21.12.12 - A Invasão
1 O Reaparecimento.
Notas iniciais
Boa leitura ^^
Imagem do capítulo: O estado exato de Gwen ao ser encontrada. Reparem em seu semblante tranquilo... Estranho não?
– Let it be, let it be… — Cantarolava Mariah enquanto colocava as roupas no viral. Quando de repente, tudo permaneceu silencioso.
Era estranho, pois crianças não ficam quietas assim. Há um segundo, Mariah podia escutar sua pequena filha Gwen brincando na cerca branca do quintal, mas agora... tudo estava quieto.
Mariah deixa suas roupas de lado e vai com passos firmes até onde Gwen estava, mas ela não estava mais lá.
Ao constatar isso, a mãe começou a ficar assustada.
– Gwen? Gwen! Onde está você, minha filha? – Perguntava desesperada, um mar de lençóis esvoaçando atrás de si. Mariah começou a procurar sua filha por todos os cantos daquele quintal, porém sem sucesso. A menininha havia sumido.
Como isso era possível? Dezenas de imagens cruéis de homens levando á pequena Gwen começaram a transcorrer na mente da mulher, deixando-o ainda mais alucinada.
Não havia sinal algum da menina, como se ela tivesse tomado chá de sumiço ou coisa parecida.
Mariah entrou correndo em sua casa e, segurando com força uma boneca de cabelos ruivos, digitou o numero da delegacia do condado Batoon Rouge, na Lousiana.
– Atendam, atendam... – Murmurava ela, desolada.
No segundo toque, alguém atendeu.
– Delegacia do condado Batoon Rouge. Em que posso ajudar? – Era uma voz conhecida para Mariah. Ela a ouvira inúmeras vezes na lanchonete em que trabalhava, como garçonete. Era o patrulheiro Carson, homem bondoso e que tinha paixão avassaladora por rosquinhas salpicadas de canela e sal.
– Patrulheiro Carson! – Choramingou Mariah pela telefone. – Gwen! Ela desapareceu, ela... por favor, me ajude, eu não a encontra em local algum!
– Certo, certo! Acalme-se senhora Parker, tente respirar. – Disse a voz suave do outro lado da linha. – Já estamos a caminho.
Mariah colocou o telefone na ignição novamente, temendo mais do que nunca pela vida de sua filha. Ela apertou a boneca contra o peito e permitiu que uma lágrima percorresse seu rosto.
Gwen era sua vida, era a razão pela qual ela acordava todos os dias. Era a razão pela qual ainda estava viva, ao invés de estar se acabando em algum lugar sombrio, choramingando pelo homem que roubara seu coração, e a deixara na sarjeta.
Era esse mesmo homem o pai de Gwen. E toda vez que Mariah olhava para os olhos azuis da menina, se lembrava do pai da mesma. A intensidade do olhar era idêntica. Sem falar nos cabelos... loiros como o sol. Idênticos.
Mariah escutou o som de sua campainha e saiu correndo para o quintal, largando a boneca de sua filha no sofá.
O patrulheiro Carson era um homem alto e forte. Os cabelos eram castanhos e os olhos de um azul profundo como o mar num dia de verão, a barba por fazer lhe dava um ar mais jovial. E seu semblante era sempre o mesmo, o de alguém confiante que ajudaria na medida do possível.
O vento outonal bagunçou levemente os cabelos de Mariah enquanto ela abria desesperadamente o portão de sua casa, com ânsia por respostas e reconforto.
– Bom senhora Parker, como ocorreu o desaparecimento? Onde a senhora viu Gwen pela última vez? – Mariah pode notar que Carson estava se controlando muito para não atirar em alguma coisa. Ele a ajudara a cuidar de Gwen desde a gravidez, quando Mariah percebeu que fora enganada e abandonada pelo único homem que amara em sua vida. Desde então, o oficial via Gwen como uma filha, e amava a menina tanto quanto a mãe.
