2° Caso

1 Prólogo


Minha mãe tinha medo que eu virasse o que ela chama de “adolescentes de hoje”, e por isso, sempre frequentei escolas só para garotos, mesmo que o que ela basicamente queria era um filho com boas notas, e principalmente com a mente “pura”. As vezes penso que, quando fez essa decisão de me colocar em colégios desse tipo, ela não raciocinou muito bem, aliás, não deve ter pensado nem duas vezes antes de fazer. Por que além de estar no meio de vários garotos que, com a puberdade, naturalmente vão tendo a mente cheia de pensamentos errados, também não há garotas para satisfazer esse meu lado já estragado, nem mesmo com os olhos. Ainda sim, ela insistia em me matricular somente em escola para garotos.

E com todas essas circunstancias, eu percebi faz um tempo, bastante tempo para falar a verdade, que eu simplesmente não fazia falta desses elementos na escola. Não, eu não me comportava como todos os garotos quando passava aquela mesma garota de sempre na frente da escola, nem babava em revistas com mulheres em roupas provocantes, nem me excitava por calcinhas e sutiãs. É, eu simplesmente admiti, eu sou gay. Mas acabei não assumindo para outros. Eu e eu mesmo já estava bom o bastante tendo essas informações.

É uma pena que minha mãe é homofóbica. Por isso ela desprezava tanto meus colegas de classe. Mas não é culpa minha que eu entrei na turma com mais gays, sério. Isso e também o jeito que todos agem sem nenhum problema, por estarem acostumados, e não terem a ideia formada de “Gays são diferentes de nós, héteros.”, é algo que eu realmente adorava naquela classe.

Claro que não era como se todos fossem amigos, havia as rodas, e dramas entre elas. Eu, por exemplo, tinha meus próprios amigos, e também havia meu melhor amigo, e amigo de infância, Tohzuki Soutarou. Nossas mães eram amigas, e concordavam em tudo, então nós acabávamos sempre na mesma escola.

Estava a mais ou menos dois anos em certa escola, até que aconteceu o que sempre acontece na maioria das escolas que estive, e a mais frequente causa de eu sair destas. A escola começou a aceitar meninas. E dessa vez minha mãe realmente me surpreendeu, resolveu deixar como está! Finalmente estaria em uma escola normal!


Já no começo das aulas, nós pudemos ver o lado mais bonito de todos os garotos que estudavam lá, radiantes de alegria. Mas o que mais me impressionei foi a reação de Soutarou, ele não é um mulherengo nem nada até porque, dentre todas as garotas que passavam, ele olhou para uma, só uma. Mas uma que realmente se destacou para todos. Era uma estrangeira meio baixinha com cabelos ruivos e olhos azuis, que parecia ainda mais bonita que todas com o novo uniforme para garotas da academia, uma saia até o joelho com uma camisa social com uma gravata ou laço. Seu nome era Erica Bellan. Ela tirava notas perfeitas na sua ultima escola, além de ser muito talentosa com o piano. Não fui muito com a cara dela, já que ela mesma fez questão de que todos da escola soubessem no minimo esses fatores sobre ela no primeiro dia de aula. Claro que fez isso com cuidado para acharem que não foi proposital, e acho que fui o único que notou a verdade.

O Soutarou foi o melhor exemplo de alguém que caiu em tentação pela garota, não parava de olhar para ela durante a aula, já que para sua felicidade tínhamos a mesma idade e caiu logo nossa turma. Eu não acreditava que uma garota com aquele grau de popularidade iria se apaixonar por um garoto como Soutarou. Ele não é aquele garoto atraente, tem um cabelo preto e liso meio caído no olho, e sempre usa um gorro diferente a cada dia, não é tão alto, usa óculos e é magro, mas não é forte. Pode até ser um visual atraente para alguns, como eu, mas ela tinha cara de ser uma garota... fina.

Sem muitas surpresas, Soutarou não era o único que tinha se atraído pela estudante nova. Muitos diziam que já havia recebido inúmeras confissões de vários estudantes de classes e anos diferentes. Recusou todos. Muitos rumores apareciam e desapareciam sobre a garota, o primeiro mês de aula realmente foi agitado. Mas depois disso a poeira abaixou. Não que todos tivessem desistido, mas um estado havia se estabilizado. Todos olhavam para ela como um tipo de rainha. Ela sendo gentil com todos, mas se impondo como melhor que eles, novamente, discretamente. E era rodeada de servos, já que não tinha amigos nenhum. Admito que até eu fiquei com pena dela quando percebi isso, e até dei a ideia para Soutarou de tentarmos ir falar com ela, mesmo achando que não ia aceitar, e se aceitasse, definitivamente não ia conseguir falar normalmente perto da amada. Ele gostou da ideia apesar de tudo. Disse que ia “se aproximar para conquistar o coração dela”. As vezes esqueço o quão brega meu melhor amigo pode ser...

Para minha surpresa, Soutarou conseguiu falar com Erica naturalmente. Ele não teve muitas paixões, por isso não pude ver essa parte dele, mesmo como amigo de infância. Fiquei orgulhoso dele de alguma forma. Ela também se mostrou uma garota legal e simpática. Mas eu não achei isso, parecia falso demais para mim. Ela parecia emanar uma aura negra ou algo do gênero, tentei não criar tanta intimidade entre nós como Soutarou fez, não queria me meter com alguém como ela.

Mesmo que alguma hora iria, já que era a quem meu melhor amigo amava.