2029
2 Capítulo Um
Eu acordo de repente, meu corpo banhado na sensação de estar caindo. Mas eu não estou caindo. Continuo deitada em minha cama, rodeada por outras camas. Algumas vazias e outras ocupadas.
Sento-me lentamente, percebendo só agora o início de uma dor de cabeça. Afasto o cobertor, que na verdade é só um pedaço velho de feltro e coloco as pernas para fora da cama.
Meus pés tocam o piso gelado e áspero, e eu olho ao redor, não quero que ninguém veja que estou me esgueirando durante a madrugada para fora do dormitório.
Ando pelos corredores como se não tivesse um rumo, mesmo sabendo para onde estou indo. O dormitório dos garotos, onde sei que posso encontrar Mica e deslizar ao seu lado na cama até que eu esteja tão próxima dele que apenas o calor de seu corpo irá me acalmar por completo.
A porta range baixinho quando eu a abro e espio dentro do dormitório dos meninos, não tem ninguém acordado, então eu finalmente entro e conto oito camas enfileiradas até chegar á de Mica.
Ele está deitado e dorme muito tranquilamente, parecendo muito calmo com os cabelos loiros e compridos caindo espaçadamente pelo travesseiro.
Levanto seu cobertor, de feltro igual ao meu, e me deito ao seu lado, chegando bem perto dele tanto quanto posso.
Deito minha cabeça próxima ao seu ombro e fecho os olhos, sentindo instantes depois quando ele respira fundo e passa seus braços ao redor da minha cintura, colando seu peito ao meu, nos aproximando ainda mais.
Durmo então, dessa vez durmo de verdade sabendo que estarei segura enquanto estiver ao lado dele.
Acordo de repente, alguém puxa o cobertor de forma abrupta e sinto o vento gelado sobre a minha pele. Reclamo baixinho com um gemido e procuro pelo cobertor ao meu redor, mas antes que possa encontra-lo, alguém me puxa pelo braço com força, até que eu esteja abrindo os olhos muito rapidamente enquanto caio no chão.
Olho para cima, pronta para gritar e reclamar, mas lá estão eles. Aqueles olhos. Olhos azuis. Azuis e claros como geleiras. Frios também.
Maria me observa. Os braços cruzados, o pé esquerdo batendo no chão. Impaciente. Brava.
Ela me olha de cima a baixo, seus olhos são ferozes.
E eu me encolho e tremo.
E eu quero me afastar, mas não tenho para onde ir.
Não tenho como fugir de suas mãos pesadas que, me agarram pelos braços e me puxam para cima.
Eu tropeço nos meus pés, ela grita comigo. Menina burra, garota estúpida, menininha inútil e idiota, imprestável. Peso morto. Órfã maldita. E então ela ri enquanto me arrasta pra fora do dormitório dos meninos, me arrasta enquanto os garotos ao meu redor me observam e cochicham entre si, enquanto eu me pergunto onde estava Mica, onde estava ele quando eu mais precisei...
Estou sentada na cadeira em frente á mesa de Maria. Seu escritório é a parte mais limpa e mais bem cuidada de todo o Orfanato. Eu mesma já fui obrigada a limpá-lo, como castigo por desobedecer. Como punição por qualquer coisa que eu tenha feito, que outros tenham feito. Sou sempre eu quem acabo de joelhos sobre o chão, limpando até estar exausta, até não conseguir mover os dedos direito, com joelhos esfolados, pele encardida, cabelos embaraçados e a roupa molhada, cheirando a alvejante.
– De novo aqui, não é mesmo, Lana? – pergunta ela, enquanto observa suas unhas compridas.
Não respondo, não é preciso.
– Gostaria de não ser obrigada a ver essa sua carinha sofrida com tanta frequência. O que podemos fazer a esse respeito? – ela volta a perguntar, mas de novo, sei que não devo e nem preciso responder.
Devo apenas permanecer quieta, de cabeça baixa.
– Quinta feira virá alguém que talvez queira te adotar. – ela diz, sua voz quase animada de verdade, mas então eu olho para ela, olho em seus olhos, a esperança me enchendo o peito até que eu veja o seu olhar de desprezo e diversão.
A raiva corrói as minhas veias, eu sinto meu corpo ferver, mas não abro a boca, não me mexo.
– Não acredito realmente que vão querer alguém como você para adotar, mas, quem sabe, não é mesmo? – ela sorri, seu sorriso é carregado com desprezo, uma falsa simpatia.
Ela abre uma gaveta, pega então o medalhão que um dia fora meu e o estende para mim.
