A guerra foi terrível, somos descendentes dos poucos homens sobreviventes, dizem que as mulheres queriam o comando, sem espaços para nós, assim começou dez anos de destruição, o mundo se dividiu, muitos morreram, até que conseguimos tomar o controle, as poucas sobreviventes foram presas e receberam sentença de morte, a terra começou do zero, vivemos onde já foi um dia chamado de América do Sul, tudo se acabou, as bombas nucleares causaram destruição em massa e tudo que sobrou foram incêndios e radiação. Nossos antepassados homens são os responsáveis por terem criado nosso país com o pouco de terra que sobrou, chamaram de Bloco I e dividiram em 28 sub-blocos, governado pelos notas 100, cada um com sua cultura e costume, somos gerados pelo governo, eles selecionam onde e com quem você vai viver quando nasce, por isso somos chamados selecionados, eles nos colocam com um irmão selecionado e um líder selecionado, e vivemos, não temos muito, mas estamos vivos e protegidos, não podemos atravessar os muros, eles nos separam de destroços e do que um dia foi uma zona de guerra, e quem tentar passar por eles recebe sentença de morte por desrespeitar as leis, não podemos nos expor á altos níveis de radiação, isso acabaria com o pouco que sobrou.

Eu sempre fui tímido, então na escola eu nunca falava, era do jeito que o governo queria, não questione, aceite o seu passado e viva seu futuro, qualquer um que tente dizer o contrário é considerado traidor e é castigado, os outros alunos foram punidos pelos professores por questionarem, você é obrigado a aceitar o que vem de um 71, pois eles fazem parte do topo da hierarquia e nós somos o resto.

Eu acreditava nisso, até agora.

•••

Abro os olhos no meio da noite, olho o relógio, são exatamente 2:16 da madrugada, será que eu estava sonhando? Não, não estava, eu sei o que vi.

Saio da cama, coloco um casaco e desço as escadas, está tudo calmo, o silêncio me incomoda, me sinto só, talvez eu esteja, vou até o quarto do Will, abro a porta lentamente para não acorda-lo, ele está dormindo, ouço sua respiração, talvez eu deva contar o que aconteceu, não sei se acreditaria, ele podia me entregar para o governo, onde me castigariam com tortura até eu admitir que eu estava mentindo, decido não arriscar, eu estou sozinho nessa.

Abro a porta de fora, não há ninguém, eu não sei bem o que devo fazer, talvez eu volte pra cama e finja que nada aconteceu, isso seria mais fácil, mas algo está me incomodando, se elas são perigosas, por que ela fugiu? Por que estava aqui? Atravesso a porta, o vento sopra, sinto um frio, estou nervoso, não sei bem o que estou tentando fazer, mas mesmo assim sigo em frente, caminho até o outro lado da rua, onde está a árvore de onde a mulher caiu, os galhos estão despedaçados pelo chão, e a grama está amassada, olho entre os galhos, não há nada, como eu esperava, ela já deve estar longe nesse momento, ouço passos atrás de mim, fico paralisado, alguma coisa gelada encosta na minha nuca, e meu medo se torna real.

— Não se mexa se não quiser levar um tiro — diz a voz atrás de mim — O que você está fazendo aqui?

— Você é uma mulher? — digo com a voz tremula.

— O que você acha?

— Eu não tenho certeza do que vi — digo, mas não é verdade, eu sei o que vi.

— Sim, você não respondeu minha pergunta, o que está fazendo aqui?

— Eu vi você algumas horas atrás, queria saber se era real.

Quando eu saí pela porta eu só tinha uma certeza, que nada disso fosse real, mas agora está claro que é, e agora eu vou ser morto por ela.

— Eu sou real, estava esperando você aparecer — diz a mulher.

— Eu? — digo assustado — O que você quer de mim?

— Não posso deixar que me entregue.

— Eles sabem que você está aqui, acionaram o toque de recolher.

Se eles acionaram o toque de recolher por causa dela, eles sabiam sobre as mulheres, quer dizer que nos enganaram por anos.

— Eu sei, mas você não pode dizer que me viu — diz ela.

— Vai me matar?

— Não, eu quero sua ajuda.

Por essa eu não esperava, o que ela ia querer de mim?

— Com o que?

— É uma longa história, vou baixar a arma, se você correr, eu atiro entendeu? — sua voz está mais grossa.

Eu concordo com a cabeça.

Sinto a arma desencostando da minha nuca, sinto medo em ter que virar, mas tenho que fazer isso, me viro, ela aponta a arma, eu levanto os braços.

Quando eu pensava em mulheres, a primeira coisa que vinha em minha cabeça era uma versão monstruosas de nós homens, mas não é bem isso, ela se parece comigo, mas de certa forma diferente, ela é um pouco mais baixa, tem cabelos longos e morenos, e tem um volume estranho no peito, deve ser algum tipo de armadura, eu não sei bem. Ela começa a falar, mas estou meio atordoado, então ela repete.

— Qual o seu nome? — repete.

— Thomas. Thomas Ford, e o seu?

— Não confio em você.

— Mas eu disse o meu — digo indignado.

— Escute, eu preciso que faça uma coisa por mim — diz ela confiante — Qual o seu dia de tomar a Purificadora?

— Por quê?

— Responde

— Dia 3

Não deixo de achar estranho o rumo que a conversa levou, estou com medo, não sei se devia ter dito isso.

— É daqui dois dias, não tome a vacina, você tem que dar um jeito de enganar os administradores.

— Eu sou o administrador — rebato

— Sério? Então vai ser mais fácil, se quiser que eu confie em você, esteja aqui nesse mesmo horário no dia 3, mas não tome a Purificadora, você não servirá para mim sobre o efeito — diz ela virando de costas — Se quiser saber toda a verdade.

Não tenho tempo de responder, ela simplesmente sai correndo.

O que eu estou fazendo? Não quero estar aqui de novo, eu não farei o que ela pediu, eu não posso, tudo isso parece tão irreal, olho no relógio, são 3:04, corro para casa o mais rápido possível, se eu quiser saber a verdade? Eu não preciso de verdade, não posso questionar, vou fingir que nada disso é real, talvez seja melhor pra mim, olho pra trás, não vejo mais ninguém, e espero não ver mais.

Eu não quero a verdade.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.