25 gatos
2 Novo Apartamento
Peguei o primeiro trem para Noho, nem me liguei se era distante da rua Bleecker.
No papel dizia para ir no endereço, mas aquela rua é cheia de pontos turísticos e becos que davam para outras casas...como encontraria? Sentada no metrô comecei a raciocinar, me afoguei nos pensamentos aleatórios cotidianos até resolver voltar á realidade. Olhando pela pequena janela que havia ao meu lado li em um painel neon: "Bleecker, bizarro, bem-vindo!". Não era exatamente a forma que eu desejava ser recepcionada pela -talvez- futura moradia e local de trabalho.
Para alguém que achava que achar um emprego era a coisa mais difícil eu estava bem sortuda, bom, até certo ponto. Todos os prédios da rua eram altos e estreitos. Deveria ter pelo menos uma centena de prédios ali, onde na maioria, sempre abrigavam em uma das janelas a placa escrito aluga-se.
Já estava perdida quando resolvi parar em um café atrativo -e com aquecedor diga-se de passagem- chamado STAR-BLEECKER, estava morrendo de frio e um cappuccino não faria mal nesse momento.
Sentei-me em uma mesa perto da janela para ver o movimento. As cadeiras acolchoadas eram confortáveis e macias, me sentia em casa...não, não foi ironia, okay?!
Uma moça de cabelos caramelo com uniforme se aproximou de mim, supostamente para anotar meu pedido. Eu notei que seus olhos eram profundos e vazios, em meio aquele verde eu com certeza poderia me perder tentando decifrar o que passava em sua mente enquanto a ponta da caneta rolava no pequeno bloco escrevendo meu pedido.
Notei que ela estava escrevendo á muito tempo para alguém que estava apenas anotando "cappuccino". Quase se afastando arrancou a folha e colocou sobre minha mesa. Ao desviar o olhar para a pequena folha li o que se pareciam com letras -pois estava um garrancho-, "Um prédio branco, com uma escadaria de cinco degraus á frente. Não coloquei placa de aluga-se pois você é a única que poderia morar lá. Não estranhe, pois tudo aqui é estranho. Na janela haverá uma linda cortina branca reluzente. Apareça, não irá se arrepender".
MAS QUE PORCARIA É ESSA?! Primeiro, quem acreditaria em uma coisa assim, tudo isso estava me cheirando muito estranho! E segundo, eu nunca mais chegaria perto dessa tal casa com "lindas cortinas"! Aliás, quem é burro á ponto de escrever isso em um...um..chamarei de anúncio, mas com uma pontada de remorso.
Me lembro da garota caramelo e me viro para ver se ela está lá ainda, mas para minha surpresa ela sumiu. Sei que parece idiotice pensar que uma pessoa entregaria um papel estranho e ficaria ali com um sorriso estampado na cara esperando você perguntar aonde estão as câmeras.
Meu próximo movimento é ver se há alguém escondido atrás de algo ou de, engulo seco, alguém. Nunca fiz inimigos, mas e se um maníaco quisesse me estuprar? Confesso que não sou a mais bela, porém, tenho cabelos ondulados um pouco acima da cintura de um tom castanho claro, olhos da mesma cor, não diria que isso poderia ser dispensado por algum estuprador.
Sério que você está elevando sua autoestima pensando que é bom ser perseguida e morta porque você é BONITA?!
Não necessariamente morta!
Ficarei quieta, quando quiser usar sua consciência, estarei aqui.
Voltando á mim percebo que há um senhor de meia idade pondo a bebida sobre minha mesa. Sorrio e acena a cabeça em forma de agradecimento.
–Sabe senhorita, as vezes o lar, independente de onde seja, é o melhor lugar.-Ele dá um piscadela e some ao entrar na cozinha do café.
Estava pasma. Estava procurando câmeras para ter certeza se não era alguma pegadinha de algum colega meu da faculdade. Ele estava sugerindo que eu fosse naquela casa? EU NÃO SOU NENHUMA IDIOTA, OKAY? De jeito nenhum irei á esse apartamento!
***

E lá estava eu parada em frente aos cinco degraus. A brisa fria batia em mim parecendo que iria me levar. Olhei para cima e lá estava ela, a linda cortina branca, que para ser sincera, nem era tão linda assim. Temendo o que poderia acontecer subi delicadamente cada degrau, como se ele fosse quebrar. A cada segundo olhava para os lados para ter certeza que nenhum homem encapuzado fosse pular em cima de mim e colocar um pano sobre minha boca.
Ao chegar na porta não tenho coragem de bater. Pela primeira vez na história pensei duas vezes -ei, por que está batendo palmas?! Eu uso meu bom senso ás vezes está bem?- e achei melhor procurar outro lugar, afinal se já estava em outro bairro por que não procurar?
Sai dali e fiquei parada por um tempo pensando. Nesse meio tempo olhei para frente e lá estava um pequeno apartamento vermelho que me parecia muito aconchegante. Ergui minha cabeça e fui em frente.
***
O dono do lugar era um senhor de meia idade, deveria ter cinquenta anos, ele me mostrava o apartamento sem muito interesse, ao contrário de mim. Cada parte do apartamento que aparecia -não que fossem muitas- eu estremecia de alegria.
–Então...quanto é?-Esse era o momento da verdade. Fiz uma postura séria, que não era a real nesse momento, pois parecia uma criança em um loja de brinquedos.
–Mil e duzentos.
Quase caí dura no chão. MIL E DUZENTOS POR MÊS? Assim eu iria a falência. Sem contar que teria que comprar todos os móveis de novo pois meu antigo apartamento era mobiliado.
–P-por mês?!-Toda minha alegria tinha ido embora junto ao meu dinheiro , pois com o que restava teria que pagar o hotel que ficaria até arranjar um lugar embaixo da ponte.
Ele soltou um riso sarcástico.
–Por mês?! Essa porcaria aqui não vale nem cinquenta reais mensais mesmo que você morasse aqui por mil anos!-Ele se contorce rindo. Após ver que eu não estava fazendo piada recompôs sua postura de velho chato e voltou a falar.-Quero dizer. Este apartamento está para venda senhorita Lior.
–É Listor senhor.-Sorrio para tentar mostrar que seria a inquilina mais perfeita que esse velho poderia ter.
Ele revira os olhos e continua falando sobre cláusulas e coisas chatas, não ligo pra isso, fico apenas imaginando os móveis que compraria e onde os botaria.
–Por fim regras básicas como não fumar, não ter som depois das dez e antes das sete e animais aqui são permitidos, desde que não sejam barulhentos.-Ele me olha com desgosto quando falou "barulhentos". Nem liguei, estava distraída olhando o lugar.
–Ficarei com o imóvel.
–Parabéns, adeus.-Ele estende a mão e antes que eu pudesse apertá-la ele a retira e pega o celular do bolso, escreve algo -acho que uma mensagem- e completa.-Deixarei os papéis na caixa de correio amanhã.
Ele dá meia volta e sai andando. Isso me trás um certo trauma, pelo menos ele não estava me despejando, ou melhor, rebolando.
Agora a reta final é comprar os movéis!
***
–Acha que ela acreditou?
O outro sujeito pega um papel amassado e lê.
–Você falou das cortinas? Sério isso?
–Me respeite pois pelo menos eu sei escrevar!
–Ó, mil perdões vossa majestade.-Zomba o que parece ser um garoto.-E se fala escrever.
O outro sujeito revira os olhos e volta a falar.
–Mesmo assim ela foi pra lá, agora é só colocar a segunda parte do plano!
Atrás de uma lata de lixo um pequeno gato preto e outra gata branca saem correndo.
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