21.12.12 - A Invasão
5 Diagnóstico
Notas iniciais
Feliz dia dos namorados pra vocês, porque pra mim a situação esta complicada. Meninas, me digam, por que raios um garoto nem vem falar com você, sendo que ele disse para uma amiga sua que quer muito conversar com você sobre... hã... assuntos pendentes? ¬.¬'
Enfim, quis terminar esse capítulo hoje por causa desse dia tão especial para as pessoas que namoram, e em até música!
É a música Innocence, da diva Avril Lavigne!
http://letras.terra.com.br/avril-lavigne/955893/traducao.html
Imagem do capítulo: Clark e Gwen investigando a escola.
Descemos uma rua que cheirava a pretzels e café, depois fomos por uma ladeira e passamos por um arvoredo bonito e seco, repleto de pingentes de gelo.
Clark pegou um pingente de gelo e o ofereceu a mim.
– Aceite, Princesa Léia, aceite essa oferenda.
Dei-lhe um tapa de leve na cabeça.
– Clark, por que você não é normal?
Ele me mostrou a língua.
– Falou a garota com poderes esquisitos que fala vietnamita.
Sorrimos um para o outro.
– Touché. – Eu disse, e meu melhor amigo assentiu. – Clark...
Clark me olhou, mostrando o quão atencioso ele era. Francamente, qual era o problema de Samantha? Tratar um garoto como Clark do jeito que ela tratava... não era humano. Como Josh poderia estar namorando com ela, eu me pergunto.
Garotos são estranhos, e estou incluindo meu melhor amigo nessa afirmação.
– Algum problema Gwe?
Dei de ombros e sorri, nervosa. Eu estava com medo, com medo de descobrir sobre mim mesma, com medo das respostas que eu tanto queria ter. Simplesmente olhei para Clark, e ele fez algo que me surpreendeu, ele me abraçou.
Ah, claro, você deve estar pensando: Mas vocês já não se abraçaram antes?
É, sim, já nos abraçamos muitas e muitas vezes, mas... Não sei, esse abraço em especial me pareceu diferente. Não sei como explicar, mas foi como se o mundo tivesse desaparecido, e só restássemos eu e Clark. O mundo pareceu parar a nossa volta, enquanto nos abraçávamos.
Senti algo forte no peito, uma emoção muito grande para ser descritas em meras palavras. O abraço de Clark, aquele abraço, tirou todos os meus receios.
Agora eu sabia, eu sabia que Clark seria meu amigo para sempre. Independentemente do que eu fosse ele ainda me amaria, e iria comigo até o fim.
Ficamos ali, abraçados, por um tempo que me pareceu à eternidade, até que Clark me soltou e afagou meus cabelos enquanto sorria.
– Ei, — disse ele com a voz baixa, reconfortante – vai ficar tudo bem.
Não pude evitar e acabei sorrindo para ele também. Não pude evitar outra coisa também: Qualquer garota que tivesse Clark como namorado, poderia se sentir a garota mais feliz do mundo.
Ei, pare de pensar que eu estou interessada nele, porque não estou. Eu nunca tive pensamentos desse tipo antes, apenas com relação à Josh, mas... Ora, eu tinha olhos, não tinha?! Não podia simplesmente fingir que não estava vendo a beleza em ascensão de meu amigo. Eu pude perceber na escola que as outras garotas pensavam a mesma coisa que eu, talvez com certo teor malicioso, mas pensavam o mesmo que eu. Percebi o modo de como elas olhavam para ele, e inclusive o modo de como Samantha olhava para ele.
Eu juro que, se Samantha se separar de Josh para vir tentar algum coisa com Clark... Bem, digamos que ela terá que respirar por tubos durante um bom tempo.
– Gwen... – Clark disse, os olhos um tanto quanto arregalados enquanto olhava para mim. – Você esta brilhando.
