21.12.12 - A Invasão
7 Shawus - hipnose
Notas iniciais
Imagem do capítulo: Clark e Gwen.
- Isso é humano, Gwen. Isso é extremamente humano, Gwen.
O jantar fora legal e tudo mais, porém eu tinha minha mente realmente muito distante dali.
Eu tinha uma nova realidade, a minha realidade, da qual eu exclusivamente fazia parte. Uma realidade na qual eu não era humana.
Enquanto minha mãe e meu quase padrasto discutiam os nomes que colocariam no futuro bebê, eu ficava enrolando o macarrão em meu garfo, olhando fixadamente para um ponto além de meu copo de Soda.
Mamãe e seu futuro marido estavam tão felizes e empolgados com o casamento que nem perceberam minha ausência mental. Eu simplesmente sorria para eles, assentia e fazia meus “uhum’s” e “aham’s” nas horas certas.
Você provavelmente quer saber porque eu me mantinha calada e não pronunciava nada sobre minha descoberta. Bom, eu nunca havia visto minha mãe tão feliz daquele jeito, e não queria estragar isso.
Seja lá o que eu fosse, ela não precisava saber. Ainda não.
Na viagem de volta para casa, coloquei meus fones de ouvido e não pensei em mais nada. Clark viria amanhã, e me ajudaria com uma de suas ideias malucas, e a única coisa que eu poderia fazer era torcer para que desse certo, seja lá o que ele fosse fazer comigo.
Observei minha imagem no espelho retrovisor durante vários minutos. Acariciei minhas bochechas rosadas e passei os dedos por meus lábios bem desenhados. Eu me parecia tanto com um ser humano... me sentia como um ser humano, porém não era um. O que eu era afinal?
Algo lá dentro de mim me dizia que eu teria essa resposta amanhã.
Chegamos a casa, estacionamos o carro na garagem e entramos em casa. Eu me despedi de um jeito distraído de meus “pais” e, depois de demasiada insistência de mamãe, lhe soltei um leve beijo na barriga. Depois disso, subi correndo para o meu quarto.
Como se eu estivesse em transe, retirei minhas roupas e meus acessórios, substituindo-os por pijamas e pantufas. Joguei-me na cama e apaguei a luz.
Havia três mensagens de Clark em minha caixa postal, mas eu não queria falar com ele, eu não queria falar com ninguém. Deixei o celular no silencioso e suspirei, olhando para o teto até que minha visão se acostumasse com o escuro.
Foi quando senti a brisa roçando em minha pele. Dessa vez, eu apenas sorri tranquilamente. O calor que a brisa me proporcionava era bom, para falar a verdade, e eu estava começando a gostar.
Eu podia sentir que conhecia aquela brisa, e que gostava dela. Eu sabia que a brisa tinha absolutamente tudo haver com os meus cinco meses fora do planeta.
“Fora do planeta”...
De repente, uma dor lancinante irrompeu por toda a minha cabeça. Mordi o travesseiro com força, para que meu grito não escapasse na garganta e pudesse ser ouvido pelos pombinhos lá no andar de baixo.
Foi como se passasse milênios, mas finalmente minha dor repentina de cabeça passou e eu pude respirar novamente. A brisa ao meu lado emitia um cheiro delicioso de minhas rosquinhas preferidas, e parecia estar fazendo isso apenas para me relaxar.
Novamente a ideia de aquela brisa ser meu pai se fez presente, e eu suspirei.
- Boa noite, brisa. – Sussurrei, sentindo-me uma completa idiota por estar falando com algo que nem eu podia ver, apenas sentir. A brisa roçou de leve em meu rosto, bagunçando um pouco meus cabelos... e desapareceu.
***
“- Não, pai. Eu sei que posso fazer isso. – Ouvi minha voz ecoar pela sala prateada e acústica.
Meus pés não estavam no chão, e eu simplesmente não conseguia vê-los. Estiquei meus braços, mas não pude vê-los também.
