23:42
2 Os Três
Nome: Joseph Mach Geller
Idade: 30 anos
Data de Nascimento: 02/03/1986
Profissão: Matemático (PhD) e Mestrado em Física.
Estado Civil: Casado
Cônjuge: Emy Harrison Mach Geller
Filhos: 1 — Anne Taylor Harrison Geller
Formado: Universidade Estadual de New York, Oswego.
Data do Casamento: 15/08/2006
Nacionalidade: Americano, nova-iorquino.
Características: orgulhoso, crítico, teimoso, centrado, dedicado, irônico, diz-se ateu.
Hobbies: Assistir futebol e cronometrar as coisas.
Manias: comer bala Halls e passar a mão no rosto constantemente ao ficar nervoso.
Gostos musicais: …
Viajar nunca lhe deu um frio na barriga, pelo contrário, era algo que já estava se acostumando a fazer. Joseph Mach, como qualquer outro homem, estava traçando um destino. Nada divino nada tão surreal. Era apenas uma viagem para Londres.
Mas, naquele dia em especial, ele tinha uma sensação diferente. Talvez nem fosse por causa da viagem, mas, sim, por palestrar em um famoso Centro de Observação. Foi um convite feito por um amigo e, mesmo não sendo o seu ramo, ele ajudaria em algumas teses sobre o Universo.
Numerologicamente falando.
Chegou cedo ao aeroporto John F. Kennedy, em Nova Iorque. Observava as pessoas ao seu redor. Tudo era tão normal. Pessoas andando, falando, crianças correndo. Sentiu falta de sua filha, que viajaria com a mãe dias depois. Aproveitaria a chance para viajar com a família no recesso que tirou na Universidade que dava aula.
Mas algo ainda o incomodava.
— Já sei. – Levantou-se do banco, ajeitou o casaco no braço e foi até um Fast Food. Estava com fome.
— Bom dia, senhor, em que posso ajuda-lo? – Perguntou um rapaz com seu uniforme tradicional e uma expressão robótica com um sorriso cansado no rosto.
— Se me trouxer qualquer coisa para satisfazer minha fome, já ajudaria muito.
— O senhor tem alguma preferência?
— Quando eu digo “qualquer coisa”, não me refiro a uma em especial. – Joseph suspirou, colocou o casaco no balcão e retirou sua carteira do bolso, tudo para não olhar para o funcionário boquiaberto a sua frente.
— Senhor? – Ele o chamou.
Joseph o olhou.
— A incompetência neste lugar está me tirando do sério.
— Excuse me*? – O rapaz arregalou os olhos e olhou para trás rapidamente – Eu sinto muito senhor, mas não posso sair fazendo o seu pedido.
— Mas tirar um absurdo de dinheiro de mim para comer um simples lanche, pode né? – Joseph tinha um jeito impaciente de ser e demonstrava isso nesta conversa – Um cappuccino e um hambúrguer qualquer.
—Mas...
Joseph colocou uma quantia grande de dólares perto do caixa.
—Um hambúrguer qualquer. – Repetiu.
O rapaz anotou tudo e tirou a notinha. Joseph riu ao ver o pedido, pois era o hambúrguer mais caro dali; porém, iria satisfazer a sua fome, como ele mesmo queria.
Recebeu seu troco e deu passagem para outra pessoa ser atendida. Ficou aguardando seu lanche. Olhou para o relógio. 08h15min.
Pegou seu lanche e se sentou em uma das mesas espalhadas em frente ao estabelecimento.
Novamente olhou ao seu redor.
—Estou assim, porque darei uma palestra, só isso. – Murmurou para si, dando a última mordida em seu hambúrguer e mais um gole em seu cappuccino.
Ao se levantar e voltar para a cadeira onde estava sentado, ouviu o rapaz do caixa chamar.
—Sir*!
Joseph se virou e o rapaz levantou o casaco. Joe foi busca-lo e agradeceu.
—Sem ressentimentos? – Perguntou Mach com um sorriso pequeno no rosto.
O funcionário deu um sorriso menos cansado e mais humorado. Sem ressentimentos.
Joe viu que seu lugar já estava vago. Bufou. Olhou para o painel com os voos. O seu seria em... Olhou para o relógio.
—Oito e quinze ainda? – Uniu as sobrancelhas em dúvida. Bateu com o indicador no relógio. Nada.