Sua frase tirou-me por completo de meus devaneios e eu olhei para minhas mãos. De fato, ambas brilhavam levemente. Eu estava com os punhos cerrados, por isso relaxei as mãos e suspirei. No momento em que fiz isso, em que deixei a raiva que sentia por Samantha se dissipar, minhas mãos pararam de brilhar.
Olhei para Clark, e ele mordeu o lábio inferior, pensativo. Então piscou rapidamente para mim e disse:
– Bom, agora sabemos que você não pode sentir raiva de ninguém.
Franzi meu cenho.
– Como sabe que eu estava sentindo raiva?
Clark revirou os olhos.
– Eu conheço você. E você faz uma cara estranha quando esta com raiva de alguém, sem falar que suas sobrancelhas ficam juntinhas, como se você estivesse pensando em algo. Mas ai você trinca os dentes e é ai que eu sei quando esta sentindo raiva de alguém.
– Ah. – Foi à única coisa que consegui dizer.
Ele sorriu para mim e passou um braço pelos meus ombros. Recomeçamos nosso caminho para a escola e, em poucos minutos, a avistamos da colina.
Clark suspirou e tirou seus braços de meus ombros.
– Me deixe falar. – Disse ele.
– E por que eu não posso falar? – Perguntei, colocando as mãos na curvatura da cintura.
Clark olhou-me.
– Porque você não consegue mentir.
Bufei. Droga, porque os melhores amigos nos conhecem tão bem? Que coisa.
– Melhor amigo idiota. – Murmurei.
Clark sorriu, e fomos para a escola.
O Sr. Lockhart, como de costume, estava lendo o jornal enquanto proporcionava “segurança” para a nossa escola. Quando ele viu a mim e a Clark, tirou os óculos e nos presenteou com um sorriso desdentado. Ele saiu de sua guarita de paredes descascadas e nos cumprimentou com as mãos.
– Ah, que bom que vieram me ver, queridos! – Exclamou ele, feliz.
Tentei não ficar olhando, mas não pude deixar de perceber a enorme (e horrenda) verruga que se instalara na ponta do nariz de Lockhart.
Clark pigarreou para que eu fixasse minha atenção nos olhos, e não no nariz, do porteiro da escola, e eu o agradeci com o olhar.
– Bom, Sr. Lockhart, acontece que eu e Gwen esquecemos alguns pertences nossos em nossos armários e... Queríamos saber se... sabe... o senhor não poderia nos deixar pegá-los.
O porteiro fez uma careta nada charmosa e nos olhou dos pés a cabeça. Eu tinha certeza de que o plano de Clark estava prestes a ir por água baixo, pois pelo visto estávamos em um daqueles dias em que Lockhart acordava com o pé esquerdo. Mas também... se eu tivesse uma verruga daquele tamanho me acompanhando por todos os lugares, também não seria muito feliz.
Sr. Lockhart pegou um molho de chaves de seu cinto e nos olhou atentamente. Clark esticou os braços para pegar as chaves, mas nosso querido porteiro as guardou para si novamente.
– Me digam o número dos armários de vocês.
Eu e Clark nos entreolhamos.
– Anh... Mas não seria para nós irmos?
– Não mais. – Sr. Lockhart bufou. – Me digam e eu mesmo pegarei os pertences de vocês.
Clark me olhou desesperado. Tínhamos que entrar naquela maldita escola, para invadir o maldito laboratório e pegar o meu maldito diagnóstico.
Foi quando me ocorreu uma ideia: Se, de manhã, minha mão conseguira, de alguma forma, atrair meu celular... será que isso poderia ocorrer com as chaves também? Lembrei-me de como eu desejara que as janelas se abrissem sozinhas e de como elas haviam se aberto sozinhas alguns segundos depois.
Enquanto Clark, derrotado, dava os números de nossos armários para o Sr. Lockhart, agitei minhas mãos discretamente para o molho de chaves, mas eles permaneceram imóveis. Tentei uma segunda vez, e uma terceira, mas nada acontecia.