Em minha frente um homem forte, bonito e realmente muito parecido comigo assentia, mas seus olhos azuis intensos emitiam uma preocupação em demasia. Ele esticou o braço e pude sentir seus dedos grossos apertando meu ombro esquerdo.
- Eu só... não quero perder você. De novo.
Senti que eu sorria.
- Não vai. Eu tenho um planeta para salvar, e eu irei fazê-lo.
De repente, alguém abriu a porta. Era um garoto alto, bem forte, moreno e de olhos verdes aguados. Era bonito. Ele tinha seis pílulas em mãos.
- Senhor, senhora. – Ele piscou de leve para mim. – Ela esta pronta.
Eu e o homem que era meu pai nos entreolhamos. Meu pai apertou meu ombro e o soltou, então desapareceu.
Houve um momento escuro, em que nada podia se ver... e então eu me vi diante da maior nave que eu já vira em toda a minha vida. Ela era toda prateada e brilhante, com portais para mísseis em ambos dos lados e uma aura azulada a rodeava. Respirei fundo e sorri.
- Uma brisa de verão. – Olhei para o garoto moreno com as pílulas que estava ao meu lado. – Perfeito.
O garoto suspirou e colocou uma pílula na boca, engolindo-a. Ele olhou para mim e eu assenti, houve uma espécie de compartilhamento de ideias entre nós.
Uma mulher baixinha que usava uma bengala de arenito me deu um longo abraço.
- Suas forças comestíveis já estão preparadas, minha querida. Boa sorte.
- Obrigada. – Sorri.
Havia muitas pessoas ao redor da grande nave, e, de cada em cada, todas me deram abraços, beijos, afagos de cabelos e incontáveis boas sortes.
Procurei o garoto das pílulas com os olhos, mas não o achei. Então assenti de leve, pois sabia que, na verdade, ele estava comigo.
Entrei na nave e acenei para todos, inclusive para meu pai, enquanto a porta se fechava lentamente.
Depois, sentei-me na cabine de comando e apertei uma sequência simples de comando.
“Nave pronta para decolar em dez... nove... oito... sete...”.
Enquanto eu sentia a leve turbulência e saia do núcleo de comando dos Plêiades, respirei fundo e fixei um grande botão vermelho, logo depois abaixei uma alavanca... e a nave começou a subir.
Fechei os olhos com força quando passei pela atmosfera estrelar Plêiade. A turbulência foi grande, mas nada comparada à turbulência que eu enfrentaria mais tarde.
O garoto das pílulas apareceu ao meu lado, sentado na cadeira do copiloto, e deu um grande sorriso.
— Você sabe que vai estar bem ferrado quando descobrirem que veio comigo, não sabe Shawus?
O garoto chamado Shawus assentiu lentamente.
- Eu precisava. Eu não sou como todos eles, eu quero lutar! – Shawus bufou ao me ver revirando os olhos e continuou – O reinado dos Grays precisa acabar o quanto antes, e precisamos destruir todos os reptilianos. Não entende? A Terra é só mais um. Logo eles virão atrás de nós.
A turbulência passou, e eu me via diante do espaço sideral. As diversas galáxias coloridas e atraentes me rodeavam irresistivelmente e me peguei olhando-as com um sorriso bobo no rosto.
- Eu sei, mas... bom, não é muito da raça Plêiade se envolver em guerras de outros planetas.
- Não. – Shawus concordou. – Por isso digo que não sou como eles. Além do mais, você vai precisar de alguém para ajudá-la a se lembrar.
- É, eu sei. – Olhei para Shawus. – Acha que Josh vai acreditar em mim?
- Ele precisa acreditar em você. Precisamos da ajuda dele.
Assenti e sorri, apontando para uma galáxia realmente esplêndida.
- Estamos perto. O plutônio HY realmente esta ajudando, não? Demoraríamos cerca de... – Fiz algumas contas rápidas em minha cabeça e com os dedos. – quinze anos luz para chegar até aqui.