– Ela estava no quintal... – A voz de Mariah tremia assim como suas mãos. Ela simplesmente não suportava o fato de ter perdido a menina. – Estava brincando com a boneca... e então tudo ficou silencioso de repente...
– Espere. – Interveio Carson, pensativo. – Silencioso? Nada de choro ou gritos?
– Nada. – Confirmou a mãe.
– Hum. – Fez Carson, anotando algo em seu bloquinho de notas. Objeto que nunca, em hipótese alguma, saia de seu bolso. Ele o levava para todos os lugares, e anotava coisas lá que ninguém sabia. Mas seja lá o que escrevia, ajudara muito em casos de assassinato ou desaparecimento. – Será que eu poderia ver o local onde Gwen brincava?
– É claro... – Respondeu Mariah, conduzindo o oficial por sua casa. Ela o levou até o quintal dos fundos de sua casa, onde havia, no centro, um cercado branco repleto de brinquedos ara crianças.
Carson analisou cada ponto daquele cercado, procurando o que fosse para ajudá-lo a achar a menina, mas não encontrou absolutamente nada. Era tudo extremamente estranho... como alguém poderia sequestrar uma criança de tal modo? Sem barulhos ou sem deixar um rastro? Como?
Carson olhou penosamente para Mariah. Ele escondia um amor profundo por ela desde seus dezessete anos de idade, e vê-la sofrer era a única coisa que ele não queria. Ele estava tão nervoso quanto à mãe. Afinal, Gwen era como uma filha. Ele a amava. E iria encontrá-la, onde quer que ela estivesse, ele iria encontrá-la.
***
Passaram-se dias, meses, anos e nada de Carson encontrar a pequena Gwen. Panfletos e cartazes com a foto da menina foram distribuídos por todo o condado, mas quem quer que tivesse levado a menina, saíra da cidade, ou até mesmo do país.
Isso acabara com Mariah. Ela havia se envolvido com álcool e drogas, perdera seu emprego e sua casa. Carson a pegara da rua e começara a cuidar dela, foi um ano tortuoso, mas Mariah se livrara de seus vícios e, para a infelicidade de Carson, decidira partir para Nova York, onde tentaria conseguir um cargo de atendente em uma loja de cosméticos.
– Eu lhe agradeço por tudo, Carson, mas não posso mais ficar aqui. Já se passaram anos desde... – Os olhos de Mariah se encheram de lágrimas, mas ela não se permitiu chorar. – Desde aquele incidente, e tudo aqui me lembra dela. Eu preciso me livrar disso.
Carson ficou chateado com a escolha de Mariah, mas deixou que ela partisse para onde queria. Lá, na Big Apple, Mariah alugou um apartamento, num condomínio próximo a Times Square, onde trabalhava na loja Diamonds. Ele, no inicio, ligava para ela todos os dias, mas quando recebeu o cargo de Delegado, isso não foi mais possível.
Eram inúmeras tarefas, e as ligações diminuíram até serem feitas uma vez por mês, ou até menos.
Carson passava dias e dias comparando o sangue de Mariah com o sangue das outras crianças que apareciam no condado, mas nenhuma delas era Gwen. Ele não desistira da menina, algo lá dentro dele lhe dizia que ela permanecia viva.
Numa manhã qualquer, ao comer uma rosquinha, Carson recebeu uma ligação de um caminhoneiro. O homem dizia ter encontrado uma criança nua exatamente onde Gwen havia desaparecido dois anos atrás.
O delegado saiu imediatamente de sua delegacia e foi ao encontro do homem, que era barbudo, gordo e grosseiro. Ele dizia ter encontrado a criança durante a madrugada, e ela não parecia ter se assustado com coisa alguma.
E de fato, a criança – uma versão mais velha de Gwen. Olhos azuis intensos e cabelos loiros e sedosos até a cintura – estava extremamente calma. Ela olhava com seus grandes olhos redondos para o delegado com um semblante tranquilo e relaxado.
