20 Primaveras
44 Entendendo tudo
Notas iniciais
Senhor André não deu mais as caras aquele dia. Marta, apenas veio pegou sua bolsa e me avisou que não voltaria o resto do dia, segundo ela, precisava esfriar a cabeça e analisar algumas coisas. Eu estou agora juntando meus objetos, já está na hora de sair e hoje não receberei o olhar por cima dos óculos que era característica de Marta. Admito, por estranho que pareça sinto falta da companhia da minha colega de trabalho, que também é a irmã injustiçada do senhor André, que é o meu chefe. Isso poderia dar perfeitamente bem um filme, e eu achando que minha vida com o Guilherme era o que faria lotar um cinema de pessoas que usariam todos os lenços que possuíam para secarem as lágrimas. É, acho que tem gente por aí com a vida mais confusa e deprimente que a minha.
Não tinha marcado nada com o Gui então seria apenas eu, minha sala escura e minha música baixinha para passarmos à noite. Letícia foi jantar com umas amigas de Faculdade e jurou de pé junto que torcia para que Joaquim não estivesse no meio desse grupinho. Tadinha, quem acha que está enganando, não é mesmo? Anda toda caidinha pelo antigo garoto do inglês e finge que nada está acontecendo. Ela pensa que eu não vejo a forma como ela fica admirando as publicações dele nas redes sociais e como também, fica passando o dedo por cima da tela, como se estivesse contornando os traços dele ou lhe fazendo carinho.
É Letícia! Dessa vez acho que seu cupido flechou o cara certo. E espero que a flecha que ele lançou em você seja com uma dose bem elevada de amor, para que você não deixe passar um cara que realmente vale a pena e que está correspondendo você.
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Ontem peguei no sono enquanto lia um livro que Guilherme havia me dado esses dias. Sim, ele ainda não perdeu a mania de me presentear com esses ótimos companheiros que são os livros. Hoje faltei a Faculdade para conseguir colocar em ordem alguns trabalhos que deverão ser entregues na semana que vem, já não tenho mais tempo para conciliar tudo da melhor maneira possível. Na noite passada eu até quis muito pintar mais uma tela, mas minhas emoções estavam muito confusas com o que aconteceu no escritório.
Eu espero que Marta esteja bem. Mas eu sei que reparar o sentimento dos outros é uma brilhante fonte de inspiração, estou colocando em ordem cada coisa que aconteceu para que então assim, eu consiga clarear meus sentimentos e poder fazer de tudo isso arte.
Estou sentada na minha cadeira nesse escritório que um dia já foi mais barulhento um pouco. Marta ainda não chegou e nem sei se virá. O senhor André? Só se que já chegou por que o escutei conversando ao telefone, se não fosse isso nem poderia afirmar se ele estava aqui ou não.
— Boa tarde.
Olhei para a porta e avistei uma Marta com a aparência um pouco abatida, mas de postura ereta e confiante.
— Boa tarde, Marta! – disse feliz ao vê-la disposta a trabalhar apesar do houve ontem.
Ela sentou em sua cadeira e começou a trabalhar no computador. Mais uma vez, como sempre, tudo ficou em silêncio.
Me levantei por um instante para pegar um café, eu estava muito cansada, havia acordado no mesmo horário de sempre e fiz muitas coisas, trabalhos que exigiram muito de mim e ainda teria que enfrentar toda a tarde aqui nesse escritório.
— Eu quero lhe pedir desculpas. – disse Marta chegando perto de mim e também servindo um café.
A olhei como se não entendesse mas mesmo assim respondi algo:
— Não tem o que pedir desculpas.
— Você é sempre compreensiva assim?
— Não leve como grosseria, mas não é questão de ser compreensiva, mas sim de respeitar o espaço, a história e as dores de alguém. Agora sou em quem peço desculpas, mas foi impossível não escutar tudo aquilo e, também é meio difícil não ficar pensando sobre. Como você suportou tudo isso?
Perguntei e Marta soltou um pequeno sorriso.
