2° Caso
2 Capítulo 1
No mesmo dia, antes de eu voltar para casa com o Soutarou, Erika me chamou para conversar em particular. Eu a segui, e avisei ao Soutarou para ir sem mim. Quando chegamos em um lugar vazio, o prédio abandonado daquela escola, comecei a pensar. “Ela não vai se confessar para mim nem nada, certo? É o Soutarou que gosta dela, não eu. Eu não quero ela. Você sabe, né? Eu quero um cara. Um cara bonito. De boa personalidade. É. Para que ela me chamou aqui? Alguém? Ajuda? S.O.S.?” Eu realmente não tinha raciocinado nada antes de começar a seguir ela, ou até mesmo quando ela pediu para “conversar”. Quando chegamos ao ginásio daquele antigo prédio, me perguntou com cara de que não quer nada.
“Shouichirou -kun, você poderia me ajudar a conquistar o Soutarou?”
Eu nunca havia me sentido tão aliviado na minha vida. Mas, nesse exato momento, me senti incomodado. Não entendi. Percebi que não gostei de ouvir aquelas palavras. Me senti ansioso por algum motivo. Como não entendi meus sentimentos, resolvi deixar para lá e dei uma resposta curta e lógica para sair de lá o mais rápido possível. Havia esquecido no momento que o meu lógico ainda não era o lógico dela.
“Não.”
Mas é claro que ela não aceitou essa resposta, foi então que mostrou seu lado verdadeiro, aquele que só eu havia notado dentre todos os garotos que a rodeavam de alguma forma.
“Por que não? Você por acaso estão.... namorando? Ou será que é um amor não correspondido?” Soltou um suspiro “Sabe como é, eu ODEIO homos, assim como a sua mãe.” Deu um sorriso cínico.
Essas palavras geraram uma série de perguntas em minha mente, eu estava totalmente perplexo, tanto que até havia esquecido das perguntas que fizera. Me apareceu um medo, uma raiva e um ponto de interrogação. Tudo bem ela achar que eu sou homo e tudo. Mas, o Soutarou? Eu nunca havia pensado dele nessa forma.... não é? Quer dizer, sim nós somos muito próximos, e é meio chato quando ele me provoca de brincadeira na frente de nossos amigos. Mas, o quê? E a minha mãe? O que a minha mãe havia com isso? Aliás, como ela sabia da minha mãe?
“O que foi? Então era verdade? Acho que sua mãe não ficaria feliz em saber que seu lindo e puro filhinho está apaixonado pelo melhor amigo, não acha?” Foi assim que eu lembrei das outras perguntas.
“Não!! eu não estou namorando com ele, e também não estou apaixonado” Não percebi na hora, mas estava um pouco vermelho. Mas acho que qualquer um iria ficar nessa situação, certo? Certo? “Só estou dizendo que você não precisa, ele já é apaixonado por você!”
“Ah, então era isso?!” Ela arregalou os olhos envergonhada e completamente vermelha, provavelmente por ter mostrado sua verdadeira face por nada “Hum... então vou falar com ele, sua ajuda foi importante, te deixarei beijar meus pés se você quiser” Deu uma pequena risada tentando recompor a imagem de durona.
“Não... obrigada” O pior é que alguns garotos matariam só para fazer isso. “Ah, uma ultima pergunta, como você sabe da minha mãe?”
“Ela trabalha na empresa do meu pai, já vi o Soutarou por lá algumas vezes por causa da mãe dele também, foi amor a primeira vista, sabe?” Deu um sorriso, sincero, e foi embora.
Voltei para casa ainda meio confuso, como ela pensou na possibilidade de eu estar apaixonado por ele? Quando estava na porta de casa, vi o Soutarou na janela de sua casa acenando para mim, fez um sinal para esperar e desceu até a porta. Nós tivemos uma pequena conversa aleatória no portão até que perguntou se queria passar a noite em sua casa. Nós somos vizinhos então isso já é algo comum de acontecer, falei com a minha mãe e fui passar a tarde lá.