- É um bom combustível. Gwen, você precisa estar pronta quando avistarmos a Terra. – Shawus enrugou o cenho. – Posso te fazer uma pergunta?
- Claro. – Dei de ombros.
- Porque escolheu esquecer-se de tudo? Quer dizer, você poderia chegar lá e apenas... sabe? Avisar todo mundo.
Dei de ombros novamente e me sentei. Estávamos penetrando lentamente da Via Láctea.
- Eu estou diferente. Esses... esses cinco meses me tornaram um Gwen desconhecida para mim mesma. Se eu voltar lá como era antes, e descobrir tudo pacientemente, talvez isso não me mude tanto. – Suspirei. – Tomou suas pílulas? É isso que o fará sobreviver lá na minha outra casa.
Shawus assentiu.
- Tomei todas. Veja! Éris. – Então ele riu. – O planeta anão.
- Éris não é um planeta, porém ainda acho que é. Talvez exista vida lá, afinal.
- Não creio muito nesta afirmação, mas tudo bem.
Depois ficamos em silêncio, como sempre. Passamos por Céres, Plutão, Netuno, Saturno, Júpiter e quando chegamos perto de Marte, já podíamos avistar o maravilhoso planeta Terra.
Shawus pigarreou.
- Deite-se.
Fiz o que ele pediu.
- Tente relaxar Gwen, isso precisa ser preciso.
Respirei fundo, esvaziei minha mente e senti meus músculos se relaxando lentamente. Shawus retirou uma medalha faiscante do bolso.
- Certo, quando eu chegar ao número dez, você estará num sono profundo, ok?
- Ok.
Shawus começou a balançar lentamente a medalha na minha frente.
- Um... seus olhos estão ficando pesados... dois... três... quatro... cinco... seus olhos estão se fechando lentamente... seis... sete... oito... nove... você esta quase num sono profundo... dez... durma, Gwen Dobrev Parker, durma. Espero que você possa me reconhecer logo...”
Acordei e comecei a asfixiar. Eu não conseguia respirar, o ar estava preso em minhas ventas e eu gritei.
Carson abriu a porta de meu quarto e veio correndo em minha direção, ajudando-me a reorganizar o ar e enviá-lo para dentro de meus pulmões.
Mamãe entrou logo depois, trazendo-me um copo d’água.
- O que aconteceu? – Perguntou Carson.
Mamãe suspirou.
- Pesadelos?
Assenti, então franzi o cenho.
- Como...?
- Quando mudamos para Nova York você os tinha todas as noites, durante um ano inteiro.
Carson assentiu e afagou meus cabelos enquanto eu bebia a água numa velocidade sobrenatural.
Entreguei o copo para minha mãe novamente e suspirei, enterrando-me nos cobertores.
- Tudo bem agora? – Perguntou Carson acariciando minha mão.
- Tudo bem, podem ir, estou bem. – Menti.
Os dois se entreolharam e eu fixei meu olhar para um ponto além de minha janela. Estava nevando mais hoje.
- Bom, vamos deixá-la descansar um pouco, meu amor. – Disse Carson para minha mãe.
Eu nem me atrevi a olhar para eles, minha mente estava muito confusa e a única coisa que eu queria fazer no momento era me afundar nos cobertores e chorar num pranto incessante até quando Clark adentrasse em meu quarto e me reconfortasse.
Só virei meu rosto quando escutei o barulho da porta se fechando. Então suspirei e me agarrei em Bessie, que me olhava preocupada com seus olhinhos pretos brilhantes. Eu a abraçava com força, enquanto ela lambia delicadamente meu rosto.
Foi quando me lembrei do pesadelo. Que, para falar a verdade, não era muito um pesadelo... era mais como... uma lembrança. Esses meus... lapsos de memórias estavam ficando cada vez mais estranhos, de modo que agora eu me perguntava onde foi que eu estive esse tempo todo.
Não creio que a resposta seja “Planeta Terra”.
