3018 - Entre Muros
1 Bloco I
Acordo com um som ensurdecedor nos ouvidos, claro! Mais um ano terra começa, e com ele, toda rotina que tivemos no ano terra anterior, mas apesar de tudo, os selecionados ainda conseguem comemorar como se fosse algo novo, bom, eu não sou um deles, só quero voltar a dormir, mas o som de gritos e buzinas me enlouquece e logo perco o sono, e quando menos espero, meu irmão selecionado William entra pela porta.
— Meu irmão selecionado — diz William, atravessando a porta.— Will — Digo da forma mais tediosa possível — Se você veio tentar me convencer de novo a me misturar com os outros, perdeu seu tempo.— Você já tem vinte e um anos terra Thomas, já está na hora de socializar e conhecer os selecionados.— Eu conheço os selecionados. Eu já sei o que ele vai dizer, na verdade os selecionados que conheço são apenas os que fazem parte do meu distrito empregador.— Os selecionados do distrito empregador não contam — como eu esperava — Vamos?— Estou bem aqui, estou cansado de ver tudo do mesmo.— Tudo bem, se mudar de ideia, sabe onde me encontrar — diz Will, saindo pela porta. Aqui no Bloco I, como é chamado meu único país, vivemos isolados entre enormes muros de cinquenta metros, feitos dos materiais mais fortes para nos proteger da radiação, na escola os professores nos contavam que somos o último país do planeta terra e temos sorte de estar aqui, pois todo o resto se destruiu em guerras, tudo culpa das mulheres, que tentaram erradicar os homens, mas nós vencemos, e hoje elas são extintas, dizem que conseguimos a paz, mas pra mim ela nunca existiu, bom, pelo menos não tem mulheres tentando nos destruir. Os historiadores dizem que as mulheres eram seres humanos que se pareciam com nós homens, mas com cabelos grandes e violentas, que viveram á mil anos atrás, eu nem consigo imaginar, e nem quero, parece mais uma lenda pra assustar meninos selecionados, de toda forma, aprendemos a não questionar certas coisas, só temos que focar no nosso futuro e não olhar pra trás. Finalmente o barulho acabou e o sono voltou, encosto a cabeça no travesseiro e quando menos espero, pego no sono. ••• O despertador toca ás 7h da manhã, não tenho tempo pra pensar, apenas levanto e vou pra baixo do chuveiro. Começa mais um dia, como todos os outros, eu só queria que um dia na vida algo novo acontecesse. Desço as escadas e meu irmão selecionado já está na mesa. Eu fui escolhido para morar com ele quando tinha apenas meses terra e ele apenas um ano terra, ficamos com um líder selecionado, eles ficam com nós até completarmos dezesseis anos terra, quando chegamos nessa idade, eles simplesmente partem e temos que nos virar sozinhos, mas o Will é quase um líder selecionado, ele cuida de mim, tenta me enturmar com os outros selecionados, mas eu prefiro ficar sozinho, quem sabe ele entenda algum dia.— Bom dia! — digo.— Perdeu a maior festa, jogaram o Brad dentro do lago, ele pegou um resfriado — diz Will animado — Preparado pra mais um ano terra?— Por mim esse podia ser o último.— Humor da manhã, já entendi. Café? Acordei enjoado e só quero dar uma volta na praça antes de ir para o distrito empregador, mas como não quero preocupar o Will, apenas balanço a cabeça negativamente e saio. Ele não questiona. Saio pela porta vestindo meu traje de trabalho, um macacão branco, os outros selecionados costumam olhar pra mim de forma estranha, pois minha estatura alta e magra soa muito estranha dentro desse traje, mas eu não me importo, já estou acostumado com o desprezo dos homens, a maioria é desprezível, deve ser por isso que as mulheres começaram uma guerra, seria cômico se não fosse trágico. Apesar de existir uma imensidão de cores, as cidades costumam manter um padrão de cinza cimento em praticamente todas as casas, minha cidade, sub-bloco 26 fica na extremidade do país, devidos os enormes muros, quase não sentimos o sol em grande parte do dia, vivemos em uma escuridão compartilhado com o cinza da cidade, é como se estivéssemos em um mundo morto, o que não está longe da realidade. A maioria dos homens começa a trabalhar bem mais cedo, eu ainda tenho alguns minutos graças ao meu teste de aptidão. Quando terminamos a escola, passamos por um teste de aptidão, e de acordo com a sua nota de 0 á 100, você é designado para seu respectivo distrito empregador, eu tirei nota 47, de acordo com a lista de distritos empregadores, 47 é técnico em enfermagem, tudo bem, eu gosto do que faço, acho que não me daria bem se tivesse nota 100, líderes da cidade, me comunicar não é o meu forte, aqui literalmente você é sua nota, ela vai dizer o que você é, pelo menos, eu não estou no trabalho pesado. Meu distrito empregador é um hospital, eu fico no setor de vacinas, mas é uma vacina em especial chamada Purificadora, que cada homem tem que tomar todos os meses terras, durante toda a vida, ela funciona como um tipo de imunidade pra certos tipos de doenças, pelo menos é o que dizem, na verdade ninguém nunca questionou.