Quando estava no quarto com Soutarou ele de repente mudou de expressão. Não sei, parecia sério.
“Ela se declarou para você não foi?!”
Sua cara mudou novamente enquanto falava, começou a fazer birra e uma cara de cachorrinho triste. Foi uma cena horrível porém meio engraçada para mim que sabia a verdade.
“Não Sou, ela me veio pedir dicas, só isso.” Dei uma risada, tentando deter as outras maiores que quase fiz quando vi ele fazendo aquele escândalo, e dei leves batidinhas em sua cabeça para tentar acalmá-lo.
“Ei.” Ele falou se recompondo. “Sério?”
“Sério”
“Dicas para que?”
“Não sei se posso falar... talvez não possa... acho melhor você descobrir sozinho, Sou.” Falei ainda com a mão em sua cabeça enquanto bagunçava seu cabelo dessa vez.
“Não mecha no meu cabelo! Só eu posso fazer isso!”
Nesse ponto começamos a fazer uma guerra de quem bagunça mais o cabelo do outro. Quantos cinco anos nós temos, sinceramente?
Tudo passou muito rápido, e antes que percebesse, já havíamos comido, feito nosso dever de casa e tomado banho. Agora estávamos indo para cama. Mas não é tanta surpresa assim, a família de Soutarou vai dormir bem cedo, diferente de mim, normalmente tem 8 horas de sono. Acabei ficando entediado de olhar o teto.
“Ei” Ah, ele ainda está acordado.
“O que?”
“Você realmente não vai me contar sobre o que a Bellan falou com você?”
“Não posso, sério.”
“Por que não?”
“Porque é algo importante. E se eu falar, pode estragar o momento.”
“Como assim?”
“Não posso explicar.”
“Ei!” Ele se sentou na cama. “Você já está começando me irritar. Você sabe que eu gosto dela, e não me é nem um pouco confortável saber que você estava junto dela em um lugar vazio para vocês “conversarem”.”
“E-Ei, calma Soutarou, eu juro que não aconteceu nada entre nós.”
“E como você pode me provar isso?!” Ele realmente parecia nervoso, aliás, fazia muito tempo que não o via assim.
“Ai ai... como posso dizer isso...” Falei coçando minha nuca tentando pensar em algo. “Olha, você já passou pelo seu primeiro beijo que eu sei, certo?”
“. . . Certo.” Respondeu meio confuso.
Nesse momento resolvi fazer o que achei que deveria fazer. Subi em cima de sua cama e apoiei meus braços em seus ombros. Chegando perto de seu rosto, percebi sua expressão assustada e ao mesmo tempo ainda mais confusa. Cheguei a dar um sorriso, era uma situação engraçada para mim, mas não para ele. Acariciei sua bochecha e lábios e lhe dei um singelo beijo. Um selinho, nada de mais. Sei que ele não vai realmente fazer falta, o conheço o bastante para saber disso. Rapidamente sai da posição e voltei para minha cama.
“É isso.” Dei uma respiração funda. “Eu não fiz nada com ela, porque eu não quero ela.”
“Então você é...”
“Sim eu sou.”
“Nossa, precisava fazer tanto teatro para dizer isso?” Ele deu uma risada e voltou ao Soutarou de sempre.
“Você sabe que sou um cara dramático.” Sorri. “Aliás, perdeu a graça esconder. Ela queria que eu ajudasse ela a te conquistar.”
“O QUÊ?!” Me assustei com o grito e logo tampei sua boca com as mãos.
“Shhhh! Seus pais vão nos ouvir!”
“Mnnnm”
“O que f- Ei! Não me lamba!” Tirei as mãos de sua boca.
“Eu disse, tire as mãos da minha boca.”
“Ah.” Ri “Mas, Soutarou, você não pareceu tão surpreso com eu ser gay, realmente parece?”
“Não é que pareça, mas acho que você ficaria desconfortável se eu agisse de outra maneira. E também, não é como se isso vá mudar algo entre a gente.”