Bessie pulou para fora de minha cama e latiu para mim. Era como se ela quisesse que eu me levantasse, que eu sorrisse ou fizesse algo mais produtivo do que olhar para o nada e chorar.
- Desculpe, Bessie. Estou tentando ser o mais humana que posso. – Quando disse aquilo, me toquei de que era verdade. Eu estava do jeito que estava porque ainda queria me sentir humana, mesmo sabendo que eu não era uma.
Isso já era mais do que verdade agora, já era um fato. Meu sonho só ajudou-me a constatar isso ainda mais.
Bati em minha própria testa.
- Cérebro idiota. – Então suspirei e me sentei. – Quer parar de ficar me mand... – Então estaquei. Era a brisa novamente, e dessa vez eu tinha certeza: Eu a reconhecia. Não consegui evitar um sorriso, embora não soubesse por que estava sorrindo. Coloquei os dedos nos lábios. – Shawus...
Então era ele o tempo todo. A brisa era o garoto que estava em meu sonho, em minha lembrança. Pelo jeito ele estava mesmo empenhado em me ajudar.
Mas fiquei muito triste por saber disso, pois pensei que a tal brisa fosse meu pai.
Você deve estar se perguntando: E agora você pode vê-lo? Ah, quer dizer então que agora você vai saber de tudo?
Não e não.
Eu só podia... hã... senti-lo. Bem, não sei como lhe explicar, mas digamos que você tenha um irmão... e que de alguma forma vocês fossem bem próximos. Imaginou isso? Certo. Agora imagine que você foi forçado a esquecer-se de cinco meses em sua vida, e que por mais que olhasse pro seu irmão, não conseguisse saber quem ele era. Porém, você podia sentir que era ele.
Certo, eu sou péssima com explicações, sinto muito por isso. Mesmo assim espero que você tenha entendido.
Agora, de algum modo, eu não me sentia mais sozinha nessa loucura toda. Certo, eu não podia ver Shawus, mas sabia que ele estava lá, tentando me ajudar ao máximo a me lembrar do aviso que eu tinha que dar para as pessoas.
Respirei fundo e fechei bem os olhos, tentando me lembrar de mais alguma coisa. Alguma coisa que pudesse me levar rapidamente a minha pergunta principal: Que aviso era esse?
Quando fiz isso, minha cabeça explodiu de dor enquanto meu radio de pilhas explodia ao meu lado.
Por um momento, achei que fosse Shawus demonstrando sua raiva por eu ser tão lenta em me lembrar das coisas, mas então percebi que havia sido eu.
Então percebi outra coisa também: Eu havia explodido o maldito hidrante.
Cara... como eu posso ser tão burra?
Peguei os destroços de meu rádio e fiz uma careta ao olhar para Bessie, que estava encolhida a um canto, rosnando para – pelo menos era o que eu achava – Shawus.
- Fique quieta Bessie. – Murmurei, levantando-me da cama e procurando uma sacola embaixo da mesma. – Ele não é uma pessoa ruim... Droga, ele nem ao menos é uma pessoa.
Retirei a sacola debaixo de minha cama e despejei dentro dela meu radio destruído, em seguida a guardei embaixo da cama novamente e levantei.
Afaguei as orelhas de Bessie e calcei as pantufas que Clark me dera em meu aniversário. Respirei fundo novamente... e abri a porta de meu quarto.
Enquanto descia as escadas, pude perceber que Shawus estava bem próximo a mim. Em parte porque eu podia sentir sua brisa quente ao meu lado, e em parte porque Bessie estava rosnando para o nada.
E o nada só podia ser Shawus.
- Shhh, Bessie. – Sussurrei para ela, mas minha cadela me ignorou por completo e se postou ao meu lado como um verdadeiro guarda.
Senti o cheiro de pães de queijo recém-saídos do forno e só então percebi o quanto eu estava com fome.
Cheguei na cozinha e me deparei com a mesma cena de sexta-feira, porém agora ela já não me era tão estranha. Carson tirou seus olhos do jornal e sorriu para mim calorosamente enquanto eu me sentava à sua frente. Mamãe afagou meus cabelos e se sentou ao me lado, servindo-se e a mim com pães de queijo e vitamina de bananas.
