20 Primaveras
7 Eu imaginei tudo errado
Notas iniciais
— Ele vai vir aqui, daqui a pouco — estava conversando com a Letícia sobre ter marcado de conversar com o Guilherme e ela tinha ficado assustada com a minha decisão repentina de tentar resolver esse amor mal resolvido.
— Você tem certeza, amiga? – perguntou.
— Lê, você melhor que ninguém sabe como tudo aconteceu entre mim e o Guilherme. Sabe que ele terminou comigo sem mais nem menos, apenas deixou uma carta dizendo que “ não dava mais’ quem termina um relacionamento assim? – questionei mas nem deixei ela responder e continuei.
— Eu fiquei completamente perdida e até hoje não me encontrei, meu coração não consegue seguir em frente porque eu na verdade nem sei o que deixei no passado, não sei o que eu fiz ou o que o levou a querer terminar comigo, não sei se fiz certo não chorando o suficiente, não ter me inundado de mais chocolate e sorvete e não ter escrito uma carta pra ele dizendo: “ foi tarde!”. Eu preciso olhar para ele como uma mulher de 20 anos que sou, e não como a adolescente de 18 que ele deixou, são 2 anos e eu tinha que aprender alguma coisa – desabafei para Letícia que estava boquiaberta com tudo o que eu disse.
— Está certa, você precisa disso, eu nunca tinha enxergado dessa forma mais é assim mesmo, você não sabe detalhes de uma situação que fez parte da sua vida. Ele é o único que pode te ajudar a encontrar as respostas e você tem que decidir depois disso se vai ou se fica... com ele – completou a última parte receosa.
— Não tenha receio, eu nunca descartei nenhuma das hipóteses. É uma história fragmentada que precisa ser completada, seja com um fim ou com uma continuação – disse e sorri singelamente.
Letícia se levantou e me deu um abraço de urso.
— Está com o coração partido, mais ainda continua forte, essa é a minha amiga!- disse – Saiba que independente da sua decisão eu estarei aqui para te apoiar, só me avisa antes se não der certo que eu já providencio o filme de romance e o pote de sorvete – zombou da minha cara e eu dei uma gargalhada da infantilidade dela.
— Pode deixar, te previno antes- finalizei.
A campanhinha tocou e ela me olhou com os olhos arregalados.
— É ele! – sussurrou como se fosse um segredo.
— Eu sei!– afirmei- Agora se manda daqui- completei.
— A educação passou longe né? – dramatizou, mas se despediu de mim, me dando um beijo na bochecha e indo abrir a porta.
Um Guilherme se revelou direcionando rapidamente os olhos pra mim e depois para Letícia.
— Oi Gui.. tchau Gui – disse a minha amiga de uma forma estranha, dando só um beijo na bochecha dele, e pelas costas dele me fez um sinal de “jóia” com os dedos e uma piscada.
— Oi Guilherme, entra- disse para ele, que se abaixou um pouco e me deu um beijo na cabeça, e se manteve de pé atrás de mim perto do sofá.
Fechei a porta e demorei um tempo proposital enquanto a fechava, pisquei diversas vezes pensando bem como o encarar ali na minha frente sem demonstrar que eu já tinha meu sangue fervendo nas veias. Me virei para ele que passava os olhos por cada parte do apartamento e parou os olhos sob um dos livros que ele me deu e que estava na mesa.
Automaticamente sem nem olhar pra mim ele foi até o livro e o pegou, com ele em suas mãos sorriu um pouco e revirou algumas folhas e parou em uma em específico, eu o observava atentamente, colocou o livro em cima da mesa novamente e desdobrou a folha que ele havia parado e de dentro dela tirou um bilhete, eu nunca havia folheado aquele livro por isso nunca vi que havia aquele bilhete ali dentro, ele fechou o livro e veio até mim mas sem tirar os olhos do papel que trazia em suas mãos, parou em minha frente.
— Você nunca se quer viu esse bilhete, estou certo? – perguntou me olhando fixamente.
—Não. — afirmei para ele que balançou a cabeça em negação.
— Normal de você. – disse e eu o olhei querendo ver o que ele queria dizer – Toda vez que é contrariada fica cega, não enxerga mais nada a sua frente e sempre, eu digo sempre, se limita a acreditar apenas naquilo que sua mente cria- me disse magoado por eu nunca ter lido esse bendito papel.
