20 Primaveras
36 Você está louca!
Notas iniciais
Estava a mais ou menos 30 minutos escutando Letícia contar tudo o que havia acontecido no interior. Meus Tios já estão acomodados cada um em sua casa agora, e ela está completamente feliz, faz até piada dizendo que se soubesse que teria a possibilidade de ter duas casas para morar, não teria feito aquele drama todo no início. Mas é claro que tudo isso não passa de uma forma de descontração para enfrentarmos a situação.
Eu continuava nervosa e pensativa, e esperando qualquer brecha para tocar no assunto.
— Ai, acho que é só isso. – comentou após dar uma leve inspirada.
“Que ótimo!” – pensei
— Eu quero conversar com você sobre uma coisa.
Disse e olhei para ela que assentiu. Levantei e fui a puxando pela mão até o quarto de pintura. Ao abrir a porta ela fez uma cara de espanto.
“Lá vem bronca.” – pensei.
Tive uma enorme vontade de fechar aquela porta, voltar no tempo, e nunca ter mostrado isso a ela. Mas já era tarde demais e agora eu só teria que ouvir as mil e umas reclamações, dizendo o que eu tinha na cabeça quando comecei a pintar novamente.
— Que maravilhoso, Becca! – disse com os olhinhos brilhando.
— Maravilhoso?
Agora era minha vez de expressar espanto.
— Sim, claro! Como não achar maravilhoso você ter voltado a pintar? – disse e esperou uma resposta da minha parte que não veio.
— Você não vai me xingar?
Eu tinha que fazer essa pergunta, afinal, era o que eu esperava. Ela me olhou e perguntou:
— É um hobby, ou decidiu que vai ir treinando, se aperfeiçoando, desenhando no papel e pintando cada vez mais até chegar aonde quer... que é trabalhar com isso?
Estava séria demais para quem a poucos minutos vibrava de felicidade ao ver àquelas telas a sua frente.
— Por enquanto é um hobby, até eu me aperfeiçoar o suficiente e montar um projeto para que deixe de ser assim e se torne meu trabalho.
Segurei as lágrimas que queria surgir depois de ver que Lê me olhava minimamente. Já estava preparada para que ela virasse as costas e batesse a porta me dizendo que “ eu era louca por fazer isso”, agindo assim como todos.
— Não precisa me olhar com esse medo todo – disse pegando em minhas mãos que estavam frias – eu não vou abandonar você ou sair por aquela porta dizendo que você é louca como todos sempre fizeram.
Disse tudo aquilo que eu pensei como se pudesse ler minha mente e entender perfeitamente bem o que eu estava sentindo.
— Sabe que eu zelo pela sua felicidade e por mais que não tenha dita nada a você, eu desejava que voltasse para essa arte que tanto te faz sentir viva. Mas eu tinha receio de lhe dizer algo e ser você quem me chamasse de louca ou intrometida. – sorriu imaginando – Vem aqui e me dá um abraço.
No meio do abraço ela volta a ser a mesma palhaça de sempre
— Quando estiver rica e feliz em Paris, não esquece de me levar junto, ok?
Gargalhamos juntas. Como não amar essa pessoa que é a irmã que eu nunca tive? Como desistir da arte se é ela que me fez encontrar um sentido para a minha vida?
— Vou contar para o Gui também, o que acha?
Se a Lê aceitou e me apoiou é claro que o Gui fará o mesmo. Os dois me amam, e quem ama entende.
— Com certeza ele vai amar ter uma namorada que corre atrás do que quer. Ele vai te apoiar.
Letícia me trouxe uma paz depois que me disse isso.
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“Hoje não vou a faculdade, tem como passar aqui em casa antes de ir para o trabalho?”