Viu um senhor com terno passar a sua frente. O mesmo falava no celular. Pensou em lhe perguntar a hora exata.
—Se você colocar esse número no final irá mudar a senha!— Deu uma pausa e apertou o celular em sua mão, depois voltou a colocar no ouvido – Mas eu já disse que não é para colocar o número...!
Mach desistiu de interromper o senhor. Deixou-o passar e torceu para não encontra-lo de novo.
Um casal passou a sua frente e ele pediu a hora exata para o menino.
—Oito e quarenta e cinco. – Respondeu.
—Thank you*. – Agradeceu Joe, que se apressou para chegar ao andar de embarque.
“Na pressa, parece que tudo ao redor se movimenta devagar”, Joseph pensou de forma irritada, que ajeitava o casaco no braço toda hora que era impedido de andar até a escada rolante.
—Esse lugar não estava tão cheio assim enquanto eu estava sentado. – Reclamou.
Finalmente chegou ao andar de embarque e esperou um pouco. Retirou o seu passaporte e a passagem do bolso.
“O voo 420 irá sair em instantes. Por favor, passageiros, dirijam-se ao segundo portão de embarque A4.”
E isso foi repetido quatro vezes, para a infelicidade de Joseph.
—Quando eu posso entrar no avião para não ouvir mais isso? – Perguntou a uma menina que ficava no portão.
—Isso o quê?
—“O voo 420...” e blá-blá-blá.
—Creio que isso seja nervosismo.
—Sweet*, eu não estou nervoso. Só quero adentrar o avião e chegar logo em Londres.
—Isso me parece ser nervosismo. – Ela sorriu demonstrando simpatia – É normal. Mas a viagem será rápida, o senhor não precisa se preocupar.
Joseph fechou os olhos e deu um sorrisinho.
—Você fala a minha língua?
—Estou falando com o senhor agora, não estou?
—Mas parece que não está me entendendo.
A menina pigarreou.
—O senhor precisa se acalmar.
Enquanto isso, uma fila se formava atrás de Joseph. E o senhor de terno, que passara inconformado e falando alto pelo celular perto de Mach, estava nela.
—Sabe qual é a probabilidade de eu ficar calmo na variável de tudo o que está acontecendo comigo hoje, só porque cheguei uma hora mais cedo aqui neste bendito aeroporto?
Mach falou tão rápido, que, no final, parecia ter saído de uma crise asmática.
A menina estalou os dedos, olhou para a fila atrás de Joseph e, finalmente, encerrou o assunto.
—O seu passaporte e sua passagem, please*? – Pediu seriamente.
Enquanto Joe sorriu largo ao entregar o que lhe foi pedido.
—Have a good flight*.— Desejou a menina, entregando o passaporte ao Mach.
—Thank you so much, sweet. – Debochou ele.
Joseph entrou para o corredor que levaria ao avião e um frio na barriga, um sentimento preocupante lhe correu até a espinha. Porém, prosseguiu.
—Esse deveria ser um dos passageiros do outro voo... Eu sempre pego passageiros nervosos. – Murmurou ela, sorrindo logo depois que outra pessoa deu um passo para frente para ser atendida.
A viagem ocorreu tranquila. Em poucas horas já estavam chegando ao aeroporto Heathrow, LHR, em Londres. Joseph Mach conseguiu até fazer seu relógio voltar a funcionar.
*
Nome: Darwin Cavendish
Idade: -
Data de Nascimento: -
Profissão: Físico e Astrônomo, formado na Universidade de Southampton.
Estado Civil: Casado
Filhos: 0
Data do Casamento: -
Nacionalidade: Britânico.
Características: -
Hobbies: -
Manias: Não gosta de dar informações
Gostos musicais: -
“Uma rua com uma pequena casa no fundo.
Isso era tudo o que Darwin conseguia ver, naquele momento, por conta da neblina.
Uma voz feminina o chamava.
— Dr. Cavendish! Estamos aqui te esperando, ele já conseguiu completar o enigma. — Dizia a voz, que vinha da pequena casa.
Mas Darwin se perguntava, mentalmente: "Como essa mulher sabe meu sobrenome? E com quem ela está? E que enigma é esse?"
Estava confuso. Foi se aproximando da casa, mas devagar, por estar com medo do desconhecido.