— O que tem aí dentro hein? – perguntei nervosa-Não vai me dizer que aí também deixou escrito que precisava ir, isso você já havia me dito por coincidência em um papel também, você vive nas antigas e não conhecem tecnologia, porque só pode. – completei e ele esticou o papel em minha direção, sem dizer nada.
Eu o peguei fazendo pouco caso e comecei a ler.
“ Sei que deve estar com muita raiva de mim, mas eu não mereço que pense que sou o pior de todos. Eu fiz isso porque eu não queria te dar pouco, não queria te amar pouco porque você não merece isso. Eu tenho toda a imaturidade do mundo e você toda a maturidade necessária, não acredito nessa de que os opostos se atraem, acredito que se são opostos demais se machucam e seria assim com a gente.Não tive coragem de dizer na sua frente que eu não queria um relacionamento e sim eu fui um covarde, mas com um pouco de decência que me resta eu te digo por aqui em meio a palavras num papel do jeitinho bem antigo como sei que você gosta, que eu não estou pronto para retribuir o amor que você me oferece. Não a sua altura, mas isso em momento nenhum quer dizer que eu não te ame. Não, nunca pense isso, seria como se uma faca entrasse no meu peito se eu souber que um dia você pensou assim, eu te amo e te amo muito, tanto, que percebo que agora, eu não sou o melhor para você. E por isso, eu prefiro ir e se um dia eu sentir merecedor do seu amor, eu volto, eu prometo que volto. Seja feliz, te desejo isso com todo o meu coração.”
— O que é isso? – perguntei segurando com todas as forças as emoções.
— Isso- disse apontando pro papel- era um explicação, ou melhor, eu achei que seria uma se você tivesse lido- completou.
— É ridículo, você é ridículo! – disse começando a chorar – Que coisa é essa? Porque não chegou pra mim e disse isso, poxa vida, como eu imaginaria que dentro de um livro numa folha qualquer estaria a sua explicação do porque terminou comigo? – perguntei indignada.
— Eu te entreguei esses livros de presente uma semana antes da gente terminar, e eu te disse no dia que era para você lê-los quando estivesse triste, se lembra? – questionou já nervoso com a minha reação.
— Quando eu fui na sua casa te procurar todo alegre para te contar que eu havia conseguido passar no vestibular e que eu entraria na faculdade, recebi a notícia de que você tinha ido embora e eu recebi da sua mãe um pedaço de papel surrado, dizendo que “precisava ir” e eu me vi ali sentada na calçada com um papel, um coração partido e um mar de angustias. – desabafei.
— Você ainda queria que eu me lembrasse do que disse? Eu queria apagar tudo que me lembrasse você e só não coloquei fogo nesses livros que me deu porque minha mãe não deixou, os tirou do meu alcance e só me devolveu a poucos meses, quando eu afirmava pra todos que eu não amava mais você – disse já soluçando de tanto chorar, eu me lembrei de tudo, e ele fez uma careta quando viu a raiva que eu tinha dele e a péssima impressão que havia deixado.
— Becca... – tentou terminar.
— Vai embora – disse olhando pra ele.
— Não – disse Guilherme me segurando e me olhando firme.
— Por favor. – pedi- Entenda, que por pedir que vá embora agora não quer dizer que não vamos ter outras conversas, só que agora eu preciso organizar minha ideias, entenda que é muita informação de uma só vez, tudo o que eu acreditei dentro de 2 anos não são as verdades que alimentei. Vai agora, e depois você volta – completei.
— Tudo bem... só que não acaba aqui, a gente nem conversou pra falar a verdade, mas eu vou embora, sei que precisa do seu tempo e eu não vou forçar a barra – terminou de falar, passou por mim,abriu a porta e se foi.
Nunca me senti tão estranha em toda a minha vida, eu fui burra e ele mais ignorante ainda. Fui amar um moleque com amor de adulto e deu nisso. Sabe quando você olha em volta e não reconhece nada? Olha dentro de você e não se vê? Esta confuso, eu sei.
Mas eu não consigo me expressar de uma forma clara que dê até para eu mesma me entender. Ele só bagunçou o que já não estava organizado, e o pior que dessa vez a culpa também é minha, fui eu quem o chamei afim de por um fim nesse desespero. E olha no que deu, me arrumei mais um problema e mais uma vez eu preciso do Guilherme para solucionar.
Acho que só compliquei o que já estava complicado. Só piorei o que eu jurava que não poderia ser piorado. Mais uma vez aqui estou eu e minhas confusões, estou até me acostumando a sempre ficar assim.
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