lugar. Vi que você olhava confusa para nós. Sim éramos um casal estranho. Não posso negar isso.
— Não. — Disse firme. Fiquei parado, sentado no meu lugar, que era ao seu lado. Cecília bufou. A turma toda ficara em silêncio, prestando atenção no que estava acontecendo. Vários murmúrios pela sala. Olhei para o lado e vi você rindo. E que risada mais gostosa! Você lembra da cara que Cece fez? Foi a melhor! Não pude deixar de rir com você.
— É sério que você vai ficar do lado dela? — Ela disse com raiva, ficando cada vez mais vermelha. A cada palavra que ela dizia eu me perguntava cada vez mais como foi que um dia fiquei com ela? Eu me tornei uma pessoa tão desprezível quanto ela?
Para minha salvação, não deu tempo de responder, pois a professora logo entrou e começou a dar aula. Cecília voltou a se sentar ao meu lado, bufando e resmungando.
Assim o dia se passou. Puxei assunto com você e começamos a conversar de verdade. Soube aí que você queria ser escritora. Contei sobre meu sonho de ser surfista. E rimos da nossa piada sobre fazer um livro que envolvia um surfista. Esse seria nosso segredinho. Peguei sua caneta emprestado e logo vimos isso se tornar um hábito (eu sempre esquecia a caneta!).
No final do segundo dia já estava indo embora, quando lembrei que sua caneta ficou comigo.
Sai correndo descendo as escadas e parei ao notar que você ainda estava no colégio encostada na grade, olhando para a rua. Me aproximei devagar e te entreguei a caneta. Você sorriu e eu me derreti.
— Desculpe por hoje. — Sentia que te devia desculpas pelo modo como Cecília agiu. De certa forma me sentia responsável.
— Pelo que? — Você pareceu não entender. Não entendia mesmo ou só estava fingindo, me fazendo falar?
— Por ela. — Falei suspirando e apontando a cabeça para Cecília. Você deu de ombros. Resolvi arriscar. — Você quer uma carona? — Perguntei com medo da resposta.
Viu, é assim que você me deixa. Com medo. Com medo de tudo. Com medo de você. Com medo do que poderíamos ser. Com medo por nunca ter me sentido assim.
Mas aí ouvi um carro buzinar. Olhamos para a rua e vi um camaro. Um camaro vermelho com as janelas pretas. Nem sabia que camaros podiam ter essa cor. Quem era o rico idiota que andava com um camaro em plena cidade de Cabo Frio?
Até que a porta se abriu e todos que estavam ali se viraram para ver de onde o som alto estava vindo. E era dele. Daquele carro. Que pertencia àquele idiota.
Um cara loiro saiu do carro. Ele era alto e bem definido. Usava bermuda e camisa regata. E tentava com o óculos de sol se passar por descolado. E o chiclete que ele mastigava não ajudava em nada. Ele acenou para mim. Pensei de onde conheço esse cara? Mas, Thalita, não era para mim que ele acenava e sim para você. Confesso que no momento tive esperanças de ele ser seu irmão ou algo do tipo. Mas é claro que as coisas nunca funcionam assim, não é?
— Hoje não preciso não .- Você disse com aquela voz tão meiga e misteriosa ao mesmo tempo. — Mas obrigada. — Agradeceu e acabou segurando meu braço, dando um beijo na minha bochecha. Fiquei paralisado. Aposto que você não sabe o que aquele toque me fez sentir. Meus pelos se arrepiaram e meu coração bateu mais rápido. Minha bochecha queimava no local onde seus lábios tinham me tocado. Eu estava apaixonado! Desejei que você ficasse ali encostando em mim para sempre, mas como o universo sempre tem outros planos! — Tenho carona hoje. E além do mais você tem problema suficiente já. — Você disse ao ver Cecília se aproximando. Ela parecia furiosa. E assim saiu correndo na direção daquele loiro, dando um beijo nele. Não um beijo na bochecha, como eu torcia, mas sim nos lábios. Um beijo que parecia tão caloroso e correspondido. Ah como eu queria ser aquele idiota sortudo!