Uma voz familiar ecoava na sua cabeça, dizendo:
— 42... 42... 42... — A voz ia gradativamente aumentando conforme ele ia chegando perto da casa.
Darwin põe sua mão sobre a maçaneta da porta da pequena casa.”
— ...42. — Disse Carrie, esposa de Darwin, assim que ele abriu seus olhos.
"Então era só mais um sonho sem sentido algum..." pensou Darwin.
— O que você disse, Carrie? – Passou a mão no rosto para despertar mais.
— Eu disse que já são 13:42. Você tem que ir dar sua palestra sobre estrelas e essas coisas... Você e essa sua mania de tirar um cochilo depois do almoço. Como minha mãe dizia, dormir após comer causa pesadelos.
— Pois é, acho que tenho que concordar com ela dessa vez. E não é só sobre estrelas, é sobre o Universo, no geral. – Corrigiu Darwin com um sorriso no rosto.
— O que houve, honey? Você está suando. — A voz de Carrie passou de mansa para preocupada. Ela disse isso enquanto passava as mãos pelos cabelos de Darwin.
— Eu tive um sonho... Um tanto quanto estranho.
— Sonhou com o quê? Você sabe que eu sei sobre o que sonhos podem significar e...- Carrie estava falando rápido. Era um dos sinais de quando estava nervosa e preocupada.
— Amor! — Darwin a interrompeu, com o tom de voz alto da – Fica calma, foi só um sonho. Ele foi estranho, mas não passa de um sonho.
— Me desculpe, eu só queria ajudar...- Carrie disse isso enquanto abaixava a cabeça e mexia na boca. Seus olhos castanhos se encheram de lágrimas.
—Ei ei, não precisa ficar triste. Desculpe-me se fiquei nervoso. É que essa palestra está me dando dor de cabeça, literalmente. – Darwin pôs suas mãos no rosto de Carrie e a beijou. — Eu te amo muito, senhora Cavendish. Forgive me*? – Beijou-a novamente – E, a propósito, você fica linda com minha camisa do Lakers.
Carrie estava com a camisa 23 do Lakers, time de basquete no qual ambos torciam.
— Tá tudo bem, I forgive you*, eu estou meio emotiva esses dias, deve ser a TPM... – Ela riu, dando uma rodada para mostrar a blusa.
Seu marido se assentou na cama e a puxou para si.
—Ou esse seu ânimo deva ser algum alinhamento de planetas em alguma galáxia. – Continuou ele, olhando-a – Sabe, você é tão importante pro Universo que não duvidaria se seu humor estivesse ligado a planetas de uma galáxia a milhões de anos-luz daqui. — disse Darwin, sorrindo.
—Bobo, você sabe que não entendo essas coisas. Você dizendo coisas sobre astronomia pra mim é como eu falar pra você sobre meus diretores de cinema favoritos ou sobre as Escrituras.
Carrie passou a mão no rosto de seu marido e sorriu.
—Acho melhor você se arrumar logo ou não vai chegar a tempo na sua tão importante palestra. — Ela tentava imitar a voz de Darwin enquanto dizia isso.
—Bem lembrado!
Enquanto Darwin se arrumava, checou a temperatura no seu celular. 23 graus. Estava uma boa tarde para uma grande palestra importante. Típico verão na Inglaterra.
Mesmo com um dia ensolarado, ele estava ainda pensativo sobre o sonho, e triste por ter sido um pouco rude com sua esposa. Darwin, por conhecer bem as emoções de sua esposa e de um passado recente que lhe causou traumas, sentia-se culpado pelo tom de voz que usara, então mesmo com ela dizendo que o perdoou, ainda achava que ela ainda não havia lhe perdoado.
— Agora vou para o Observatório, meu amor. Quando acabarem essas palestras, vamos ao cinema? Aquele filme estreia essa semana.
—Claro! Boa sorte na sua palestra. – Carrie o beijou.
Depois desse beijo, Darwin percebeu que sua esposa realmente o tinha perdoado, e resolveu esquecer seu sonho. Ele pensou "É, até que esse pode ser um bom e produtivo dia.".
*
Nome: Alicia Hayes Willwerth
Idade: 28
Data de Nascimento: 09/07/1988
Profissão: Astróloga
Estado Civil: Solteira
Nacionalidade: Britânica
Características: Destemida, inteligente, abusada, teimosa, sincera.