Carson deu uma boa quantia em dinheiro para o caminhoneiro e levou a garota até a delegacia, onde lhe arrancou um pouco de sangue – a criança não chorou, e olhou para a agulha como se já tivesse familiarizada em levar espetadas e ter o sangue retirado. Ela também não falara uma palavra durante o trajeto até a delegacia. – e fez o teste de DNA com o sangue congelado de Mariah.
Definitivamente, a menininha calma, sentada na cadeira, era Gwen.
Constatando isso, algumas horas depois, Carson sorriu e abraçou a menina. Ela pareceu um pouco incomodada, mas nada fez. Apenas continuou na mesma posição, olhando para tudo como se tudo fosse novo.
– Gwen... – Sussurrou Carson olhando nos olhos da criança. – Se você soubesse a felicidade que estou sentindo...
– Tất nhiên. – Respondeu a criança, causando surpresa em Carson.
O delegado franziu o cenho, olhando para Gwen com curiosidade. O que quer que tivesse acontecido com ela... e isso era um mistério e tanto, a havia deixado totalmente estranha.
A garotinha parecia não saber falar inglês, porém parecia entendê-lo, e segundo os anos na faculdade de línguas que Carson frequentara, aquela língua era nada menos do que vietnamita.
Como uma criança de três anos, desaparecia há dois, voltava falando vietnamita?
Essas eram perguntas para mais tarde. O que importava era que Gwen havia aparecido, e estava viva. Carson afagou os cabelos da menina e digitou o numero de Mariah, abominando o momento em que teria de se despedir das duas novamente.
– Mariah?
– Carson? Ah, olá. – A voz de Mariah parecia um tanto cansada.
– Tenho uma noticia esplendorosa para lhe dar... – Carson sorriu fracamente ao ver a inquietação de Mariah do outro lado da linha. Ela havia prendido a respiração, e estava aguardando pacientemente a tal noticia. – Gwen. Estou olhando para ela nesse exato instante. – A voz de Carson se emocionou. – É a garotinha mais linda que já vi em minha vida...
Mariah começou a chorar, e Carson segurou suas próprias lágrimas. Ficaram assim por algum tempo, enquanto Gwen apenas observava, pacientemente.
Mariah e Carson combinaram de se encontrar no dia seguinte, no aeroporto de Lousiana, onde Mariah levaria toda a papelada de Gwen e tentaria trazê-la ao mundo, de fato.
Mãe e filha ficaram no condado durante um mês, para que Carson conseguisse organizar toda a papelada sobre o reaparecimento da garota. É claro que ambas se hospedaram em sua casa, e Gwen soltara cada vez mais palavras em vietnamita.
Mariah, então, começara a ensinar inglês para a própria filha, que conseguia entender perfeitamente, mas tinha dificuldades em reproduzir os sons que escutava. Porém havia tendo sucesso nos últimos dias.
Certa noite, Carson e Maria admiravam Gwen em um sono profundo.
– Ela é mesmo linda. – Comentou Mariah, com um sorriso. – Se parece cada vez mais com ele.
Carson baixou os olhos.
– Porém ela tem a mesma doçura que a mãe. – Sussurrou ele, sorrindo.
Mariah retribuiu o sorriso e suspirou, encostando-se no batente da porta.
– Escute, Carson... Eu já fiquei muito tempo aqui. Não posso mais deixar minhas coisas em Nova York largadas desse jeito. – Ela olhou profundamente nos olhos de Carson. – Nós precisamos voltar, entenda. Meu lugar não é mais aqui, e nem o dela também.
Carson, vezes antes, tentara convencer Mariah de ficar, mas ela estava obstinada em retornar para Nova York, e levar Gwen consigo.
Vendo que não venceria a batalha, Carson providenciou passaportes e documentos para Gwen, e na semana seguinte, ele se despediu dela e da mãe no aeroporto.
Um pouco antes de entrar no avião, Gwen o abraçou.
– Não é tchau. – Disse a menina com a voz fraquinha.
– Não, não é. – Sorriu Carson, entregando Gwen para sua mãe.
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