Mas a minha realidade bateu quando Cecília se aproximou e me abraçou, para logo em seguida me beijar. Deixei que ela me beijasse. Estava tão atordoado pela cena que tinha acabado de presenciar, que não tive tempo para reagir.
— Aquela menina outra vez? — Ela falou nos meus ouvidos. Fechei os olhos, talvez assim não sofreria tanto.
Segurei a cintura dela e a beijei. Esperando que assim ela se esquecesse do assunto.
E naquela fração de segundo senti todos os sentimentos possíveis de um cara apaixonado de coração partido: Amor, inveja, ciúme, tristeza e superação. Sim, cheguei a pensar que eu conseguiria te superar algum dia e mesmo que tenha convivido com você por apenas dois dias, senti algo que nunca tinha sentido antes. Nem mesmo com Cecília e nenhuma outra garota. Você foi especial desde o início. E se algum dia duvidou do meu amor, me perdoe, mas eu te amei desde o início, desde o primeiro dia.
…
Como o segundo dia foi um desastre! Começou da melhor forma possível, e o final foi o pior!
No entanto, mal sabia eu que esse era apenas o começo da nossa história. É um narrador construíndo a obra até chegar ao clímax.
— Desculpe Lo,..- Cecília falou enquanto ainda se agarrava a mim. — Não era minha intenção falar daquele jeito! Se você quiser adotar aquela novata tudo bem por mim! Ela pode entrar para o nosso grupo. — Ela disse a frase da pior maneira possível. Mas apesar de tudo estranhei o fato de ela estar sendo legal com isso. Quem conhece Cecília sabe que não poderia conseguir melhor que isso.
Naquele dia, não tive opção a não ser levá-la para casa. E por mais que antes eu quisesse terminar aquele namoro, agora via-o como minha única escapatória.
Estacionei na frente da casa dela. Já sabendo o que me aguardava. Ela me convidou para entrar e mais uma vez eu aceitei. Fiquei lá até de noite.
Os pais dela pareciam nunca estar em casa. “Viajavam a negócios”, Cecília dizia sempre que eu perguntava sobre eles. Deixei o assunto de lado.
E a cada momento tudo o que eu pensava naquele dia era em te esquecer. Ficava repetindo para mim mesmo, que não estava apaixonado por você, não de verdade, eu mal te conhecia! Mas todo meu esforço foi em vão. Não havia remédio que curasse o coração.
…
A noite quando cheguei em casa, tomei um banho e fui logo para a cama. Deitei abraçado com minha almofada encarando o teto. Seu rosto e sorriso vívido na minha mente. Como eu quis esquecer aquele rosto tão bonito! Encostei a minha mão na bochecha no local onde você tinha minha beijado. Ainda sentia o calor do momento fluindo pelo meu corpo.
Eu deveria era estar pensando na Cece e na tarde maravilhosa que tivemos — outra vez. Mas que droga! Você roubava meus pensamentos toda vez. Desde a primeira vez que te vi não consegui mais parar de pensar em você, Thalita.
Sei hoje que o que fiz foi errado — parece que todo dia faço algo errado, mas se acostume logo, pois esse livro terá um eterno pedido desculpas a cada capítulo.
Hoje arrependo-me de tê-la usado. Mas fiz o que qualquer adolescente no meu lugar faria.
Besteira. Idiotice. Apesar de não ter achado isso na época. Eu usei Cecília das piores formas possíveis e até hoje me arrependo por causa disso. Acho que ela merece uma livro de desculpas também, apesar de ter nos feito sofrer tanto,...
No entanto, essa história não é sobre ela. É sobre nós. Eu e você, Thalita. Especialmente você.
Até hoje quando olho para as estrelas me pego pensando em todas as formas que você me ensinou a amar. Posso já ter falado isso tantas outras vezes e continua sendo a mais pura verdade. Você mudou minha vida. E continua mudando. Todo santo dia.
À medida que escrevo essa nossa história, percebo o quanto tudo e todos sempre pareciam torcer contra nós. Será que existe mesmo esse negócio de destino? Pois saiba que até hoje ninguém nunca tomou seu posto na minha vida. Você ainda está lá, quietinha naquele cantinho especial do meu coração, esperando algo acontecer para chamar reaparecer.
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