Hobbies: observar as estrelas.
Mania: mexer em seu colar.
Gosto Musical: Pesquisando
A passagem da lua pelo seu signo, naquele dia, representava novos rumos em sua vida, positivos ou negativos dependeriam de suas decisões influenciadas pela sua forte personalidade. Em palavras cotidianas, seu dia seria cheio, de coisas boas ou ruins não sabia dizer, mas podia afirmar que começara ruim.
Alicia desceu correndo de seu apartamento e se deparou com o ponto de táxi, logo em frente, vazio.
—Poxa... – Murmurou consigo. – Não acredito que perdi três táxis vazios...
Mais dezessete minutos esperando e passam dois táxis com cliente. Ela olhou para o céu, azul e sem nuvem, um lindo dia, e começou a questionar o porque de estar acontecendo aquilo justo aquele dia. “Talvez deva analisar novamente a posição dos astros e sua influencia no dia de hoje...”, pensou. Em idas e vindas de carros ouviu um leve toque de buzina e logo encontrou o carro de onde o som originara, pois o mesmo estacionou onde estava questionando acerca do dia.
—Ali?
—Olá, Dr. Bailey. – Sorriu para o amigo.
—Perdeu algum táxi?
No exato momento da pergunta, Alicia viu mais um táxi passando já com cliente.
—Seis, para ser exata... – Respondeu com uma cara nem um pouco feliz enquanto o doutor ria.
—Acredito que vai ao Observatório, carona?
A astróloga olhou novamente para o céu. “Ok, já entendi. Não duvidar mais.” Abriu a porta do carona e murmurou um “Thank you*”.
Não gostava muito do silêncio, então decidiu puxar assunto.
—Então, Dr. Bailey...
—Pode parar de me chamar de doutor?
—Por que? Você não é médico?
—Cardiologista, mas não estamos em ambiente de trabalho e acho estranho uma amiga me chamar pelo sobrenome.
—Ok... Harlan. – Sorriu exageradamente.
—Thanks*.
—Estamos a algumas semanas sem nos ver e tem algumas coisas que eu gostaria de saber... – Ele a observou pelo canto do olho e ergueu uma sobrancelha. – Cuidou “daquele” coração? – A mulher terminou sorrindo travessa como uma adolescente.
Harlan suspirou pesado e sorriu. Olhou para Alicia rapidamente alternando entre a rua e a mulher.
—Você não muda, né? Sempre direta... – A astróloga deu os ombros, sinalizando que não se importava, afinal, era seu jeito desde sempre. – Por um lado, felizmente; por outro, infelizmente, esse coração a que você se refere não precisou de meus cuidados. E talvez, pelo lado infeliz, não precise... Se é que você me entende...
Alicia cruzou os braços e ficou séria observando a rua.
—Algum problema? — Harlan estranhou o jeito da amiga.
—Claro! -Respondeu com uma indignação bem nítida, e até assustou um pouco o cardiologista. — Essa garota tem problemas.
—Por quê? — Ele parou no sinal e sorriu enquanto observava a astróloga.
—Você é bonito; inteligente; tem um jeito cuidadoso, o que lhe faz cair muito bem a profissão de médico, ou cardiologista como você prefere. Repito: essa garota tem problemas.
A astróloga olhou para o amigo, já que permaneceu olhando para frente mesmo com o sinal fechado. Ele sorria. Achava-a divertida. Ele se aproximou e deu um beijo no rosto de Alicia, depois voltou para a rua e o sinal abriu.
—Não acho que ela tenha problemas. — Disse voltando a dirigir.
Depois disso, Alicia preferiu adotar o silêncio até que viesse algum assunto por parte dele. Nada. Mas não custou muito para chegarem ao Observatório.
—Chegamos rápido. — Alicia decidiu comentar algo para mudar aquele clima.
—É... Dezenove minutos... Costumo demorar o dobro do tempo para chegar aqui. — Concluiu Harlan sorridente. — Até um outro dia?
—Claro. Muito obrigada pela carona. — Sorriu também e saiu do carro. Trocaram acenos antes do cardiologista dar a partida.
Antes de adentrar o observatório, Alicia se posicionou no meridiano e segurou um colar que usava, olhou novamente para o céu e suspirou. Por fim se encaminhou para dentro do Observatório Real de Greenwich.
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