- Então – Carson começou, trocando um olhar amoroso com minha mãe – o que você acha? Irmãozinho ou irmãzinha?
- Hm... eu gostaria de um irmãozinho. – Sorri, e tomei um longo gole de minha vitamina deliciosa.
Minha mãe riu e massageou sua barriga superlisa. Então ela mordeu os lábios e olhou-me.
- Eu estou achando estranho... – Ela olhou para seu noivo – É normal?
Carson sorriu.
- Amor, isso que você esta tendo agora é uma gestação normal... – Então ele percebeu que eu o observava e deixou a frase morrer.
- Como assim “gestação normal”? – Perguntei, deixando meu pão de queijo de lado.
Meus “pais” trocaram um longo olhar e eu suspirei. Aquilo realmente estava me tirando do sério.
Carson assentiu para minha mãe e ela se virou em minha direção. Pegou em minhas mãos e olhou-me nos olhos.
- Quando fiquei grávida de você... Bem, digamos que não foi algo muito comum numa gravidez. Você... hã...
- Eu...? – Incentivei.
- A barriga cresceu rápido demais. – Disse Carson. E mamãe permitiu que ele continuasse, de modo que me virei para ele. – Cerca de quarenta e duas horas depois, sua mãe já podia se considerar uma mulher grávida de nove meses.
- E cerca de trinta e seis horas depois... – Mamãe suspirou. – Eu tive as primeiras contrações.
Eu estava abismada demais para dizer qualquer coisa, então apenas fiquei olhando para meu próprio prato.
- Foi quando levamos sua mãe no médico pela primeira vez. – Continuou Carson. – Não havíamos levado-a antes porque... bem, porque eu estava tendo alguns probleminhas financeiros.
- Mas quando vimos que você nasceria... quer dizer, só haviam se passado três dias e seis horas desde que eu havia ficado grávida... Como eu não havia ido ao médico ainda, pensávamos que eu estava grávida de quadrigêmeos ou mais, mas...
- Quando vimos que você realmente estava a fim de vir ao mundo, resolvi deixar minhas finanças de lado e levar sua mãe em um doutor local. E quando chegamos lá e contamos a história toda, o Dr. Gregory riu da nossa cara, dizendo que éramos loucos.
Mamãe suspirou.
- E ele simplesmente não quis fazer minha cesárea. Então tivemos que voltar para casa... e você nasceu lá.
Eu havia perdido a fome. Havia perdido a sede. Havia perdida a vontade de fazer qualquer coisa naquela casa. Simplesmente tirei minhas mãos das de minha mãe e me levantei, ignorando os apelos de Carson e mamãe para que eu me sentasse novamente, e segui para meu quarto, ciente de que Shawus e Bessie estavam em meus calcanhares.
Não sei quanto tempo fiquei trancada em meu quarto, assistindo programas na televisão e escutando os rocks mais pesados que eu possuía no rádio. Só sai de meu estupor quando escutei a vos grossa de Clark chamando pelo meu nome.
Como se estivesse em transe levantei-me da cama e segui para a janela. Afastei as cortinhas e a abri. Clark sorriu para mim.
Sabendo que minha mãe provavelmente o deixaria entrar para que falasse comigo e visse se eu estava bem, – Clark era o único que conseguia esse tipo de coisa – destranquei a porta do quanto e voltei para a confusão de lençóis e travesseiros que era minha cama.
Cerca de dois minutos depois, alguém bateu na porta.
- Gwen? – Clark chamou. Sua voz estava extremamente preocupada.
- Entre. – Consegui dizer.
Meu melhor amigo adentrou em meu quarto e fechou a porta atrás de si. Ele vestia jeans surrados, uma camisa xadrez que caia extremamente bem nele e tênis Converse. A mochila presa nas costas me dizia que ele havia trazido seu livro sobre alienígenas. Seu cabelo estava um pouco aparado nas pontas, o que queria dizer que ele realmente havia se arrumado para vir almoçar em casa.