Respirei fundo, aquilo já estava começando a me chatear. Por que a droga do molho de chaves não vinha para a droga da minha mão? Será que aquilo só funcionava com celulares? Mas então me lembrei que, quando eu tentara novamente com o celular, nada acontecera. Não podia ser coisa da minha imaginação, pois eu sabia que aquilo havia acontecido. Diabos... o que eu estava fazendo de errado?
Cerrei os punhos e olhei fixadamente para o molho de chaves.
Ele se mexeu.
Controlei a emoção de felicidade que invadia minha mente, e continuei concentrada. Imaginei-me pegando o molho de chaves e o colocando no bolso esquerdo de minha calça. No exato momento em que imaginei isso, senti um peso no bolso.
Arregalei meus olhos ao perceber que, de algum modo, eu conseguira mover o molho de chaves para o meu bolso apenas com a força de meu pensamento.
Sr. Lockhart praguejava enquanto procurava alguma coisa embaixo de um carro.
Olhei para Clark, e mostrei o volume em meu bolso. Ele arregalou os olhos e olhou para o Sr. Lockhart, depois voltou-se para mim e eu assenti.
– Hã... Sr. Lockhart, — Disse meu melhor amigo. Sr. Lockhart se voltou enfurecido para ele, mas como não achara nenhuma razão para nos culpar pelo sumiço de suas chaves, apenas nos observou. – Nós vamos embora e voltamos mais tarde.
– Eu não posso ter perdido aquelas malditas chaves! – Exclamou o porteiro. – Meu emprego maldito depende delas!
– É, bem... boa sorte com as chaves. – Eu disse, e puxei Clark enquanto saia do campo de visão de Lockhart.
Clark me olhou como se eu fosse realmente a Princesa Léia.
Retirei o molho de chaves do bolso e o entreguei para ele.
– Uau! Uau mesmo Gwen! – Exclamou Clark enquanto olhava para as chaves. – Como conseguiu isso?
Dei de ombros.
– Mas precisamos devolvê-las logo... coitado do Sr. Lockhart.
– Ah, ele ficará bem por algum tempo. – Argumentou Clark. – Será que você consegue nos teletransportar para dentro da escola assim como fez com as chaves?
– Não, provavelmente não. – Franzi o cenho. – Acho que só posso fazer esse tipo de coisa com coisas pequenas, tipo as chaves ou celulares.
– Hm... – Fez Clark, e então guardou as chaves no bolso de sua jaqueta. – Como que nós vamos entrar lá sem que ele nos veja?
Outra ideia me ocorreu. Se eu pudera abrir minhas janelas... bem que poderia fazer a mesma coisa com as janelas da escola... certo?
– Vem. – Peguei nas mãos de Clark e comecei a contornar a escola. A cada vez que Sr. Lockhart se virava de súbito, eu me calava à parede, e intimava Clark a fazer o mesmo. Conseguimos contornar a escola até a parte em que havia um muro mais baixo, que conseguiríamos subir sem problemas.
Clark colocou as mãos nos joelhos e respirou com força, tentando pegar ar de qualquer jeito.
Eu, por outro lado, me sentia ótima. Não estava nem suando e minha respiração estava normal. Ajudei Clark a se recuperar e subi no muro. Eu nunca, repito, nunca, conseguira subir naquele muro sem ajuda.
Sim, antes que você se pergunte, eu e Clark já invadimos a escola antes, mas fora porque tínhamos sido intimados a fazê-lo por Jonathan Von Helmer, um grosseiro que estudava em nossa escola e que não nos deixava em paz.
Graças a Deus ele havia se formado ano passado, provavelmente porque o pai pagara uma quantia generosa para a escola, pois Jonathan era tão inteligente quanto uma mula.
Como me sentia com energia de sobra, ajudei Clark a subir e adentramos, com um pulo, no campus.
Teríamos que percorrer 700 metros de campus para conseguirmos chegar na primeira janela. Sem falar que havia câmeras por todos os lados.
