2029

3 Capítulo Dois


Durante a noite os sonhos me perseguem, sonhos que considero pesadelos e que me acompanham desde que cheguei ao orfanato quando pequena, logo após a morte de meus pais.

Mas dessa vez Mica não está aqui, não tenho para quem correr, não há braços fortes e protetores que possam me abraçar, nem vozes que digam que tudo ficará bem.

Estou sozinha, por conta própria. É exatamente isso o que me apavora.

Quinta feira de manhã, ao acordar, o dormitório das meninas está em euforia. Todas parecem muito ansiosas por terem mais uma chance de serem compradas, inclusive eu que, apesar de tudo, ainda espero que a pessoa que vem aqui hoje possa me querer.

Nós nos vestimos com o uniforme do Orfanato que só usamos em ocasiões especiais como essas. Colocamos os sapatos de boneca que nos deram no início do ano e nos dirigimos para o grande salão onde somos obrigadas a formar fila e simplesmente esperar.

Vários minutos depois a porta se abre e Maria aparece sendo seguida por um homem. Ele tem cabelos escuros e olhos extremamente pretos, como café requentado. É alto e muito elegante.

Maria aponta seus dedos para nós e mantém um sorriso forçado nos lábios, enquanto isso, o homem passa seus olhos em cada uma de nós e acho que por um segundo a mais seus olhos permanecem em mim.

– E então, o que acha? – pergunta Maria para ele, e espera pacientemente, olhando para nós com aquele olhar debochado que diz “boa sorte, fofinhas”.

– Já sei quem eu quero. – responde ele e então caminha até nós, ele vai até o início da fila, muito longe de mim, e passa por cada uma das meninas. Até que ele chega ao meu lado e para bem na frente de Louise.

Ele a observa e então balança a cabeça negativamente, em seguida estende a mão e quando menos espero ele está tocando o meu cabelo.

– Essa. É ela que eu quero. – eu levanto a cabeça e olho para ele, enquanto Maria caminha apressadamente e tenta se desculpar com o homem.

– A Lana, é ela? Tem certeza? – Maria parece irritada por uma fração de segundo apenas, então se recompõe e pede para que o homem a siga para que possam resolver tudo em seu escritório.

Antes de se afastar ela me dá aquele olhar e logo depois eu saio correndo até o dormitório, pego a mala velha embaixo da minha cama e coloco nela os meus poucos e improváveis pertences.

Eu fui comprada. Alguém finalmente quis me adotar.

Mal posso acreditar que finalmente vou sair desse lugar. Não parece real, ainda não, mas vai parecer quando eu estiver fora daqui numa casa quentinha e aconchegante, tomando café da manhã numa cozinha pequena com aquele homem que me adotou.

Quase uma hora depois, esperando sentada em minha cama enquanto abraço minha mala e tento não parecer muito ansiosa, Maria aparece sozinha na porta e me chama.

Vou até ela carregando meus pertences e ela sorri, daquela forma maldosa e debochada, já conhecida. Ela me guia até o seu escritório e pede que eu entre. Quando o faço não vejo o homem nem ninguém, estamos apenas eu e ela ali.

Ela se senta e sequer diz para que eu me sente também, e eu não o faço. Ela apenas me olha com o queixo apoiado sobre a mão e seu sorriso vai aumentando, até que ela está rindo e rindo e então há lágrimas em seus olhos. Ela chorou de tanto rir, e tudo ás minhas custas.

Já posso prever o que vem a seguir.

– Tadinha da Alana, nunca será adotada. O único que quis adotá-la acabou de desistir de você, lindinha. Sinto muito. – diz ela, e então me aponta a porta. Já posso sair.

Ela não sente nada. Maria é um monstro.

E agora eu me sinto tão fria quanto antes, sem emoções, apenas um vazio enorme onde antes havia alegria e esperança.