“Verdade.” Dei o sorriso mais sincero possível. Fico realmente feliz que a primeira pessoa para quem contei isso me entenda dessa forma. Fico realmente feliz que eu tenha contado para o Soutarou. “Ah, mas, eu fiquei também com medo de que você achasse que eu gosto de você ou algo do gênero, não é verdade, ok?”
“Haha, claro que não.”
“Mesmo que você seja meu tipo”
“Eh? Medo.”
“Haha, eu vou te atacar em quanto dorme, Sou~chan”
“Falando nisso, que horas s- PRECISO DORMIR.”
Minha diversão acabou.
Mas... O QUE EU ACABEI DE FAZER COM O SOUTAROU!? Sério, eu nunca tive tanta vergonha na minha vida. Eu posso ficar deitado nessa posição fetal pelo até ele ter uma família feliz com a Erica!.... Na verdade, eu nem estou envergonhado pelo beijo. E sim.... e sim porque eu quero mais. Eu não sei, era porque seus lábios eram macios? Ou sua expressão que me cativou? Eu não sei, eu realmente não sei, mas aquele me pareceu o melhor beijo que já tive na minha vida. Talvez. . . talvez porque foi meu primeiro beijo com um homem. É, deve ter sido isso. Só pode ter sido isso. Não tem como ter sido outra coisa. Quer dizer, o Soutarou é meu melhor amigo. Eu não posso pensar dele de outra forma. Eu também não fico envergonhado na presença dele nem nada. Só quando ele me provoca na frente dos nossos amigos de brincadeira. Mas eu não gosto quando ele faz isso porque obviamente... obviamente ele nunca faria isso com intenções reais.
Olhei entre meus dedos para ver se Soutarou já estava dormindo. Ele sempre teve esse hábito de dormir de barriga para cima e com a boca entreaberta. Nem me pergunte quando notei isso. Me apoiei em sua cama com calma para me certificar que ele ainda estava dormindo. Para minha surpresa ele estava levemente de lado o que me fez ficar cara a cara com ele quando me levantei. Só senti meu rosto pegar fogo e que não conseguia me mover. Somente para frente. Fui chegando ainda mais perto. Um palmo não era suficiente. Meio palmo não era suficiente. Parei. Estava realmente muito perto. Voltei um pouco e apreciei algo que nem tinha notado. Seu rosto. O rosto dele é realmente bonito. Sua pele é perfeita. Seus cílios. Agora que estava bem perto, pude ver. Seus cílios eram levemente longos, e eram delicados. Seus lábios também, eram finos, mas não tão finos, e tinham um formato bonito. E eram macios. Eu queria aqueles lábios. Novamente avancei, sem pensar nas consequências.
Novamente o beijei. Um beijo mais longo. Senti que só estava esperando. Esperando para que seus braços se movessem e acariciassem minha nuca. Mas eu sabia que isso não ia acontecer. Meu rosto está vermelho, eu sinto, eu o sinto fervendo. Outro beijo. Sim. Mais um.
Acabei até ficando com sono durante esses atos sujos de basicamente atacar um inconsciente.
Sim, eu me sentia sujo.
Sem querer dormi apoiado na cama de Soutarou, mas acordei caído na minha.
Agora de manhã toda aquela alegria que o Sou não pode demonstrar quando falei que a Erika correspondia seus sentimentos. O via correndo, dançando e cantarolando pela casa enquanto se vestia. Então que me bateu um medo. O medo de ser esquecido. Ele quase não falou comigo essa manhã. Como será quando ele estiver junto dela?
No que estou pensando? Ele é meu melhor amigo, ele não vai se esquecer de mim por causa de uma garota.
Saímos para a escola.
Aula de Japonês. Matemática. Matemática. Recreio. “Erika, podemos conversar depois da aula?”. Música. História. História. Era hora.
Eu só vi de longe. Em um lugar onde não me viam de volta. Ele estava completamente envergonhado, e ela também parecia nervosa. Os dois estavam calados até que o Soutarou falou. Segui com os lábios. “Eu-gosto-de-você”. Nessa hora Erika correu para seus braços e ficaram abraçados por um tempo. Felizes. E eu aqui.
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