Desejei ter o poder de estar invisível, mas infelizmente acho que eu não o tinha.
– Certo. E agora? – Perguntou-me Clark.
Devo dizer que, naquela primeira vez em que havíamos invadido o campus, nós saímos logo depois. Ou seja, agora ambos não faziam ideia de como atravessar todo aquele gramado sem serem vistos.
Lembrei-me de um trabalho que eu e Clark havíamos feito na quinta série. Nosso tema fora sobre câmeras, e nós havíamos tido permissão para saber o local em que cada câmera ficava.
– Lembra-se do trabalho da quinta série? – Perguntei, em tom baixo, para Clark.
Ele ficou pensativo por um instante, mas seu semblante se iluminou alguns segundos depois.
– É claro... Gwen, você é um gênio! – Clark abriu sua bolsa e retirou um Ipad de lá.
– Você tem um Ipad? – Perguntei, surpresa.
Ele assentiu.
– Ganhei mês passado, não se lem...? – Então ele se lembrou de que eu não me lembrava de absolutamente nada e me mostrou o objeto. – Coloquei todos os meus trabalhos aqui dentro, inclusive o da quinta série. – Clark começou a pesquisar algo em suas diversas pastas enquanto me explicava. – Com o trabalho aqui, vamos saber o local exato de cada câmera e... – Clark me mostrou novamente a tela de seu Ipad. Eu estava olhando para nossas pesquisas de infância. – seus pontos cegos.
– Ponto cego? É o local em que as câmeras não conseguem ver, não é?
Clark assentiu e começou a estudar nosso trabalho. Eu estava com medo de alguma câmera ter ou já ter nos pego ali, mas então me lembrei que nos muros do campus não fora colocado câmeras, só no campus em si.
Nunca fiquei tão feliz por ter um amigo star trek maníaco por câmeras na minha vida.
Clark apontou para um ponto ao nosso lado e me mostrou o Ipad novamente.
– Ali... Aqui, aqui, aqui e aqui, são os pontos cegos mais próximos de nós. – Disse ele, enquanto apontava com uma caneta para a tela do Ipad. Onde ele fixava a caneta, havia uma mudança de coloração na tela e podíamos ver o local exato do ponto cego.
A tecnologia é incrível!
– Certo, e como vamos ir até lá – apontei para a janela mais próxima de nós – sem sermos vistos?
Clark fechou sua bolsa e segurou firme em seu Ipad. Ele respirou fundo e olhou para mim.
– É agora ou nunca. Pronta para descobrir mais sobre você mesma?
– Hm, na verdade, não.
Clark sorriu e pegou na minha mão por alguns instantes, soltando-a logo depois.
– É esse o espírito! – Ele olhou rapidamente para a tela de seu Ipad. – Certo, viramos à esquerda e teremos que nos abaixar quando eu contar três. Gwen, isso precisa ser preciso. – Ele me olhou com curiosidade. – Um poder de invisibilidade viria bem a calhar agora... Por um acaso você não tem esse poder, tem? Só estou perguntando.
Revirei meus olhos.
– Eu não faço parte do quarteto fantástico, garoto. Vamos logo com isso.
– Certo... em um... dois... – Clark fez um sinal de positivo com o polegar direito para cima e entramos em ação.
Esgueiramos-nos pela extremidade esquerda do muro (o que me fez ganhar alguns arranhões de leve nos braços, mas tudo bem.) e então pudemos avistar uma das câmeras. Eu podia ver exatamente seu ponto cego agora.
Olhei para meu amigo, esperando ansiosa por seu comando. Ele contou até três nos dedos, e nos abaixamos rapidamente, em uníssono. Enquanto estávamos lá, deitados com a barriga na grama meio molhada, Clark admirou novamente a tela de seu Ipad.
– Direita, corre. Abaixa no três. – Sussurrou ele.
Corremos feitos loucos para a direita e, ao comando de Clark, nos abaixamos. Fizemos cinco vezes esse mesmo processo, mas intercalando os lados. Esquerda, direita, esquerda, direita e esquerda novamente.
