20 Primaveras

43 Acho que agora, você entende.


Notas iniciais
Hey gente!

— Não sabia que seus dotes culinários eram tão surpreendentes. – comentei com Gui após apreciarmos aquela deliciosa refeição.

— Meu amor, há muita coisa sobre mim que você ainda não sabe. Mas teremos tempo suficiente para acabarmos com esses segredos.

Estávamos sentados na varandinha do apartamento. O céu estava completamente estrelado. Guilherme, havia deixado a barba crescer e ela estava no estilo por fazer. É engraçado porque desde que reatamos eu ainda não havia feito uma análise sobre nós.

Estávamos tão diferentes e nos encaixávamos tão bem que se fosse naquela época, quando nos conhecemos, tanto eu quanto ele em momento algum, poderíamos pensar que enfrentaríamos tudo, sabe? Não imaginávamos que enfrentaríamos nós mesmos, nossos medos e inseguranças para conseguirmos ficar um ao lado do outro.

Com o Guilherme eu aprendi que o amor entre um casal pode ser o maior do mundo, porém, se eles não estiverem dispostos a cuidar, cultivar, podar o que existe em excesso, retirar o que faz ambos perderem o equilíbrio, se não houver a compreensão acompanhada do respeito, se o companheirismo se tornar coisa banal, não há amor que perdure. Como dois corpos permanecerão unidos se ambas almas estão atormentadas e com vontade de fugir? É impossível.

Por isso caso tenha um amor, proteja-o. Primeiramente dos olhos maldosos e das línguas traiçoeiras dos outros. Depois, proteja esse amor de vocês mesmos. Da insegurança, do ciúme, da raiva, do egoísmo. Porque os únicos que podem realmente quebrar essa pedra valiosa que é o amor, é o casal. O resto das pessoas contribuem para isso, mas nada é feito de mal, quando o casal protege o sente, o que têm um com o outro, da melhor maneira possível.

— Olha uma estrela cadente. – apontei para o céu. – Faça um pedido, mas não fale o que é, caso contrário não realizará. – alertei-o.

Gui deu um sorriso esnobe, fechou os olhos, entrelaçou nossas mãos.

“ Que sejamos sempre felizes.”

Pedi.

(“ Que sejamos capazes de sempre lutarmos pela nossa felicidade.” — Guilherme pediu.)

— Pronto? – perguntei para Gui que acabara de abrir os olhos.

— Sim. – afirmou e me beijou.

Decidimos entrar, aqui fora o frio soprava forte e lá dentro pelo menos as coisas estavam melhores. Fomos assistir um filme.

— Farei a pipoca. – comentei e me levantei.

Fiquei na cozinha cantarolando uma música qualquer, quando decidi chamar Guilherme e ninguém respondeu.

Fui bem devagar até a sala e o vi dormindo.

“ Esse daí, o sono vence a fome. Se fosse a Lê, a fome venceria o sono.”

Pensei e sorri sozinha. Fui até meu quarto e peguei um cobertor, o cobri e deu um leve beijo em seus lábios. Ele se remexeu um pouco e logo voltou a dormir.

Desliguei a televisão, apaguei a luz da cozinha, peguei o balde de pipoca que agora teria que comer sozinha e fui para meu quarto. Já fazia tempos que não ficava assim, apenas eu e meu computador.

Pensei em tudo o que Guilherme fez e senti meu coração pulsar de felicidade. Sobre o amor, eu posso afirmar, que eu não tinha o que reclamar.

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Quando acordei,Guilherme já não estava mais lá. Mas do meu lado na cama havia um bilhete:

“ Desculpa por ter dormido no seu sofá e por não ter te esperado acordado para vermos o filme. Precisei sair correndo para chegar no horário ao trabalho. A mesa está servida com tudo o que você, minha linda, precisa para começar bem um dia. Eu te amo, hoje, amanhã... para sempre.”

Soltei um sorriso bobo e ainda sonolento. Tomei um banho para despertar e me alimentei direitinho, como Gui havia recomendando. Peguei o ônibus e fui para a Faculdade.

Nenhuma novidade naquele lugar, como sempre as mesmas pessoas, mesmas falas e a mesma ansiedade de que aquilo acabasse o mais rápido possível para que eu pudesse enfrentar minha maratona de ida até o trabalho.

3 ônibus como de costume e cheguei ao meu destino. O escritório já estava aberto e eu num impulso olhei para o relógio me certificando de que não havia me atrasado.

“Estranho, nunca o abrem antes da hora.” – pensei.

Olhei para a mesa onde Marta fica e não havia ninguém, apenas sua bolsa remexida. Me assustei. Aquilo tudo estava muito estranho. Quando eu estava prestes a pegar o telefone para pedir sei lá, socorro? Não sei bem, apenas sei que antes de fazer isso, depois de um grande e angustiante silêncio escuto vozes vindo da sala do Senhor André.

— Eu apenas preciso dessa quantia para pagar a conta que já não pode mais esperar.

