25 gatos
1 Sonho....?
A faculdade sugava meu sangue e finalmente estava no último semestre do curso de Design. Não consigo parar de pensar no que vai acontecer quando terminar.
Meu foco no momento está virado em encontrar uma casa, que eu possa pagar. E também um emprego, o que sinceramente não vai ser nada fácil.
***
–COMO ASSIM RODRIGO?!-Não acreditava no que ele acabara de falar
–Isso mesmo Anna. Sem mais, nem menos.
–Mas Rodrigo foram apenas três meses de aluguel atrasado!-Ok, não que seja pouco, mas para uma garota que trabalha como "a menina dos cafés" em um lava-jato isso era pouco! Rodrigo é meu ficante e proprietário da casa onde moro. Eu sei, parece que fico com ele só para ganhar desconto, mas realmente ele é uma boa pessoa, ou era.
–Anna, eu tenho uma coleção de Simpsons para terminar, e eu quero os O-RI-GI-NA-IS! -Ele soou a última palavra como se o mundo fosse acabar, e para mim, estava quase.-Isso custa dinheiro, e você sabe que um duplex não rende nem três mil reais por mês, já que você nunca mais pagou o aluguel!
Eu moro em um pequeno e apertado duplex. Uma simples casa de dois andares que divido com uma senhorinha de oitenta anos que assiste televisão no volume máximo até as três da manhã, porque ai que seu chazinho de maracujá começa a fazer efeito.
–Ah Rodrigo, meu amor...-Tirei vagarosamente minha jaqueta revelando uma blusa de gola sem mangas justa. Meus olhos fixados nos de Rodrigo estavam semicerrados e eu falei em uma voz sutil me aproximando dele.-Você sabe que acabei de completar o curso e assim preciso de um lugar para poder trabalhar.
–Não querida!- Ele deu uma pequena risada sarcástica. É, isso me pegou desprevenida. Não fazia a menor ideia de que ele era gay.
Rodrigo me deu as costas e saiu. Uma saída bem polêmica, com direito a rebolado e tudo! Mas após me recuperar do choque de ver essa cena, eu só pensava onde iria morar:
Na rua?!
Não! Lá não tem tomada para ligar a mesa digitalizadora!
Ah, jura?! Olha só pra adiantar, lá não tem banheira de hidromassagem.
Balancei a cabeça em algum ato idiota para tentar voltar á realidade. Vamos listar meus problemas:
1- Não tenho dinheiro;
2- Não tenho um emprego, digamos, bom;
3- Estou sozinha no mundo, pois os rolos com o Rodrigo pelo visto foram por água á baixo;
4- Já mencionei que sou a menina dos cafezinhos?;
5- Todos os dias recebo uma cantada como "Ei garotinha, pode vir quente que eu estou fervendo";
6- Sou uma sem-teto!
Ta bem, exagerei no número seis, mas me recuso á voltar morar na casa de meus pais. QUE VERGONHA!
Nesse meio tempo nem notei que, já que havia tirado minha jaqueta, começei a sentir os primeiros sinais do frio, já que era um dos invernos mais rigorosos desses tempos. Em um movimento rápido vesti a jaqueta e fui correndo para o elevador aproveitar o que poderiam ser minhas últimas horas em meu querido lar.
***
Oito dias se passaram e não sei mais o que fazer, e não, não considero a casa de meus pais uma opção. O que me resta agora é sair da minha cama quentinha e ir caçar algum apartamento barato, pelo menos só por enquanto.
Eram nove e vinte de uma manhã de sábado, pensei em acordar cedo para pegar o metrô.
O que? Você acha isso tarde? Nem vou comentar....
Escovei os dentes, fiz um coque, vesti uma blusa de mangas compridas que na ponta formavam uma luva, vesti qualquer calça de jeans, pûs meu casaco de lã, um sobretudo e pego minha bolsa.
Antes de sair olhei para o relógio, dez e meia. Estava com tempo de sobra. Enfio um caderno e um lápis na bolsa para acaso do metrô atrasar.
Desço as escadas correndo pela primeira vez. Sempre tive cuidado por ter medo de esbarrar na pobre velinha e ela sair escada a baixo.
Sem olhar duas vezes atravesso a rua correndo, o que em Nova Iorque é quase a mesma coisa que dizer que tentou suicídio. Tento não me perder novamente nos pensamentos aleatórios que me ocorrem. Parece que aquela "sobra de tempo" não era tão grande assim.
Ao parar na estação vejo um gatinho branco com delicadas patas de um tom cinza sendo cutucado por um menino que segurava um tipo de graveto. O bichinho estava dormindo tão profundamente, parecia estar feliz, sonhando. Ouvi um miado estridente e quando voltei pra Terra vi o mesmo garoto chutando o pobre gatinho que estava encurralado entre a parece e a máquina de refrigerantes. De novo sem pensar-que novidade, hein?-me aproximei do garoto e exclamei:
–Por que está fazendo isso?! Ele se machuca também! De o fora daqui, xô xô.–Abanei as mãos em gesto para ele se afastar do gato. O garoto soltou o galho e saiu correndo. Me aproximei do gato para ver se ele tinha se machucado.
–Ei amiguinho, parece que temos um belo arranhão aqui!-Retirei os pelos da frente para ver uma pequena mancha de sangue brotando em seus pelos brancos.-Você não tem família, hein? Pois é. Eu briguei com a minha também. Se não fosse pelo nojento do Rodrigo eu te levava pra casa, mas lá não se permite animais. Quem sabe na próxima? Mas acho que aquele garoto insuportável não ia....