Eu estava um pouco suja de lama, e um pardal miserável havia feito coco na minha cabeça, mas essas eram as últimas coisas que me preocupavam no momento.
Finalmente havíamos conseguido chegar à janela mais próxima, que nos daria a entrada para a sala da coordenadora Sullivan, a mãe de Samantha.
Clark olhou para o molho de chaves e em seguida para o cadeado na janela. Seu cabelo cacheado estava espetado para todos os lados, e sua jaqueta Star Trek estava suja de lama. Ele bufou e me entregou o molho.
– Ótimo, tivemos todo esse trabalho para nada. As janelas são abertas por dentro.
Ergui minhas sobrancelhas para ele e lhe devolvi o molho.
– Isso não é problema para mim.
Respirei fundo e fixei meu olhar na tranca da janela. Imaginei-me atravessando a parede e abrindo o cadeado com a chave branca do molho de chaves que estava nas mãos de Clark, mas não obtive sucesso.
– Gwen...
– Shh.
– Você fez shh pra mim...?
– SHH!
– Ta, ande logo.
Peguei o molho de chaves bruscamente das mãos de meu amigo e me concentrei novamente, imaginando a mesma coisa. Dessa vez, porém, foi diferente. Eu realmente senti que estava destrancando a janela, eu podia sentir minha mão direita se mexendo num movimento anti-horário.
Escutei o barulho do cadeado se abrindo, mas não me desconcentrei. Não deixei que minha imaginação deixasse a sala de Sullivan, e imaginei-me abrindo a janela, deixando uma brecha para que Clark e eu entrássemos. E então, como se fosse mágica, a janela começou a se levantar, aos pouquinhos. Deixei que ela abrisse três centímetros e balancei a cabeça, que começava a doer.
Percebi também que eu estava com a respiração ofegante, e que o suor salpicava minha testa. Entreguei o molho de chaves a Clark novamente e suspirei.
Clark se aproximou de mim e me envolveu com um de seus braços grandes, longos e fortes, antes que eu desmaiasse.
– Anh... Digamos que seja melhor você usar esse seu dom esquisito apenas uma vez por dia, certo?
Não me dei ao trabalho de responder. Sai de seu abraço apertado e comecei a abrir a janela.
– Ajude aqui! – Pedi a Clark. Ele abriu o restante da janela facilmente e nós entramos.
– Certo. – Disse Clark, guardando o Ipad novamente na bolsa e estralando os dedos de ambas das mãos. Eu via que o garoto estava realmente nervoso, assim como eu. Afinal... é realmente difícil você ver algum nerd invadir a escola para roubar arquivos secretos de saúde. – Vamos ver que chave abre essa droga de porta...
– Eu posso abrir se você quiser.
Com um olhar de Clark, eu me calei. Eu me sentia cansada e disposta a dormir, mas minha curiosidade vencia tudo isso, de modo que eu estava fingindo ao máximo estar bem, mas como você já sabe, Clark me conhecia bem demais, por isso resolvi deixar ele fazer o que quisesse e ficar quieta.
Clark conseguiu finalmente destrancar a porta e a empurrou de leve, revelando-nos um corredor extenso de madeira descascada, algumas salas, uma sala grande e redonda de espera e duas faixas extensas de escadas que iam para o andar de cima.
– Onde é que fica o laboratório dela? – Perguntei, quase sussurrando. – Não deve ser na ala hospitalar, não acha?
Clark seguia a alguns passos na minha frente, como ainda não havíamos achado o interruptor para ligar as luzes (e acho que, caso achássemos, provavelmente não mexeríamos nele), ele mantinha uma lanterna em mãos, iluminando o caminho mal iluminado pelas janelas à nossa frente. Ele quase não respirava, e pisava bem de leve no assoalho.
Vendo Clark daquele modo, me senti um mamute em crise de pânico. Cada passo que eu dava parecia tão alto, que eu tinha medo de Lockhart ouvir.