Foi quando percebi o meu real estado. Eu ainda estava de pijamas e meias de flanela, havia uma moita bagunçada em cima de meu cabelo e provavelmente meus olhos estavam inchados e vermelhos. Constatando isso, escondi-me debaixo do cobertor.
Pude escutar a risada suave de Clark, e o senti sentando ao pé de minha cama.
Clark retirou carinhosamente o cobertor de meu rosto e afagou minhas bochechas. Seus olhos ora verdes ora azuis estavam mais atraentes do que nunca, e aquele sorriso torto que eu tanto gostava estava pintado em seus lábios rosados.
- Desculpa. – Murmurei.
Clark franziu o cenho.
- Pelo quê?
Suspirei e amarrei meu cabelo com o próprio cabelo.
- Por ter sido rude com você ontem. Eu... eu estava meio alterada.
Clark pegou em minhas mãos.
- Não é para menos... você descobriu algo muito forte ontem.
Assenti. E senti meus olhos se encherem de lágrimas. Eu não queria chorar novamente, mas foi mais forte do que eu.
- Eu não sou humana, Clark. – Murmurei enquanto Clark enxugava minhas lágrimas. – Nem se quer tive uma gestação humana... – Vi o rosto confuso de Clark e, em poucas palavras, lhe contei minha descoberta no café da manhã. Ele escutou tudo e apenas me olhou. – Eu não pertenço a esse planeta... – Então lhe contei um breve resumo de meu pesadelo, e ele permaneceu quieto. – Eu não sou humana, Clark.
Não aguentei mais e cedi ao abraço de meu melhor amigo, as lágrimas jorrando de meus olhos e molhando sua camisa. Seus braços fortes me faziam sentir segura. Então o abraço acabou e eu sorri fracamente para Clark.
- Posso fazer uma coisa? – Perguntou ele.
Dei de ombros.
- Claro.
Clark sorriu para mim e deitou ao meu lado na cama, então nos olhamos e nos aproximamos mais, até que minha testa estivesse encostando-se à dele e uma de suas mãos estivesse desfazendo o nó de meu cabelo. Sua outra mão me abraçava pela cintura carinhosamente.
Ficamos assim por alguns minutos.
- Isso é humano, Gwe. – Sussurrou Clark, e seu hálito cheirava a hortelã.
Nossos olhos se encontraram e Clark usou a mão que me apertava pela cintura para afagar minhas bochechas e contornar o desenho de meus lábios.
- Isso é extremamente humano, Gwe. – Sussurrou ele novamente.
Não me atrevia a falar, não me atrevia a me mexer. Apenas fiquei lá, de olhos fechados, sentindo o cheiro de hortelã que saia da boca de meu melhor amigo.
Então minha mãe bateu na porta e a abriu. Eu cai da cama e Clark levantou-se rápido, fingindo estar fazendo algum tipo de palhaçada para me fazer rir.
E, de fato, eu ri, mas ri da cara desconfiada e risonha de minha mãe.
- O que é que esta acontecendo aqui, hein? – Perguntou ela enquanto eu me levantava do chão e segurava na panturrilha esquerda de Clark.
- Sua filha estava muito tristonha, senhora Parker. – Disse Clark, dando seu melhor sorriso.
- É, então Clark resolveu que iria pular na cama até que eu caísse dela... – Pisquei para meu melhor amigo. – Bom, o que posso dizer? Deu certo.
Minha mãe não pareceu acreditar muito no que dizíamos, porém ela se deu por vencida e escolheu um conjunto de moletom para mim no guarda-roupa enquanto eu e meu melhor amigo nos recompúnhamos do susto.
- Clark, querido, vamos lá embaixo para que Gwen se troque?
Clark assentiu e piscou para mim, saindo com minha mãe e fechando a porta de meu quarto.