Eu abro o medalhão, e observo com tristeza a foto de meus pais e meu irmão. Todos foram assassinados durante a guerra. Eu fui a única sobrevivente, e não sei o porquê.
O que eu sei é o que dizia a carta que entregaram para mim naquela manhã, enquanto eu ainda estava na casa de uma amiga, festa do pijama surpresa, é o que mamãe e papai disseram quando arrumaram minha mala ás pressas e me largaram lá.
A carta contava aos mínimos detalhes como meus pais morreram.
Não, na verdade, só dizia isso: Susan e Erik Lark, mortos durante combate. E nada mais. Depois havia um carimbo. E em outra folha o nome de um orfanato ao qual eu seria levada pelo mesmo oficial que havia me entregado a carta.
Não falava nada sobre meu irmão. Mas eu sabia. Ele havia morrido assim como nossos pais, em combate, já que ele servia ao exército na época. Se não morreu, sofreu algo muito pior.
Maria puxa o objeto de minhas mãos, me arrancando de meus pensamentos á força e, então ela sorri tão falsa quanto antes.
E diz
– Caso você consiga, caso seja adotada, vai poder ter isso aqui de volta.
E ela balança o medalhão bem na minha frente, e o joga de volta na gaveta, apontando em seguida na direção da porta.
E essa é a minha deixa.
Maria sempre faz isso, ela me odeia e deve lhe fazer feliz me ver sofrer. Ela alimenta minhas esperanças, diz que posso ser adotada e que se for poderei ter a única coisa que me resta de minha família, mas então no dia em que alguém rico vem aqui, querendo adotar ou, melhor dizendo, comprar uma de nós, nunca sou eu. Nunca. Eu devia estar acostumada, mas não, é impossível me acostumar á isso, á essa vida, á esse lugar.
Eu tenho quinze anos agora, e sei que não vou ser adotada. As pessoas preferem as crianças pequenas. Somos como cachorros, ninguém quer os mais velhos que não podem mais ser adestrados e que logo vão morrer ou ter idade suficiente pra fugirem deles.
Essa é a minha sentença.
Limpo as lágrimas insistentes que ameaçam cair, me dirijo á sala de jantar onde apenas alguns poucos de nós ainda tomam o café da manhã. Me sento, mas não há mais nada para comer, então apenas fico ali por alguns instantes, tentando espantar a tristeza para poder começar mais um dia atarefado.
Esfrego o chão da cozinha. Algumas das meninas que dividem o quarto comigo entram pela porta do jardim e deixam pegadas de lama pelo chão, e até onde eu sei nem choveu.
Eu tenho vontade de gritar, mas quem vence são as lágrimas e eu choro silenciosamente enquanto sinto raiva de tudo e todos e esfrego com cada vez mais força.
Depois sou obrigada a limpar os banheiros, sem uma ajuda sequer.
Na hora do almoço não há comida suficiente, e eu e mais três garotas mais velhas deixamos de comer para que as mais novas possam se alimentar.
Durante a tarde eu e outras duas meninas varremos o jardim e limpamos – ou pelo menos tentamos limpar – a fonte há muito tempo inutilizada.
De noite, durante a contagem no dormitório, logo após o jantar, a minha segunda refeição do dia, Maria passa por mim e me dá aquele olhar que diz que ela está muito ansiosa para me ver desmoronar, então ela estende um papel na minha direção e tenta segurar a risada.
Quando ela vai embora, eu me enfio debaixo do cobertor e abro o papel dobrado. As letras saltam de forma estranha, e todo o meu corpo dói com a notícia.
Lan, eu sinto muito.
Eu sei o quanto estar escrevendo esse bilhete fará Maria se divertir ás suas custas, mas eu não podia deixar o Orfanato sem me despedir, e Maria me proibiu de fazer isso pessoalmente
implorei que ela lhe entregasse pelo menos um bilhete.
Fui adotado. Vou ter um pai e uma mãe e eles parecem ser legais. Queria que tivessem te adotado também.
Vou sentir saudades, Cinderela.
Sinto muito não ter te dado um abraço.
Com amor, Mica.
E eu caio em lágrimas.
Mica me deixou. Uma hora ou outra todos acabam me deixando.
Eu só esperava que não fosse assim tão rápido.
Mas, fico feliz por Mica, pelo menos agora ele possui família, e deve estar dormindo em uma cama quente de verdade. Eu vou sentir tanta saudade.
E eu durmo, caio no sono em meio às lágrimas.
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