Chego ao meu distrito exatamente ás 8h como todos os dias, entro na minha sala e lá está John, meu parceiro de setor, talvez ele seja a pessoa mais próxima que chega a ser amigo, ou talvez apenas um parceiro de trabalho.— Tom — diz John — Como foi seu novo ano terra?— Acabou de começar — digo, mas não sinto necessidade de perguntar de volta, não estou interessado, então só mudo de assunto — Hoje é seu dia de receber a Purificadora não é mesmo?— É sim, mas já administrei em mim mesmo antes de você chegar.— Você está ficando bom nisso — digo, mas sei que não é algo difícil de fazer.— Anos terra de prática — diz John sentindo-se orgulhoso. John é um rapaz forte e bem alto, o sonho dele era a medicina, mas pra isso ele teria que ser nota 96, mas está aqui sendo um 47, mas ele não costuma reclamar muito disso, ele dá o melhor de si, e é bom no que faz, as pessoas costumam gostar dele, ao contrário de mim, sou invisível nesse lugar, mas não ligo, estou acostumado. Os homens começam a chegar e meu dia de trabalho começa oficialmente, sei que vai ser um dia comum como os outros, homens com medo de agulhas, outros sendo grosseiros, e outros que não param de falar, então só espero que chegue logo meu horário de ir embora, apesar de ser um lugar bom para trabalhar, nada se compara a minha casa e o conforto da minha cama, longe dessas pessoas. Mas por enquanto, tenho que aguentar firme. ••• Finalmente o último selecionado sai pela porta, arrumo minhas coisas e me despeço do John, não costumo dramatizar despedidas, amanhã estaremos aqui de novo. Quando chego ao Hall do hospital, vejo vários selecionados ao redor do telão, fico curioso e me junto á eles. Na tela está escrito as palavras 'mensagem de líderes em 5 minutos', decido esperar, mensagem de líderes são raras, apesar de eu achar que não é nada importante, deve ser algo como felicitações do novo ano terra. A tela acende e nela está Oliver Brown, ele é líder de cargo maior, ou presidente. Os outros olham entre si, não é comum um líder maior entrar em contato com as pessoas.— Boa noite selecionados, primeiro quero desejar um bom novo ano terra, mas não é pra isso que estou aqui — diz o presidente, mudando drasticamente o tom — Nossa cidade está em alerta, então hoje o toque de recolher estará ativo ás 20h, não serão permitidos ninguém fora de casa ou de seu distrito empregador. Começa um murmúrio e perco algumas palavras do líder, não é normal essas coisas acontecerem, o último toque de recolher foi uns dois anos e ninguém nunca soube o motivo, mas também ninguém nunca questionou, finalmente as vozes se acalmam e posso ouvir novamente.— Não entrem em pânico, logo tudo estará resolvido e o toque será desativado, tenham uma boa noite — diz o presidente, logo em seguida o telão apaga. Todos começam a se dirigir para suas casas, ainda temos uma hora livre, então terei tempo suficiente para ir para casa. Vou andando, pois os únicos homens que possuem carros, são os notas 70 para cima, é a média para comprar veículos, não me incomodo, a cidade é pequena e quase tudo fica muito perto, a rua não está totalmente vazia, há alguns guardas em cada 10 metros, talvez seja algo bem grave, não penso muito sobre, apenas caminho. Ando por um tempo, acabo esquecendo-se do horário, olho para o relógio, tenho apenas 10 minutos, preciso correr, não quero receber uma multa, começo a andar, mas já é tarde, um guarda vem em minha direção.— O que você está fazendo? — diz o guarda, em tom grosseiro — Você tem 5 minutos pra chegar á sua casa, eu sugiro que corra, caso não queira receber uma multa.