Troquei-me o mais rápido que podia, não deixando tempo para que meu cérebro formulasse mais perguntas sobre o que acabara de acontecer, e desci correndo para a cozinha.
Clark conversava alegremente com Carson sobre as últimas jogadas do Manchester United, o time para qual ambos torciam. E minha mãe preparava os pratos de todo mundo. O almoço de domingo de hoje consistia em: Arroz, feijão, bife a milanesa, peixe frito, batatas fritas e estrogonofe.
- Hm... tá meio brasileiro isso aqui, não? – Perguntei enquanto me sentava ao lado de meu melhor amigo.
Clark e Carson pararam de conversar e sorriram para mim. Mamãe entregou meu prato e começou a preparar um para si.
- Tio Sam deu uma ajudinha no cardápio de hoje. – Disse Carson.
- Ele veio aqui? – Perguntei, surpresa.
Mamãe assentiu enquanto se sentava.
- Veio, mas você estava muito ocupada escutando música lá em cima para se dar conta disso.
Mostrei a língua para minha mãe e ela riu, dando-me um tapa de leve nas costas.
***
O almoço fora bom e a comida estava uma delícia, porém, eu e Clark tínhamos coisas mais importantes a tratar.
Subimos para o meu quarto e Bessie veio conosco. Não senti a presença de Shawus, e começava a achar que ele não gostava muito da presença de Clark.
Clark ignorou meus xingamentos e começou a arrumar minha cama enquanto eu penteava meu cabelo. Vendo que ele iria arrumar não importasse o que eu fizesse, comecei a lhe contar sobre Shawus e como eu podia sentir sua presença. Contei sobre meu pesadelo mais detalhadamente e, quando ele terminou a faxina, lhe mostrei meus documentos.
Sentei ao lado de Clark enquanto ele analisava os papéis minuciosamente. Ele analisou os diagramas e os raios X, analisou criticamente a carta endereçada ao Dr. Orson e analisou sobre minhas sequências de ADN estranhas.
- E então? – Perguntei quando ele deixou os documentos de lado e pegou sua bolsa.
- Hm. – Fez ele.
- Hm? – Perguntei, incrédula. – Você acaba de constatar que eu sou uma coisa estranha de outro planeta e a única coisa que tem para me dizer é “Hm”?
Clark revirou os olhos e pegou os documentos novamente. Ele abriu em alguma página de seu livro que eu não podia ver e começou a estudar alguma coisa.
Nerds... quando vamos entendê-los?
Depois de alguns minutos, Clark fechou seu livro e olhou para mim.
- Era isso que eu temia.
Comecei a sentir algo no coração. Era uma espécie de ansiedade misturada com... medo. Muito, muito medo.
- O que é que eu sou hein? – Perguntei, cansada.
- Eu poderia dizer, mas você não acreditaria em mim. – Clark disse, e então sorriu para mim. – É melhor você “ver” com seus próprios “olhos”.
- Pra quê esse monte de aspas?
- Deite-se, Gwen.
- Pra qu...?
Clark suspirou e apontou para minha cama. Bufei para ele e segui em direção ao local onde eu dormia, deitando-me e olhando para meu melhor amigo.
Clark se aproximou de mim e retirou uma medalha dourada do bolso. A lembrança de Shawus retirando uma medalha muito parecida em meu sonho me fez ofegar, mas os olhos de Clark estavam tão ternos que meu medo e desespero logo passaram.
- Shh... – Fez Clark. – Vou tentar ser o melhor nisso aqui, ok?
- Você vai conseguir. – Eu sorri. – É tão maravilhoso quanto sua mãe.
Clark sorriu de volta e deu de ombros.
- Tente relaxar Gwen, isso precisa ser preciso.
- Ei, mas...
- Shh... – Clark fez novamente, calando-me por completo.
Meu melhor amigo fez a melhor hipnose que podia em mim, e quando eu finalmente cai num sono profundo as lembranças me atingiram como uma metralhadora e... eu me lembrei de tudo.
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