– Não acho muito provável, afinal, ficaria exposto demais de ficasse na ala... – Continuei.
Clark parou diante da escada esquerda e olhou para mim.
– Você esta certa, Gwe. Provavelmente esta num local onde nenhum aluno se atreveria ir.
Semicerrei os olhos.
– A sala do diretor Nors? – Estremeci. O diretor Nors era um homem barrigudo que tinha os bigodes mais estranhos e nojentos que você possa imaginar. Ele odiava crianças e adolescentes, e odiava de paixão o seu trabalho. Ele me odiava também, pois há anos ele tentara “algo mais sério” com minha mãe, mas ela lhe dera o fora. – Eu nunca me atreveria a ir lá.
Clark não conseguiu esconder-me um sorriso.
– Certo, você vai à sala do Nors, e eu subo para ver se encontro a sala da Frya. – Ele retirou outra lanterna da mochila e me ofereceu-a, enquanto eu o olhava incrédula.
Peguei a lanterna e continuei olhando-o do mesmo modo.
– Que foi? – Perguntou ele, profundamente inocente.
– Acabo de lhe dizer que nunca me atreveria a ir à sala do cara, e você me manda investigar justo a maldita sala?
Clark pousou uma de suas mãos em meus ombros.
– Escute, Gwen, Nors não estará lá. Você vai estar segura. – Ele abriu a sala à minha esquerda e sorriu.
Revirei meus olhos para ele e me virei para a sala ao meu lado, enquanto ele seguia pela escada.
Empurrei levemente a porta, que se abriu como se eu tivesse a empurrado com força. Certo, eu achara aquilo estranho. Eu tinha superforça agora? Enfim, deixei de lado mais essa estranheza e entrei.
E novamente, senti a presença. A presença que eu imaginava ser meu pai. Virei-me bruscamente para a direita, mas nada vi. Eu só sentia um leve aroma de primavera e a suave brisa de verão tocando-me o rosto.
– Você podia se mostrar, sabia? – Perguntei, me sentindo uma completa idiota.
Sorri para mim mesma segundos depois, balançando a cabeça e pousando a lanterna delicadamente na mesa de mogno de Nors.
Sentei-me em sua cadeira almofadada e estiquei os pés, estralando as juntas de meu corpo. Abri algumas gavetas, remexi em diversos papéis, achei várias contas altas voltadas para a escola, mas não encontrei nada sobre os diagnósticos dos alunos.
Bufei e comecei a mexer nos papéis que estavam em cima da mesa, porém não obtive sucesso.
Eu já começara a me levantar quando senti a brisa passando rapidamente pelo meu rosto, fazendo com que eu o virasse para a esquerda, com o susto. Ao mesmo tempo em que fazia isso, percebi um dos quadros da parede se mexendo de leve de um lado para o outro.
Franzi o cenho, achando aquilo um tanto estranho peguei a lanterna e me aproximei cautelosamente do quadro.
A figura pintada na tela consistia em uma paisagem sombria, com um ser horroroso berrando, com as mãos coladas nas bochechas flácidas e secas.
– O grito... – Murmurei.
Mais uma vez, o quadro se mexeu. E dessa vez eu pude sentir a brisa fazendo isso. Era como se... como se ela quisesse me mostrar algo. Tirei o quadro da parede e reprimi um chamado bastante alto para Clark.
Eu via diante de mim um cofre, daqueles de senhas, dos bem antigos.
Olhei para trás e prensei os lábios, pensando se deveria subir para chamar meu melhor amigo ou não. Ponderei sobre isso durante alguns segundos, mas nosso tempo se esgotava, eu já teria de ouvir muito de mamãe e Carson por ter demorado tanto para voltar para a casa.
– Hm, será que você pode... hã... sabe? Agitar a senha certa ou algo assim. – Falei para o nada, mais uma vez me sentindo idiota.
Não obtive resposta alguma dessa vez.