— Acabei perdendo o horário, desculpe — digo, e sigo meu caminho o mais rápido possível. Os guardas da cidade são homens arrogantes e nada pacíficos, deve ser porque eles são nota 69, uma nota a menos do limite das profissões respeitadas, da para entender a frustração. O amigo do meu irmão selecionado, Brad, é um guarda, por algum motivo ninguém o leva a sério, mas também ele nunca foi o selecionado mais sério na juventude. Quando chego em casa, Will está esperando na mesa, girando uma colher, eu conheço isso, ele está nervoso, não posso culpa-lo, cheguei cinco minutos depois do horário.— Onde você esteve? — Diz Will nervoso.— Desculpe, eu perdi o horário — digo — Está tudo bem?— Agora está, eu vou subir, estou com sono — diz Will, subindo as escadas. Depois que o Will tirou 53 no teste de aptidão, ele se tornou um futuro líder selecionado, e daqui um ano ele terá que me deixar para cuidar de outras crianças selecionadas, eu sinto a culpa que ele sente em ter que me deixar só, ele nunca achou que eu pudesse cuidar de mim mesmo, sentirei falta de uma companhia, mas eu conseguirei me virar só. Subo as escadas, mal posso esperar para descansar, não tenho muito tempo de descanso, então preciso aproveitar cada minuto que tenho, vou para baixo do chuveiro, preciso tirar todo esse cheiro de hospital do meu corpo, visto as roupas mais confortáveis, uma calça folgada e uma camiseta, desço as escadas, estou morrendo de fome, meu corpo está mole, não como direito no meu distrito empregador, a ideia de hospital e comida juntos, não me cai bem, então só como o necessário para ficar de pé e terminar o trabalho. Abro a geladeira, vejo dois pedaços de pizza, como não tenho outra opção como gelada mesmo, aqui não temos costume de cozinhar, então só compramos e comemos sobras, eu não sei cozinhar, nosso líder selecionado não nos ensinou, e também não tenho muito interesse em aprender. Sento á mesa próxima á janela, lá fora está escuro, nossa casa fica á 20m do enorme muro, então não temos uma vista agradável, não há nenhum guarda, mas na verdade nunca há mesmo por aqui, por isso nós e os vizinhos evitamos sair esse horário, nunca ouve nada, mas deve ser por termos muita cautela, olho o meu celular procurando por notícias na internet, não encontro nada que já não saiba, apenas sobre o toque de recolher, nós temos cota de internet, só pode ser utilizada fora do meu horário de trabalho, então a partir das 8h, a minha é desativada e reativada após as 19h, essa regra vale para todos os selecionados abaixo de 70, para que não haja distrações, o governo é bem rígido na maioria das regras, somos escravos do sistema, isso nunca foi segredo pra ninguém. Acabo a minha refeição, a casa está suja, retiro o lixo do sexto, acho que não fará mal se eu for até a lixeira na rua, abro a porta e olho, não há guarda nenhum, saio, está frio, não há ninguém nas ruas, luzes apagadas, é como uma cidade deserta, caminho até a lixeira, ouço um barulho de um galho se partindo, me assusto, deve ser algum gato, mas não decido arriscar, pode ser um guarda, me escondo atrás da lixeira, não ouço mais o barulho, levanto, vou em direção á porta de casa, um barulho de galho se quebrando atrás de mim, olho para trás, alguém caiu da árvore perto do muro, não é um guarda, o homem levanta, o cabelo cai pelas costas. Não é um homem, sinto um calafrio, não estou sonhando, não é um pesadelo, o vento bate no cabelo enorme enquanto me encara, a massa cinzenta do outro lado da rua foge, eu sei o que era, mas não quero acreditar, não era um selecionado. Era uma mulher.
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