Era a voz de Marta, ainda calma. Ainda bem, pelo menos não aconteceu nada de ruim. Ela só está conversando com o nosso chefe, pelo visto pedindo o salário adiantado, para pagar alguma coisa. Tadinha, do jeito que ele é pão duro acho difícil ela conseguir.

Sentei na cadeira mais calma e fui começando a fazer meu trabalho.

— Eu não vou te adiantar nada. – respondeu Senhor André.

— Como você pode ser assim? O que vai te fazer falta esse dinheiro, André?

André? Ela havia ficado louca de chamar o chefe dessa forma tão pessoal?

Eu estava tentando trabalhar normalmente e ignorar as vozes que vinham lá de dentro, mas era meio impossível fazer isso.

— Você só quer dinheiro, dinheiro e dinheiro. Esqueceu que para isso precisa trabalhar o mês completo?

— Você é um ser desprezível. Falando assim até parece que conseguiu tudo o que tem da forma mais limpa, né? – falou Marta com a voz embargada.

— Cala essa boca. – ordenou André.

— O que diriam as pessoas que contratam você para prestar serviços de contabilidade, se soubessem que você teve coragem de roubar sua própria irmã?

Larguei todos os papéis nesse exato momento. Como assim ele roubou a própria irmã? Eu estava mais envolvida na conversa do que queria e podia. Eles falavam alto e minha mesa ficava bem próxima a porta.

E como Marta sabia de tudo isso?

— Se hoje estou do jeito que estou, grande parte disso é culpa sua. Você sempre me rebaixou e me tratou como se nas suas e nas minhas veias, não corressem o mesmo sangue. – confessou.

Marta era a irmã do senhor André? Como assim? Milhões de dúvidas surgiram em minha mente. Continuei escutando a confusão bem atenta.

— Eu não tenho culpa de nada! – se defendeu — — Você não presta para nada! Não conseguiu nem construir uma família, como quer que eu olhe para você e pense: olha, até que ela deu certo na vida! É impossível pensar assim, uma vez que, você foi mal sucedida profissionalmente e na vida pessoal. Como queria que eu partilhasse a herança de nossos pais com alguém tão passiva?

— Não diga isso André! Você melhor do que ninguém sabe como tudo aconteceu.

— Você é fraca!

— E você é vazio! – gritou Marta.

— Fala baixo, está louca?

Um silêncio tomou conta de todo o ambiente. Mas logo após, a voz de Marta foi ouvida novamente, porém dessa vez chorosa, mais baixa e firme.

— Do que te adianta ter esse escritório, dinheiro no banco, uma casa enorme se o que preenche a casa onde mora , são apenas os móveis que vieram das lojas mais caras? Você nem pode chamar o lugar onde mora de lar, André. Sua esposa está travando na justiça uma guerra contra você, ela quer o divórcio e metade dos seus bens. Seus filhos te repudiam e preferiram ir morar fora do pais a ter que ver você todos os dias. Você não percebe, mas todos aqueles te cercam,vêem você como um montante de dinheiro, que pode custear viagens caras, lugares luxuoso, mas nada mais que isso. Você não vale mais nada, meu irmão. Pode até ter tido uma família, coisa que eu não pude ter. Mas você não soube manter sua família viva, eles te deixaram também. Grande homem você, André. Então se me condena como uma fracassada por tido as mesmas ausências que você, posso dizer então, que estamos no mesmo barco. – finalizou.

Se o primeiro silêncio já foi intenso, esse era mais ainda. Eu estava completamente aterrorizada com o que havia acabado de escutar. O senhor André impediu que sua irmã tivesse direito a herança dos pais, escraviza ela nesse emprego, a trata como alguém que ele não conhece sendo que os dois vieram do mesmo ventre.

Era muita frieza para um ser humano só.

Marta abriu a porta e seus olhos estavam inchados e avermelhados de tanto chorar, por um release eu pude ver o rosto do senhor André, que demonstrava uma feição pensativa e triste, possivelmente as últimas palavras de Marta para com ele o afetaram muito. Ela fechou a porta atrás de si com força e caminhou para fora dali.

Com certeza meu rosto demonstrava uma feição assustada, já que ela me olhou por alguns instantes, abaixou a cabeça deixando uma lágrima escorrer, me olhou novamente e balançou a cabeça negativamente e num murmúrio me disse:

— Acho que agora, você entende.

Disse isso e foi chorando em direção a saída do escritório. Eu não me movi, queria muito ir atrás dela e lhe oferecer meu ombro, teria feito isso, se lá dentro daquela sala a poucos metros de mim, não tivesse o meu chefe que se me visse a ajudando me demitiria na hora. Ele quebrou algumas coisas lá dentro e isso me fez decidir ignorar o que havia acontecido ali, o que eu havia escutado e voltar minha atenção para os papéis que estavam na minha frente.

Notas finais
Alguém poderia imaginar que Marta já havia passado por tudo isso? Bom, se vocês se surpreenderam posso afirmar que ainda não viram tudo. Becca mais uma vez tendo em sua vida presenças de pessoas que tem as histórias mais confusas e tristes. Deixe seu comentário. Beijos!