– Brisa idiota. – Murmurei, e juro que senti uma pressão na bochecha esquerda, como se a própria brisa estivesse me dando um tapa por tê-la chamado de idiota.
Havia trilhões de senhas que eu poderia tentar, e provavelmente nenhuma delas daria certo. Foi então que me ocorreu um ideia.
Concentrei-me, olhando fixadamente para a fechadura do cofre, e me imaginei lá dentro, abrindo-o de dentro para fora.
Funcionou perfeitamente, porém tive uma tontura desconfortável e tive que me sentar por alguns instantes. Me perguntei por onde andaria Clark, provavelmente ainda procurando os documentos de sala em sala, lá em cima.
Quando senti que tudo havia parado de rodar, levantei e abri o cofre sem nenhum problema.
Havia dezenas de papéis lá dentro: diagnósticos de saúdes dos alunos do colégio Margareth Thatcher.
Tentei procurar o papel com o meu nome sem que fizesse muita bagunça, mas não deu certo, então joguei todo o conteúdo do cofre no chão e me ajoelhei, procurando o papel com o meu nome desesperadamente.
Eu não o encontrava de jeito algum, e a única coisa que encontrei com o meu nome foi uma carta endereçada ao Dr. Orson, pai adotivo de Josh. Ah sim, eu havia esquecido-se de mencionar isso, mas Josh era adotado. E nem me pergunte se sei mais sobre isso, pois eu nunca tivera a oportunidade de conversar com Josh direito.
Por que, ó Deus, havia uma carta endereçada ao pai de meu amor platônico com o meu nome?
Antes que perdesse a coragem, eu abri a carta. Havia um bilhete pregado em meu diagnóstico médico mensal.
“Caro Dr. Orson,
Sinto termos que lhe incomodar novamente, mas como já sabe, confiamos muito no senhor para isso.
Eis lhe aqui um diagnóstico médico de uma de nossas alunas, Gwen Drobev Parker, que queremos que estude.
Lembro-me de comentar comigo há muito tempo atrás sobre a estranheza genética de seu filho. Disse-me que era algo que o senhor nunca houvera visto em vida.
O documento que vêm justo a este irá lhe mostrar que seu filho não é o único com essa... Doença ainda não estudada.
Esperamos que possa achar rapidamente a cura, lhe agradecemos se puder mandar-nos-ão sua resposta.
Agradeço,
Diretor Nors.
“
Engoli em seco, retirei o bilhete e o diagnóstico e os deixei em cima da mesa. Depois, guardei desajeitadamente o restante dos diagnósticos no cofre de Nors, peguei minhas coisas e sai da saleta.
Encontrei Clark descendo as escadas com uma cara nada feliz.
– Eu não achei absolutamente nad... – Ele deixou sua frase morrer ao me ver segurando os papéis. – São seus?
Eu estava em transe, de modo que apenas assenti e lhe entreguei a lanterna.
– Eu posso ver? – Perguntou Clark, olhando-me com cautela.
Escondi os documentos atrás de mim e assenti negativamente com a cabeça, recompondo minha compostura.
– Sinto muito Clark, você é meu melhor amigo, mas...
– Mas...? – Ele me incentivou.
– Mas preciso tentar entender isso sozinha primeiro. – Suspirei, e senti uma pontada no coração ao ver Clark abaixando a cabeça. – Desculpa?
Ele me olhou com uma carinha de dar dó, a típica carinha que os meninos fazem quando querem muito alguma coisa sua. Me lembrava um cachorrinho que precisava de carinho.
Resisti ao impulso de voltar atrás e permaneci firme, até que Clark desistisse de me persuadir e desse de ombros.
– Tudo bem, você venceu, mas prometa-me uma coisa antes.
– Claro.
– Caso você descubra ou não, irei almoçar amanhã na sua casa, e descobriremos isso juntos. Ou então, se você descobrir, você vai me contar tudo.
Sorri.
– Está bem Clark. Agora, ande, precisamos sair daqui.
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