Mandei essa mensagem para o Gui. Ontem eu fiquei de bobeira com a Letícia até tarde da noite e não iria para a faculdade hoje porque não teria nada de tão importante. Seria basicamente uma festa de despedida para um professor nosso que estava saindo, o qual eu não me dava muito bem, então não tinha motivos para ir. Aproveitei isso e decidi usar meu tempo pela manhã para conversar com Guilherme e receber dele o tão sonhado apoio pela minha decisão.
“ Claro que sim minha linda, daqui a pouco chego aí!”
Fui tomar um banho após tomar meu café. Lê hoje iria para a Faculdade, tem que pegar todas as matérias que cairão nas provas, já que nas próximas semanas terá uma maratona de provas, testes, e outras mil e uma coisas avaliativas. As minhas já acabaram, logo estou mais tranquila de tudo isso.
— Já vou!
Gritei ao ouvir a batida na porta. Ajeitei meu cabelo no espelho do corredor e fui abrir.
Fui recebida com um beijo e um abraço bem apertado. O dia estava bem friozinho e Gui estava com uma blusa de frio tão aconchegante, que se ele não fosse trabalhar teria que ficar aqui comigo só para eu ficar bem junto dele.
— O que tem de tão importante para me dizer? Ah, não me diga que me pedirá em casamento?
Disse debochado e eu comecei a rir.
— Sem palhaçadas Guilherme! É um assunto sério, vem comigo.
Saí o puxando pela mão e ele me abraçou por trás assim que chegamos em frente a porta do quarto.
— Repare bem. – disse para ele.
Girei a maçaneta e dei-lhe espaço para ver tudo o que estava dentro do ambiente.
— Você voltou a pintar? – perguntou animado.
Nessa hora respirei aliviada por ver a animação dele.
— Amor, vai ser ótimo para você! Ter um hobby é muito importante já que você tem um dia muito corrido e precisa de ter a cabeça sempre ativa para a faculdade.
Virei um pouco meu rosto ainda sem sair da posição que estávamos.
— E seu te disser que não será apenas um hobby?
Perguntei soltando um sorriso grande. Esperei que seus braços se apertassem mais em minha cintura, mas não. Senti seu abraço me deixando e ele se afastando um pouco.
Com o tom de voz mais frio do que o dia lá fora ele me disse:
— Eu diria com toda a certeza do mundo, que você está ficando louca.
Virei de frente para ele e com os olhos já ardendo devido às lágrimas que surgiram, não reconheci o homem que estava diante de mim.
— Louca?
Perguntei tentando dar uma chance a ele de rever o que disse e perceber que não era bem o que ele queria me dizer. Mas doeu mais que uma facada quando vi que ele se manteve firme no que disse e soltou novamente as palavras.
— Sim, louca! Como você pensa que pode transformar isso em profissão?
— E como você pensa que tem o direito de me dizer tudo isso? Você sabe que eu sempre gostei de pintar, desenhar, como sendo meu namorado tem a coragem de me chamar de louca? Como sendo uma pessoa que supostamente me ama, você pode agir assim, como todos os outros? – eu já chorava, falava, e limpava as lágrimas dizendo a mim mesma, que não valiam a pena.
Ficamos nos olhando por um longo tempo. Eu, tentando entender como ele pode dizer isso e me perguntando o quanto o abraço que eu esperei que ele me desse está fazendo falta nesse momento.
— Eu acho que não tem nada mais para fazer aqui.
Guilherme quebrou o silêncio e eu apenas concordei. Eu queria que ele ficasse, voltasse atrás mas ele não fez isso. Então dessa vez eu não faria questão de entendê-lo como eu fiz ontem.
— Prometemos não brigar por coisas bobas, lembra? – questionou.
— Então não quebramos a promessa, porque isso não tem nada de bobo Guilherme. – respondi.
Quando o chamei pelo nome sendo fria como ele foi comigo, percebi em seu rosto um nítido desconforto.
Sem precisa pedir nem nada ele apenas permitiu que surgisse em seus olhos algumas lágrimas, abaixou a cabeça, e saiu do meu apartamento.
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