Fiquei falando horas com felino, que parecia prestar atenção pois não corria, apenas me olhava atento a cada som que saia de minha boca. Comecei a notar que as pessoas passavam assustadas ao ver eu desabafando com o pobre gatinho. Acariciei sua barriga procurei por um biscoito em minha bolsa-pois minha bolsa só não tem minha casa porque não tenho uma-depois de achar alguns ao fundo da bolsa os coloquei sobre uma de suas patas e sai correndo pois o metrô já ia passar.
***
Já se faziam horas que eu procurava pelo bendito apartamento mas nada de encontrar algo bom e barato. Já estava com a ideia de morar perto de uma cafeteria que tivesse WI-FI e uma tomada por perto, pois além disso só precisaria de umas bolachas e um edredom para me manter viva.
Por um momento que me distraí -para variar- senti ser empurrada pela multidão, o porém era que aquele metrô não era o que eu deveria pegar! Tentei lutar contra a correnteza de mais de cem novaiorquinos mas era impossível, acabei me deixando levar.
Lutei um pouco e consegui achar um banco ao lado de um senhor de terno e gravata, só esperava que não fosse aqueles bandidos que te ofereciam coisas ou sei lá.
Me lembrei do gatinho. O que ele estaria fazendo agora? Será que o menino o deixara em paz? Resolvi pegar meu caderno de desenho meu lápis e comecei a rabiscar uma tirinha em que eu era uma heroína salvadora de gatos. Desenhei meu uniforme cheio de babados e lã, e no peito havia um grande logo escrito as iniciais S e G que significava "Super Gatinha".
Quando notei estava rindo sozinha enquanto desenhava as aventuras da menina gato e seu gatinho branco que se disfarçavam de uma mera cartunista e um gato urbano qualquer.
O homem ao meu lado soltou um riso abafado enquanto olhava para meu caderno.
–Então a senhorita poderia resolver meu problema com a caixa de areia do Senhor Volume.-Ria enquanto estendia a sua mão em minha direção, e eu não entendi nada...Senhor Volume? Mas que diabos....-Sou Solano editor da revista It's Start'. Creio que a senhorita reconhece do que estou falando.-Ele aponta para um dos quadrinhos da história em que eu estou lendo uma revista que na capa se encontra o logo da revista mencionada.
–S-senhor Solano?!-Aperto sua mão instantaneamente após entender a situação. It's Start' é simplesmente a maior revista de cartoons que Nova Iorque já leu. Todos os seus estandes nas convenções de animes são incríveis, eles reúnem os melhores cartunistas em um lugar só. Sempre chego antes para pegar autógrafos.
–Então senhorita, poderia me dizer seu nome?-SOLANO ALFAIOR QUE SABER MEU NOME? Isso só significa uma coisa, e preciso me controlar, antes que eu exploda como o carro no desenho que estava fazendo.
–A-Anna L-Listor.-Ah droga! Gaguejei até a última letra!
–Então Anna, posso te chamar assim?-Faço sinal de positivo com a cabeça. -Queremos novos cartunistas amadores em nossa revista e acho que seria perfeita para essa vaga, a senhorita está trabalhando?
–N-Não!-Grito em meio ao desespero e atraio olhares.-Quer dizer, não.-Respondo dando um sorriso tordo e envergonhado.
–Aqui está meu cartão.-Ele me entrega um pequeno pedaço de papel e leio em letras rubricas: "Solano Alfaior, editor da revista semanal It's Start'". Abaixo se lia seu telefone que para mim parece mais como uma casa, pois é ligando pra esses pequenos números que vou conseguir um bem dito apartamento!
–Muito obrigada! Eu realmente precisava, seria uma honra poder trabalhar na It's Start'!-Abro um largo sorriso de orelha a orelha para mostrar meu agradecimento.-Senhor, seria muito incômodo perguntar o que o senhor faz andando de...metrô?
Ele me olha enrubescido e fala delicadamente.
–Tempos difíceis, mas não se preocupe pois salário não será o que irá lhe faltar acaso ligue para mim!-Fico com isso na cabeça.-Vou indo, muito obrigado.
Ele aperta minha mão e vai embora sendo engolido pela multidão encasacada.
Tempos difíceis...bom, eu sei como é lidar com isso.
***
Chegando á parada que mais me familiarizava, desço e olho em volta, procuro o mapa da ferrovia procurando um que vá para West Village. Saio procurando por todos aqueles pontos e quando sinto que estou perto de chegar ao ponto que queria, um pedaço de papel que estava sendo levado pelo vento gruda no mapa. O pego e leio.
–"Aluga-se, apartamento em Noho na média desejada pelo inquilino. Dois quartos, cozinha, dois banheiros e sala. Contato (-) vá ao endereço."- Mas que endereço? Não tem nada aqui! No mesmo instante outro papel se gruda ao mapa, dessa vez ele é muito menor e foi recortado em forma de pino. Ele caiu exatamente na rua Bleecker de Noho. Olhei assustada, mas por mais estranho que fosse, isso era uma chance única.
***
Do outro lado da estação duas sombras se movimentam atrás das colunas que erguem os grandes túneis da estação.
–Acha que ela vai ir?-O sujeito morde um biscoito.
–Pelo jeito que me tratou hoje, com certeza.
O sujeito que fala por último acaricia sua barriga onde se encontra um tipo de ferida.
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