2029
4 Capítulo Três
Eu passo o dia deitada em minha cama. Ninguém vem aqui me chamar pra limpar o Orfanato, pelo menos hoje parecem sentir pena de mim. Apesar de eu mesma já não conseguir sentir mais nada.
De noite, meu estômago ronca, eu sinto fome e preciso comer, mas não tenho vontade muito menos forças para deixar a cama. Só quero continuar aqui, encarando o teto e esperando que um meteoro me atinja de repente. Quando todas as meninas ao meu redor estão dormindo, eu mesma ainda não consigo pegar no sono, fico me lembrando da forma como aquele homem tocou meu cabelo e disse que era eu quem ele queria. Depois disso me lembro das risadas de Maria quando me disse que ele havia desistido de mim. Eu não consigo chorar, mas eu quero, quero tanto chorar com a cabeça enterrada no travesseiro, mas nada sai. Nenhuma lágrima. No meio da noite, quando tudo parece muito silencioso e os únicos sons são os das respirações calmas e lentas ao meu redor, eu finalmente pareço cair no sono. Um sono leve e sem sonhos. Um barulho, á minha esquerda. Passos. Sons abafados. Alguém, com um capuz na cabeça aparece ao pé da minha cama. Olhos pretos me encaram. Suas mãos puxam meus tornozelos. E eu não consigo, eu não consigo gritar, não consigo fugir ou me afastar. Ele coloca um dedo sobre seus lábios e pede que eu fique quieta. É nesse momento em que eu consigo gritar. Ele tapa minha boca com a mão, e o grito fica preso em minha garganta. E é tudo tão rápido. Rápido. Eu me debato em seus braços enquanto ele me segura pela cintura e me arrasta pelo quarto. Ele me arrasta e me arrasta e eu quero lutar. Ele pede que eu fique calma, ele pede silêncio. Seu polegar faz um carinho em minha pele, ali, tão próximo ao lábio. E eu tremo. Tremo e tremo enquanto ele me carrega como se eu fosse apenas um saco de batatas. Em algum momento, não sei quando, eu começo a sentir um cheiro horrível e estranho. E então eu fico mole, e tudo parece muito engraçado. Seus olhos parecem brilhar, e eu quero levantar a mão e puxar o capuz de sua cabeça. Ele parece sorrir para mim. E eu dou risada, uma risada estranha, e tudo parece tão pesado. Eu deixo ele me carregar enquanto observo tudo ao meu redor. O jardim do orfanato parece tão engraçado hoje. Tem um passarinho naquela árvore, mas é noite, não deviam os passarinhos estar dormindo? Ele me coloca dentro de alguma coisa, e me coloca deitada. Então ele senta ao meu lado e me cobre com algo muito quente, macio. Não posso ver nada, posso apenas escutar barulhos estranhos e um ronco alto. Então no escuro, enquanto sinto meu corpo balançar de um jeito desconfortável, eu finalmente caio em um sono profundo. Profundo demais. Repleto de sonhos estranhos e enevoados.
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