— Quer escutar a história da minha vida? – disse com descaso.
— Apenas se você estiver querendo dividi-la com alguém, caso contrário, voltamos a mexer naquele monte de papéis e nada mais é dito sobre o assunto.
Ela ficou surpresa com a minha resposta. Foi até a sua e a minha mesa e recolheu nossas bolsas e veio até mim.
— Vamos até uma lanchonete que fica aqui perto, que lá podemos conversar melhor.
— Mas estamos no horário de trabalho. Se o senhor André ver que não estamos aqui, me demitirá.
Ela balançou a cabeça.
— Lembre-se que eu conheço André desde criança, eu o vi nascer e por isso eu sei que ele não vai dar o ar da graça tão cedo. A vida dele é dentro daquela sala, e de lá ele só sai quando lembra que fora dali há um mundo que por mais que ele tente ignorar, continua a existir.
Concordei com ela e saímos dali. Fomos falando algumas coisas pelo caminho e ao chegarmos na tal lanchonete fizemos nossos pedidos. Marta respirou fundo e começou a dizer:
— Eu tive muitos desencontros amorosos nessa vida. Lá em casa somos um casal de filhos e apesar de sermos apenas André e eu, sendo ele o caçula, nunca gostou de mim. Sempre foi o garoto queridinho de nosso pai, que era absurdamente machista e falava que eu nunca poderia ocupar uma posição muito alta, que isso deveria ser para meu irmão, não para mim.
Passou o dedo pela borda do copo e olhou para o chão.
— Mas eu fui burra.- continuou – Nunca percebi realmente meu valor, sempre achei que eu realmente devesse ser a mais submissa possível e que André apesar de ser mais novo era absolutamente capaz de cuidar de nós dois. O tempo foi passando e nossos pais foram deixando as coisas para que meu irmão tomasse conta. Naquela época eu não me importei muito, eu tinha me apaixonado perdidamente por um homem que me amava e me valoriza como eu me merecia. Eu me casei, Rebecca. – disse feliz.
Mas segundos depois o sorriso de Marta foi se tornando triste e parecia que também o mesmo vazio que ela sentiu na época, voltara a existir.
— E o que aconteceu? – perguntei.
Me olhou com os olhos lacrimejados.
— Dois anos depois, dois anos de muito amor em que eu me sentia liberta daquela prisão que eu vivia em casa e tinha realmente um lar, nós recebemos um presente que seria desembrulhado 9 meses depois. Enzo, meu marido, tinha ficado tão feliz com a notícia que eu me senti pela primeira vez na minha vida a pessoa mais valiosa do mundo por trazer em meu ventre uma vida, que eu prometi a mim mesma que independente do sexo, eu faria de tudo para que se tornasse uma pessoa do bem e que não seguisse a probabilidade de ser tão frio como as pessoas da minha família.
No momento passara algumas crianças na rua e o olhar de Marta foi direcionado para elas e eu vi que pela desolação que ela as olhava ao mesmo tempo que sorria, era sinal de que aquela história não tinha terminado bem.
— Ela teria hoje 22 anos, já seria uma mulher, talvez em uma faculdade e teria sido com certeza a melhor amiga que eu poderia ter. Tudo isso teria acontecido se não fosse aquela tragédia. Foi em meio a um assalto que eu perdi as pessoas que eu mais amava. Eu ainda estava grávida e minha filha não sobreviveu. Enzo faleceu no local e eu nem sequer pude ir em seu velório. Passei um bom tempo internada no hospital e a única que foi me visitar foi minha mãe, de tudo ela foi a única de bom que ainda me resta. Nós moramos juntas atualmente, ela se separou do meu pai faz alguns anos. Ela queria viver, foi esse o motivo do divórcio e eu em momento algum tiro a razão dela.
Encerrou por ali a história da sua vida, relatos de uma pessoa que poderia ser sua vizinha, sua tia, sua amiga, aquela pessoa que você logo julgaria assim como eu julguei: como rabugenta. Mas que ninguém sabe de verdade o que lhe aconteceu para se fechar assim.
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